conhecido, estudante do segundo anno juridico. Tinha desoito annos.
Estroinava sem peias nem contradicção de parentes. Sobravam-lhe
usurarios valedores nas prodigalidades. Tinha tontices galantes, sendo
a menos perigosa querer finar-se de amores por alguma linda mulher
que não tinha ainda topado. Isto me contava elle em Coimbra como hoje
em dia um academico de dezoito annos vos conta gravemente as suas
meditações ácerca do influxo de Kant e Hegel na historia psicologica
do espirito humano, ou os projectos com que giza salvar Portugal da
divida externa, quando for chamado aos conselhos da corôa. Os tolos de
1845 eram menos damninhos.
Grávido d’este pensamento suicida, Nicoláo d’Almeida quando viu a loira
Thomazia, nas praias de Caminha, ao entardecer, com os olhos enamorados
do sol que se atufava nas aguas escamosas de revérberos argentinos,
cuidou que era aquella a mulher predestinada. Visinhou-se d’ella com
impeto de pessoa empurrada pelos fados, e remirou-a tão em cheio e
de vagar como se o marido não representasse coisa nenhuma ao lado da
creatura fatidica, enviada expressamente a Caminha para realisação do
seu sonho.
Innocencio encarou n’elle avincando a testa ao mesmo passo que a
esposa, perfilando o rosto, segredou ao marido:
--Que está a olhar p’ra mim o diabo do homem!...
Deu-lhe o braço o carrancudo esposo e foi para a estalagem, murmurando:
--Aquelle asno olhava-te como se te conhecesse ha muito.
--Eu nunca o vi...--disse ella.
--Não?...--perguntou Innocencio em tom de suspeita...
--Não.
--Quem sabe?! Tu...
--Eu... quê?
--Não te confessas...
--Ora vejam isto!--replicou entre agastada e dorida a senhora.--Sempre
tens manias!... Já hontem quizeste pegar comigo, quando o administrador
do concelho me apertou a mão...
--Pois elle!... Eu não gósto d’essas modernices...
--Toda a gente aperta a mão... Isso que faz?
--Não gosto: é mau costume.
--Pois tivesses-m’o dito. Para a outra vez, quando alguem me quizer
apertar a mão, escondo a minha--tornou ella amuada.
--Ai! ai! ai!--replicou o marido.--Estás muito enjoada...
--Pois eu!... Tenho agora culpa de que o homem olhasse para mim...
--Não tens; mas... aquelle modo de olhar...
N’isto deu Innocencio tino de que o seguiam de perto. Olhou e viu o
rapaz dos olhos espantadiços.
--Elle cá vem--disse o marido apertando o braço da mulher com
convulsiva raiva.
--Olha que me magôas o braço...--gemeu ella.
--Vêl-o? ahi vem!...
--Deixa-lo vir... Olha o doido do homem que me havia de empécer
agora!...
Tinham entrado na estalagem quando o secundanista retrocedeu a botar
inculcas sobre a procedencia e destino da mulher que, a seu juizo, lhe
era enviada como um acepipe dos festins de Lucrecia Borgia, um calix de
agua tufana, uma coisa que lhe caíra do céo como a tartaruga que matou
Eschilo. Os rapazes teem coisas!
Não esquadrinhou nada n’aquella noite desvelada a litografar na alma o
retrato da peregrina incognita.
No dia seguinte quando voltou a bordejar os áditos da estalagem, soube
que os passageiros, ao luzir da aurora, tinham saído em direcção ao
Porto, d’onde eram. Nicoláo d’Almeida ainda mandou pôr a cella no
cavallo e vestir o lacaio no proposito de os seguir; mas quebrantado
pela sobreexcitação cerebral da noite, sentiu-se desmaiar de forças,
e quedou-se marasmado em casa a cogitar e a remergulhar o espirito na
visão resplendente d’aquelle rosto com que Deus quizera experimentar a
continencia dos seus santos.
Se os destinos humanos não estivessem prescriptos lá em cima, ou lá
em baixo, ou onde quer que seja, a intervenção do fidalgo de Caminha
n’esta moralissima historia acabaria aqui, ou nunca deveria ter
principiado, á vista de tão chôcho e trivial remate.
Ora hão de ver que relampago fulgurava das nubelosidades do porvir e
alumiava confusamente os presagios da desconcertada fantasia de Nicoláo
d’Almeida!
* * * * *
Os esposos chegaram ao Porto arrufados, doze dias depois que tinham
saído a chotarem jubilosamente pela rua de Santa Catharina acima.
