--É o que se quer; e não me afflijas, que estou doente, e qualquer

coisa me faz mal. Não te vivo muito tempo, filho... Seis mezes, quando

muito...

* * * * *

Viveu menos do que esperava o pobre velho. Contava ainda com outra

primavera, e ao visinhar-se a aurora da eternidade cuidou que se lhe

iam os alentos á mingua de um caldo de gallinha. Suavissima foi a morte

que lhe chegava o seio como recôsto de descanço. Uma leve inclinação de

pescoço ao hombro de Pedro, e um suspiro de creança adormecida foi o

trespasse do leveiro espirito a quem Deus certamente não carregará com

o peso da fraudulenta pobreza.

* * * * *

Pedro de Barros suffragou-lhe a alma, recadou as aureas entranhas do

cofre de ferro, e permaneceu em Londres por espaço de trez mezes,

colhendo de Portugal e de portuguezes certas informações.

* * * * *

Chegou, no entanto, ás gazetas de Lisboa e Porto a noticia de ter

morrido em Londres Gervasio José de Barros. Um noticiador accrescentava

que a «fortuna» do defunto devia ser muito grande, bem que se não

désse registro nem inventario d’ella. Recuando delicadamente a coisas

acontecidas vinte annos antes, reflexionava que um neto do defunto é

quem poderia sobre o certo dizer quantas centenas de contos seu avô

deixára.

Nicoláo d’Almeida leu a noticia a sua mulher.

Thomazia pôde ainda contrabalançar a exultante esperança de ver o filho

com a tristeza de ser morto seu padrinho.

Os vinte annos intermettidos haviam-lhe dado na consciencia toques de

dôr que ella escondia do marido.

--E agora?--perguntou ella.

--E agora?--pergunto eu!--respondeu Nicoláo.

--Que fazes? Vaes procural-o?

--Se o vou procurar! que lembrança!...

--Sim... eu cuidei que tu...

--Cuidaste bem, filha; porque eu vou effectivamente procural-o... vou

vêl-o...

--E levas-me?

--Não, menina: vou ver se t’o conduzo aqui.

--O meu filho?

--Sim... por que não?! Pois tu não crês que o sangue opere a maravilha?

Tenho-te dito que o sangue tem uma voz imperiosa, e impelle o filho

para o pae irresistivelmente.

--E vaes, meu Nicoláo?

--Vou á exposição a Pariz e depois irei a Londres.

--Como hasde tu encontral-o?

--Hade ser o sangue que m’o hade mostrar.

--Ora!... eu não creio n’isso... Se o sangue valesse, não teria elle

tido uma palavra para sua mãe?

--Saberia elle que tu existias?

--É verdade... não saberia...--obtemperou a esposa.

--Está portanto deliberado. Vou a Londres. Se o vir--que heide

ver--aperto-o ao coração, e digo-lhe: «Atira á lama o dinheiro de

Gervasio de Barros; manda-o apanhar pela parentella pobre que elle hade

ter em Portugal. Vem que és filho de um homem rico; os teus appellidos

são Alves Pinto por tua mãe, e Almeida por teu pae, que sou eu.

Abraça-me, filho, que te bate no seio o coração de quem ha vinte annos

chora por ti!»

Thomazia tambem chorava de alegria e enthusiasmo maternal.

Poucos dias passados, o fidalgo de Caminha saía para Pariz.

* * * * *

Em uma carta escripta desde Londres dizia Nicoláo d’Almeida a sua

mulher: «Pedro saiu d’aqui ha quinze dias. Não me sabem dizer para

onde. Presume-se, porém, e é natural que esteja em Pariz. Volto ámanhã

para lá...»

No dia em que D. Thomazia recebeu esta carta, apeou de uma carruagem

em Caminha um mancebo de galhardo aspecto e ademans afidalgados.

Procurou a residencia de uma familia illustre da villa. Apresentou

carta de recommendação, e perguntou onde morava Nicoláo d’Almeida.

Disseram-lhe que estava em Pariz, para onde partira um mez antes, e que

a familia se retirára a uma quinta das margens do Minho.

