moida, Gervasio animou-se a intervalar o odio á truculencia de Herodes
com alguma golosina. Discutiram pacificamente Gervasio e a mulher se
devia ser anho ou perua a victima immolada. O cordeiro era os amores,
a sensualidade gastrica do negociante, que se abonava com o exemplo do
divino Mestre e dos apostolos.
Amanharam as irmãs o anho, e deram com elle, loirejando sobre almofada
de açafroado arroz, no camarote de terceira ordem.
Então succederam as coisas referidas na _Introducção_, mas é urgente
complanar uma lacuna que se deixou para esta opportunidade.
A esposa de Innocencio acceitou com bastante pejo a porção do anho que
seu sogro lhe ministrou. Segredava-lhe certo instincto que a usança
de merendar tão succosas vitualhas n’um camarote, implicava desaire
de senhoras e risota de alguns dandis que zombeteavam dos innocentes
prazeres de seus paes.
Não obstante, acceitou por condescendencia, pedindo a um irmão do sogro
que cortasse da pá do cordeirinho offerecida um pequeno bocado.
O velho, como não atinasse a cortar com a faca pelas fibras
ligamentosas da articulação, revirou os punhos do casaco, e forcejou
por desnocar a pulso um osso do outro. No acto de estalarem as
cartilagens, saltou-lhe da mão a pá, e caiu por cima do parapeito do
camarote á platéa.
As senhoras encolheram-se de puro envergonhadas, e Thomazinha chegou a
expedir um ai. Gervasio, porém, não deu valor ao successo, e proseguiu
lascando a caveira do anho, em cata dos miolos. Esta suada operação
estava Gervasio victoriando, quando Antonio Joaquim, Nicoláo de Almeida
e eu assomamos no limiar do camarote.
CAPITULO XIII
Argumento
A mulher fatal. Thomazia cantada nas margens do Mondego. O que
Nicoláo era capaz de fazer e o que fez. O juizo do meu bom amigo
Antonio Joaquim. Descreve-se o fidalgo de Caminha, e diz-se que
ella o tinha de memoria pelos motivos que no capitulo se relatam. O
que Thomazia fez ao outro dia. Começa o namoro como se estivesse a
fazer crise. Anceia um confidente que o diabo lhe depara na pessoa
de um marceneiro. Addição d’um aguadeiro á confidencia. Topicos da
primeira carta. O singelo estilo que inspira um amor sincero. Ao fim
de sete cartas, é dispensado o gallego e substituido por escada mais
intelligente. Chore quem poder.
Era pois aquella a mulher fatal que Nicoláo d’Almeida tinha visto anno
e meio antes em Caminha.
Ella alli estava, a vaga imagem que a miudo lhe alumiava os sonhos e
perturbára as vigilias. Ali estava a _Estella_ que lhe tinha sido o
titulo e sagração de muitas poesias que os seus amigos liamos admirados
da frugalidade com que aquelle espirito se alimentava. Este ideal da
mulher foi o do meu tempo em Coimbra: o ideal de hoje em dia não me
lembro de o ter visto maltrapido com as meias e capas laceradas do meu
tempo. Urgia que os academicos se anafassem e lustrassem a grenha como
cosinheira em domingo, para que as ideas de Goettingue, entrajadas de
lantejoulas, se enamorassem de rapazes tão de sua feição e peso.
Como disse, o ideal de qualquer rapaz então era a mulher. _Estella_
todos tinham uma; porém, tão intangivel e fugidiça como a de Nicoláo de
Almeida, não sei que outro poeta a endeusasse com mais arrobado lirismo.
Eil-a pois a mulher fatal!
O fidalgo de Monção, no dia seguinte, disse a Antonio Joaquim:
--Que julgas tu que sou capaz de fazer por aquella mulher?
--Asneiras superiores ao meu calculo--respondeu o meu discreto amigo.
