receiosa de inspirar desconfiança da sua indifferença; e, tornando logo
sobre si, emendou:--Se elle quer ir, é por que não tem saudades de
mim... O que eu admiro é que as não tenha de seus paes, que lhe querem
tanto...
--Valha-me Deus!--voltou o compadecido velho.--Olha que estás
enganada; meu filho quer-te bem; mas foi de cá zangado com o diabo dos
Barcellos...
--E eu tenho culpa?!
--Está feito, está feito, menina... aquillo de escreveres ao outro não
foi grande coisa... Um homem, que gosta de uma mulher, não leva a bem
que os outros andem a dizer que ella tambem gostou d’elles. O rapaz
ficou varado, e custou-lhe a engolir o vexame. Fizeste mal, Thomazia;
mas... emfim o passado passado. Agora o que se quer é paciencia, e
esperar que elle venha á razão. A carta que lhe escreveste ainda agora
estará a chegar-lhe á mão. Verás como elle muda de idéas logo que a
receber. E o que tu hasde fazer, filha, é arrumar-lhe já com outra. O
_Silencio_ sae ámanhã para o Rio Grande do Sul e faz escala pelo Rio.
Escreve-lhe hoje que eu vou já fazer o mesmo.
Novas e redobradas maravilhas de espirito! A carta de Thomazia, se
não recendia saudades, ia menos mal engenhada com umas melancolias
queixosas, mas logo dulcificadas por balsamos de resignação.
Gervasio gostou muito, e segunda vez espremeu os lacrimaes da esposa.
Em quanto não chega este mimo d’alma exemplar de paciencia ao Rio,
vejamos as saudades que a primeira carta commove no peito do esposo.
Estava elle conjugando o verbo _parler_, quando lhe entregaram a
correspondencia da Europa. Lida a carta do pae, leu a da mulher, e
releu a do pae. Entristeceu-se e compadeceu-se. Era a primeira vez que
mansamente, e em tom de amorosa, Thomazia se queixava do seu desamor.
Seguiram-se uns pruridos de saudade n’alma, e logo o apparecimento
ideal da formosura de Thomazia, com uns encantos renovados, como se
aquella imagem lhe tivesse esquecido, e renascesse mais bella para lhe
captivar a um tempo a alma e a razão até alli desvairadas.
Por um fio que mudou o designio de ir em cata da experiencia do mundo;
mas poderam muito a retel-o no proposito feito os estudos progressivos
da lingua franceza, e o anceio de aprender tudo quanto havia, sem ler
livros.
Quando recebeu as segundas cartas, quarenta dias depois, tinha já
enfardado para seguir no primeiro vapor inglez. Leu as novas, mas
brandas queixas da esposa; sentiu-se bem com a crença de ser amado, e
projectou desde logo não se demorar mais de trez mezes na sua visita ás
capitaes da Europa.
Foge-nos agora o tempo sem paragem de acontecimentos que prestem á
essencial narrativa. Decorridos quatro mezes, Innocencio José de Barros
estava em Florença, e não estava sósinho. A creatura interessante,
que o acompanhava, era no hotel conhecida por _madame Barros_ e _el
signor de Barros_ gosava creditos de opulento hespanhol. Madame
Barros era franceza, carinhosa, corrigia-lhe com infinita graça os
erros de linguagem, e formava-lhe com os labios nos d’elle frases
puro parisienses. Innocencio estava um homem acceitavel em qualquer
sala e muito conversavel, de fóra parte a compostura pessoal, que
toda se devia ao gosto delicado da franceza em materia de trajar. A
civilisadora d’aquelle bruto em ruins tempos, tinha sido officiala de
alfaiate, e n’outros peores, commensal de estudantes no _quartier
latin_. Mas mr. de Barros não contava isto aos seus conhecidos de
Florença. No dizer e crer d’elle, Jacqueline Beaulieu de Rastignac era
victima de um seductor que a raptou no _chateau_ de seus paes, fidalgos
picardos de primeira raça.
