IV.

O coração de Thereza estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao

coração!

Para finos entendedores, o dialogo do anterior capitulo definiu a filha

de Thadeu de Albuquerque. É mulher varonil, tem força de caracter,

orgulho fortalecido pelo amor, despêgo das vulgares apprehensões, se são

apprehensões a renuncia que uma filha faz de sua vontade ás

imprevidentes e caprichosas vontades de seu pae. Diz boa gente que não,

e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será aleive attribuir-lhe

uma pouca de astucia, ou hypocrisia, se quizerem; perspicacia seria mais

correcto dizer. Thereza adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na

estrada real da vida, e que os melhores fins se attingem por atalhos

onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na

idade inexperta de Thereza; mas a mulher do romance quasi nunca é

trivial, e esta, de que resam os meus apontamentos, não o era. A mim me

basta para crêr em sua distincção a celebridade que ella veio a ganhar á

conta da desgraça.

Da carta que ella escreveu a Simão Botelho, contando as scenas

descriptas, a critica deduz que a menina de Vizeu contemporisava com o

pae, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem

romper com o velho em manifesta desobediencia. Na narrativa que fez ao

academico omittiu ella as ameaças do primo Balthazar, clausula que, a

ser transmittida, arrebataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios

e ferocidade para mantêl-os.

Mas não é esta ainda a carta que surprendeu Simão Botelho.

Parecia bonançoso o ceo de Thereza. Seu pae não fallava em claustro, nem

em casamento. Balthazar Coutinho voltára ao seu solar de Castro-d'Aire.

A tranquilla menina dava semanalmente estas boas novas a Simão, e este,

alliando ás venturas do coração as riquezas do espirito, estudava

incessantemente, e desvelava as noites arquitectando o seu edifício de

futura gloria.

Ao romper d'alva, d'um domingo de Junho de 1803, foi Thereza chamada

para ir com seu pae á primeira missa da igreja parochial. Vestiu-se a

menina assustada, e encontrou o velho na ante-camara a recebêl-a com

muito agrado, perguntando-lhe se ella se erguia de bons humores para dar

ao author de seus dias um resto de velhice feliz. O silencio de Thereza

era interrogador.

--Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Ballhazar, minha filha. É

preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pae. Logo que

déres este passo difficil, conhecerás que a tua felicidade é d'aquellas

que precisam ser impostas pela violencia. Mas repara, minha querida

filha, que a violencia de um pae é sempre amor. Amor tem sido a minha

condescendencia e brandura para comtigo. Outro teria subjugado a tua

desobediencia com maus tractos, com os rigores do convento, e talvez com

o desfalque do teu grande patrimonio. Eu, não. Esperei que o tempo te

aclarasse a razão, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabolico

prestigio do maldito, que acordou o teu innocente coração. Não te

consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexão

fizesse mal ao fervor de boa filha com que tu vais abraçar teu pae, e

agradecer-lhe a sisudez com que elle respeitou o teu genio, velando

sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.

Thereza não desfitou os olhos do pae; mas tão abstrahida estava, que

escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ultimas.

--Não me respondes, Thereza?!- tornou Thadeu, tomando-lhe caridosamente

as mãos.

--Que hei-de eu responder-lhe, meu pae?--balbuciou ella.

--Dás-me o que te peço? enches de contentamento os poucos dias que me

restam?

--E será o pae feliz com o meu sacrificio?

--Não digas sacrificio, Thereza... A'manhã a estas horas verás que

transfiguração se fez na tua alma. Teu primo é um composto de todas as

virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moço lhe falta, como se a

riqueza, a sciencia e as virtudes não bastassem a formar um marido

excellente.

--E elle quer-me, depois de eu me ter negado?--disse ella com amargura

ironica.

--Se elle está apaixonado, filha!... e tem bastante confiança em si para

crêr que tu has de amal-o muito!...