--Arrebatal-a, e estrangulal-a, se me perseguirem e eu me vir em risco
de a perder.
--Vês?--tornou Antonio--ahi está uma parvoiçada a que não chegava o
arrojo da minha imaginação! Arrebatal-a e estrangulal-a!... Não és
rapaz de meias medidas. Faltou-te, no programma, enterral-a. É preciso
enterral-a; e depois uma sangoeira de vampiro. Vaes por noute morta ao
cemiterio e sugas-lhe as arterias.
--Não podes entender-me: és bom rapaz; mas não conheço coração mais
estupido que o teu!--atalhou o academico, com um surriso em que
reçumava o despeito delicado.
--Não é estúpido, quanto cuidas--contradisse gravemente o meu atilado
amigo.--Tem um vicio que vocês alcunham de estupidez: o vicio da
virtude. Condemno com quanta sinceridade posso essa cruel brincadeira
que tu chamas fatalidade. Já me disseste que é casada a mulher.
--Que me faz isso a mim?!--obviou Nicoláo sem tergiversar na pròtervia
da refutação.--Eu sei lá o que é ser casada a mulher onde está uma alma
que me pertence?
--Então a alma da mulher de um tal Innocencio pertence-te?!
--Não zombes!
--Pois tu crês que possa sustentar-se comtigo um dialogo serio? Que
distincções estás ahi talhando entre corpo e alma!... Não me atarantes
com subtilezas. Agacha-te ao raso do meu entendimento. A mulher é
casada ou não?
--É.
--Então, deixa-a; porque não sabes quantas desgraças evitas á mulher
que amas. Deixa-a em virtude do amor que lhe tens.
Nicoláo de Almeida apertou a mão do amigo e despediu-se, concluindo:
--Não vives n’este mundo. Eu, se tivesse mulher e filhos, em vez de
andar semeando moral, estava ao pé dos meus filhos e da minha mulher.
Adeus.
Alludia á situação ridicula de bom esposo e pae, que era já então
Antonio Joaquim.
Thomazia reconheceu no camarote o moço que a seguira e indirectamente
flagellára em Caminha. Não era elle tão pouco assignalado de graças
impressivas que dezoito mezes podessem delir-lhe a imagem.
Pungia-lhe a pennugem do bigode, bem que já tivesse vinte e dois
annos. A magresa realçava-lhe a elegancia. Era pallido, negrejavam-lhe
cabellos e olhos; a pequena bocca, surrindo infantilmente, quando dizia
coisas nada innocentes, entre-mostrava o esmalte da dentadura primorosa.
Mão e pé, bem que eu os tenha em conta de attributos para rir n’um
homem quando se encarecem pela pequeneza, não desdiriam com as fórmas
da mais fidalga constructura de dama. Não sei se D. Thomazia deu tino,
em Caminha, das bonitas extremidades do seu enlevado idolatra; mas já
o leitor sabe que ella distinguira o pequenino pé de João da Costa
Guimarães, de ominosa recordação.
O certo é que se recordou de o ter visto, e recordou-se tambem de ser
aquella uma figura que lhe passava na fantasia, quando se lembrava
das primeiras contendas com seu marido. Não porque a impressão
lhe entalhasse a imagem na retina dos olhos d’alma; senão que, á
semelhança de todas as mulheres, Thomazia comprazia-se de recordar o
primeiro causador dos seus desgostos, com a certeza de que seu marido
não se enganára, considerando-o apaixonado instantaneamente d’ella.
Compensações que aligeiram o pezo da cruz do ciume nos debeis hombros
das esposas innocentes.
