desaforada da Custodia! aquella beata que ouve trez missas!...
--A Custodia, meu filho, está cá por minha conta... Agora o que te peço
é que venhas para o camarote, que não te mostres d’avessas com tua
mulher, que te rias para ella de modo que lá os Barcellos te vejam...
Pois tu não entendes que o bregeiro do Roque o que quiz foi metter-te
a garrocha e fazer-te saltar? Esta hora estão elles lá muito regalados
de verem que saiste do camarote, e ámanhã vão espalhar que tu bateste
na mulher... Vem, Innocencio, vem, que Thomazia está innocente. Cartas
escrevem-n’as todas. Ora olha cá o que te eu digo. A Rosa não te
escrevia?
--Sim, senhor.
--E a Gomes? tambem. E a Luiza Leite? tambem. E a Emilia Fernandes?
tambem. E as outras trapalhonas que andavam á pilha da tua fortuna?
Todas te escreviam. Eu sabia a tua vida hora por hora. Olha cá o que te
eu digo agora: essas raparigas, que te escreveram, ficaram deshonradas
por isso?
--Não, senhor.
--E, se ellas casarem, os maridos ficam deshonrados por que tu te
carteaste com ellas? Não; não ficam. Ficam ou não?
--Não, senhor.
--Então que estás tu ahi a malucar? Cuidei que tinhas outra
cabeça, homem! Eu, se fosse a ti, e o Roque me viesse cá com essas
trampolinices, dizia-lhe: «Ora, meu amigo de Peniche, vá dizer a sua
irmã que metta a viola no saco, e que vá cavar pés de burro.» E, se lhe
não dissesse isto, dava-lhe dois pares de murros á portugueza, que elle
havia de ter que contar ao sarrafaçana do pae, que está levado de dez
milhões de diabos por que não poude metter-me em casa a lambisgoia da
filha. Arre, ladrões, vão ganhal-o!
E, dizendo, levou o filho pelo braço, recommendando-lhe que entrasse a
rir-se, muito satisfeito no camarote.
E, de feito, Innocencio entrou a rir-se no camarote, com a mais infeliz
cara que imaginaram Gavarni e Molière. O rir d’elle era uma dilatação
lateral de bochechas, e o vertice da lingua apontado aos dentes. São
tão poucos os infortunios sem um reverso ridiculo!
Perguntou-lhe Thomazia onde tinha estado.
--Andei a conversar com os amigos--respondeu elle meigamente, sem
desmanchar o apparelho do riso.
--Não viste o segundo acto que era tão bonito!--tornou ella.
--Ai, filho!--confirmou a mãe--sempre aqui temos chorado!...
--Eu cuidei que perdia os sentidos!--abundou D. Florencia, em quanto D.
Sebastiana enxugava ainda os residuos das lagrimas estancadas nas rugas.
Corrido o pano para o terceiro acto, Innocencio sentou-se á beira
de sua mulher, fallando-lhe com fervoroso interesse e geitos muito
acariciativos, em coisas que era natural dizerem-se sisuda e gravemente.
Estava como admirada Thomazia. Aquelles modos causavam-lhe certa
estranheza e desconfiança; porque não eram usuaes nem naturaes em seu
marido. Além de quê, a senhora desejava seguir o entrecho da tragedia,
e elle a cada instante, com a bocca cheia de riso, lhe cortava a
attenção com algum dito de tão desengraçado espirito que propriamente
Thomazia o achava parvo.
Decorreram assim dois actos.
A familia Barcellos espreitava, simulando indifferença, os movimentos
do camarote. A vista de Innocencio, apurada pela raiva, tudo via de
soslaio. Quanto mais o espreitavam assim elle requintava em ternura com
sua mulher, chegando á demasia de lhe estar brincando com as guarnições
do decote.
Na penultima scena do 5.º acto, pediu-lhe Thomazia que a deixasse ouvir
a falla de _Gabriella_, apontando para o cadaver de _Cuci_.
