soluços, á esposa do commendador Batalha--que ingrata aquella!...
Trazel-a eu pobresinha, creal-a, dar-lhe o meu filho... o meu querido
filho... que eu não torno a ver...--e lançava-se por terra, ferindo
o rosto nas cadeiras, e escabujando nos braços das cunhadas, que mal
podiam acudir aos transes alheios.
--Eu já soube esta noite lá fóra quem era o tal desaforado--dizia o
commendador ao auditorio funebre, que de vez em quando intermittia no
estilo elegiaco algumas diatribes politicas a José Passos e outros
propugnadores da revolução de maio d’aquelle anno--bem sei quem elle
era... e agora me arrepello de não ter avisado este pobre chefe de
familia; que eu bem o vi subir pela escada de corda...
--Havia de ser--disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante
Leite--havia de ser quando elle se preparava para subir pela escada de
páo, e não de córda, para o quarto da mulher do Simão Lopes que mora
trez portas abaixo do lado de lá.
--Pois era isso...--confirmou o negociante Leite--eu já de lá o vi
sair de madrugada, e ás dez horas encontrei-o no escriptorio do Simão
a dizer que o mundo estava desmoralisado, e que sabia de trez infames
mulheres casadas que traziam nas praças e nos cafés a honra dos seus
maridos ás vaias dos folhetinistas e d’outros calafrios d’esta laia.
--Pois aquillo é um tratante!... Olha, olha, como elle se explica.
--Estes malvados--proseguia o commendador Batalha, batendo murros nas
proprias pernas--estes malvados que desviam do seu dever as senhoras
honestas, e cavam a ruina domestica das familias, deviam ser mortos
a tiro como cães damnados. E ellas então? eu, todos sabem que sou
casado. Graças aos céos, topei mulher que me deixa andar com a cara
descoberta...
--Aquillo é mentira--disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante
Leite.
--Ora diz-m’o a mim!--segredou o outro.--A casa d’elle ninguem sobe
com escada de corda, por que a estrada para o coração da mulher é
pela trapeira, ha mais de doze annos. Bem sabes que o Raimundo Braga,
visinho d’ella...
--Se sei!... Deixa-m’o ouvir.
O commendador saltára do assumpto, por que um dos auditores tinha
escarrado, querendo chamar com tão indecente signal a attenção de Leite
e d’Abreu.
--Faz o senhor Gervasio o que deve em não consentir que essa
mulher perdida lhe entre em casa, nem leve o pequeno--proseguiu o
commendador, solicitando com os circumvagantes olhos o apoio do
auditorio.--Segure-se, e quanto antes, meu amigo. Estamos aqui todos
promptos para tudo que fôr necessario. Não sei se o troca-tintas do
seductor tem de seu; mas acho que pouco terá. É d’estes cavalheirotes
de aldeia que colhem cem rasas de milho, e vendem quatro arvores quando
vem ao Porto. Se é o que eu penso, elle hade querer comer d’ella, e não
tarda por ahi a justiça a vir intimal-o para inventario.
--A mim?--atalhou Gervasio--está bem servida a justiça comigo! Já
disse que não tenho nada de meu. Devo a cada um de quatro irmãos que
ahi estão dez mil crusados de dote afóra os juros. As quintas do Douro
estão captivas dos dotes, e mais esta casa. O vinho que por ahi está
nos armazens já o vendi. Estou sem nada, logo que pagar o que devo.
--Faz muito bem!--obtemperou radiosamente o commendador--assim é que se
ensinam os bigorrilhas e as... e as... adulteras.
--Não sabe o nome da mulher d’elle...--cochichou Abreu á orelha de
Leite.
--É mais burro que honrado--addicionou o outro.
* * * * *
Esta farça funebre de pesames, cuja exactidão carecia de mais espaço
e relêvo, passava assim n’um lance de supremo infortunio. As lagrimas
intermitentes de Gervasio tinham perdido toda a sua pungitiva uncção.