Dias depois, encontrámos Innocencio na Suissa, procurando as reliquias
da casa de João Jacques Rousseau em Genebra. Quem metteria no cerebro
d’aquelle homem um desejo tão significativo de craneo cultivado? Fôra a
descendente dos fidalgos picardos. Jacqueline tinha ouvido discutir o
filosofo nas palestras litterarias dos seus commensaes, antes da quarta
garrafa de Bordeaux.
Por maneira que, n’este saltar de terra em terra, Innocencio não
recebia cartas da esposa nem do pae. Umas estavam retidas em Pariz,
outras em Bruxellas, outras em Milão, outras em Veneza.
Se elle houvesse recebido de seu pae uma escripta em abril de 1846, e
retida em Londres, onde nunca estivera, encontraria a circumstanciada
noticia do que vae contar-se no seguinte capitulo.
CAPITULO XVI
Argumento
Coisas serias. Agonias moraes misturadas com as do enjôo, por causa
da dualidade entumescente identificada á corporatura interna tendente
a distender as circumferencias objectivas da pessoa retró declarada.
Aggrava-se a seriedade do capitulo, pelas sobreditas razões. Prova-se
que o enfanticidio inculca o nobre sentimento da vergonha do mundo, e
que o mundo é injusto com as mães criminosas. Dá-se um premio a quem
entender Thomazia, e outro a quem explicar o reviramento espiritual
de Innocencio. Narra-se o encontro d’elle com Jacqueline Beaulieu de
Rastignac. Como ella era velhaca. Pavores na casa das Cangostas, onde
não apparecia carta de Innocencio. Thomazia dá pulos de contente,
sem embargo da duplicidade grave da sua consubstanciação, fallando
delicadamente. Descortinam pesquizas a lura do amante embebido em
filtros da franceza. A perfida joga-lhe duas ironias, e prega-lhe nas
faces dois beijos fementidos, coisa piedosa de contar-se.
Que atormentada alma a de Thomazia!
Que peleja entre a idéa de matar-se e a de perder o homem que lhe era
toda a sua vida!
Matar-se! Que fraqueza tão incongruente com a robustez da culpa!
Então o vicio não quebra e anniquilla os impulsos da vergonha que
atiram a mulher aos braços da morte voluntaria!?
Ha coragem para o suicidio, quando não houve força para resistir ao
crime?
Theses para fôlegos grandes.
Vamos ao caso; e o leitor, se me quer honrar com a sua collaboração,
moralise.
Assim que Thomazia teve razão efficaz para se considerar mãe, caiu em
joelhos aos pés de Nicoláo d’Almeida supplicando-lhe que a livrasse de
tão clara prova do seu crime.
Nicoláo levantou-a nos braços convulsos de meiguice, e deixou fallar o
coração:
--Estás salva; foge comigo!
E ella, cobrindo o rosto com as mãos, exclamou suffocada pelo medo de
ser ouvida:
--Oh! que vergonha! que perdida me vejo!... Não me digas que fuja,
porque eu nunca pensei em poder dar semelhante passo. Ó Nicoláo, eu o
que te peço é... não sei dizer-t’o... não posso, que me faz horror esta
idéa...
--Adivinho-te--interrompeu elle com amargura--e não te posso crer?...
Tu querias matar o meu filho?
Thomazia arquejava sem ousar responder.
--Pedes-me a mim que seja eu o algoz do meu filho, de um filho teu,
querida da minha alma?... Cuidas que te hade pezar menos o remorso de
matricida que a vergonha da fuga! Onde está o teu amor e o teu coração,
filha!
--Mas se elle vier...?--atalhou ella.
--Teu marido?
--Sim.