As trez velhas, chegado o drama a este abuso da sensibilidade humana,
já não choravam sómente, gemiam gemidos de tal arrancar do seio, que
Thomazia mal poude ouvir os derradeiros versos de Gabriella que gritava
assim pela bocca da Grata:
Sim, meus votos recebe, sombra amada;
Por teus manes ensanguentados juro
Um amor te prometto, que escarneça
De seus furores. Não, já te não temo!
A minha mesma dôr me arranca a vida.
Ora, como Fayel corresse então sobre a mulher, e a matasse com um
punhal, Gervasio não teve mão de si que não murmurasse em tom indignado:
--Era da pelle do diabo o homem!
Vae, depois, Fayel mata-se tambem. São já trez os cadaveres em ruma.
O terror abafa a respiração do auditorio, emquanto a razão não emerge
do seu lethargo para applaudir e vozear pelos artistas. A esposa e
irmãs continuam a soluçar entaladas, puxando a custo a respiração dos
gorgomillos.
Gervasio reveste-se da sua dignidade critica e diz:
--Vossês são tolas! Olhem que isto é tudo uma tramoia inventada pelo
sabio que fez a comedia. Levantem-se d’ahi, e vamos embora.
Innocencio deu o braço a sua mulher. As trez senhoras velhas ainda
trajavam mantilha. Desceram ao pateo, e esperaram o carroção. Esta
demora assanhou a ulcera latente de Innocencio. Thomazia sentiu um
brutal repellão que lhe torturou o braço. Olhou para o marido, e viu
que elle cravára os olhos n’um homem que, d’entre a multidão, lhe
estava espreitando para a consorte. Ella seguiu aquelle raio de luz
sinistra e viu João José da Costa Guimarães. Córou: incendeu-lhe as
faces o odio, estimulado pela vergonha.
Havia ainda muita coisa boa na alma d’aquella mulher. Córava!
CAPITULO XI
Argumento
Innocencio resiste á ceia de pescada cosida. Injurias selvagens que
elle dardeja á esposa. Acode Gervasio embrulhado n’um capote de trez
cabeções. Socega o truculento. Gervasio manda sair Custodia. A velha
faz chorar as pedras, saudosa da sua menina. Lança-se-lhe nos braços,
e sae d’elles moribunda. Expira a velhinha. O author escreve o elogio
da defunta, e dirige-lhe uma allocução commovente, como consta d’este
sentimental capitulo.
No transito da Batalha á rua das Cangostas, os beiços de Innocencio
não se abriram. Entrou em casa carrancudo como um somnambulo. Não
quiz cear, com quanto a mãe, o pae e as tias lhe asseverassem que a
pescada cosida a podiam comer os anjos, de boa que estava. A esposa
escassamente comeu, e foi para o seu quarto onde o marido passeiava
rapido e assoprando.
--Que tens tu?--perguntou ella mais altiva que carinhosa.
--Tenho vergonha de ser seu marido!--respondeu com selvagem e concisa
eloquencia o aprumado Innocencio, voltando-lhe as espaçosas costas.
A senhora ficou transida de frio e assombrada largo tempo sem poder
articular a réplica.
Voltou-se rapido contra ella o marido e repetiu:
--Sim, é o que lhe digo: tenho vergonha de ser casado com a senhora!
--Por que?--murmurou ella com humildade.
--A senhora sabe-o; não me faça perguntas.
Calou-se alguns segundos e voltou com impetuosa vehemencia:
--O que a senhora quiz foi ser rica, não é assim?
--Eu...
--Sim. Não me tinha amor nenhum; mentiu-me, andou a imposturar para me
illudir...
--Não digas isso, Innocencio...--redarguiu ella energicamente; mas a
consciencia esfriou-lhe logo a reacção.
--Então isto é mentira? A carta que você me escrevia para o Douro não
era sua?