Quem ali fosse para compenetrar-se do funeral espectaculo de um velho,
chorando um filho morto e simultaneamente infamado, sairia rindo ou
amaldiçoando quem tão vilissima tempera deu ao homem.
Quando Gervasio, ao raiar do sol, sentiu pesar-lhe a cabeça carecida
de repouso e a recostou para os braços cruzados sobre o peito, os
hospedes evacuaram de mansinho a sala, queixando-se todos de enxaqueca,
e convidando-se para ir tomar chocolate ao botequim da rua de Santo
Antonio.
Gervasio sentiu que uns braços o achegavam do seio e uma face branda
lhe animava as cãs. Olhou, e viu sua mulher, que lhe dizia:
--Ó meu pobre homem, se nos deixassem chorar sósinhos...
Abraçaram-se estremecidamente. As primeiras lagrimas de desafogo foram
aquellas.
CAPITULO XX
Argumento
De como a formosa viuva se embalava nas serenas aguas do Minho, e
o que diziam a respeito de varias coisas os ditosissimos amantes.
Requerimentos, embargos, accordãos e outros feitos das justiças
d’estes reinos. Gervasio escapa-se com o neto. Nicoláo de Almeida
prova de um modo vulgar e sabido que a sociedade devia chamar-se
uma porcaria, se a palavra não fosse plebea e repugnante a ouvidos
cerimoniosos. O commendador Batalha depois que revessou do bucho a
ucharia encruada. As jornalistas pregoam as virtudes de Thomazia, com
outras tolices ao mesmo respeito.
D. Thomazia, a viuva, e Nicoláo de Almeida deliciavam-se campestremente
nas inspirativas margens do rio Minho.
Vestia de crepe a formosa. Era-lhe realce o escuro. Trajada de côres
festivas, a alma saía-lhe ao rosto a dar reflexos de alegria aos lutos.
Nicoláo remava no batel, por baixo de um docel de salgueiros. Os
remos trapeavam cadentes, de uma ourela para outra do rio. Cada vez
que aproavam a terra e abicavam por entre os bosquesinhos espelhados
n’agua, saíam da frescura os rouxinões esvoaçados, e iam mais longe
emboscar-se n’algum amieiral, onde a lua bem sabia que era esperada dos
seus cantores nocturnos.
--És feliz?--perguntou-lhe Nicoláo secretamente vaidoso de abrir
thesouros de felicidade para aquella mulher.
--Não...--murmurou ella surrindo-lhe meiguices de quem pede perdão do
aggravo.--Falta-me o nosso filho.
--Não te basta a certeza de que elle hade vir?
--E a saudade? e o medo que m’o tirem ou o façam desapparecer?...
--Não ganhavam com isso nada.
--Mas se meu padrinho cuidar que elle é seu neto?...
--Nem assim lhe assiste o direito de t’o negar.
--Mas quem sabe se o Innocencio deixou alguma declaração...
--De que o filho não era d’elle?
--Sim...
--Mais forte rasão para que t’o não queiram, e comecem desde já um
processo a provar a illegitimidade do filho adulterino. Seja como fôr,
minha filha, lá tens optimo procurador no Porto. Póde ser que a esta
hora o nosso anginho venha esvoaçando para nós. Teu sogro hade achar-te
louvavel o procedimento, porque não pedes herança, nem sequer as tuas
joias. Pedes o filho e renuncias a ter quinhão dos bens de teu marido.
--E se elles m’o não entregarem?
--Vou eu buscal-o. Entrarei á presença de Gervasio, e direi: «Este
menino é meu filho. Não tem d’esta casa uma tabua nem um farrapo. Gosem
tranquillos os seus bens de fortuna, que esta creança, quando fôr
homem, nem sequer ha de saber que sua mãe foi casada com um chamado
Innocencio.»
--E tu ias dizer isso?--atalhou exultantemente a viuva.
--Com toda a certeza, se o escandalo fôr necessario.