--E não será mais certo odial-o eu sempre!? Eu agora mesmo o abomino

como nunca pensei que se podesse abominar! Meu pae...--continuou ella,

chorando, com as mãos erguidas--mate-me; mas não me force a casar com

meu primo! E' escusada a violencia, porque eu não caso!..

Thadeu mudou de aspecto, e disse irado:

--Hás de casar! Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás

para sempre, Thereza! Morrerás n'um convento! Esta casa irá para teu

primo! Nenhum infame ha de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se

és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar

appellidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pae

d'esse miseravel que tu amas! Maldita sejas! Entra n'esse quarto, e

espera que d'ahi te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.

Thereza ergueu-se sem lagrimas, e entrou serenamente no seu quarto.

Thadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:

--Não te posso dar minha filha, porque já não tenho filha. A miseravel,

a quem dei este nome, perdeu-se para nós e para ella.

Balthazar, que, a juizo de seu tio, era um composto de excellencias,

tinha apenas uma quebra: a absoluta carencia de brios. Malograda a

tentativa do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de

Thereza, dizendo ao velho que elle o livraria do assedio em que Simão

Botelho lhe tinha o coração da filha. Não approvou a reclusão no

convento, discorrendo sobre as hypotheses infamantes que a opinião

publica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse

que o filho do corregedor viesse de Coimbra.

Ponderaram no animo do velho as razões de Balthazar. Thereza

maravilhou-se da quietação inesperada de seu pae, e desconfiou da

incoherencia. Escreveu a Simão. Nada lhe escondeu do succedido; nem as

ameaças de Balthazar por delicadeza supprimiu. Rematava communicando-lhe

as suas suspeitas de alguma nova traça de violencia melhor agourada.

O academico, chegando ao periodo das ameaças, já não tinha clara luz nos

olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezões, e as artérias

frontaes arfavam-lhe entumecidas. Não era sobresalto do coração

apaixonado: era a indole soberba que lhe escaldava o sangue. Ir d'ali a

Castro-d'Aire, e apunhalar o primo de Thereza na sua propria casa, foi o

primeiro conselho, que lhe segredou a furia do odio. N'este proposito

sahiu, alugou cavallo, e recolheu a vestir-se de jornada. Já preparado,

a cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavallo demorou-se

meia hora, e o seu bom anjo, n'este espaço, vestido com as galas com que

elle vestia na imaginação Thereza, deu-lhe rebates de saudade d'aquelles

tempos e ainda das horas d'aquelle mesmo dia, em que scismava na

felicidade que o amor lhe promettia, se a elle procurasse no caminho do

trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto affecto, como

se em cada um estivesse uma pagina da historia do seu coração. Nenhuma

d'aquellas paginas tinha elle lido, sem que a imagem de Thereza lhe

apparecesse a fortalecêl-o para vencer os tédios da continuada

applicaçao, e os impetos d'um natural inquieto e ancioso de commoções

desusadas. «E ha de tudo acabar assim?»--pensava elle, com a face entre

as mãos, encostado á sua banca de estudo.--«Ainda ha pouco eu era tão

feliz!...»--«Feliz!»--repetiu elle erguendo-se de golpe--«quem póde ser

feliz com a deshonra d'uma ameaça impune!... Mas eu perco-a! Nunca mais

hei de vêl-a... Fugirei como um assassino, e meu pae será o meu primeiro

inimigo, e ella mesma ha de horrorisar-se da minha vingança... A ameaça

só ella a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Thereza,

pelos insultos do miseravel, talvez que ella os não repetisse...»

Simão Botelho releu a carta duas vezes, e á terceira leitura achou menos

affrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finaes desmentiam

formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho o

atormentava: eram expressões ternas, supplicas ao seu amor como

recompensa dos passados e futuros desgostos, visões encantadoras do

futuro, novos juramentos de constancia, e sentidas phrases de saudade.