Thomazia abaixou o rosto e chorou. Em situações analogas, mulheres sem
defeza, choram. As lagrimas são supplicas n’estes lances. Se os juizes
teem boa alma e a virtude da delicadeza, rasgam o processo. Se são da
indole rustica do filho de Gervasio, enfurecem-se em dobro e vociferam.
Para esta ralé de homens faz-se mister que a mulher, bem que culpada,
relucte e rebata as accusações, simulando arrogante innocencia. Se não
ganhar o pleito, perde-o sem humilhar-se.
--Responda a isto!--bradou Innocencio.--A carta era sua... ou foi por
engano que m’a quiz mandar?... Sim... pergunto... póde ser que a tal
cartinha fosse para o Costa Guimarães.
--Logo vi...--soluçou a senhora--logo vi que a tua raiva era por estar
no theatro aquelle maldito...
--E acha você que é só por isso, eim? Acha que não tenho mais nada que
lhe bote na cara, a respeito do tal tratante? Faz de mim tão tolo que
estou aqui assim zangado porque elle olhou para a senhora!... Ora,
minha amiga, outra vida!... Sabe que mais?--e destampou a voz de subito
como trovão inesperado--Sei tudo! sei tudo, ouviu? Sei tudo e sei tudo!
Aterrou-se Thomazia. Tremiam-lhe os dentes e os labios.
Os berros do homem estrondearam na casa. Gervasio saltou da cama,
embrulhou-se n’um capote de trez cabeções, e veio bater á porta do
quarto do filho, a tempo que elle bramia:
--Escrevia-lhe a elle você e fazia-me a côrte a mim ao mesmo tempo!
Essa acção é de mulher sem honra!
--Quem é?--disse elle, suspendendo a apostrofe, e attentando a orelha á
porta em que batia o pae.
--Sou eu--disse Gervasio--vem aqui fóra.
Innocencio saiu. O pae levou-o para uma saleta na extrema do segundo
andar, e disse-lhe severamente:
--Portaste-te como um gallego. Estás ahi a berrar com tua mulher,
depois de eu te ter pedido que não fizesses caso da intriga. Isso
é feitio, rapaz? É assim que tu começas a tratar tua consorte? Que
começos de vida levas! Quando isto é no primeiro mez, que será d’aqui a
seis! Mal haja a hora em que esta rapariga veio para minha casa?...
Gervasio disse isto com dôr, e anciado do peito.
O filho teve compaixão do velho; pediu-lhe que se deitasse e dormisse,
na certeza de que elle não tornaria a questionar com Thomazia.
O pae recolheu-se ao primeiro andar, onde já estavam as duas irmãs
espavoridas perguntando á cunhada que _autemgeni_ era aquelle na alcova
de Innocencinho.
Cumpriu a promessa o irado esposo, posto que o sangue lhe engorgitasse
o coração.
Deitou-se. Thomazia passou o restante da noite sentada n’um canapé, a
chorar e a tremer de frio. Innocencio perguntou-lhe de madrugada o que
estava a fazer ali.
--Nada... respondeu a esposa.
Elle grunhiu o que quer que fosse. Já era dia, quando Thomazia se
levantou em direitura á porta no proposito de subir ás aguas-furtadas e
contar a Custodia os successos. Innocencio sentou-se de golpe na cama,
e bradou:
--Onde vae a senhora?
--Vou sair lá para dentro.
--Quer ir entender-se com a beata? Não vae. Deixe-se estar ahi.
Voltou-se a sentar-se, tremente de raiva, a medrosa senhora.
Ao nascer do sol, Gervasio José de Barros já andava na rua. Entrou no
mosteiro de Santa Clara, deteve-se meia hora a conversar com a prelada,
foi d’ali ao paço episcopal, e voltou com um papel assignado pelo
bispo.
Chegou a casa esbaforido. Mandou chamar ao escriptorio Custodia da
Porciuncula, e disse-lhe com semblante carregado:
--Custodia, não podes estar mais tempo em minha casa. Escuso de te
dizer as razões que tenho para te despedir. Não me serves...