--Não ha de ser... Elles dão-me a creancinha.
* * * * *
O procurador de D. Thomazia apresentou ao juiz o requerimento da sua
constituinte, pedindo a entrega do filho. Deferiu o juiz. Gervasio
José de Barros saiu com embargos ao despacho. Allegava o porte
immoral da viuva que não podia ser boa educadora do filho. Desfiavam
os artigos a historia das adulteras invasões do amante por escada de
corda, consoante as referira o commendador Batalha. As testemunhas de
vista eram já sobejas para justificar o crime, e pelo conseguinte a
devassidão da viuva, concubinaria de Nicoláo d’Almeida. Accrescentava o
libello que Innocencio José de Barros morrêra de paixão e vergonha.
Foram acceitos os embargos.
O procurador aggravou: não teve provimento.
A conjuração contra Thomazia subia das praças aos tribunaes. Os juizes
da Relação, no seu accordão, ajustavam á aggravante o epitheto de
«infame».
Nicoláo d’Almeida, informado do despacho da causa em segunda instancia,
auctorisou o procurador a declarar em nome da sua constituinte que o
filho de Thomazia não era filho de Innocencio.
O agente de causas foi retido pelo pudor de sua propria pessoa.
Respondeu que regeitava a procuração, e difficilmente encontraria
advogado que assignasse a original e de nenhum modo desculpavel
declaração.
Os amigos do fidalgo admoestaram-n’o a que não expozesse o nome de
D. Thomazia, se a presava tanto como era de presumir; que semelhante
requerimento sobrepujava o cumulo do despejo; que, embora o mundo a
considerasse criminosa, não fosse ella dobrar a fealdade da sua culpa,
revelando segredos que a livelariam hombro por hombro das mulheres
derrancadas até onde já não resta sentimento de vergonha.
Caiu em si Nicoláo, e voltou o espirito para a urdidura de traça
heroica e summaria. Cogitava em raptar a creança.
Decorreram quinze dias de plano, em que entrava o marceneiro,
auctorisado a segurar á ama do menino uma avultada independencia.
Outros quinze dias espiou João Ferreira os passos da ama. Não a viu. As
janellas de Gervasio nunca mais se abriram, e as portas meio cerradas
escassamente deixavam passar as visitas frequentes, os bons amigos do
negociante que lhe alvidravam alienar fraudulentamente os seus haveres
e mudar de paiz.
Os mais cordatos asseguravam-lhe que o direito de Thomazia á posse do
filho fôra denegado iniquamente, visto que nenhum processo a espoliára
dos direitos maternos: precaviam-n’o, pois, contra as novas tentativas
d’ella, assim que o odio geral se desvanecesse e a lei funccionasse
mais desassombrada.
Temeu o velho e abraçou o alvitre.
Deu os dotes a seus irmãos, segurados nos bens rusticos e urbanos.
Liquidou as especies commerciaes, embolçou o maximo dos seus haveres
em dinheiro, lavrou titulos capciosos para legalisar as vendas, e saiu
furtivamente para Inglaterra com a esposa, e o seu Pedro nos braços da
ama.
Raros amigos lhe souberam o destino.
Chegou a nova a Caminha, levada pelo marceneiro. Nicoláo chorou
amargamente. Aquelle extremoso amor de pae entranhára-lh’o assim a
Providencia para castigo. São inescrutaveis e invisiveis os caminhos
por onde baixam do céo as flechas que trespassam as almas. Até succede
exasperarem-se em ardor de inferno sentimentos sacratissimos! Vejam
onde as chammas começaram a queimar: no coração de pae! tão sublime
affecto convertido em lança penetrante!
Thomazia soffreu menos. Levantou clamores de apiedar feras, caiu sem
accôrdo nos braços de Nicoláo; mas soffreu menos. Volvidos mezes,
quando ella estiver esquecida do filho, Nicoláo d’Almeida, que apenas
vira a creança no baptisterio, enxugará as lagrimas cada vez que vir um
menino nos braços de seu pae.