--Não te encontrará; por que elle nunca mais ha de ver-te, nunca mais
ha de sentir a tua respiração, ouviste? Isto é infernal!--disse elle
com desesperada concentração--pois esta mulher ainda quer parecer pura
aos olhos de tal homem!... Então que sou eu? que poder tenho na tua
vida?
Thomazia punha as mãos, e clamava:
--Perdoa-me! perdoa-me! que eu... estou doida!... não sei, não sei
o que hei de fazer... Olha, Nicoláo, eu queria vêr-me livre d’este
apêrto... Isto não póde ser! Fugir, meu Deus? que dirão meus padrinhos,
que me amavam tanto!... que dirá toda a gente...? Jesus, valei-me!...
Meu amor!--proseguiu ella acarinhando-o.--Nós não precisamos de
filhos para ser felizes, pois não? Que tinha que me livrasses d’esta
afflicção, dando-me qualquer coisa... Eu sei que ha meios de se
conseguir, se tu quizeres. Isto por ora não é nada que possa sentir
dôres, pois não? Então que tem que eu possa ser tua, sem me perder de
todo, sem causar esta vergonha a meus sogros que são uns santos...
--Mas...--obviou Nicoláo.--Ainda que elles te vejam assim e saibam o
teu estado, não cuidam que és mãe de um neto d’elles...? Por ventura
sabiam elles o divorcio occulto em que tu vivias ha mezes com teu
marido?
--Não sei se o sabem; mas creio que não...
--Então?
--E elle? quando o pae lh’o mandar dizer?
Nicoláo não achou redarguição rasoavel.
--Vês?--sobreveiu Thomazia.--Vês? não tens que responder-me.
--Tenho!--acudiu elle.--Foge! que te hei de eu mais dizer, minha filha!
eu, que te amo tanto, não sei, não posso valer-te de outro modo...
--Pois, sim--tornou ella mansamente contendo-lhe os transportes
perigosos, no silencio da noite--pois, sim; esperemos... quando eu
já não puder evitar a desgraça... quando vir que sou sem remedio
descoberta e perdida, então fugirei para ti...
--Mas que importa, que lucras em esperar a desgraça extrema?!...
--Póde ser que isto não vá ao fim... que Deus escute os meus rogos... e
que eu me veja livre, antes que ninguem desconfie.
* * * * *
Nicoláo d’Almeida saíu tão affligido quanto espantado da reluctancia
de Thomazia. Não a entendia; porque não pudera ainda confrontar duas
mulheres amadas, quatro, vinte mulheres sublimes, infames, castas no
vicio, almas dissolutas em envolucro immaculado, esmagando a força
da consciencia propria e acovardadas deante da maledicencia de uma
visinha; arrojando-se affrontadoras contra a sociedade e succumbindo
imbelles e pueris á condemnação de si mesmas; temendo a justiça do
inferno nas venialidades e desprezando o juizo da providencia nos
crimes enormes; rindo no cairel do abismo e chorando se lhe empecem
dissabores passageiros.
Que tinha Thomazia de tudo isto? A consciencia inconciliavel com os
delictos do coração; a fraqueza do raciocinio egual á imbecilidade com
que prevaricára. Não seria antes aquillo tudo uma estupidez congenial?
Que hade a gente pensar de um opprobrio que se mostra e não se esconde,
justamente para que o não vejam? Emfim, Thomazia era o que ella de si
diz no dialogo. Explicou-se cabalmente. Fugir seria dar o testemunho
da sua deshonra; mas ficar, para quê? Esperava que os signaes da
maternidade se desvanecessem? Era isso. Então que era ella afinal?
Mulher.
* * * * *
Innocencio escreveu de Plymouth á familia, annunciando a sua chegada;
mandava que lhe dirigissem a primeira carta para Londres, tendo, como
vimos, indicado Veneza, quando saia do Rio. E, quando o pae lhe dizia
que mandasse receber em Veneza uma carta, já elle estava em Pariz,
esquecido ou descuidado da que devia estar em Londres. Como aquella
cabeça se refez! Trinta contos de réis e uma sêde febril de gosar
deram-lhe os modos e espiritos de um rapaz creado em delicias, amante
do bello, inquieto, nervoso, sempre faminto e sempre resaciado como os
grandes genios!