Não admira que Thomazia adormecesse de madrugada a ver nas trevas o
reapparecimento do extatico moço de Caminha, e a ouvir-lhe a voz
insinuante e argentina, ao envez da pronuncia gosmenta de seu marido
e parentes. Alvoreceu-lhe, apoz um dormir inquieto, a imagem do sonho
cortado pelo raio de sol que lhe tocou nas palpebras e afugentou o
somno. Levantou-se. Sentiu-se leve, nova, reflorecida ao calor da
juventude, desejosa de se mirar no espelho, a cuidar que via flores,
a imaginar-se solteira, desligada de juramentos que a maneatavam, a
conhecer que a alma batia as azas para voar longe, a gosar-se do prazer
de estar sosinha, de scismar sosinha, de não ter ninguem que soubesse
traduzir-lhe nos olhos o doce alvoroço do coração.
--Tanta coisa!--diz a leitora esquecida do que sentiu, ou ignorante do
que ainda hade sentir.
E o mais? e a satisfação com que ella depois se ria, com as trez
velhas, da graça que teve o rapaz de levar o osso! E a delicadeza de
offerecer o carroção! E a generosidade que elle teve de dar cinco
cruzados novos ao carreiro!
Este ultimo heroismo foi citado com superior enthusiasmo por D.
Florencia. O carreiro tinha revelado a Gervasio a sua fortuna, quando o
commerciante lhe quiz pagar.
E, depois, Thomazia deu tamanha elasticidade ao caso que não teve
aquella imaginosa familia outro assumpto n’aquelle dia; salvo, quando a
mãe de Innocencio expedia um suspiro, e murmurava:
--Muito se riria o nosso menino, se cá estivesse! Meu pobre filho! onde
estarás tu agora!...
As duas tias concentravam-se a resar para que Deus levasse o sobrinho
a porto de salvamento, e a esposa quedava-se calada e pensativa a
dialogar comsigo sobre o caso graciosissimo do osso.
No fim da tarde, Thomazia e a sogra, ao despegar da agulha, foram á
janella. A esposa de Innocencio olhou sem intenção para a loja de um
enxabellador que morava defronte, e reconheceu o rapaz de Caminha.
Nicoláo de Almeida examinava, escolhia e comprava cadeiras, commodas,
canapés, o que se lhe offerecia. O que elle comprava melhor, e por alto
preço, era o tempo que se detinha, á espera da incerta occasião de ver
Thomazia.
E ella, quando o avistou na quasi escuridade da loja, não disse nada á
sogra: perfilou o rosto voltado para a velha, e poz os olhos de envez
para elle.
Nicoláo quedou-se contemplativo. O marceneiro observava o enlevo, e,
contente do freguez, tinha vontade de ser interrogado ácerca da sua
visinha para ser prestavel com as suas informações. Já o bacharel sabia
o essencial. Nada perguntava: seria enxovalhar o assumpto rebaixal-o a
tal interlocutor.
No entanto, a velha saiu da janella, e a nova, retraindo-se um passo,
ficou de modo que era vista, entre as duas portadas que iam fechar-se.
Nicoláo esperou que ella desapparecesse detraz dos vidros e saiu.
--Careço de um confidente--disse elle de si comsigo no dia
immediato.--Arrisco muito; mas, se o não tiver, posso perder tudo. É
questão de vida ou morte para mim o desenlace d’isto. Dou punhados
de ouro para que ella saiba que eu heide matar-me na hora em que me
disser que me não ama. Onde irei comprar um medianeiro?
Chegava o marceneiro ao hotel do Pexe, na Feira das Caixas, com
gallegos carregados de mobilia. Nicoláo não sabia ainda para que
comprára cadeiras e canapés, tremós e commodas. Mandou arrimar as
alfaias no pateo do hotel. Chamou ao seu quarto o artista, pagou sem
glosar a somma das parcellas, entrou em conversação com o homem, e
abriu-lhe margem a contar-lhe sua vida. João Ferreira tinha duas
filhas casadas com officiaes do seu officio, e a terceira estava para
casar com um regente de um cartorio de escrivão de direito. O regente
queria que elle dotasse a filha com uma mobilia completa de sala e dois
quartos.
