«Terás tu a má condição de não vir para a tua casa antes d’esse tempo?

Falta-me ver isso, meu filho!!!!! Não dês que fallar ao mundo n’este

caso, que é de ficar mal para todo o sempre um homem. Logo que esta

recebas, deixa-te de pagodes, e vem a toda a pressa para lhe dar

animo; que ella está como uma tumba. Pede-te tua mãe que compres por

lá um enxoval rico por conta d’ella; porque já sabes que os padrinhos

somos nós, etc., etc.»

Quando chegou por aqui, Innocencio mal enxergava os caracteres.

Zumbiam-lhe vespas na cabeça, ferroando-lhe os miolos. Lavaredas

internas queimavam-n’o desde o diafrágma até aos beiços. O tremor

das pernas fêl-o sentar-se de pancada n’uma _voltaire_, como se o

derrubassem com uma catapulta jogada ao peito. Cravára no tecto os

olhos betados de sangue. Nem amor nem odio á franceza lhe braseava o

espirito extraviado. Varrêra-se-lhe de todo da lembrança a mulher a

quem, horas antes, promettêra a mão de marido, se um dia enviuvasse,

e lhe ella guardasse lealdade. Não a via sequer em imagem; mas, se a

visse, tangivel, laceravel e capaz de afogar-se no proprio sangue,

iria espedaçal-a a dentadas: porque a infame lhe retardára apunhalar a

adultera.

Apunhalal-a, sim! esta era a idéa que lhe revia sangue nos olhos e

rangia nos dentes.

Levantou-se de golpe como tigre assaltado de surpreza. Correu ao

quarto, chamou criados, emmalou e alugou carruagem com frequentes mudas

para França.

Quando chegou a Pariz, doze dias depois, entrou na via-ferrea para

o Havre, pressurando-se em ir a tempo de embarcar no «paquebot» que

navegava para Portugal. Porém, quando chegou, ao fim de cinco dias de

insomnias, de fraqueza á mingua de alimento, de sobre-excitação febril,

e impaciencia devorante, caiu de todo quebrado e incapaz de se mover

do hotel até ao navio. O medico examinou-o e saiu esperançado da cura,

obstando-lhe ao intento de se fazer levar para bordo em braços.

Obedeceu o enfermo, e pediu que lhe enviassem para o pae esta breve

carta: _Ha poucos dias que recebi a que me escreveu para Londres,

dando-me parte dos prazeres que lá tem. Não me demorei onde estava; mas

cheguei tão doente ao Havre, que fico na cama. Dezoito dias mais tardar

é o que poderei estar por aqui. Lá vou tambem dar um terno abraço em

minha mulher. Não posso mais. Seu filho muito do coração, Innocencio._

O barco havia saído quando o doente se arrepelava, exclamando:

--Eu dava dez contos por áquella carta!... Estou doido! Que asneira eu

fiz! Agora foge ella á minha vingança em lendo a carta! Que inferno

este!...

E, bramindo, sacudia a roupa, e saltava do leito, afugentando o

enfermeiro que imaginava tel-as com um mentecapto. Venciam-n’o com

força e carinhos. Levavam-n’o ao leito. Ministravam-lhe os remedios.

Todavia, as febres exasperavam-se, e os simptomas do tifo não se

escondiam aos olhos do medico, salvo se os da congestão cerebral se

offereciam mais caracteristicos.

Sigamos a carta que lhe acerbou as angustias. Qualquer que fosse o

motivo das delongas na participação do representante portuguez em

Pariz, aconteceu que o ministro dos estrangeiros mandava transmittir

para o Porto o aviso de viver o filho de Gervasio José de Barros, ao

mesmo passo que o velho era surpreendido pela carta do filho.

Pobre pae! quando reconheceu a letra, expediu grandes gritos cortados

pela suffocação da alegria e perdeu os sentidos, casquinando umas

esfusiadas de riso nervoso.