Perguntou Pedro de Barros se seria possivel saber-se a residencia de

Nicoláo d’Almeida em Pariz. O cavalheiro interrogado, querendo servir o

forasteiro que um amigo lhe recommendava calorosamente, encarregou-se

de mandar saber á quinta a paragem de Nicoláo. Voltou o solicito

informador com esclarecimentos dados por D. Thomazia: que seu marido se

hospedára em Pariz no _Hotel des Étrangers_, rua Vivienne, 3; mas que a

ultima carta recebida viera de Londres, onde Nicoláo d’Almeida apenas

se demoraria algumas horas.

Pedro de Barros resistiu aos rogos da familia, que lhe pedia a honra de

pernoitar em sua casa. Desandou para o Porto, e saiu na via ferrea do

mesmo dia para Lisboa, afim de alcançar o paquete francez.

* * * * *

Nicoláo d’Almeida jantava no dia 5 de julho á mesa redonda do _Hotel

des Étrangers_, e viu em frente de si um moço de gentil compostura,

ainda imberbe, conversando com inglezes e francezes correctamente as

duas linguas, segundo quiz parecer ao portuguez, que não era hospede

em nenhuma. Prestou-lhe attenção, e ouviu dizer que vinha de Portugal.

Perguntou-lhe um italiano se era portuguez. Pedro de Barros respondeu

negativamente.

--Parabens!--disse o italiano, que era tenor.

--Parabens, porque?--perguntou Barros por sobre a espadua, alisando com

o guardanapo a penugem do buço.

--Porque portuguezes são canalha--explicou o tenor.--Estive no Porto um

inverno, n’aquella bruta terra onde não ha lettras nem artes. Ha vinho

e muitos bebedos.

--O senhor cantou no Porto em 1855?--perguntou Nicoláo d’Almeida em bom

francez, intervindo na palestra dos visinhos.

--Sim, cantei.

--Recordo-me:--tornou o portuguez--cantava pessimamente e foi pateado.

Quem o pateou não foram os bebedos do Porto. Estavam lá cavalheiros

que, nem ainda insultados por um biltre, aviltariam um tagante.

O tenor levantou-se e disse enfaticamente:

--Uma satisfação!

--Não lh’a dou--disse placidamente Nicoláo.--Pertenço aos cavalheiros

que não se medem com cantores, além de pessimos, villões.

--Eu sustento as frases d’este senhor--interpoz-se Pedro de Barros.

--E o senhor quem é?--perguntou o fidalgo de Caminha.

--Não sou tenor. Quem o senhor seja, não pergunto eu. Conheço o senhor

Nicoláo d’Almeida. Um homem da sua estofa não póde chamar villão a

outro.

--Quê?--atalhou Nicoláo enfiado.

--Explicações para occasião conveniente.

--Figura-se-me que o senhor é parvo dos que a prudencia manda

tolerar--replicou sereno e quasi recobrado o portuguez.--Estou

arrependido de me inquietar um momento com a sua pessoa.

Pedro de Barros correu os dedos pelos cabellos, surriu-se e murmurou:

--Verei se a coragem corresponde á infamia. Os assassinos da honra não

costumam arriscar senão palavras. No entanto, veremos.

--Algumas vezes arriscam sujar a luva com que dão a bofetada--retorquiu

Nicoláo d’Almeida.

Pedro de Barros levantou-se. Esperou que cincoenta commensaes se

calassem impressionados pela postura oratoria do sujeito, e disse

apontando sobre Nicoláo:

--Alli está, senhores, um infame sobre quem pesa a morte de um homem

honrado, que elle matou prostituindo-lhe sua mulher. Este ferrête,

que lhe atiro á testa, em occasião opportuna lh’o grudarei mais

sensivelmente.

Fez-se profundo silencio.

Nicoláo levantou-se por sua vez e disse:

--Aquelle miseravel ainda não fez publico o seu nome.