Lastimava-se o pae de não poder dispender-se em mais duzentos mil réis,
importancia dos trastes. Nicoláo de Almeida poz-lhe a mão no hombro e
disse:
--Senhor João Ferreira, a mobilia de sua filha está no pateo d’este
hotel. Faço-lhe presente d’ella: mande-a buscar, que me dá n’isso muita
satisfação.
--Pois vossa excellencia...--tartamudeou o artista.
--Disse. Mande-a buscar. Se não for bastante; e á vontade do seu futuro
genro, augmente-a por minha conta.
O marceneiro quiz beijar-lhe a mão e abraçar-lhe os joelhos.
--Então vossa excellencia não precisava dos trastes..?--exclamou elle,
fitando-o penetrantemente, como se lhe dissésse: «já entendo...»
--Não: digo-lhe, sem receio de que me denuncie, que não precisava dos
moveis. Fui a sua casa para ver a senhora que móra de fronte...
--A mulher do Barros...--atalhou o artista surrindo--olhe que eu tambem
o desconfiei...Não, que belleza assim!...
Nicoláo carregou sobrôlho á profanação, e João Ferreira estacou,
suspeitando que se adeantára de mais.
--Vocemecê--disse o fidalgo de Caminha reanimando o interlocutor--pode
fazer-me um serviço grande, sem o maior incommodo?
--O que vossa excellencia quizer e eu puder.
--Consegue que algum criado ou criada d’essa senhora lhe entregue uma
carta?
Reflectiu dois segundos o pae da futura esposa do regente de cartorio,
e disse:
--Está vossa excellencia servido. A carta hade entregar-lh’a o
aguadeiro.
--A quem vocemecê dará esta recompensa.--E tirou um guinéo da bolça de
prata.
--Isto dá p’ra dez vezes...--disse o marceneiro alargando as ridentes
bochechas.
--Não, senhor: ordeno que seja a primeira gratificação de quem entregar
a carta.
Estava já escripta. Fôra o dulcissimo lavor e fructo da noite
desvelada. Eram dez paginas em 4.º grande. Uma biographia escripta com
a sublimidade singela que todas as almas percebem, maiormente as almas
amantes ou propensas ao amor.
Ao outro dia, ás dez horas da manhã, D. Thomazia (que presentimento!)
como ouvisse os passos do aguadeiro, saíu ao mainel da escada para lhe
encommendar que comprasse na loja do Antonio das Alminhas uma caixa de
agulhas n.º 7. O gallego sacou de entre o collete e a camisa a carta
embrulhada n’uma gaseta, e entregou-lh’a tregeitando com os olhos o
misterio clandestino do acto.
--Que é?!--disse a senhora.
O aguadeiro sacudiu a cabeça, fechando um olho, como quem diz que não
eram necessarias nem opportunas as explicações.
Thomazia, com as pernas tremulas e o coração em saltos, fechou-se no
seu quarto e leu.
Topicos essenciaes da carta: A sêde d’amor que abrasava desde a
primeira mocidade a alma de um rapaz para quem todas as mulheres
conhecidas se figuravam o ludibrio das suas esperanças. O encontro
nas ribas do mar, em Caminha. A saudade e a desesperação de a tornar
a ver. As noites solitarias de Coimbra e as lagrimas com que elle
pedia a Deus a segunda visão do anjo, embora o fulminasse a desgraça
no restante da sua vida. A reapparição no theatro. O recrudescer do
amor com o proposito inabalavel de se matar, e esperal-a no céo. As
mais pungitivas paginas, porém, eram as da narrativa da sua mocidade,
sem pae nem mãe aos seis annos, rico dos bens inuteis d’este mundo,
e mendigo dos carinhos de uma alma que lhe ensinasse os nomes e
sentimentos sagrados da familia, as ternuras da intimidade. Aqui,
Thomazia não teve as lagrimas. Compreendeu aquella orfandade, e chorou
por seus paes, como se dias antes tivesse visto sair os dois esquifes.