As senhoras vieram assim encontral-o nos ultimos degráos, amparado nos

braços do criado. Vinha entre ellas tambem Thomazia, secretamente e

a um tempo abalada de prazer e de medo, cuidando que eram de agonia

aquelles gritos.

Gervasio sentiu desabafar-se-lhe o alento, assim que ouviu

aproximarem-se almas com quem podesse repartir do peso esmagador do seu

jubilo.

--Está vivo nosso filho!--bradou elle.--Está vivo teu marido, afilhada!

Aqui está uma carta! aqui está! vêde-a! Graças, meu Deus, graças!

--Graças, meu Deus!--conclamaram as trez senhoras e os trez velhos

ajoelhando todos no degráo.

Thomazia, porém, permanecia quêda, empedrada, livida, esgaseando os

olhos turvos. Assim se esteve n’aquelle alheamento, olhando tudo sem

ver mais que a figuração do marido, por espaço bastante notavel, que

todos levantaram para ella os olhos perplexos. N’este conflicto,

faltavam-lhe os joelhos, entrou em convulsões, e, soltando um gemido,

caiu nos braços da sogra e do padrinho, que a viam cambalear.

--Olhem o que faz a alegria!--clamou o velho.--Levem-n’a para cima,

coitadinha! levem-n’a com geito, que isto passa logo... Eu vou ler a

carta para vossês todos ouvirem ao pé da cama da nossa pobre filha.

--O peior é se este sobresalto lhe faz mal á creancinha!--disse D.

Thomazia.

--Não hade fazer, se Deus quizer!--contrariou Gervasio, seguindo o

grupo em cujo centro ia a esposa sem sentidos, amparada nos braços de

todos.

Defumaram-n’a com alfazema e ungiram-lhe as fontes de vinagre.

Descerrou as palpebras de sobre os espantados olhos. Viu muita gente a

rir-se e a chorar de alegria, e já o sogro com a carta aberta, dizendo:

--Escuta lá, filha, escuta o que diz o teu homem. Diz pouco por que

está doentinho; mas é bastante para ficarmos doidos de alegria. Ouve,

menina.

Leu. Thomazia fazia ranjer o leito com as tremuras.

--Vês?--proseguiu Gervasio.--Olha como elle está contente, menina!

--Mas está doentinho!--accudiu a mãe.--Queira Deus que a doença seja

leve.

--Hade ser, se Deus quizer!

--Ó manas--tornou D. Thomazia--vamos já pedir a Nosso Senhor que lhe dê

saude. Vinde para o oratorio.

--Eu não posso ir...--murmurou a esposa de Innocencio, erguendo

custosamente a cabeça.

--Pois não venhas, filha, não. Aqui fica teu pae a conversar comtigo

emquanto nós vamos resar. Cá pediremos tambem em teu nome, Thomazinha;

e mais tu podes resar d’ahi tambem, que Deus Nosso Senhor está em toda

a parte onde se procura.

--Ó rapariga!--continuou Gervasio, assim que as senhoras sairam--a nós

a alegria deu-nos de bota abaixo! Eu tambem perdi a tramontana; e, se

lá não está o gallego, dou com a cabeça no corrimão, que a parto! Não

que elle!... Ó menina, eu parece que estou areado do juizo! Pois inda

torno a ver meu filho!... Que me dizes?

--Deus o queira...--murmurou Thomazia, dizendo no fundo do seu coração:

«Matai-me, Senhor, matai-me, e condemnai-me ao inferno para sempre!»

--Tu estás a modo de triste, afilhada!--sobreveio o velho.--Que tens tu

que estás chorando agora?

--Chorando?--disse ella apalpando os olhos--é verdade... não sei

por que choro... é alegria... pois que hade ser, meu padrinho?... é

alegria...

--Ah! lá isso entendo eu! Olha, queres tu ver que tambem me rebentam as

lagrimas?

De feito, Gervasio chorava e alimpava os olhos ao punho da japona,

dizendo entre frouxos de riso:

--Deixal-as cair, que são as ultimas... Não torno a chorar na minha

vida. Venha meu filho, veja eu o meu netinho, e depois não ha mais nada

p’ra mim n’este mundo. Já cá deixo gente que farte para fazer honra á

minha memoria.