--Sabel-o-ha, quando quizer--respondeu Pedro de Barros.--O meu nome não

importa a estes cavalheiros. Se eu o disser, não me conhecem, nem podem

por elle ajuizar da autoridade da minha opinião a respeito do senhor

Nicoláo d’Almeida. Dentro de trez horas, estarei no quarto n.º 5 d’este

hotel. Se eu não estiver, senhores, o infame sou eu, e não elle.

O marido de Thomazia saiu.

Meia hora depois voltava com dois portuguezes, seus contemporaneos da

universidade, lisboetas da plana aristocratica.

Pouco em seguida, entrou no quarto n.º 5 Pedro de Barros com dois

francezes titulares, seus conhecidos das carreiras hippicas em Londres.

No quarto, antes de avisarem Nicoláo d’Almeida, continuaram assim a

conversação que traziam:

--Mas a mudança de nome--dizia um dos francezes--é uma irregularidade

original nos duellos!

--Compreende a minha situação, visconde--dizia Barros.--Eu sou filho

da mulher que matou meu pae com a villania do seu proceder. Este

homem arrebatou de casa minha mãe, no dia em que meus avós choravam a

morte do filho. Eu não posso dizer ao infame quem sou. É invencivel a

vergonha que tenho de que elle o saiba. O meu proposito é vingar meu

pae...

--E queres que elle morra na ignorancia de que és o vingador de teu

pae?

--Não. Hei de dizer-lh’o, se a morte lhe der tempo de m’o ouvir.

--Mas eu não achava feio que te declarasses--sobreveio o outro

amigo.--Era até bonito e novo! Um filho a vingar seu pae...

--Se eu o declarar, elle não se baterá comigo, porque sou filho da

mulher com quem elle é casado. Engulirá as affrontas, e dirá com

dissimulada covardia que não desfecha uma pistola ao peito do filho de

sua mulher. E depois? que é da minha vingança?

Os amigos assentiram com repugnancia; mas condescenderam em que Pedro

de Barros se chamasse Richard Grattan.

Abriu-se a sessão dos parlamentarios. Congregaram-se os quatro

padrinhos. Os dois portuguezes, sabido o nome do insultador, que os

francezes abonaram como pessoa de primeira distincção e riqueza,

segundo entendiam de o verem no concurso de illustres inglezes, caíram

logo na particularidade da sua missão. Os quatro vieram ao consenso

de que o combate fosse á pistola, a vinte e seis passos. Precisaram

a localidade em _Abbaye de Longchamps_, no _Bois de Boulogne_, na

madrugada do dia seguinte.

Perguntava Pedro de Barros aos seus padrinhos:

--Quem escolheu as armas?

--Elles.

--Quem marcou as distancias?

--Elles.

--Então o homem é tolo!--observou Nicoláo.

--Se não fôr mestre no tiro...---disse o visconde.

A reflexão era justa. Um ignorante da arma cederia todas as vantagens

ao perito, collocando-se a tão grande distancia.

* * * * *

Nicoláo d’Almeida passou tranquillamente o restante da noite com os

seus amigos. Ás trez da manhã escreveu uma longa carta a seu filho

Lopo, incluindo outra para a mãe.

--Se eu morrer, o que não espero, remettam esta carta a meu

filho--recommendou elle aos padrinhos.--Tomem nota no que vou

dizer-lhes: os minhotos teem crendices e velharias que lhe estão no

sangue. Tenho uma capella em uma das quintas onde está o jazigo dos

meus antecessores desde 1515. Vossês, se isso fôr exequivel como creio

que é, mandem para lá o meu cadaver, mesmo furado por uma bala de sir

Richard Grattan.

Os lisboetas pasmavam da fria coragem do provinciano. Os quarenta e

trez annos de Nicoláo d’Almeida representavam trinta e quatro com

serodias verduras.

Condiziam n’elle os surrisos e desdem juvenil da morte com a frescura

e flexibilidade d’aquelles elegantes meneios e delicadas formas. Os

padrinhos é que em verdade representavam as pessoas arriscadas ás balas

de sir Richard Grattan.

Apontou a manhã.