--Então...--exclamou Custodia, erguendo as mãos em affligidissima
postura--assim se põe na rua uma velhinha de sessenta e nove annos!...
--Não vaes p’rá rua, mulher. Venho de te arranjar um encôsto no
convento de Santa Clara, onde te mandarei dar todos os mezes o
necessario para o teu passadio. Vaes para onde possas rezar e ouvir
muitas missas á tua vontade. Cá em casa é que me não serves.
--E a minha menina!--tornou Custodia, lavada em lagrimas--a minha
filhinha do meu coração... heide deixal-a!... ai! que eu morro! ai! que
eu morro!
--Não faças gritarias, mulher!--atalhou Gervasio, sustando o alarido da
consternada velha.--A tua menina ia por bom caminho, se tu continuasses
a levar e trazer cartinhas de sujeitos que tu lá sabes...
--Eu!... seja pelas almas!--interrompeu ella.
--Está bom, está bom--concluiu o negociante--não quero _plemicas_! Vae
lá tratar de arranjar a tua caixa, que d’aqui a uma hora has de ir para
o convento; e, se não quizeres ir com a boa esmola que te dou, procura
a tua vida lá por onde te fizer conta.
Custodia pediu quasi ajoelhada que a deixasse despedir da senhora D.
Thomazia.
--Sim, sim, ella está lá por cima--abreviou Gervasio, fechando-lhe a
porta na cara.
Subiu Custodia e encontrou n’um corredor a filha da senhora, creada
aos seus peitos. Lançou-se a ella, suffocada de soluços, beijando-a e
molhando-a com a torrente das lagrimas.
--Adeus, até ao dia do juizo, minha filhinha!--foram as unicas palavras
que poude proferir, porque perdeu o alento nos braços da senhora.
Thomazia sentou-se no pavimento e deitou-a no regaço, bafejando-lhe as
mãos regeladas. N’esta postura a encontrou o marido. Parou, e disse
carrancudo:
--Que historia é esta?!
A esposa não respondeu e continuou a aquecer com a fricção das suas as
mãos da criada.
Passou Innocencio adeante e chamou as tias, mandando-as conduzir
Custodia para as aguas-furtadas.
Acudiram as senhoras todas, ainda ignorantes do successo; que Gervasio
apenas tinha segredado a sua mulher que a tal santinha de Custodia era
uma desavergonhada de mão cheia.
Thomazia disse ás senhoras que a velhinha estava fria de morte.
Pegaram n’ella e conduziram-n’a ao leito. Agitaram-n’a, chamaram-n’a,
deram-lhe um pediluvio de agua espertada com mostarda, e borrifaram-lhe
a cara com vinagre. Não dava signal de vida a pobre Custodia.
D. Thomazia de Barros foi ao escriptorio dizer ao marido que a velha
parecia morta.
--Isso ha de ser fingido para não ir p’ró convento,--disse
Gervasio--mas eu vou lá vêr...
Quando Gervasio chegou acima e se abeirou do catre de Custodia, já a
velhinha tinha os olhos abertos, e circumvagava com elles espantados
por toda a gente.
--Eu não te disse que era fingimento!--segredou Gervasio á esposa.--É
matreira como o diabo a tal beata! Pois ha de ir...
N’este comenos, as palpebras de Custodia desceram outra vez; mas não
chegaram a unir-se; porque as inferiores já tinham perdido a força
vital da elevação. Estava morta: morrêra da sua fulminante agonia. Foi
a saudade que lhe desfez o coração em que não tinha mais sangue que
o das ultimas lagrimas choradas nos braços da sua ama. Não levou á
presença de Deus culpa que a excluisse da misericordia do céu. Peccou
por ignorancia e demasiada fé em S. Gonçalo e outros santos da mesma
respeitabilidade. Peccou attribuindo á magia do sal virgem o exito
de um casamento que se lhe figurou a felicidade da sua menina. Foi
medianeira nos amores de João José emquanto acreditou que o homem
trazia missão do alto quando solicitava a sua protecção. Odiou-o assim
que lhe descobriu a protervia dos planos, e voltou os seus esconjuros a
favor de Innocencio, por lhe parecer o melhor marido, á falta de outro
eleito nos conclaves dos santos, martires, doutores e apostolos do seu
conhecimento.