Agora, leitores, deixem correr os annos. A vida vae depressa. E, nos
romances, quando ella entra no trilho commum, a rapidez salva o leitor
do fastio.
Em 1847 Nicoláo d’Almeida era já pae de um menino chamado Lopo. Este
filho nasceu legitimo... A sã moral toma aqui ar.
Nasceu legitimo. Um sacerdote, com pouquissimo trabalho, duas frases
latinas e duas portuguezas, um meneio de estola, uma benção, e de
fóra os termos do ritual, duas graçolas espirituosas de sua lavra,
santificou pae, mãe e filho.
Thomazia não se debulhou em lagrimas de reconhecimento. Bastava-lhe
saber que era amada antes de ser esposa. O fidalgo tambem não
engrandeceu o quilate do seu feito. O que elle havia dado mais valioso
áquella mulher, dera-lh’o antes: a alma. O que o esposo fez de mais,
foi chamar para si os tios de Thomazia, os irmãos e irmãs do bravo
capitão Joaquim Alves, que eram pobres.
* * * * *
Um dia, em 1849, Nicoláo d’Almeida disse a Thomazia:
--O nosso filho Pedro está em Londres.
--Ah! soubeste-o?
--Disse-mo no Porto um homem que viu Gervasio de Barros em Londres.
--E que intentas fazer, meu filho?
--Que hei de eu fazer? esperar. Não questionemos a posse da creança em
sacrificio ao teu nome. Quando elle poder entender-me, quando o sangue
lhe agitar o coração na minha presença, então lhe direi: «sou teu pae!»
Passados instantes, tomou nos braços o pequenito Lopo, mirou-o muito de
chapa, e disse, coberto de lagrimas:
--Pede a Deus que me dê o teu irmãosinho.
Thomazia cobriu o rosto com as mãos, inclinou a cabeça para o seio e
soluçou, murmurando:
--Não torno a vel-o...
--Has de ver! replicou Nicoláo com vehemencia.
Em 1850, disse o fidalgo de Caminha a sua mulher:
--Faz hoje quatro annos que o teu nome no Porto era um como ferro que
fazia golfar a posthêma da maledicencia d’aquelles peitos. Desejo que
tu conheças de perto as cavernas onde não poude chegar a lanceta do teu
nome. Ha lá dentro pus que não saiu, quando t’o cuspiram ás costas.
Prepara-te. Vamos passar dois mezes ao Porto.
--Por quem és, meu filho, não vamos...--accudiu Thomazia.
--Vamos, menina. Pois não queres conhecer as delicias da rehabilitação?
Sabes lá tu que prazer ensoberbece a gente, quando nos vemos de perto
com os detraidores de outro tempo, e então reconhecemos quanto eramos
grandes, á vista dos abjectos inimigos que tivemos?... Ir ao Porto, é
coisa que eu te peço de joelhos, se fôr necessario--concluiu Nicoláo
acariciando-a.
--Vamos, filho. Se me fizeram chorar, tu me consolarás.
--Quem te ha de fazer chorar? Vaes topar toda a gente á porfia de te
fazer rir... E has de rir.
* * * * *
Era um palacio com quatro salões corridos, e doze janellas a jorrarem
luz e estrondosas harmonias. As carruagens, entralhando-se á porta do
palacio, despejavam commendadores relampadejantes de venéras com os
braços arqueados, onde poisavam leveiras como arveolas umas mulheres
que volitavam com suas azas de alvissimas gazes. As baronezas nutridas
pisavam ponderosamente os tapetes do vasto peristilo do palacio,
pedindo aos maridos que lhes desfizessem os refegos da saia, mas com
disfarce. Um criado com borlas e galões de ouro tirava pela sineta,
assim que ouvia o fremir das sedas no pateo. A meio da escada, descia
então o dono da casa, um mancebo de 26 annos, pallido, de olhos negros,
e surriso torvo. Inclinava-se deante das houris que iam povoar o seu
paraiso, e, recurvando os braços, as conduzia até onde estava uma
mulher loura, grave e linda. Então voltando-se ás senhoras, dizia com
palaciano entono:
--Apresento a vossas excellencias Thomazia de Almeida, minha mulher.