--São horas--disse Nicoláo.--A madrugada está linda. Se nos derem

tempo, passearemos algum pouco no bosque de Bolonha, que ainda não vi.

Veja-se o que fôr possivel á ultima hora.

Partiram.

Esperaram cinco minutos.

Examinaram as quatro testemunhas as pistolas inglezas. Carregaram-nas.

Espacejaram as distancias. Accordaram na simultaneidade dos tiros.

Deram a voz de fogo. Cruzaram-se as balas. Sir Richard Grattan caiu

rodando ligeiramente sobre os calcanhares.

--Morto!--disse o visconde ao companheiro.--A bala penetrou-lhe na

cabeça.

--Que tiro!--disse o conde com artistica admiração, como se a cabeça do

moribundo ou do morto fosse um alvo, e mais nada.

Nicoláo d’Almeida fez uma breve mesura aos padrinhos do adversario e

entrou com os seus na sege.

O facultativo da comitiva de Pedro de Barros acercou-se, examinou e

disse:

--É mortal a ferida.

O prognostico era de acceitar; porque a bala batêra, bem que de

revez, na sutura sagital, compreendendo, afóra perda de substancia, o

pericraneo profundamente.

Pozeram-lhe uma prancheta de fios, ligaram-lhe a fronte, e

transportaram-n’o ainda com pulso á carruagem.

No mesmo dia, Nicoláo d’Almeida saiu de Pariz na via-ferrea para

Baionna, com direcção a Portugal, depois de pedir aos seus amigos que

fizessem o sacrificio de jantar no _Hotel des Étrangers_, e certificar

aos hospedes do dia anterior que o inglez acertava tão bem com as balas

como com as injurias.

* * * * *

Appareceu inesperado em casa Nicoláo, quando a esposa lhe estava

escrevendo afflictivamente.

Um grito de alegria e logo uma torrente de lagrimas, tambem alegres,

entraram de suspeitas o marido.

--Que chorar é esse? que sabias tu de mim?!--perguntou Nicoláo quasi

supersticioso.

Referiu-lhe Thomazia que quinze dias antes lhe tinha mandado um

sujeito de Caminha perguntar em que hotel de Pariz residia o marido;

e que só, poucas horas antes, lhe tinha ido mostrar uma carta de

Lisboa apresentada por um rapaz de vinte annos pouco mais ou menos, e

que n’esta carta lêra ella as seguintes palavras: «Se o cavalheiro,

portador d’esta carta, precisar de auxilio estranho para um acto de

brioso desaffrontamento, queira ouvil-o e prestar-lh’o.»

--Que queria isto dizer, meu filho?--exclamava Thomazia.--O nosso

Lopo disse-me que o homem vinha desafiar-te. O que eu tenho soffrido,

Nicoláo! Estive ha momentos para ir com o Lopo em procura de ti...

Graças, meu Deus! Não te succedeu mal nenhum, não?

--Bem vês que estou sadío e escorreito--disse o esposo surrindo com

triste semblante mal affectado.

--Mas tu vens melancolico, e de mais a mais quando não tencionavas

vir... E o nosso filho? noticias nenhumas?

--Pois ahi tens a minha tristesa, Thomazia... Não vi o filho, e quasi

perdi as esperanças de o ver.

Era-lhe força relatar á mulher o desastre acontecido com o infeliz que

o insultára, e provavelmente devia ser o inglez vindo a Portugal. Não

podia elle rastrear os motivos do insulto nem o interesse com que a

desatinada coragem do petulante inglez se pagava. Partiu logo a Caminha

para averiguar do sujeito a quem o moço viera recommendado os signaes

e pormenores de tal apresentação. Disseram-lhe que o rapaz exprimia

custosamente a lingua portuguesa, e não proferira palavra relativa a

Nicoláo d’Almeida, tirante as necessarias para lhe saber a residencia.