N’este momento, sacudiu-se em convulsas contorções D. Thomazia, e

vibrou um prolongado gemido.

--Que tens, menina?!--clamou alvoroçado o sogro.

--Ai!--repetiu ella gemebunda, estendendo os braços e batendo os dentes.

Gervasio foi chamar a mulher aceleradamente gritando que Thomazinha

estava muito mal. Acudiu a senhora com as cunhadas, e observou ao

marido, em termos caseiros, que o sobresalto da noticia poderia

antecipar a hora que não obedece sempre ao ciclo das nove luas.

Foi chamado o facultativo de maior nome em obstetetrica, ladeado de

duas famigeradas comadres.

D. Thomazia diagnosticára magistralmente o incommodo, segundo concordou

com o facultativo e as previstas assistentes.

Apoz trez horas de gritos alternados com desmaios, viu Gervasio sair

sua mulher com um menino recemnascido nos braços.

--Nasceu de oito mezes!--dizia a radiosa velha.--Está vingado e

perfeitinho!

O velho encarou na creança muito de perto; mas não ousou pôr-lhe os

beiços cubiçosos, receioso de lhe magoar as carnes tenrinhas.

Ao mesmo tempo, no segundo andar da casa do marceneiro, Nicoláo

d’Almeida, já informado de que se esperava Innocencio, e de que

o medico e parteiras tinham sido chamados á pressa, imitava na

irrequietação, no desesperar-se, nos exteriores de uma ancia

insoffrida, as torturas por que tinha passado em Milão o marido de

Thomazia.

As agonias eram diversas; e todavia não sabemos decidir em qual das

duas almas podia caber mais um gume de ferro. O marido arfava no anceio

de a matar. O amante na impossibilidade de a salvar, cuidando que

ella ia morrer. Quem optaria de prompto pelo mais suave d’estes dois

infernos?

CAPITULO XVIII

Argumento

Que a justiça divina raras vezes defere aos criminosos que lhe

requerem a morte. Luctas horrendissimas do coração maternal com o

opprobrio de mulher. Considera a sciencia que Thomazia ficou areada

do juizo. Coração de pae, resgatando o delicto de mau cidadão.

Dizem que está Innocencio á barra. Foge a esposa, sem poder levar o

filho. Situação para muita dôr, em que a jocosidade seria profanação

selvagem. Afflicções que sentiram muitos, e muitissimos hão de

sentil-as em quanto a Providencia não tirar o coração ao homem ou a

propensão do crime ao genero humano.

Nas intercadencias de febre sobrevinda ao parto, perguntava Thomazia

quando vinha Innocencio; nos delirios, porém, palavreava desconchavos,

chamando a miudo Nicoláo. Dizia D. Sebastiana a este respeito que a

doentinha invocava S. Nicoláo milagroso.

Desconfiaram-n’a os medicos; não obstante, a soberana justiça mandou

affastar a morte d’aquella mulher que precisava ser, alguma hora,

expiação e exemplo. Mal sabem os que choram á volta de um esquife que

bom despacho Deus enviou aos que morrem quando mais lhes enverdeciam

esperanças. Suave passo é acabar quando filhos não olham para a mão

cadaverica d’onde costumavam receber o seu pão e caricias.

Levantou-se do leito aos quatorze dias Thomazia.

A sciencia medica pasmou do seu triumpho; mas confessava-se inefficaz

para debellar um torpor moral e spasmo organico em que ficára a

convalescente.

Se lhe levavam a creancinha, debulhava-se em lagrimas, e parecia

repulsal-a, voltando o rosto. Outras vezes, pedia que lh’a déssem dos

braços da ama, estreitava-lhe ao seio soffregamente o corpinho, e

soluçava.

O parecer dos facultativos era que Thomazia ficára tanto ou quanto

desconcertada de juizo; mas era de esperar que, mediante socego,

distracção e tempo, se restaurasse.