Não tem historia o encontro e enlace com Jacqueline Beaulieu de
Rastignac em Pariz. É coisa simplicissima e trivial. A neta dos
gentis-homens picardos tinha uma balança na mão, e pesava dois
corações: um de quem quer que fosse; o outro do illustre portuguez
viajante. Ora, o portuguez, como visse ouro fio e indecisas as conchas,
atirou com alguns punhados de ouro á sua, e fez levantar a outra á cara
do concorrente. Porém, constou ao vencedor que o rival buscava azo de o
desfeitear. Innocencio conservava ainda a virtude da prudencia: saiu de
Pariz para a Belgica, e d’aqui para Italia.
De feição que por lá andavam perdidas as cartas da familia, e elle
d’essa perda de todo ponto resignado.
Averiguemos agora o desvio que levaram as cartas de Innocencio para
a sua familia. Gervasio, desde que o filho chegou á Europa, uma tão
sómente recebeu, sendo pelo menos seis, ainda assim, as que o distraido
viajante lhe escreveu no espaço de trez mezes de delirante amor.
A franceza sabia que mr. de Barros era casado. Referira-lhe elle
expansivamente sua vida, fazendo-se lastimar como forçado da galé de
um matrimonio constrangido. Confidenciou-lhe o divorcio em que vivia
sob as mesmas telhas, com a odiada consorte, dando como impracticavel o
reconciliarem-se.
Entrou-se a ociosa _lorette_ da curiosidade, até certo ponto util,
de devassar a correspondencia do amante. N’este delicto, a seu ver
innocente, lhe ia a ella muito: se o divorcio era sincero, cumpria-lhe
reter as bridas ao fausto e ao gosto de ver terras, acommodando-se
á vontade do homem para lhe não incutir suspeitas de o querer
desbalisar e arruinar com o vulgarissimo desplante das suas collegas;
se o divorcio eram meros arrufos de passagem, urgia-lhe estar de
sobre-rolda com a mercadoria do seu coração para não perder o lanço
de leiloal-a a tempo. Além d’isto, convinha-lhe outro sim inferir da
correspondencia a verdade das jactancias de Innocencio quanto a bens de
fortuna. Cedulas, luizes e libras tinha elle a rôdo, e bem lh’os via
ella; mas carecia de certificar-se da abundancia do manancial.
Gizado o plano, executou-o no primeiro ensejo.
Comprado pela franceza, o criado, portador da carta, entregou-lh’a.
Na do pae ia incluida outra de cincoenta palavras para a esposa. Sem
impedimento, porém, da sovinaria dos vocabulos, vinte d’elles pelo
menos eram de esposo que fingia ter saudades e tal qual pesar de as não
ter sentido ha mais tempo.
«Lá para o futuro--escrevia elle a Thomazia--hei de tornar a estas
terras e tu has de vir tambem para vêr o que é bonito. Se não fossem as
saudades que tenho de ti, andava contente por cá.»
A franceza surriu-se perversamente e disse entre si:
--Olha que divorcio!... Que lérias me tem cantado o tal sujeito!... Eu
me acautelarei...
A carta a Gervasio era mais extensa, e nada explicava respeito
a riqueza; todavia, como não solicitava nova remessa, nem dava
explicações do capital esbanjado, sobravam provas de haver ainda
bastante que dispender com certa independencia do pae.
Jacqueline queimou as cartas, e não deixou sair ao rosto denuncia de
estar vigilante sobre as acções do fementido Innocencio.
As subsequentes cartas, escriptas de Italia, seguiram egual fado.