Emburilhou-se-lhe ainda mais a trama das conjecturas, até que

principiou a convencer-se de que o moço era algum paladino desorientado

por vapores da idade média, ou leituras de romances de cavallarias, o

qual, ouvindo contar a Gervasio de Barros a tragedia da sua familia,

deliberára em honra da sua dama endireitar um _tuerto_, que se lhe

figurava crime de vingança digna d’elle e da posteridade.

N’estas fluctuações, recebeu uma carta de um dos seus padrinhos de

duello, escripta quarenta e oito horas depois que se tinham separado na

estação.

Resava assim:

«Dilucidou-se o misterio. Ahi vae cousa que te deve assombrar, e me

traz a mim espantado a pensar que ainda se fazem maravilhosos romances

n’esta vida pratica e positiva, onde tudo parece correr com enjoativa

regularidade.

«Primeiramente, saberás que sir Richard Grattan ainda não acabou; mas

não tardará.

«Segundamente, saberás que os padrinhos d’elle acabam de contar aos

seus amigos, e estes amigos a outros, e os outros a todo o mundo, uma

coisa que não deixa de ser bonita; mas, apesar d’isso, te recommendo

que não leias esta carta deante de tua senhora...»

N’este ponto Nicoláo exclamou, surrindo:

--Oh! que é isto?! Desculpa, Thomazia, que eu devo obedecer ao meu

amigo.

--Pois que é? lê, filho.

--Não... Deixa-me...

Ao proferir estas palavras, com os olhos cravados na carta, e a cabeça

a tremer como o papel nas mãos convulsas, arrancou um grito estridente,

e bradou:

--Matei meu filho!

As palavras que elle tinha lido eram estas:

_O rapaz com quem te bateste não é inglez, nem se chama Richard. É

portuguez, é o filho do primeiro marido de tua senhora e chama-se

Pedro de Barros._..

--Matei meu filho!--bradou elle segunda vez.

Thomazia não lhe ouvira o segundo brado. Tinha caído nos braços de

Lopo, trespassada de frio mortal.

--Matei meu filho!--exclamou ainda Nicoláo d’Almeida.

Avermelhára-se-lhe subitaneamente o rosto. Rutilavam-se-lhe as

pupilas errantes em volta de si. Ergueram-se-lhe arriçadas as

sobrancelhas, e avincou-se-lhe a fronte em profundos sulcos. Os

beiços pareciam alligados entre si, como se os rebordos labiaes se

unissem. Contrairam-se as maxillas uma contra outra, premindo-se de

modo que davam um som asperrimo de rengir de dentes. As veias frontaes

e jugulares latejavam infladas. Depois, os spasmos dos musculos da

face completavam o horror da desfiguração. Ao contrair das pupillas

correspondia o arfar das cartilagens nasaes.

Passava a vista spasmodica pelo filho que lhe estendia os braços,

chamando-o clamorosamente, e não o via. Já a esposa, caída no

pavimento, levantava um alto pranto, e elle não ouvia. Os servos

rodeavam os seus infelizes amos, chorando e clamando, e Nicoláo

ajuntava áquella dissonancia dos gritos o stridor rispido dos dentes.

Morrêra-lhe a razão. Era a demencia que os especialistas denominam a

das _paixões spasmodicas_.

* * * * *

E, depois, em quinze dias, aquella mulher que ainda era formosa,

envelheceu, á beira do marido.

Alta noite, quando sonhos horrentes lhe sacudiam o corpo adormecido,

mas intangivel á mão bemfeitora da morte, erguia-se e dizia á esposa:

--Thomazia, levanta-te. São horas de sair. Vou para Londres. Vou

procurar meu filho. Anda. Chama o escudeiro que me arranje as malas. Tu

choras? pois que mãe és tu? queres ou não queres teu filho?

A pobre não sabia consolar. Começava a encher a mala de camisas, e

esperava n’esta canceira que viesse a madrugada e o torpor do somno

aquietar as impaciencias, e ás vezes os frenesis violentos do alienado.

Os medicos rodeavam o enfermo; porém, Thomazia não dizia a ninguem

a origem da demencia do marido. Parecia-lhe atrocissima offensa ao

desgraçado revelar que elle matára o filho.