* * * * *
E a profusão da ceia fez suppôr que Lucullo e Cresso e Apicio morreram
de fome.
Um conviva, quasi afogado pela onda do champagne, e opilado de aves
frias que se lhe encruavam no estomago, avençou-se com um criado para
lhe ensinar a parte da casa, onde elle podesse obedecer aos impetos
de um vomitorio involuntario: era o commendador Batalha. Despejada
a ucharia mal esmoida que lhe tomava as cavidades intestinas, sem
resalva de uma em que tivera a consciencia, foi dizer a D. Thomazia
que Gervasio José de Barros, como judeu que era, alienára indignamente
quanto tinha, posto o intento em roubal-a.
--Mas esteja vossa excellencia certa--acrescentava elle--de que seu
filho vem a herdar o melhor de oitenta contos. Se fôr preciso, eu direi
a vossa excellencia com quem foram feitos os contractos fraudulentos.
D. Thomazia não respondeu. Entreviu nos grupos o marido que a procurava
com os olhos, e rebatia, cerrando os labios, o impulso do riso.
Ao outro dia, a imprensa periodica, no esmero com que cinzelou o estilo
das noticias, bem deixava entender que escrevia para a eternidade.
Da dona da casa, diziam que associava á fidalguia das maneiras uma
tamanha gentileza e fidalgo porte que o primor das joias riquissimas
era de seus enfeites o que menos resplandecia.
Que a flôr da sociedade portuense convergira, á competencia de galas,
aos salões de suas excellencias; sendo tantas as «notabilidades» que
não sabia o redactor estremar primazias de bellezas e ainda menos de
_toilettes_.
Que a elegante esposa do excellentissimo Almeida surpreenderia com as
suas peregrinas graças a quem a não tivesse já admirado entre as mais
preclaras formosuras do Porto, onde sua excellencia tinha nascido.
Que ás cinco da manhã parecia ter começado o baile, sendo áquella hora
tal o delirio e enthusiasmo, que os pares invadiam as quatro salas,
arrebatados na febre do _cotillon_.
Que a excellentissima Thomazia d’Almeida apenas dançára duas
quadrilhas, concedendo a solicitada honra de parceira aos senhores
barão da Sola e visconde do Tijolo, que tiveram a fortuna de ouvir sua
excellencia descrever as pittorescas orlas dos rios Lima e Minho, onde
a virtuosa e abastada senhora possue riquissimas quintas.
«Suas excellencias--concluia o poeta das locaes--tencionam ainda abrir
segunda vez as suas esplendidas salas na estação invernosa. Parabens
á nata da esbelta cidade da Virgem! que só assim, na esperança de
renovados jubilos, poderemos ir mitigando as saudades da rapida noite
que hontem nos proporcionou a liberalidade e finissimo gosto d’esta
fidalga familia,» _etc._, _etc._
Nicoláo de Almeida, lido o terceiro periodico, entre frouxos de riso,
quedou-se triste e disse gravemente:
--Principia agora o nojo. Viste a sociedade, Thomazia? Estás contente
com a rehabilitaçao?
Thomazia surriu-se, beijou as mãos do esposo, e respondeu:
--De que me serve a mim isto? Tu é que me fizeste o que sou...
--E receias que estas mulheres façam de ti o que ellas são?
--Não receio... tu me defenderás, meu amor.
--Entendes pois que esta gente não póde reabilitar ninguem?... Vamos
então embora. Levemos o nosso filho para as arvores do Minho, que
este ar tem veneno que faz mal ás creanças. Está aqui o bafejo acre da
podridão interior da illustre canalha, que ha quatro annos te levaria
a pontapés das portas dos juizes, se tu viesses pedir teu filho, e o
filho fosse de teu marido, e não tivesses pão que lhe dar senão o dos
Barros das Cangostas.