Houve, na familia, opiniões diversas, respeito ao baptismo do menino.

Uns queriam que se esperasse Innocencio, outros que se não demorasse

além de oito dias dar uma alma á creancinha. Venceria Gervasio com os

primeiros, se o pequenino sem alma, aos nove dias, não désse signaes de

pouco vivedoiro.

Baptisou-se, pois, aos dez, sendo padrinhos os avós; (o assento

baptismal dizia _avós_: não sejamos mais escrupulosos que o abbade na

propriedade dos termos.) Chamaram-lhe Pedro, em memoria de alguns seus

antepassados illustres na linhagem.

Não deram noticia do nascimento ao pae, (o assento dizia tambem que

Innocencio José de Barros era pae) visto não haver tempo de chegar a

_Havre de Grace_ a nova, antes de elle se abalar para Portugal.

Estamos em julho de 1846.

Espera-se que o paquete francez aviste a barra do Porto no dia 18.

Ao anoitecer do dia 15, Thomazia recebeu da mão do aguadeiro a terceira

carta de Nicoláo d’Almeida, escripta n’estes termos:

«Está tudo preparado. Já tenho no hotel a ama para o menino. Assim que

ámanhã anoitecer, sae. Espero-te aqui defronte. Logo que te vir sair,

sigo-te, recebo o filhinho, e tu vaes indo a meu lado até á rua dos

Inglezes onde nos espera a sege. Ámanhã mesmo partimos para Caminha.

De lá, se nos incommodarem, iremos para Hespanha. Onde quer que

chegarmos, encontraremos a felicidade. Ainda bem que eu não desbaratei

a minha juventude em falsas delicias que derrancam e envelhecem a

alma. Sinto-me pae e esposo em todo o vigor de um coração novo,

robustecido pelo teu amor, minha graça e formosura do céo.

«E o meu filhinho? Sabes que o vi baptisar? Olhei para elle em quanto

as lagrimas me deixaram. Estive quasi a pedir á ama que me consentisse

beijal-o. Que sensações me tumultuavam na alma! Aquelle sentir nascer

um amor novo que me enchia o coração!...

«Deixa-me abafar a saudade; que, se não, fico a escrever-te, e são

horas de te avisar.

«Não sei como te has de haver com tirar o menino, sem darem fé!...

Dêem ou não, é forçoso, Thomazia! Nem mais um dia, porque me dizem que

o paquete francez algumas vezes se antecipa quarenta e oito horas e

mais, quando, peor ainda, não acontece sair algum extraordinario do

Havre.

«Eu só descançarei, quando puder abraçar os meus dois queridos amores,

e pedir então a Deus que nos perdôe, se não é possivel santificar a

nossa união. Espera, minha filha; que o nosso anjinho ha de pedir por

nós.»

Estava Thomazia cogitando modos como, no dia seguinte á mesma hora,

havia de fugir com o filho, quando se levantou um subito ruido de

muitas vozes no escriptorio, onde o sogro ainda estava.

Thomazia expediu um grito e quasi perdeu o alento, cuidando que chegára

o marido.

Encostada á parede, foi-se acercando da escada, e debruçou-se no

corrimão. Era a tempo que Gervasio e dois amigos vinham subindo, e as

trez senhoras e os outros velhos iam descendo. O velho exclamava:

--Ahi está o paquete defronte da barra. Pediu lancha para pôr em terra

passageiros. Está ahi o nosso Innocencio! Vão dizel-o a Thomazia, que

nós partimos já para a Foz; mas olhem lá como lh’o dizem, que não vá

dar alguma coisa na pequena. Preparem a ceia.

--Mas será elle?!--atalhou a esposa.

--Pois quem hade ser?! certificou Gervasio--É elle, não póde deixar de

ser elle... Até logo, nós cá vamos encontral-o ao caminho.

Entraram as trez senhoras ao quarto de Thomazia e fizeram pé atraz de

puro espavoridas. A esposa de Innocencio guinava de uma parede para

outra com as mãos apertadas nas fontes, despedindo gritos em que se

conheciam mal articuladas as palavras «meu filho!»