O abalo fôra profundo. Amava-o. Desde que alimpou os olhos para poder
ler a ultima pagina da carta, amava-o, renascia, via ali um amigo sem
ver ainda o amante, não sabia nem queria entender a sua posição social,
não tinha marido nem deveres: era mulher, era uma alma sósinha, a quem
tanto montava alar-se para o céo como descer ao abismo.
Não fio que estas frases lhe adejassem no espirito; mas o conceito,
a interpretação do seu delicioso devaneio, depois de relida a carta,
cifrava n’aquillo.
Respondeu sem medo nem consultar vocabularios. Poucas linhas, e essas,
por milagre do amor, quasi correctas. «Vivo muito infeliz--escrevia
ella.--Não tenho alegria nenhuma, senão quando leio esta carta que me
faz chorar. Não ter pae nem mãe é a maior pobreza d’este mundo. Agora é
que eu sei quanto perdi, por que as suas palavras o explicam de um modo
tão verdadeiro, como eu poderia dizer, se soubesse escrever. Peço-lhe
que me continue a dar o prazer das suas cartas, em quanto alguma
desgraça me não privar de as receber. Sou tão sua amiga como uma irmã
que não tem mais ninguem. Seja meu amigo.»
Passados quinze dias, Gervasio José de Barros e um irmão com as duas
irmãs foram fazer a vindima ás quintas do Pinhão. Motivou uma leve
enfermidade da velha D. Thomazia, ficar no Porto o restante da familia.
N’este tempo, o aguadeiro sentira sete vezes a satisfação de trocar uma
carta por outra. Entreviam-se a miudo, sem escandalo dos visinhos. A
residencia de Nicoláo, durante o dia, era no segundo andar da casa do
marceneiro. João Ferreira pagava exuberantemente a dadiva dos trastes,
e outras que tornavam a noiva do cartorario cada dia mais rica de
seducções á cobiça do seu amado.
O jantar do hospede vinha do hotel com o resguardo conveniente para não
suggerir desconfianças. O marceneiro e a filha engordavam a ôlho, de
feição que os seios da moça, já de seu natural entumecidos, ganhavam
volume que promettia uma ubérrima creadora de filhos, e regalo de
lubricos devaneios ao amor licito do regente do tabellionato.
De noite, Nicoláo de Almeida saia embuçado, e recolhia-se ao hotel de
Pexe a inventariar os jubilos do dia.
Mas succedeu uma vez que o inventariante dos jubilos diurnos em vez
de encaminhar-se para o hotel, ao dar da meia noite, cingiu-se com
a parede da casa fronteira, esperou minutos, abriu-se subtilmente a
janella do 1.º andar, içou-se sem leve rumor uma corda por uma guita, e
um homem pela corda, e a corda seguiu o homem, e fechou-se a janella.
O marceneiro fechou então vagarosamente a sua porta, esfregou as mãos
satisfatoriamente e disse:
--Foi muito bem!
Era o jubilo artistico de ter tecido a corda e entravado os ganchos, e
disposto as travessas em boas proporções, que foi um gosto ver Nicoláo
de Almeida marinhar á janella sem dar de si, nem levemente torcer-se a
escada.
CAPITULO XIV
Argumento
Invocação ao anjo do pudor.
Anjo do pudor, embrulha a cabeça nas tuas azas!
Libra-te nas regiões ethéreas onde ainda existe a virtude dos passaros.
Não vás, no tribunal da justiça divina, offerecer libello contra a
peccadora da rua das Cangostas.
Anjo do pudor, não te vingues n’ella das desfeitas que recebes desde
Bethsabé.
Muitas sei eu que te esbofetearam, ó anjo, e praticam a villanaz
hipocrisia de nos querer embair que ainda estás com ellas.
Vae dizer ao supremo juiz que ponha os olhos da sua ira nas que
farçanteam no tablado do mundo cobrindo a nudez das Faustinas com a
tunica pudica das Porcias.