CAPITULO ULTIMO
Argumento
Dezesete annos depois
A velhice de Gervasio José de Barros enrijou-se nos frios do norte.
Sempre laborioso e commerciante, o pae de Innocencio aparou as
pontoadas dos desgostos no forte peito encouraçado pelo amor com que
estremecia o neto.
Pedro, educado para herdeiro de um grande patrimonio, foi aos oito
annos começar a carreira dos estudos no _King’s college and School_. O
velho, ao separar-se lagrimoso d’elle, disse aos professores:
--Meu neto é muito rico: não m’o mortifiquem. Ensinem-lhe o que é
necessario saber um mancebo que tem muito de seu.
Á volta de poucos dias, sobreveio ao ancião maior agonia: morreu-lhe
a esposa; matou-a, sobre a saudade do filho e a deshonra da afilhada,
a nostalgia, o incessante lembrar-se do seu Porto, da sua rua das
Cangostas.
Têmpera de ferro era a do viuvo! Sósinho em Londres, forçado a silencio
por não ter quem o entendesse, ia para o collegio espraiar tristezas
com o neto, e atirava-se ás canceiras mercantis para arrancar-se ás
prezas da saudade.
Revigorou; mas esteve quasi a pique de ir a terra quando os amigos
portuenses lhe participaram que Thomazia, esposa de Nicoláo d’Almeida,
estava no Porto, dando bailes, onde compareciam as familias mais
graúdas do commercio e da aristocracia, sem excepção do commendador
Batalha.
--Oh! que patifes!--exclamou Gervasio.--Oh! que corja é aquillo!
E abafou o monologo, á mingua de auditorio.
Restaurou-se, porém. A raiva umas vezes faz versos, como disse o poeta
romano; outras faz saude, como Gervasio José experimentou.
Foi prateando o tempo a veneranda fronte do velho.
Em 1865 prefazia elle setenta e trez annos, e Pedro de Barros dezenove.
Completou o moço a sua educação de rico. Sobejava-lhe verniz litterario
para poder em qualquer parte do mundo fingir que não ignorava os
rudimentos da sabedoria humana. Jogava armas conspicuamente. Ganhára
premios no florete e pistola. Nadava rapido e airoso como um tritão.
Desfazia e refazia as articulações em gimnastica. Tocava harpa e piano,
lira e rebeca. Carambolava com prodigiosas quantidades; estremava-se
nos repiques e repercursões. Em gineta era um perfeito cavalleiro e
coudel. Sabia de fundamento a anatomia dos cavallos, e nada sabia da
sua.
D’esta arte sahiu do collegio para a companhia do avô.
Pediu um cavallo. O velho deu-lhe dois e carro, com lacaios e libré
a capricho. Principiava a fraqueza d’aquelle provecto cérebro de
Gervasio! Elle, que esbanjava assim os rolos das libras, é que a morte
lhe andava perto.
Um dia, chamou Pedro de Barros ao seu quarto, e fallou-lhe d’este
feitio:
--Meu filho, filho do meu sempre chorado Innocencio, é chegada a
occasião de te dizer o que não sabes. Tua avó, que Deus tem, e a ama,
que te criou, disseram-te que teu pae e tua mãe tinham morrido. Teu
pae... certo é que morreu; tua mãe, não.
--Eu tenho mãe!?--exclamou Pedro, crescendo para o avô com transportado
impeto.
--Tens e não tens, Pedro. Senta-te ahi, e escuta. Morreu tua mãe para
nós, porque foi a vergonha da minha cara, e a deshonra de teu pae. O
meu caro filho, como sabes, acabou no _Havre_; e acabou estarrecido
de paixão, segundo lá mesmo me disseram no hotel onde elle expirou.