--Jesus, santo nome de Jesus!--clamava a sogra--Ó menina, que tens

tu? Olha que vem ahi teu marido, filha!...--E, voltada ás cunhadas,

continuava:--Querem as manas ver que ella endoideceu!

N’este acto, rompeu Thomazia por entre ellas e desceu ao primeiro andar

a procurar o filho.

--O meu filho?--dizia ella em altos clamores--o meu filho?

--A ama saiu com elle á tardinha; mas não tarda ahi--respondeu a

madrinha tremente e assombrada.

--Quero o meu filho!--rebradava Thomazia, indo bater á porta do quarto

da ama.

--Menina, não está ahi a ama! já te disse que ella foi dar ao Pedrinho

o ar da fresca, e volta logo. Ó Virgem Mãe de Deus! pelas chagas de

vosso Filho, fazei que ella não perca o juizo!

E ajoelhára de mãos erguidas com as cunhadas a velha angustiadissima.

Em quanto ellas ciciavam fervorosas orações, Thomazia desceu as escadas

como quem se precipita.

--Onde vae ella?!--gritou D. Sebastiana.

E desceram todas tão depressa, quanto a idade e a nutrição lhes

consentia.

Quando chegaram ao pateo, já não entreviram Thomazia na escuridade da

estreita rua, e proromperam chamando-a a brados.

Ajuntaram-se os transeuntes ouvindo as lastimas, com quanto pesar

podiam, por não entenderem a fundo a causa dos gritos. Queriam elles ir

logo de porta em porta relatar o escandalo; mas as senhoras vexavam-se

de dizer que Thomazia fugira doida pela rua fóra.

A este tempo, a mulher de Innocencio, no 2.º andar da casa do

marceneiro, arquejava anciadissima nos braços de Nicoláo d’Almeida.

--O meu filho!--exclamava ella.--Vae buscar o meu filho, antes que

chegue Innocencio, que póde matar-m’o!... O teu filho, Nicoláo!...

Corre lá... tira-o aos braços da ama... traz-m’o, que se não vês-me

aqui morrer de dôr!

Estes rogos eram desarrasoados, depois d’ella já ter dito que, no

lance da fuga, o menino estava fóra de casa. Além de quê, Nicoláo

acovardava-se de romper a multidão que pejava o pateo de Gervasio, e

ir arrancar uma creança aos braços da ama no seio de numerosa familia.

Absteve-se pois de obedecer ás supplicas de Thomazia, abafou a propria

angustia e disse-lhe:

--Primeiro que tudo, sair d’aqui.

--E o meu filho?--acudiu ella.

--Trata-se da tua segurança agora. Não percamos tudo por amor da

creança...

--E se elle a mata...?

--Não ha ferocidade tamanha em coração de homem nenhum... A occasião

não permitte questões, Thomazia!... É sair... e já pela porta do

quintal que vae dar á cerca de S. Domingos.

N’isto, avisou a filha do marceneiro que ia entrando muita gente para

casa de Gervasio.

--Depressa...--disse Nicoláo, tirando pelo braço a inerte mãe de Pedro.

Minutos depois, subiam as escadas da Esnoga. Ella ia soluçando, e elle

apanhava as lagrimas no lenço.

Ao assomarem debaixo do paredão da Victoria, abraçaram-se em reciproco

impeto, exclamando:

--O nosso filho!

CAPITULO XIX

Argumento

João Ferreira vae na piugada dos fugitivos levando a nova da viuvez a

D. Thomazia. A viuva fica satisfeita ao que parece. Noite de pezames

na casa das Cangostas. Revelações do commendador Batalha, negociante

probo e honesto da Praça do Porto. O que elle diz de Thomazia, e o

que os outros dizem d’elle e da mulher. Sucia de patifes e burros.

Gervasio declara que não tem nada de seu, por temer que a nora o

queira roubar. Suspendem-se-lhe as lagrimas na repreza do odio.