Repara, ó doce amigo das santas--nem Cortonas, nem Egipciacas, nem
Magdalenas--repara, anjo do pudor, que umas de quem tu fugiste, mais
enjoado que lagrimoso, dispensam a tua fiscalisação, e cospem injurias
n’outras, cujas faces, tu, uma vez por outra, ainda aqueces.
E tu consentes que ellas blasonem e digam que és tu quem lhes volta o
rosto das que desamparaste.
Não refines o travor do calix a umas que deram o coração ao remorso,
depois que as tuas alegrias se lhes desluziram da consciencia.
Vae, anjo do pudor, embióca-te nas tuas azas, diz ás matronas honestas
do reino celestial que não contem com Thomazia; mas não vás tu
fazer grandes escarcéos lá em cima, que ha de ahi estar muita alma
circumspecta que te diga: «Ora vamos! não berres tanto, que estão aqui
muitas senhoras a quem estás offendendo por tabella.»
E mais te digo, anjo do meu maior acatamento, que não ha de ti cá em
baixo a necessidade que presumpçosamente cuidas.
A tua fugida não faz revoluções nem abala os eixos sociaes. Ninguem
dá tento da tua ausencia, quando saes de uma casa com a cara velada,
e ao mesmo passo entra a fortuna com a cornucopia. Os próceres do
nosso esterquilinio, quando saltam das suas berlindas ao peristilo das
Lesbias, não perguntam se tu estás lá dentro.
Os moralistas tambem lá vão, e dizem entre si que tu és bonito, em
quanto a impudicicia, carminando a cara que tu purpurejavas com o
reflexo das tuas azas, os faz acreditar que apenas és necessario ás
meninas de dez annos para que não digam ás mamãs, deante de gente de
fóra, que hão de casar e ter filhinhos.
Vê tu, anjo do pudor, que, d’aqui a pouco, escassamente serás invocado
pelos romancistas, e contado pelos dedos nas rimas dos poetas, por que
acertaste de rimar com muita coisa.
Emfim, meu sensivel anjo, sê equitativo para ser justo. Atira-me abaixo
do pedestal as devassas que te bigodeiam; e, depois, querella de
Thomazia das Cangostas. _Fiat justitia._
CAPITULO XV
Argumento
Noticias do Pará. Sequidão de Innocencio. Acommisera-se o velho da
nora, que não se dá d’isso. Thomazia realça em epistolografia, fazendo
suspeitar o sogro de que anda ali cachimonia de maior cunho. Opinião
de Innocencio ácerca de viajar. Estuda francez, e vae ver mundo.
Encontra em França a neta de uns gentis-homens da Picardia, a qual
neta vae ver mundo com elle.
Passados trez mezes, sequentes ao embarque de Innocencio, vieram cartas
do Pará.
O cobrador da herança noticiava que estava empossado dos trinta contos.
Vituperava a memoria do tio, criminando-o da torpeza de deixar quatro
mulatos assignando-se com seus apellidos, e herdeiros de mais de um
milhão em moeda fraca. Vexava-se de ser coherdeiro com tal negralhada,
e noticiava que ia partir para o Rio de Janeiro.
A Thomazia escrevia meia duzia de linhas, consagradas ao boletim da sua
saude e ao desejo de que a consorte passasse sem novidade.
--Cá vou passando... disse ella entre si, quando Gervasio notava n’um
lance de olhos á mulher a sequidão das palavras do filho. Tinha o
velho dó sincero da sua afilhada.
--Escreve-lhe, Thomazinha,--dizia Gervasio--escreve-lhe que eu lhe
direi que isto não é carta que se mande a uma esposa! Estragaram-me
aquelle rapaz os vadios do Porto, os comedores, os mariolas dos
botiquins! Escreve-lhe uma cartinha amorosa, sim, minha filha?