Quando o arreeiro bateu á porta, Simão Botelho já não pensava em matar o

homem de Castro-d'Aire; mas resolvêra ir a Vizeu, entrar de noite,

esconder-se e vêr Thereza. Faltava-lhe, porém, casa de confiança onde se

occultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro

se conhecia alguma casa em Vizeu onde elle podesse estar escondido uma

noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro respondeu que

tinha a um quarto de legua de Vizeu um primo ferrador; e não conhecia em

Vizeu senão os estalajadeiros. Simão achou de aproveitar o parentesco do

homem, e logo d'alli o presenteou com uma jaqueta de pelles e uma faxa

de sêda escarlate, á conta de maiores valores promettidos, se elle o bem

servisse n'uma empreza amorosa.

No dia seguinte chegou o academico a casa do ferrador. O arreeiro deu

conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante.

Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo

ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no

mais impraticavel bêcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da

pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro.

Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.

Era a resposta um grito de alegria. Thereza não reflectiu, respondendo a

Simão, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se

reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que ás onze horas em ponto ella

iria ao quintal, e lhe abriria a porta.

Não esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua

para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle

avaliava o maximo. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o halito, abraçal-a

talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além de

suas modestas e honestas ambições, egualmente o enlevavam e assustavam.

Enlevo e susto em corações que se estreiam na comedia humana, são

sentimentos congeniaes.

Á hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez,

sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma,

são esses lances de mysterioso alvoroço que aos mais ricos de coração

succedem em todas as sasões da vida, e a todos os homens, uma vez ao

menos.

Ás onze horas em ponto estava Simão encostado á porta do quintal, e a

distancia convencionada o arreeiro com o cavallo á rédea. A toada da

musica, que vinha das salas remotas alvoroçava-o, porque a festa em casa

de Thadeu de Albuquerque o surprendêra. No longo termo de tres annos

nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia

natalicio de Thereza, espantára-se menos da estranha alegria d'aquellas

salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simão imaginou

desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em

redor da phantasia apaixonada. Não ha balisa racional para as bellas,

nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho,

com o ouvido collado á fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as

pancadas do coração sobresaltado.

V

Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferença por

sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não

deixavam respirar Thereza. Moças e velhas, todas á uma, se repetiam,

aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria

que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos.

Replicava Thereza que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava

sentida d'elle; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe elle

deixasse livre o coração.

O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes,

presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a

filha com os prazeres congruentes á sua idade, dando-lhe ensejo a que

ella repartisse o espirito, concentrado n'um só ponto, por diversões em

que a natural vaidade se preoccupa, e a força do amor contrariado se vai

a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já

em sua casa, já na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se

mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos

valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos.

O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha lá um systema seu

de ajuizar das mulheres, e porque vivêra trinta annos de vida libertina

e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietação.

Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A

morgada viu então o que era o minuete da côrte, e certos jogos de

prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em

delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral.

Mas, de agitada que estava, Thereza não compartia do gôso dos seus

hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da

festa parecia tão alheada das finezas com que senhoras e homens á

competência a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu fé do dessocêgo de

sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendêra da

indifferença d'elle. Generoso até ao perdão, o morgado de Castro-d'Aire,

compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e

pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas,

que tem vulcões por dentro e neve por fóra. Thereza teve a sinceridade

de responder que não tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou

para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em

vulcões. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala.

Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrêra ao fundo do quintal,

abrira a porta, e, como não visse alguem, tornou de corrida para a sala.

No momento, porém, de subir a escada que ligava o jardim á casa,

Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a

uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via.

Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas

portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo

tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando

passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua

prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava

uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez pé atraz

para não ser visto. Thereza, porém, n'um relance de olhar temeroso,

ainda víra um vulto retirar-se. Teve mêdo, e retrocedeu a largar a capa,

e entrou na sala, offegante de cansaço e pallida de mêdo.

--Que tens, minha filha?--disse-lhe o pae--Já duas vezes sahisteda sala,

e vens tão alvoroçada! Tens algum incommodo, Thereza?

--Tenho uma dôr: preciso de ir respirar de vez em quando... Nada é, meu

pae.

Thadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dôr;

só o não disse a seu sobrinho, porque o não encontrou, e soube que elle

tinha sahido.

Tambem Thereza dera pela ausencia do primo, e fingiu que o ia procurar,

resolução de que o velho gostou muito. Desceu ella ao jardim, correu á

porta, onde a esperava Simão, abriu-a, e com a voz cortada pela

anciedade, apenas disse:

--Vai-te embora: vem ámanhã ás mesmas horas... Vai, vai!

Simão, quando isto ouvia, tinha os olhos, fitos n'um vulto, que se

approximava d'elle, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que

primeiro o vira, dera um signal, e entalara as rédeas do cavallo entre

umas pedras, para ficar desembaraçado, se o estudante se não podésse

haver com o inimigo.

Simão Botelho não se moveu do local, e Balthazar Coutinho parou na

distancia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avançado a meio

caminho do patrão, quando lhe este disse que não se aproximasse. E,

caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe:

--Isto aqui não é caminho. Que quer?

O fidalgo não respondeu.

--Parece-me que lhe abro a bôca com uma bala!--tornou Simão.

--Que lhe importa o senhor quem está?!--disse Balthazar--Se eu tiver um

segredo, como o senhor parece que tem o seu n'estes sitios, sou obrigado

a confessar-lh'o?!

Simão reflectiu, e replicou:

--Este muro pertence a uma casa onde mora uma só família, e uma só

mulher.

--Estão n'essa casa mais de quarenta mulheres esta noite--redarguiu o

primo de Thereza--Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra.

--Quem é o senhor?--tornou com arrogancia o filho do corregedor.

--Não conheço a pessoa que me interroga, nem quero conhecer. Fiquemos

cada um com o nosso incognito. Boas noites.

Balthazar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si: «que partido tem uma

espada contra dois homens e duas pistolas?»

Simão Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador.

O sobrinho de Thadeu de Albuquerque entrou na sala, sem denunciar

levemente alteração de animo. Viu que Thereza o observava de revez, e

soube dissimular-se de modo que a socegou. A pobre menina, cansada de

commoções, viu com prazer erguer-se para sahir a primeira familia, que

deu rebate ás outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas irmãs, que

ficaram hospedados em casa de seu tio, com tenção de se demorarem oito

dias em Vizeu.

Velou Thereza o restante da noite, escrevendo a Simao a detida historia

dos seus terrores, e pedindo-lhe perdão de o ella não ter advertido do

baile, por fcar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de

se encontrarem na seguinte noite não havia alteração na carta. Isto

espantou o academico. A seu vêr, o vulto era Balthazar Coutinho, e o pae

de Thereza devia ser avisado n'aquella mesma noite.

Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado;

receando, porém, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova

carta, em que não transluzia mêdo de ser atacado, nem sequer receio de

marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simão Botelho que este era o digno

porte de um amante corajoso.

Passou o estudante aquelíe dia contando as longas horas, e meditando

instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se

Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservára para melhor relance

a vingança da provocação insolente. Mas de si para si tinha elle que

pensar em tal era mais covardia que prudencia.

O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro annos, e formas

bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simão os reparos em que ella

se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar

melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso

triste, o respondeu:

--Não sei o que me adivinha o coração a respeito de v. s.^a Alguma

desgraça está para lhe succeder.

--A menina não dizia isso--replicou Simão--sem saber alguma coisa da

minha vida.

--Alguma coisa sei...--tornou ella.

--Ouviu contar ao arreeiro?

--Não, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem

conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu

tio, que é o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razões para

saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer...

--Porque?

--Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire.

Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores

do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre

ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se

passára. A môça, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por

outra porta.

--Com sua licença--disse mestre João.

Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca.

--Ora, meu fidalgo--continuou elle, descendo as mangas arregaçadas da

camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem

sabe as exigencias da ceremonia--ha de desculpar que eu viesse assim em

mangas de camiza; mas não dei com a jaqueta...

--Está muito bem, senhor João--atalhou o academico.

--Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta.