Abraça-se á mulher, quando as visitas o deixam e desafoga a sua dôr

por maneira consternadora. E do mais que consta o capitulo abaixo

declarado.

Meia hora depois, João Ferreira, o devotado marceneiro, chegou esbofado

ao hotel do Pexe, endireitou aos aposentos de Nicoláo d’Almeida; e como

o não visse no quarto, perguntou afflicto ao criado:

--O fidalgo de Caminha?

--Chegou aqui, mandou apparelhar os cavallos e partiu.

--Para onde!

--Não sei.

--Iria para Caminha?

--Não sei.

O artista pediu ao dono do hotel que lhe alugasse cavallo para ir levar

uma urgente noticia ao fidalgo; mandou recado á filha, e partiu na

piugada de Nicoláo, caminho de Villa do Conde.

Ao abrir da manhã, avistou além de Casal de Pedro os dois cavalleiros,

que reconheceu pela libré do lacaio. Nicoláo ouviu brados á

rectaguarda. Parou, deixou avisinhar o cavalleiro que batia as pernas á

espora fita, e reconheceu o marceneiro.

--Que ha?--perguntou Almeida, a distancia.

--Que ha? morreu o senhor Innocencio.

--Como?!--volveu Nicoláo, em quanto a viuva, a tremer sobre as

andilhas, abafa o respirar para não perder uma sillaba das palavras de

João Ferreira.

--Lembra-se vossa excellencia quando a minha filha disse que ia

entrando muita gente para casa da senhora D. Thomazinha?

--Sim.

--Eram negociantes que acompanhavam o senhor Gervasio, onde vinham

dois que desembarcaram e trouxeram a noticia de ter morrido na

França o senhor Innocencio. Assim que vossa excellencia saiu e mais

a senhora, d’ali a pouco, fecharam-se as janellas. Eu disse logo

á minha companheira: «Ó mulher, aquillo é novidade! pois com este

calor fecham já as janellas!»--«Que queres tu? (disse ella). Se te

parece!... Fugiu-lhe a nora, elles não sabem d’ella... estão a gritar,

e fecham as janellas por isso.» «Não (disse eu) ali ha coisa de maior!»

Tirei-me dos meus cuidados e desci á rua. Cheguei-me a uns senhores

que estavam á porta do senhor Gervasio, e perguntei se havia alguma

novidade.--Morreu no Havre (acho que disse isto) o Innocencio de

Barros. N’isto vinha saindo um sujeito, e disse aos que estavam: «Vocês

não sabem? A mulher do Innocencio fugiu esta noute. Vae lá em cima uma

barafunda de gritos que nem o diabo se entende! As velhas estão todas

desmaiadas; o Gervasio está n’um pasmo mortal. Desgraça d’este calibre,

nunca eu vi!»--Puz-me á espreita a ver o mais que diziam uns que vinham

e outros que iam, e contavam a mesma coisa. Só houve um que disse: «Se

querem saber onde está a mulher de Innocencio, procurem-n’a no hotel

do Pexe, que móra lá o brejeiro (vossa excellencia hade perdoar) que

lhe andava por aqui a raspar a asa. Eu bem n’o disse, mas ninguem fez

caso. Melhor fizera eu, se tivesse avisado o Gervasio.» «Não, que a

esse respeito (disse outro d’ali, que por signal era o commendador

Batalha) a esse respeito eu lhe conto: não ha muito que eu estava aqui

na visinhança mettido n’um pateo á meia noute e um quarto, pouco mais

ou menos, e vi botar uma escada de corda a esta janella, e subir um

homem, e metter-se lá para dentro, e mais a corda.»--«E você calou-se

com isso?--Veio d’alli outro.--«Calei-me, respondeu o Batalha, porque

não sou o almotacé das honras alheias; cada qual que guarde a sua casa.»