--Pois, sim, meu pae;--disse ella mui de mimo e dolorida--mas, se elle
me despresa, é peior estar eu a impaciental-o com as minhas cartas...
--Não, senhora; escreve-lhe como te digo, p’ra dizer cá com a minha
carta.
Que prodigio de fantasia operou Thomazia para poder alinhar um quarto
de papel inglez com umas frases assim a modo de saudosas com ares de
amorinhos!
O velho leu-as, e obedeceu ao impulso de espanto, exclamando:
--Ó menina, isto não é da tua cachimonia! parece-me copiado do «Feliz
Independente» que tua mãe me leu no Douro ha mais de vinte annos! Tu já
leste a historia do «Feliz Independente»?!
--Não, senhor.
--Pois olha, ninguem hade dizer que este palavriado é teu! O Innocencio
vae ficar banzado, quando lá vir estes ditos!
--Ora!... o pae está a mangar comigo!...
--Agora estou! Palavra! tu dizes aqui coisas que parecem dos periodicos!
Gervasio foi ler a carta á esposa. A santa senhora pagou o seu tributo
de lagrimas, quando a leitura chegou á seguinte passagem: _Já que não
tenho o teu amor nem a tua amizade, dou graças aos ceos por que me
não levaram o amor de tua santa mãe e de teu santo pae. Alguma coisa
me havia de dar a Divindade Celeste a quem peço que te dê saude e
satisfação..._
Thomazia, se tivesse capacidade para imitar estilos, poderia dar de si,
no genero epistolar, coisa melhor; que o mestre era excellente e as
lições, quer escriptas, quer oraes, muito amiudadas. Sem embargo, os
progressos não correspondiam á frequencia do pedagogo, cuja linguagem
era assim correcta que sublime. Thomazia aprendia sómente o que podem
entender e saber as faculdades do coração. O estilo do coração, se
algum elle tem, a meu ver, é de todos o mais desatado e avesso da boa
prosodia. As suas flores são beijos quando não são lagrimas. D’estas
segundas não tinha ainda Thomazia experiencia: dos outros, não affirmo
nem nego. Não vi.
Mez e meio depois, vieram novas cartas de Innocencio datadas do Rio
de Janeiro. A mesma friesa com a esposa, e muitos affectos ao pae,
desfechando com pedir-lhe licença para ir do Rio a Inglaterra, e ver as
cidades principaes da Europa, antes de recolher-se a Portugal. Allegava
o sujeito uma razão que, a juizo d’elle, rebatia quaesquer obstaculos.
_Quem vê mundo, escrevia elle, aprende tudo quanto ha sem ler livros.
As viagens dão muita experiencia dos homens._
Posto isto aforisticamente, continuava: _Estou a aprender dois dedos
de idioma francez_: (a palavra _idioma_ entalou os gorgomilos
intellectuaes de Gervasio) _o francez é preciso saber-se para não fazer
má figura. Logo que possa andar por lá de modo que eu me faça entender,
vou vêr mundo, isto é, se vocemecê e minha mãe não se opposerem, o que
não espero da sua amizade paternal e maternal._
--Estás um bom trapólas!--disse em soliloquio o bom velho.--Que irá
elle fazer agora por esse mundo de Christo?! Pilhou-se c’os trinta
contos, e não vem p’ra casa sem dar com elles em Pantana! Deixal-o!
Cavalladas por cavalladas, antes as faça longe da minha vista.
Mostrou-lhe Thomazia a sua carta, dizendo:
--Aqui tem, padrinho; veja que modo de me escrever! Diz que tem saude e
que me deseja a mesma.
--Tem paciencia, filha...--respondeu o velho consoladoramente,
pondo-lhe a mão no rosto.--Elle cá virá, quando se cançar de ser
máo e ingrato. Agora me pede licença para ir viajar... Olha tu que
asneira!... E eu não sei o que heide responder-lhe...