Os agastamentos principiados em Caminha aggravaram-se na «Ponte da
Pedra», onde Innocencio viu o João José da Costa Guimarães esturdiando
com outros rapazes da sua laía debaixo dos sobreiros, não já com a
innocencia arcadica dos que comiam a fructa d’aquellas arvores, mas
antes com o desplante de moços que tinham vindo ali arejar as cabeças
aquecidas na taverna fronteira.
João José, quando divisou Thomazia, fez da cara uma comprida careta,
esbugalhou os olhos, torceu o pescoço e disse aos parceiros:
--Olha! olha!
Olharam todos. Innocencio fumegante de indiscreta raiva dava de esporas
no macho, que reagia a coices, por estar vesado a desougar-se n’aquella
estação.
--Deixe dar duas palhas ao macho que está aqui affeito!--bradava o
arrieiro.
Innocencio teimava a esporeal-o com furia, e elle a escoucear, até que
de repellão se remessou a galope pela ladeira acima, cedendo a victoria
ao rei da creação. Thomazia deteve-se á espera que a mula, mais ditosa,
mastigasse a palha. Lá no topo da encosta fez Innocencio parar o macho,
voltou-se sobre a anca e bradou:
--Então? vens ou ficas?
A senhora, para requintar em belleza, purperejára-se de pejo, por
que os rapazes, até certo ponto desculpaveis, riam sem disfarce das
cargas de espora que o das Cangostas barbaramente inflingira á victima
indirecta do seu ciume. Além d’estes incentivos, um ou dois do grupo
conheciam Thomazia e lembravam-se da carta lida na Praça-nova. Dado que
a gentileza da dama se fizesse respeitar e até perdoar os desatinos da
grammatica, nem assim vingou abafar os frouxos de riso exemplificados
pelas chalaças de Costa Guimarães que passava de estupido a torpe,
quando a violencia lhe aperfeiçoava a indole.
Estão bem entendidos os amúos dos conjuges, e mal justificados os
assomos do agastadiço Innocencio.
Os velhos sentiram logo a desavença das duas almas que tão amorosas
tinham saído. Entrou em averiguações Gervasio. O filho nada esclareceu,
porque reconhecia que não tinha bem ajuizados motivos de queixa. Mas
a esposa, assim que poude estar sósinha com Custodia, prorompeu em
soluçantes vozes:
--Este homem não se póde aturar! Fez-me de fel e vinagre desde Caminha
até ao largo da Agua-Ardente, porque viu um homem a olhar para mim, e
encontrou o tal maroto do Guimarães na «Ponte da Pedra...»
--Má raios o partam!--atalhou a benigna Custodia da Porciuncula.
--Ora vê tu que culpa tenho eu de lá estar o homem em Caminha!... Pois
fez-me desesperar e arrepender mais de cem vezes de ter casado com
elle!...
--Ora menina, ora menina!--acudiu-a velha--Não diga isso, que me parece
doidinha! Seu homem zela-a, porque o amor é assim. E a minha linda não
fazia o mesmo, se visse as outras mulheres a olhar p’ra elle?
--Que me importa?!--refutou ella.--Estou bem aviada se não hei de ir
onde me vejam! Então p’ra que me casei? que me faz ser rica? Por ahi
as meninas pobres, quando casam com os brasileiros, apparecem logo no
theatro, nos bailes da assembléa, no jardim de S. Lazaro, e em toda a
parte.
--Deixe estar, que ainda não é tarde, filha! Pois ainda casou outro
dia, e já se queixa?...
--Não, que elle já me disse que não queria saber de partidas nem de
theatros... Pois tu não sabes? Zangou-se todo por que o administrador
do concelho me apertou a mão!
--Pois esse homem apertou a mão da menina?--perguntou Custodia sobre
modo espantada.
--Apertou, que é moda agora.
--Que leve o demo essa moda e mais quem a cá trouxe! Lá n’isso teve o
seu homem juizo, e a menina não fez bem em consentir que lhe apertasse
a mão homem nenhum.
--Ai! que me pareces tonta de velhice!--redarguiu a senhora
abespinhando-se, e voltando-lhe as costas.
Custodia ficou-se a vel-a ir com tão desusada descortezia; reflectiu
alguns segundos; levantou a mão direita á altura da cabeça, com o dedo
indicador deu trez toques na testa, e espectorou um fundo suspiro
murmurando:
--Não regula bem...