Uma vez armou-se aqui á minha porta uma desordem, a trôco d'um couce que

um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em tão

hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrête por aqui, salvo tal logar.

João da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fôra fracturada a da

egua, e continuou:

--Eu tinha alli á mão o martello, e não me tive que não pregasse com

elle na cabeça do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de

Carção, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia

entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma

damnada!--disse-lhe eu--pois tu vês que o teu macho me aleijou esta

egua, que custou vinte peças a seu dono, e que eu tenho de pagar, e

dás-me um tiro por eu te atordoar o macho!?

--E o tiro acertou-lhe?--atalhou Simão.

--Acertou; mas saberá v. s.^a que me não matou; deu-me aqui por este

braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou á

cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na táboa do

peito. O almocreve cahiu como um tôrdo, e não tugiu nem mugiu.

Prenderam-me, e fui para Vizeu e já lá estava ha tres annos, no anno em

que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a

trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca.

Estava lá na enxovia comigo um prêso a cumprir sentença, e disse-me elle

que o senhor corregedor tinha muita devoção com as sete dôres de Nossa

Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa,

disse-lhe eu «senhor Corregedor, peço a v. s.^a pelas sete dôres de

Maria Santissima, que me mande ir á sua presença, para eu explicar a

minha culpa a v.s.^a». O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e

mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor,

e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do braço. Seu pae

ouviu-me, e disse-me. «Vai-te embora, que eu farei o que podér.» O caso

é, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu

havia de ser inforcado á minha porta. Faz favor de me dizer se eu não

devo andar com a cara onde o seu paesinho põe os pés!?

--Tem o senhor João motivo para lhe ser grato, não ha duvida nenhuma.

--Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado

de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que é o senhor Balthazar.

Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!...

--Conheço de nome.

--Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas

paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou

chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe

fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me

que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro

comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto

não é um matador de officio, acho eu, não é assim?

--De certo...--respondeu Simão, adivinhando o remate da historia--quem

era o homem que elle queria morto?

--Era v. s.^a... Ó homem!--disse o ferrador com espanto--O senhor nem

sequer mudou de côr!

--Eu não mudo nunca de côr, senhor João--disse o academico.

--Estou pasmado!

--E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo--tornou Simão.

--Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade

era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina.

--E elle disse-lhe a razão porque me mandava matar?

--Não, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o

senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com

o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passára. O senhor

corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de

perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual.

--Diga.

--Seu pae começou a esfregar o nariz, e disse-me: «Eu sei o que é isso.

Se aquelle bréjeiro de meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a

prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se

ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!..» Ainda disse mais coisas

que me não lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que

houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu.

Perdoará a minha confiança; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e

eu estive vai não vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que é homem

para tres, fiquei descançado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a

teve á porta do quintal da menina. Se lá torna, senhor Simão, vá

preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a não é

medroso; mas d'uma traição ninguem se livra. Se quer que eu vá também,

estou ás suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda

alli está, e dá fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a

dá licença que eu lhe diga a minha opinião, o melhor é não andar n'essas

encamizadas. Se quer casar com ella, vá pedir a seu pae licença, e deixe

o resto cá por minha conta; ponto é que ella queira, que eu, n'um abrir

e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma égua de chupêta, que

alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vêr navios.

--Obrigado, meu amigo--disse Simão--Aproveitarei os seus bons serviços,

quando me forem necessarios. Á noite hei de ir, como fui a noite

passada, a Vizeu. Se houver novidade, então veremos o que se ha de

fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo.

Mestre João da Cruz não replicou. D'alli foi examinar miudamente a

fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas

necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com

uns balotes especiaes que elle denominava «amendoas de pimpões».

N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e

disse com meiguice a Simão Botelho:

--Então sempre é certo ir?

--Vou, porque não hei de ir?

--Pois Nossa Senhora vá na sua companhia--tornou ella, sahindo logo para

esconder as lagrimas.

Amor de Perdição: Memorias d'uma familia · 第 19 / 46 题