Eu assim que ouvi isto, meu fidalgo, despedi por ali arriba, que não

sei como não botei os fidalgos pela bocca fóra... Depois, foi um raio

por essa estrada fóra catrapós, que trago aqui o garrano a dar as

ultimas. Aqui tem vossa excellencia o que ha. Sirvo para amigo ou não?

--É um bom, e não sei se o meu unico amigo, senhor Ferreira--disse

Nicoláo, apertando-lhe a mão.

--Não ouviu dizer nada do meu filhinho?--perguntou a viuva.

--Não, minha senhora. Ninguem lá fallou no menino.

--E agora? que fazes, Nicoláo?--tornou ella, voltando-se para o pae de

seu filho.

--Tudo estava salvo, se não foges... murmurou o de Caminha muito

concentrado.

--Mas posso agora ir... acudiu ella.

--Segundo desatino--obstou Nicoláo.--Estás prohibida de deliberar,

minha filha--proseguiu o moço em tom de suave preceito.--Senhor

Ferreira, siga-nos para Villa do Conde: lá pensaremos. Não ha razões

para precipitar qualquer resolução. Estás viuva, estás livre, Thomazia.

O teu filho has de reclamal-o: ninguem tem mais direito do que tu a

possuil-o. Agora estão as leis por ti. Socega. É uma questão de pouco

tempo.

Deixal-a expandir agora a sua silenciosa alegria. Aquillo sim, que

é tragar liberdade a sorvos deliciosos. Se ali não fossem duas

testemunhas dos seus transportes, Thomazia pediria a Nicoláo que a

deixasse desafogar em gritos de exultação bem aconchegada do seio

d’elle. O filhinho é d’ella: disse-lh’o tão sobre o seguro o pae! É

seu: dentro em pouco, poderá despir-lhe o lucto; e, quando elle souber

proferir a palavra _pae_, ninguem lhe dirá _morreu_! Que lhe faz a

ella que a riqueza de Gervasio não seja para seu filho? O pae é tão

rico, é tão brioso, que não ha de querer que o seu menino se appellide

_Barros_ para succeder na herança de algumas duzias de contos!

Fluctuando de idéa em idéa, disputada por uma á alegria da outra, de

vez em quando foge-lhe um suspiro desafogado por entre surrisos que lhe

desbordam do seio.

Nicoláo, porém, vae triste: sente cair-lhe e queimar-lhe sobre o

coração uma torrente de lagrimas; relucta por tirar a consciencia

de sob o peso d’um cadaver. Quer elle imaginar que a sua misteriosa

amargura são parvulesas de poeta, e de amador novel que ainda não

tem abroquellado o peito para rebater os golpes do remorso. Quer e

succumbe. Vae pois mais amargurado do que virera até ao momento em que

lhe disseram: Caminha a passo; não fujas; que o marido d’essa mulher é

morto; e o deshonrado pae que ficou a choral-o é um ancião.

* * * * *

Ai! e como o deploravel velho chorava, apertando ao seio a creancinha,

n’aquella hora!

--Não tens pae nem mãe!--exclamava elle com a eloquencia nascida a

subitas das ingentisssimas agonias.--Como ella te deixou, anjinho,

entregue a uns velhos que não podem viver muito!...

E o commendador Batalha, que não o desamparára em todo o curso da

noite, dizia-lhe:

--Deixal-a ir: nunca este menino saiba que teve tal mãe! E guarde-se

de que essa infame lhe entre a sua porta. Ella hoje é capaz de vir

buscar o filho e chamar-se senhora da fortuna que hade ser d’elle e da

que lhe cabe.

--Ella!--exclamou de salto o velho--ella pôr mão em dinheiro do meu

filho e do meu neto!... Isso é mais facil eu ajuntar o valor de tudo

que tenho n’esta casa, e pôr-lhe o fogo! Sou capaz de o fazer... E de

mais--proseguiu Gervasio subitamente inspirado e mais energico para que

todos ouvissem--não tenho nada de meu. Tudo o que ahi está é os dotes

de meus irmãos e irmãs. Não tenho nada que dar a essa mulher...

O sangue · 第 10 / 13 段