Quando a febre o fazia delirar, gritava contra tua mãe, dizendo que
morria sem a matar. Basta que eu te conte que, pedindo-lhe o confessor
que perdoasse á mulher, elle saltou furioso da cama e não quiz
confessar-se. Foi ella que matou o meu filho, foi ella, Deus o sabe!
Queres agora ver, Pedro, que alma tinha a tal féra? Olha tu. Na noite
em que esperavamos teu pae, fugiu ella para a companhia de um homem.
Quando cheguei a casa com a noticia de elle ter morrido, achei tua
santa avó, e tuas tias e tios que já lá estão em cima, a gritar como
doidos cuidando que ella se tinha ido botar ao Douro.
Saí de Portugal, quando soube que essa desalmada queria tirar-te da
minha companhia, a ver se á tua sombra me comia o suor de meus avós.
Deixei os meus negocios arranjados de modo que não ficasse coisa a que
ella deitasse as unhas. Pouco e pouco vim passando para cá a minha
fortuna e hoje estou senhor de tudo que herdei e ganhei.
--E ella onde está?--atalhou Pedro--E elle!?... Onde está o infame que
motivou a morte de meu pae?
--Casou com ella, vivem lá n’uma provincia chamada Minho. Deixal-os
estar, que os leve o diabo. Não queremos saber onde estão.
--Oh meu avô!--interrompeu o filho de Thomazia--pois meu pae não hade
ser vingado? O opprobrio d’elle não recae tambem sobre mim?
--Deixemo-nos de asneiras, rapaz. Não me comeces a tresvaliar lá com as
tuas valentias. Não quero saber d’essa gente. Tua mãe, já te disse que
morreu... Ora attende cá. Estou muito velhinho. As pernas já me estão
a pedir sepultura. É tempo de te pôr ao corrente dos negocios. Assim
que eu fechar olhos, Pedro, manda abrir o meu testamento, onde eu deixo
declarado o que se hade fazer por minha alma. Eu lá digo que não tenho
nada que deixar, porque receio que tua mãe ainda queira levantar-se com
metade da tua herança; mas tu, meu neto, ficas desde já sabendo que
n’aquelle cofre de ferro tenho toda a tua fortuna. Ali estão oitenta
contos de réis em dinheiro de contado. Guarda-os, toma posse do que
era de teu pae, vive do rendimento d’elles que te hade chegar; não
te ponhas a extravaganciar, porque podes vir a ser pobre, e muitos o
chegaram a ser com mais do que tu. Se alguma vez fôres ao Porto, pede
lá que te contem a historia de Pedro Sem, o mais rico negociante que
meu pae conheceu, e acabou pedindo. Ora pois, Pedro... Eu bem queria
deixar-te casado; mas... leve o demo tal idéa... A desgraça de teu pae
fui eu que a fiz com o endiabrado casamento d’uma rapariga que tua avó
foi buscar á miseria, e ali creámos como filha!... Deus lhe pedirá
contas...
--Que infame mulher!--murmurou o filho de D. Thomazia.
--Deixa-a lá... que o fim não hade ser bom...
--E eu sou filho de tal monstro!--volveu Pedro batendo uma rija punhada
no peito.--Eu!... filho d’essa vilissima creatura!
--Lembra-te--acudiu o ancião--que és sómente filho do meu Innocencio.
Esquece-a para sempre... Lá está em cima quem n’a hade julgar. (Pedro
soltou um cacarejo de riso nasal e arrepelou os cabellos).
--Que engrimanços estás ahi a fazer?--perguntou Gervasio.--És um
crianço! é o que tu és!... Tens vinte annos ainda por fazer. Se
Deus me der dois annos de vida, que não dá, ainda terei mão de ti;
senão, vou para o outro mundo a temer que faças destemperos por cá.
Pedro!--bradou elle energicamente--Pedro, tu não te mettas com essa
mulher! Já estou arrependido de te contar o caso...
--Não se arrependa, meu avô!... Eu tenho no coração a dignidade e os
brios de meu pae.