Volvidos alguns minutos, Thomazia voltou a ameigar Custodia que estava
chorando a magua da desfeita. Pagou-se jovialmente a velha dos affagos
da sua menina, e deu-lhe bons conselhos, tendentes a revestil-a de
paciencia para soffrer os ciumes do esposo.
* * * * *
Cabe aqui dar conta de uma tempestade que se está conglobando sobre a
mal-estreada ventura d’estes esposos. Muita gente cuida que as grandes
desgraças procedem de profundas causas, e não attentam que basta um
sopro de odio para accender infernos. Ha infortunios surdidos de
repente, como as viboras que sob-rojam por entre flores: e para maior
assombro é isso quando a vida é de rosas; que, nos casamentos mal
sorteados, havemos de suppor que a serpente já vem escondida na estola
do sacerdote, cujas palavras soam o terrivel _unidos para sempre_.
A Rosinha da Praça-Nova, convicta de ser amada, porque as cartas de
Innocencio lh’o asseguravam, andou muito lampeira a dizer ás suas
amigas que o Barros das Cangostas casava com ella.
A noticia vulgarisou-se levada pela inveja, parelha inseparavel
da fama. O pae de Rosa já recebia os emboras dos seus amigos, e
esquadinhava noticias para formar um calculo aproximado da «fortuna» de
Gervasio. Sessenta contos era o computo mais seguido na praça; outros
faziam-lhe cem, calculando que elle tinha uma reserva de quarenta
em sonante. Alguns, inventariando os haveres de Luiz de Pinhel, tio
materno de Innocencio, avultavam a «fortuna» a seiscentos contos.
Desfaziam outros n’este calculo, affirmando que Luiz de Pinhel tinha
filhos illegitimos de differentes negras suas escravas. Sem embargo, e
independente de heranças, o dote do promettido noivo de Rosinha era um
dos mais abalisados no Porto d’aquelle tempo.
O filho de Gervasio não se despedira de Rosa, quando saiu para o Douro.
Foi caso discutido na familia da Praça-Nova, sem comtudo insinuar
receios na menina. Mostrava ella a seu pae a ultima carta do namoro.
O pae lia solemnemente á mulher os periodos da missiva; a mulher com
visos de entendida no valor das palavras, esclarecia as passagens
obscuras; e harmonicamente decidiam que o casamento era negocio feito.
_Negocio_ era a palavra chã e ajustada a todas as situações graves da
vida.
Sem impedimento d’este accordo, Rosa, ao fim de trez dias, escreveu
a Innocencio uma carta de queixumes, notada pelo irmão, que teimava
em que a palavra _apaixonada_ se escrevia com _ch_ e não com _x_. A
menina, irritada pela obstinação do mano, foi ao seu quarto, e trouxe
triumphalmente uma brochura em punho, e mostrou a pag. 7 do _Homem dos
trez calções_, de Paulo de Kock a victoria da sua orthografia.
A carta adressada a Provesende foi recambiada para o Porto, e entregue
a Innocencio, quando elle se recolheu do Minho.
Emquanto Thomazia expandia a sua tristeza no confidente seio de
Custodia, lia o marido a carta de Rosa.
Nunca tão amoravel e terna lhe tinha escripto a saudosa menina.
As frases queixosas reviam meiguice e tristesa condescendente.
«Diverte-te, meu bem, mas não te esqueças da tua Rosa»--escrevia ella e
proseguia: «Espero ainda ir ao sitio onde estás, meu amor encantador;
e lembrar-te o tempo em que eu por ti suspirava, de ti ausente, e tão
apaixonada» (Esta palavra foi a da questão, decidida pelo traductor do
_Homem dos trez calções_).
Periodos sentimentaes, á proporção d’aquelle, pesaram por tal sorte
no coração de Innocencio, que as lagrimas lhe envidraçaram a vista.
Atirou-se para uma cadeira, fechou os punhos, e tapou os olhos. Sacudiu
a dor, levantando-se de salto, amarfanhou a carta, e metteu-a no bolso
da judia, por que ouvira o ranger das botinhas da esposa.
Thomazia não reparou n’elle. Entrou ao quarto, calçou os seus
confortaveis sapatos de tapete, e saiu para ir desabafar com a velha.
Retrocedamos. Na Praça-Nova é que se acastellam as nuvens borrascosas;
que as scenas das Cangostas de vulgares que são, mal quadram n’este
livro em que o sublime roça pelo sobrenatural.