Que supplicio o da viuva de Innocencio José de Barros! Que castigo

tão desproporcionado! Se todas as alegrias da sua existencia de vinte

annos valiam uma só das noutes que ella passava no quarto de Nicoláo

d’Almeida!

* * * * *

Ao decimo dia da demencia, chegou outra carta do amigo que lhe enviára

a morte na primeira.

Dizia d’este teor:

«Milagre! Pedro de Barros está salvo. Já se lhe levantaram os

appósitos da ferida. A substancia perdida foi reparada. Aquillo é

cabeça á prova de bala! Com um adversario assim não ha partido! Dizem

os medicos que um elefante não resistiria», etc.

D. Thomazia arrancou a carta das mãos a Lopo, e correu ao quarto do

marido, exclamando:

--Nicoláo, Nicoláo, não mataste o teu filho! não mataste! aqui está

a carta do teu amigo... Olha, lê, lê, meu querido amor, lê, que teu

filho está vivo! Ó mãe de Jesus Christo! valei a meu marido! Não lês,

Nicoláo? Leio eu... olha... ouve...

Nicoláo d’Almeida ouviu com apparencia de profunda attenção, voltou

as costas, entrou ao quarto de vestir, começou a reunir casacos e

pantalonas, e saiu fóra com a troixa do fato, dizendo:

--O escudeiro que me dobre esta roupa. O wagon sae ás quatro horas para

o Havre. Vou a Londres procurar meu filho.

Thomazia ajoelhava, caía de face contra o pavimento, e arrancava

gemidos convulsos.

* * * * *

Dois mezes depois, em setembro de 1867, Lopo d’Almeida passeava no

vasto salão, que servia de casa de espera, na quinta solarenga onde

vivia-morto seu pae, e agonisante sem poder morrer sua mãe.

O mancebo, com os braços pendentes, rosto abatido, e olhos carregados

de lagrimas, dizia entre si:

--Que dezenove annos os meus! Que mocidade! Que portas se me abrem

para tão negra vida!... Nunca mais poderei ter hora de contentamento!

Heide ver meu pae envelhecer n’aquelle tormento, e a minha pobre mãe a

pedir a Deus que lhe dê vida para ainda ver a luz da razão nos olhos

d’elle!...

Interrompeu-lhe o recolhimento doloroso o surgir subito de um homem

desconhecido no patamar da escada que conduzia á sala.

Fitou-o e perguntou:

--Quem procura?

--Nicoláo d’Almeida.

--Não recebe senão os medicos. Sou filho d’elle. Represento meu pae

n’esta casa. Quem é o senhor?

--Um homem que procura os infames quando elles se escondem, ou fingem

doidos para se furtarem á responsabilidade das suas protervias.

Lopo d’Almeida mediu-o da cabeça aos pés, e respondeu:

--Não encontrou um lacaio no páteo quando entrou aqui?

--Não encontrei ninguem. Que quer dizer a pergunta?

--Que volte, e diga ao lacaio o seu nome. Depois, espere-me ahi fóra

que eu vou onde meu pae não póde ir.

--O meu nome posso atiral-o á cara de quem quer que seja, sem a

intervenção do lacaio. Sou Pedro de Barros.

Lopo contemplou-o por instantes silencioso, deu dois passos para elle,

e disse com boa sombra:

--Seja bem vindo o senhor Pedro de Barros. Está em casa de...

Conteve-se, e tornou:

--Está em casa de sua mãe.

--Não tenho mãe. Retire a injuria.

--Retirei. Agora, senhor Pedro de Barros...--E apontou-lhe para a porta.

--O senhor me disse, ha momentos, que não duvidava ir onde seu pae não

fosse.

--Antes de o conhecer. Iria bater-me com um homem chamado Richard

Grattan; com Pedro de Barros, não. Eu respeito os homicidas que

escondem o seu verdadeiro nome, julgando que os disfarça o medo do

opprobrio. Ao homem, porém, que entra em casa de sua mãe, e diz seu

nome, e revela sem cerimonia o programma de assassino, desprezo-o, e só

receio que elle me tira pelas costas.