Observou, porém, a franceza que as frases suaves de mr. de Barros para
a esposa iam esfriando á medida que os dias e as noites discorriam,
revesadas por delicias da natureza e da arte, entre os dois camaradas
de viagem. Isto dava-lhe a ella uma idéa vantajosa da sua pessoa e bem
fundada soberba de ir conquistando uma alma menos má.
Quem passava dias amargosissimos era Gervasio José de Barros e sua
mulher.
Trez mezes sem carta do filho, nem novas indirectas da existencia
d’elle!
Thomazia escondia-se da sogra por não poder acompanhal-a nas lagrimas,
nem estar sinceramente ajoelhada deante do oratorio a requerer a divina
protecção para seu marido.
--O meu filho morreu!--exclamava a consternada velha D. Thomazia,
abraçando-se á afilhada--morreu, minha menina!... Se estivesse vivo,
quando teu padrinho lhe disse que tu estavas no teu quinto mez, o meu
filho vinha logo para casa!...
E voltava-se outra vez para Deus, cuidando que a nora cooperava nos
seus afflictivos rogos, ao tempo que a esposa do chorado Innocencio
ia esconder-se no seu quarto para beber a tragos as delicias de
imaginar-se viuva e desapressada das angustias do medo e da vergonha.
Não ha ahi dizer o desafogo d’aquelle pleito da supposta viuva! Cada
vez que o sogro vinha da rua, suado de andar pelos consulados a
solicitar de diversos paizes novas do filho morto ou vivo, Thomazia
ageitava o mais amargurado rosto que podia, e, saindo ao velho, de
braços estendidos e respiradouros arquejantes, perguntava-lhe que novas
tinha.
Gervasio rompia em pranto desfeito, esmurraçava os pulsos um contra
outro na impaciencia da sua dôr, e gemia:
--Não sei nada!... Estás sem marido, e eu sem o meu filho! Estou
resolvido a ir eu mesmo em cata d’elle por esse mundo fóra!
Acudia então a esposa, tirando do peito gritos pavorosos:
--Não te deixo ir, meu Gervasio, não! Se vaes, por lá acabas tambem,
marido do meu coração! Se elle vive, Deus o encaminhará; se morreu, não
ha remedio, e cedo ou tarde nos virá a certeza para lhe cuidarmos da
alma!...
Sobrevieram no entanto aggravantes noticias de muitos naufragios, e
desastres nos caminhos de ferro, durante os trez mezes ultimos. Nada
mais possivel que ser Innocencio uma das obscuras victimas contadas ás
centenas, sem ter deixado signal nem documento da sua naturalidade para
os competentes avisos.
Todos aceitavam, ainda assim, o caso funesto como supposição; salvo
Thomazia, que o defendia como coisa certa, quando Nicoláo d’Almeida
lh’o impugnava, imaginando o conflicto de apparecer-lhe o marido
inesperadamente em casa.
As averiguações do ministro dos negocios estrangeiros conseguiram,
depois de um mez de inculcas, bem dirigidas pelo representante
portuguez em Pariz, descobrir a residencia de um chavalier de Barros
em Milão. Para esta cidade enviou o ministro portuguez as necessarias
perguntas, e colheu que o hespanhol chamado Barros já tinha saido
com passaporte em direcção á Sardenha. Proseguiu o activo indagador
na piugada do inquieto viajante, e vingou fazer chegar a Turim uma
participação, informando Innocencio José de Barros do cuidado em que
estavam seus paes em Portugal com a falta de suas noticias. Esta
participação, recebida pela franceza, não chegou a vêl-a Innocencio,
nem duas cartas de Gervasio que lhe iam inclusas, uma encontrada em
Londres, outra dirigida a Pariz. Mademoiselle Jacqueline Beaulieu
de Rastignac respondeu incontinente que _as suas cartas se tinham
desencaminhado, mas que ia immediatamente assegurar a seus paes que
vivia e tinha saude_. Escreveu e assignou: _Innocencio José de Barros._
Espantou-se o homem quando voltou a casa, que a franceza lhe fizesse
esta pergunta n’um tom de chança:
--Diz-me cá: estás bem certo de que vivias com tua mulher tão
castamente como se conta de certos santos casados com certas santas?