Descança, pois, em paz eterna na tua cova do cemiterio de S. Francisco,
pobre Custodia da Porciuncula! Dorme até que a trombeta chame ás
alvoradas do dia eterno a tua alma. E, se n’essa occasião este meu
livro sobreviver, como espero, ao renovado cháos, pede ao teu anjo da
guarda que junte este capitulo ao autos do teu processo, e eu terei
tambem o duplo prazer de ter concorrido para a tua salvação, e de ser
citado no valle de Josaphat.
CAPITULO XII
Argumento
Odio entranhado de D. Thomazia ao marido. Novas libertinagens de
Innocencio. Segredos do thalamo contados com exemplar melindre
e não vulgar habilidade. O virginal enthusiasmo das senhoras D.
Sebastiana e Florencia. Os pagodes nocturnos do devasso. Morre
Luiz de Pinhel, e Innocencio vae ao Pará. Admoestações epistolares
do pae. O filho commove-se, mas Thomazia não n’o ajuda. De como a
rethorica de Innocencio estava nos pés do mesmo. Vae-se o marido e
ella passa soffrivelmente. Renascem as franciscanadas do Reimão e
do theatro. Cyclo da prosperidade dramatica no Porto. A «Degolação
dos Innocentes». Recorda-se a pá do carneiro com explicações
supplementares.
Este sucesso enluctou o coração de todos. Thomazia, a esposa de
Innocencio, cobrou odio entranhado ao marido: odio que superava o
sentimento saudoso da morta. A Gervasio asseteavam-n’o remorsos, que
o impediam de justificar a si mesmo o violento passo de despedir a
pobresinha. As trez senhoras e os dois velhos lastimavam a defunta, e
mais ainda o morrer-se tão atormentada e sem sacramentos. Innocencio
andava a scismar e a querer divertir o animo das zargunchadas da
consciencia.
Evitava-o com invencivel repugnancia a mulher, se elle parecia querer
reconciliar-se. Sumia-se na alcova de Custodia, e desafogava n’um alto
chôro, que a sogra não ousava increpar-lhe. Como Gervasio lhe dissesse
que a velha, a não ter morrido, gosaria um descançado fim de vida no
mosteiro de Santa Clara, a opprimida senhora mandou-lhe pedir pela tia
Florencia que lhe désse no convento o encôsto destinado á criada.
O negociante injuriou a irmã portadora do recado, e foi, passado pouco
tempo, affagar Thomazia, com promessas de lhe amaciar as rudesas do
genio de seu filho: promessas que ella recebeu com desdem significativo
de que preferia ser aborrecida.
E não havia congraçarem-se os esposos. Á mesa não se encontravam com
olhos nem palavras. Innocencio demorava-se em casa o escasso tempo de
comer; e de noite recolhia-se depois que os botequins o despediam, ou a
intemperie do tempo o necessitava de abrigo. O espaçoso leito conjugal,
desde a morte de Custodia, nunca mais deu o licito calôr áquellas duas
almas em commum. Thomazia senhoreou-se do seu antigo catre, armando-o
na alcova escura contigua á saleta do seu aposento. O marido vira-o
feito, e não lh’o contrariára. Quando as irmãs lhe deram assombradas
a noticia, Gervasio não impediu, não se interpoz, cuidando que a
duplicidade das camas não significava coisa de vulto. As duas solteiras
benziam-se, chamando «modernismo» á separação, e protestando com
virginal enthusiasmo que, sendo casadas, jámais consentiriam semelhante
moda.