Quem primeiro levou a casa do senhor Joaquim José de Barcellos, pae de
Rosa, a noticia do casamento de Innocencio com a orfã Thomazia, foi o
sacristão de S. Nicoláo. A authoridade era indeclinavel; ainda assim,
Joaquim José bufava com os dois punhos sobre o balcão, e bramia:
--Você que diz?! você que diz?!
O sacristão dizia que tinha alumiado com uma tocha a cerimonia do
casamento, e recebera trez pintos da mão de Gervasio.
Rosa descia á loja, n’este acto, perguntando ao pae se o correio já
tinha vindo. O indiscreto progenitor encarou na filha com um surriso
empeçonhado de injusta cólera, e regougou:
--Já veio. Aqui está...
E apontou para o sacristão, continuando:
--Diga você a esta menina o que me disse a mim.
O funccionario do templo encolheu-se e tergiversou compreendendo a
agudeza do ferro que ia remessar ao peito da menina. Rosa estava
literalmente ás aranhas, sem perceber o silencio do desconhecido
sacristão nem o surriso ferocissimo do pae.
--Então que é, papá?!--perguntou ella.
--Que é? que é?--ullulou Joaquim de Barcellos.--É que o teu noivo...
esse patife... esse ladrão... casou hoje com a rapariga que lá foi
creada em casa.
Á palavra _casou_, Rosa não exalou o _ai!_ do costume, nem o _oh!_
menos vulgar. Primeiro estremeceu, depois abriu a boca, porque ninguem
se exime da acção que exerce o espanto sobre o queixo inferior; em
seguida, rodou sobre os calcanhares vagarosamente; e por fim, foi-se
embora.
Os irmãos tinham assistido a esta calamidade de familia, ora lividos de
espanto, ora afogueados de ira.
--E agora?--exclamou Joaquim José.--Esta vergonha!... O descredito da
minha filha!...
Leonardo, o filho mais velho, o secretario da irmã, o inventor do _ch_
em _paixão_, tôrvo, sinistro, a passo mesurado acercou-se do pae e
disse-lhe com voz de tirano rouco:
--Se o pae quizer... mata-se!
--Vae-te p’ro diabo!--respondeu o velho.--Hasde sempre ser uma
cavalgadura!
--Os creditos de minha irmã...--redarguiu respeitosamente Leonardo.
--Não fosse ella tola...--retorquiu o velho.--Obrigasse-o a casar ha
mais tempo! Agora é pegar-lhe com um trapo! Ora vejam vocês que risadas
não darão os nossos visinhos! Aqui o Magalhães, quando souber isto, vae
com uma campainha por toda a parte...
--Se fôr... quebro-lhe a cara--atalhou Leonardo, enfuriando o olhar
suino e grifando as unhas.
--Cala-te ahi, lorpa!--bradou Joaquim José.--Olha que eu prendo-te nas
aguas furtadas se me dás um pio a este respeito! O que se ha de fazer
é mostrar-se a gente muito satisfeita; e, se eu vejo Rosa a chorar,
dou-lhe duas bofetadas na cara.
--Ella não chora...--interveio o filho Roque, varão prudentissimo que
estivera a malucar taciturno.
--Não? como sabes tu isso?
--Sei, porque ella não gostava d’elle nada. Se casava, era para ser
rica... as outras fazem o mesmo...
--Pois sim; mas agora? Vocês verão que homem rico não n’a quer nenhum
dos que souberem da tratantice do outro!... Raça de judeu, e basta!
N’este ponto, começaram a entrar dois amigos do logista, com as caras
de lucto. Joaquim José recebeu-os com alegre sombra, fingiu ignorar
a novidade, e dissimulou indifferença tão habilmente, que vingou
mallograr a secreta satisfação com que os «amigos» lhe davam o golpe.
CAPITULO X
Argumento
Desafogo de Rosa com o «Ponha aqui o seu pésinho». Encontram-se no
theatro as duas familias. O que elle sentiu quando viu Rosa tentadora
como o peccado. Louvores do _Fayel_ exprimidos no chuveiro de lagrimas
das velhas. Innocencio chama tola á esposa. Roque de Barcellos lancéta
o coração de Innocencio e conta-lhe tudo com intenções damnadas.
Gervasio acalma o filho, e diz coisas escorreitas das mulheres com o
tino e siso de um Balzac. Innocencio a rir-se no camarote para «metter
ferro» a Rosa. A sangoeira da tragedia que inunda de prantos a familia
Barros. De como Gervasio presume que o traductor da peça é um sabio
que inventou a tramoia, e decide que Fayel era da pelle do diabo.