--Isso que quer dizer?
--Quer dizer o que as palavras explicam--tornou ella modificando para
melhor o modo zombeteiro.
--Torna a perguntar--volveu elle.
--Tua mulher, se hoje tivesse um filho...?
--O quê?!--atalhou Innocencio, fitando-a de frecha com os olhos
coruscantes.
--O filho podia chamar-te pae?
--Não!--exclamou elle.--E por que perguntas isso?
--Ahi estás tu fóra de ti!--acudiu a franceza, tão outra e sisuda
de semblante, que parecia não ter tido mais intenção que dizer uma
tolice.--Quiz experimentar, se é certo o que me tens dito. Agora
acredito que fallas verdade, meu Barros.
E, com dois beijos calorosos, renasceram nas faces de Innocencio as
boas côres, esmaecidas n’um instante de pundonor insurgido.
CAPITULO XVII
Argumento
Apanha a franceza um murro portuguez de lei. O esmurraçador vae
comprar leques, e quando volta não acha a creatura socada. Dão-lhe uma
carta, em que elle aprende miudezas do fenomeno da gestação, em que
o pae o considera agente de primeira ordem. Fervem-lhe os miolos, e
corre a vingar-se: Adoece no Havre de febre cerebral, e está perigoso.
Chegam noticias ao Porto. Scenas pateticas. Thomazia, no auge da
atarantação, perde os sentidos, e dá á luz um menino de oito mezes,
em resultado do susto, que costuma aperfeiçoar obstetricamente e
fenomenalmente estas coisas. Dois infernos ambos elles mais peores,
como dizia o negro dos dois senhores que tinha tido.
Quinze dias corridos, um viajante inglez que estadeava equipagens e
librés, viu a franceza no theatro Scala de Milão, e perguntou entre
dois bocejos quem era aquella creatura de olhos piscos e sobrancelha
negra.
Deteve-se a resposta em quanto os informadores desvelados andaram
escudrinhando nos hoteis a procedencia da ditosa que se endeusára a um
raio visual do ricasso bretão.
Innocencio dera trez vezes de olhos com o binoculo do inglez apontado
ao seu camarote, e raciocinou que não era elle de si objecto para
attenções tão pertinazes. Antes do acto 3.º convidou a franceza a sair;
mas a rebelde rejeitou o convite, desculpando-se com o amor da musica.
Ia cantar a Ferlotti a romanza da Favorita: _Ó mio Fernando_. O galã
portuense trincou o beiço com desamor e raiva tal, que apertaria mais
brando o dente iracundo no coração de Jacqueline.
Concluida a opera, sairam amuados e desavieram-se em casa pela primeira
vez. A franceza descomediu-se em remoques e desabrimentos. Innocencio
amava das entranhas aquella mulher que lh’as cancerára. Do muito amar
ao injuriar por ciumes, medeia meio passo: o bater está linhas adeante.
A franceza apanhou um revez de mão portuense que corresponde ao murro
de um ciclope. Empinou-se a parisiense deante do homem da rua das
Cangostas, e disse-lhe:
--Ámanhã pagarei as despezas que fizer n’este hotel.
Innocencio caiu em si, e logo em joelhos, exclamando:
--Tem piedade de mim, que estou doido de ciumes. Amo-te! amo-te!
Ouve-me, Jacqueline! se me não ouves, mato-te e mato-me!
Esta concisão denotava tenções sinistras. A franceza teve-lhe medo,
e aquietou-o. Mas não chorou, como as mulheres ultrajadas, quando
perdoam. Devia de ter levado outros murros aquella dama, ou a traça da
vingança estava armada.