Por parte de Innocencio a reconciliação não foi solicitada.
Minguava-lhe amor para arrepender-se, e generosidade para perdoar a
venial aleivosia das caricias ante-nupciaes. Assim mesmo, deante da
familia esforçava-se em parecer senão amante ao menos amigo de sua
esposa. Assim, porém, que a topava a sós, desviava-se, sem perceber
que ella já de longe planeava o desvio. Tinha ella vida nocturna, que
não era contemplativa nem ralada de solitaria tristesa. Os antigos
conhecidos dos _cafés_ blasonavam de se banquetearem em festins por
noite alta com parceiras condignas, sob a presidencia bisarra e liberal
de Innocencio José de Barros. Gervasio não foi dos ultimos avisados da
prodiga libertinagem do filho. Repreendeu-o, sem azedume, receioso de
que o filho lhe replicasse: «Deixasse-me estar solteiro». Era fraco e
pouco menos de estupido, além de delinquente, Gervasio José de Barros.
Delinquira insinuando a violencia no tom de auctoridade paternal e
coadjuvando a deslealdade de Thomazia. Estava pagando.
E dobaram-se assim trezentos dias e noites, quasi um anno, sem que
Thomazia podesse relembrar dia ou noute em que não chorasse.
Em janeiro de 1845 recebeu Gervasio a nova de ter fallecido no Pará
seu cunhado Luiz de Pinhel. O informador acrescentava que o maximo da
herança coubera aos filhos legitimados do rico fazendeiro; isso não
impedira, porém, que o finado se lembrasse de sua irmã Thomazia, a quem
deixára trinta contos de réis fortes. Pedia o noticiador habilitação
e poderes para liquidar, se Gervasio não quizesse antes enviar
directamente procurador que agenciasse a facilima cobrança.
--Deixe-me ir, meu pae! deixe-me ir a mim!--exclamou Innocencio.--Vou
eu ao Pará, se me derem a procuração. Deixem-me ir, que me fazem um
grande bem. Preciso sair do Porto por algum tempo. Ha muito que eu
andava para pedir a meu pae que me deixasse ir ao Pará ver o tio...
Gervasio meditou, e disse:
--Pois prepara-te e vae... Queres levar tua mulher?
--Não, senhor--respondeu prompta e seccamente.--Se eu vivesse feliz,
não buscaria modos de me apartar d’ella por algum tempo.
--Pois vae sósinho, filho, vae; mas tem pena da pobre rapariga. Não a
trates mal agora que te retiras. Pede-te isto um velho pae que talvez
não tornes a ver...
--Qual não? acudiu Innocencio--o mais tardar d’aqui a seis mezes estou
aqui. Em quanto vou e venho, cançam-se de fallar de mim os canalhas dos
Barcellos que me trazem entre os dentes...
--Pois vae, filho, vae, e Deus te traga com mais juizo do que levas...
Agora sempre te direi que tens andado muito mal procedido por essa
cidade. Os velhos do meu tempo dizem-me que estás perdido! Ainda não
ha oito dias que foste visto na «Pedra Salgada» com uma corja de
bebados e ladras a suciar. Chorei, e não te disse nada. Fallo n’isto
agora--continuou o velho embargado a cada palavra pelos soluços--porque
se eu morrer, quero que saibas e te lembres das afflicções que me
causaste.
--Meu pae...--atalhou commovido Innocencio, abraçando o velho.--Se
vocemecê quer, não vou.
--Vae, vae! antes por lá que por cá te deites a perder de todo. Eu cá
fico a proteger a coitadita de tua mulher, que eu desgracei, pensando
que a fazia feliz. Se o pae d’ella não tivesse morrido, a pobresinha da
moça não estaria para ali mettida no seu quarto sempre a chorar, sem
ter culpa que merecesse tal castigo.
--Se chora é porque quer--contrariou Innocencio.--Que mal lhe faço?