* * * * *

D. Thomazia tinha ouvido a voz alterada de Lopo, e chegára-se ao

reposteiro interposto ás duas salas, quando o filho proferiu as

palavras: _Ao homem, porém, que entra em casa de sua mãe..._

Escutou as restantes, julgando-se turvada de entendimento e ouvidos.

Levantou o reposteiro, e saiu á sala, com a vista desvairada e os

passos oscillantes.

Lopo foi recebel-a pela mão, apertou-a ao seio e disse-lhe:

--Vá para dentro, minha mãe, peço-lh’o com as mãos erguidas!

--Quem é este?!--perguntou ella--a quem dizias tu...? Não fallaste aqui

agora em _mãe_... e não sei quê...?

Relançou Lopo os olhos a Pedro. Figurou-se-lhe ver no rosto d’elle

uma feição extraordinaria de agitação interior. Cedeu a um impulso de

generoso enthusiasmo, e disse á mãe:

--Aquelle é Pedro... é seu filho!

Thomazia, antes de ver o filho, viu o esposo. Não proferiu um

monosillabo. Retrocedeu com desatinada velocidade. Sumiu-se nas salas

interiores. Correu ao quarto de Nicoláo. Travou-lhe do braço. Tirou-lhe

por elle a impetos freneticos. O louco deixava-se arrastar. Entrou com

elle ao salão, a tempo que Lopo, travando do braço de Pedro que fugia,

lhe bradava:

--Espere, que vae ter occasião de cravar a bala no infame que se finge

doido!

N’este conflicto, acercou-se D. Thomazia com o marido. Aproximou-se de

Pedro, que recuava, e disse-lhe:

--Olha, Nicoláo, olha... Aqui está teu filho!... Vêl-o vivo? Repara,

meu amor. Não é este o que teve o desafio em Pariz comtigo? Não é?...

Nicoláo encarava no rosto de Pedro com penetrativa fixidez; quando,

porém, Thomazia lhe espertava a gritos as reminiscencias, elle

declinava para sobre ella o olhar torvo, e estremecia como assustado

das suas exclamações.

No entretanto, a postura de Pedro de Barros--a fórma exterior, que a

interna é indefinivel--significava a ancia de evadir-se a uma situação

que lhe demudára o rancor em tortura de uma especie nunca escripta nem

imaginada. Abalo de coração parece que não sentia nenhum bom. Na cabeça

tumultuava-lhe um torvelinho de idéas que o desvairavam. Aquillo de

chamar-se seu pae aquelle homem soava-lhe como uma zombaria, se não

era antes sonho ou allucinação de ouvidos. Sentimento filial ou sequer

de piedade não lhe suscitava a mãe nenhum. Por maneira, que todos os

seus movimentos d’olhos e de espirito, segundo mostrava, era livrar-se

do espectaculo, em que talvez elle fosse capaz de ver alguma coisa

ridicula para si.

Thomazia, voltando as exclamações do marido, que saíra da sala, para o

filho, ia, n’uma explosão de ternura redobrada pela agonia de ver o

marido impassivel, lançar os braços ao pescoço de Pedro.

Haveis de crêl-o, mães, que não sabeis dos supplicios de outras;

crel-o-heis de melhor mente se já vistes repellidas as que não tiveram

hora de vida apartada dos filhos.

Pedro fez pé atraz, quando a mãe lhe dizia:

--Filho da minha alma, ajuda-me a dar vida á razão de teu pae!

O retraimento de Pedro tirou lavaredas de odio aos olhos de Lopo.

Seria sublime, se não fosse triste de contar-se que o filho segundo de

Nicoláo d’Almeida, no lanço de furtar-se o irmão aos braços da mãe,

tomou para si o corpo d’ella, apertou-a com apaixonado amor, sentiu-a

desfallecer, depôl-a sobre um canapé, abeirou-se de Pedro, e disse-lhe

acceleradamente:

O sangue · 第 12 / 13 段