Quando Innocencio foi para o almoço com a alma e estomago livres de
peso, já a risonha e indulgente commensal tinha um misterioso annuncio
da criada que a servia. Fallára-lhe de um conde de certo condado
inglez, que se pronunciava com cinco _ff_, incompativeis com a doce
lingua millaneza. E mais nada podera dizer-lhe.
Innocencio não se desabeirou n’aquelle dia da franceza. Agora a estava
elle amando em tresdobro. Dizia-lhe coisas que não pareciam suas.
Passava de tolo a eloquente, como se Amor e Minerva, n’aquelle dia, se
revezassem a senhorear-lhe o espirito que até então andára sempre nas
divindades da ralé celestial.
E ella voltava-lhe em surrisos as caricias, e dissimulava o enojo
impaciente com as momices do coração magoado.
Sobre tarde, Innocencio deteve-se com o mestre de dança, e Jacqueline
com a criada.
Coração, figados, baço, e tudo de Innocencio funccionava normalmente no
dia seguinte.
A franceza pediu-lhe um leque de sandalo. Saiu o jubiloso amante a
comprar leques de varios feitios.
Voltou com o folego apressurado. Entrou á ante-camara do seu quarto.
Não viu o seu enlevo d’olhos. Procurou-a entre os cortinados do leito.
Foi á sala do piano. Interrogou os criados. Ninguem lhe daria novas, se
a criada do toucador da madame Barros, lhe não dissesse:
--Madame saiu, levou seus bahús, e deixou esta carta para vossa
excellencia.
A carta, envolucro de outra, dizia:
_Sem tempo para mais, adeus. Murros vá dal-os em sua mulher. E é tempo
de ir. A carta inclusa dá-lhe uma noticia que o deve apressar a ir
receber nos braços o pimpolho. Se é verdade o que me disse da sua casta
união, tanto peor para o senhor. Lá se avenham.--Jacqueline B. de
Rastignac._
Leu Innocencio a carta do pae, que resava assim:
«Vou-te dar uma grande alegria. Como dizes que vaes para Veneza,
mando-te para lá esta carta, por via do vice-consul italiano. Saberás
que tua mulher nos deu o maior cuidado, e pensámos que ella tinha
grande mal interior; por que andava muito amarella e chupada da
cara que parecia uma castanha sêcca. A gente perguntava-lhe o que
ella tinha, e nada de novo. Queixava-se de enxaquecas, e comia como
um passarinho. Depois passou-lhe aquelle fastio e pegou a comer
melhor, mas andava triste como a noite, sempre a matutar e a chorar
pelos cantos. Até que um dia, tua mãe veio ter comigo e disse-me:--Ó
Gervasio, eu desconfio que ella não sabe o que tem; mas olha que o meu
olho não mente: a rapariga traz menino na géra. Repara-lhe p’ráquelles
encontros!--Tu que me dizes, mulher? Isso era uma felicidade para
todos! O Innocencio se souber isso vem logo p’ra casa, não te parece?
«Vae ella, depois, foi ter-se com tua mulher, é disse-lhe a sua
desconfiança. Tua esposa começou a negar, e dar as suas razões; mas
tua mãe protestou que não se enganava, e para o que mandou chamar o
mestre da escola de cirurgia, o Sinval, que a examinou e disse que
estava de cinco ou seis mezes. De cinco lhe disse eu que não podia
ser, porque tu tinhas ido para o Pará ha seis. Então é de seis, disse
elle; mas digam-lhe que não ande tão espartilhada.
«A gente ficou alegre como tu podes imaginar; mas ella sempre triste,
que não te digo nada!! Acho que está com medo de morrer, e não ha
forças que lhe dêem animo. De maneira, que cá pelas nossas contas
d’aqui a quatro mezes deve apparecer o que fôr: oxalá que seja um
rapazito.