--Ora que mal lhe fazes!... Está bom, está bom; não questionemos,
filho. Trata de te preparar, e sae no primeiro navio, que eu vou
habilitar tua mãe, e arranjar-te os papeis. O que meu cunhado
deixou, teu é. Vae cobral-o, e faz o que quizeres d’elle. Gasta-o em
extravagancias; que tua mulher hade sempre ter o necessario para a
vida. Eu não fui buscar esta menina para a fazer tua escrava. Essas
contas não m’as hade pedir a alma de seus pães... isso não, que eu sou
homem honrado.
* * * * *
Innocencio, algum tanto amollecido pelo pae a favor de Thomazia, adoçou
a severidade do rosto, e foi dizer á esposa que ia ao Pará receber a
parte da herança de seu tio.
Thomazia fitou-o com quanta serenidade de semblante podia melhor
traduzir a nenhuma importancia da inesperada noticia. Muito fez ella
em não deixar transluzir o contentamento que lhe illuminou a escuridão
da alma.
Innocencio reparou na placidez de sua mulher, e avincou a testa.
--Não dizes nada?!--proseguiu.
--Que queres que te diga?
--Não se te importa que eu vá... Estás morta por me vêr pelas costas...
--Não...--volveu Thomazia n’um tom que substituia a mais affirmativa
resposta--se tu queres ir, que hei de eu dizer?...
Riu-se rispidamente o marido, e replicou:
--Sempre me tens um amor que nunca se viu coisa assim!
--E o teu? é um amor muito grande, não é?--redarguiu ella,
retribuindo-lhe o riso ironico.
--É o que me faltava!... estar eu a apaixonar-me por ti!... Se eu fosse
tolo!...
Thomazia curvou-se sobre a almofada da costura e continuou a trabalhar,
com os olhos embaciados e a mão tremente.
O marido saiu, depois de bater o pé rijamente no sobrado. Era uma frase
de arrebatada colera aquelle bater de pé! O vigor da cabeça não podia
sair-se com tão estrondosa objurgatoria! Os pés, n’alguns individuos,
são como a arte da rethorica para a eloquencia.
Á volta de nove dias, Innocencio José de Barros fez-se de véla para
o Pará na barca _Romeu I_. Despedira-se seccamente da esposa que
ainda teve lagrimas ao abraçal-o, e coração com palpitações que o
maravilharam. Thomazia, n’aquelle lance, presagiou que o não tornaria
a vêr. Sentiu a saudade que deixam propriamente os maridos mortos ás
viuvas que mortificaram.
Saudade, porém, foi aquella tão boa de levar, que, no breve termo de
duas semanas, a resignada consorte, se queria odiar a imagem do marido,
bastava-lhe recordar os derradeiros transes de Custodia. D’este rancor
aquinhoava bastantemente o sogro; todavia, as maneiras meigas e tristes
do velho com ella quebravam-n’a até o extremo de a enternecerem como
filha.
Restaurado o socego de Gervasio, renasceram-lhe os antigos e aprasiveis
affectos ás franciscanadas do Reimão e do theatro de tarde. A mulher
já não ia de bom animo a taes delicias; mas, para divertir o espirito
fatigado de seu homem, sacrificava-se ás digestões preguiçosas do anho
assado e do savel de escabeche.
Thomazia recusou-se moderadamente a sair de casa no primeiro mez
da ausencia do marido; mas, instada pelo sogro, condescendeu,
honestando o seu apparecimento em publico no grave envoltorio da
mantilha--deliberação que muito agradou á madrinha e mais senhoras.
Acertou de laurear-se então a scena portugueza, e nomeadamente o palco
de S. João, com a carnificina dos meninos que ameaçavam a dinastia do
rei de Jerusalem. A «Degolação dos Innocentes» vista seis vezes a fio
pela familia das Cangostas, á setima representação desentranhou ainda
novidades, peripecias e frases que arrancavam novas lagrimas e novos
raptos de admiração áquella familia.