Torna Innocencio a estorcegar o braço da mulher á conta do Costa
Guimarães.
A este tempo, Rosa estava tocando no piano a musica do «Ponha aqui o
seu pésinho» renovada com o apparecimento do drama «Pedro Sem», joia
literaria que ainda rebrilha no palco do _Palacio de cristal_, revesada
com _Ignez de Castro_ em quanto o progresso não abranger _Manuel Mendes
Enxundia_. Tocava, porém, de raivosa a menina.
A mãe d’ella, que já andava moirejando no enchoval, soffreu um insulto
nervoso, e passou o dia a beber chá de valeriana.
O jantar correu sombrio e taciturno, deixando apenas ouvir o mascar da
numerosa familia e caixeiros. Tudo estava perdido, afóra o estomago.
Magnanimo e inquebrantavel animo tinha aquella Rosa! Quem a visse
na representação do «Fayel» quinze dias depois, radiosa de guapas
fitas que lhe serpeavam dos opulentos cabellos por sobre os modelados
hombros, cuidaria que era ella a noiva de Innocencio de Barros, e não
aquell’outra senhora melancolica do camarote fronteiro.
Tinha sido Gervasio quem comprára o bilhete, ao outro dia da chegada do
filho, afim de espairecer o tristonho aspecto de toda a sua familia.
No camarote, estavam elle e a senhora, Thomazia e o esposo, as duas
irmãs e os dois irmãos, acamados e dispostos d’esta ordem: na frente as
duas Thomazias e Gervasio; na camada intermedia Jeronimo, Sebastiana e
Innocencio; na terceira e ultima Felizardo e Florencia.
Trajava a noiva modestamente vestido de seda sobre o escuro. Os
enfeites do cabello eram o ouro da côr d’elle. O peitilho de cambraia,
afogado, só ao perto deixava ver que era menos alvo que as espaduas
de jaspe lisas e brunidas. Se a tristeza realçasse sempre matizes de
formosura, a esposa de Innocencio José de Barros, n’aquella noite,
poderia gloriar-se de ser invejada das senhoras e lastimada dos
rapazes, por conta de tal marido.
A familia do senhor Barcellos da Praça Nova entrou mais tarde no
camarote.
Rosa pendurou a capa sem desfitar os olhos de Thomazia. Sentou-se,
segredou, surrindo-se, aos irmãos a visinhança que tinham, e, sacudidas
as crinas de fitas, travou do binoculo e encarou no brasileiro
Andraens, que a comprimentou da platéa, curvando-se quanto a barriga
lhe outorgou. Não ha para que fallar mais n’este brasileiro Andraens.
Veiu aqui para desmentir o fanqueiro da Praça Nova, receioso de que lhe
faltassem brasileiros á filha.
Innocencio viu Rosa. Palpitou-lhe o coração como saco aneurismatico.
Lancetavam-lh’o saudades, saudades como ellas são e pungem quando o
_nunca mais_ vem com ellas. Nunca lhe parecéra bonita senão então a
Rosinha. Uns modos acanhados de innocencia boçal que d’antes tivera
a moça, transfiguraram-se em meneios graciosamente desenvoltos,
sem desaire de pouco senhoris, um certo desembaraço afidalgado que
Innocencio via nas damas de raça, e desejaria ver nas raparigas da sua
roda. Tendencias ao sublime, não vulgares em sujeitos da sua laia.
Como estivesse inquieto, o esposo de Thomazia saiu do camarote e
passeou nos corredores. O pae, assim que o pano se levantou, saiu a
chamar o filho.
Entrava Innocencio no camarote, quando a personagem chamada IZAURE
dizia a FAYEL:
Ah! já não amas a infeliz consorte?
N’este lanço, a loura esposa voltou o rosto e olhou intencionalmente
para o marido, que tinha já os olhos cravados no camarote de Rosa.
Thomazia seguiu o suspeito lanço de vista, surriu-se, e baixou a
cabeça, encostando-a á mão direita.
D’ahi a pouco as senhoras D. Florencia e Sebastiana choravam lagrimas
como punhos. É que Izaure, de joelhos deante do furioso Fayel,
exclamava:
Ah! prostrada a teus pés, digna-te ouvir-me.
Tem compaixão, Senhor, da afflicta esposa! etc.
Poucas scenas deixaram de ser victoriadas pelas lagrimas da familia
Barros, exceptuado Gervasio; que esse, quando Fayel vociferava ameaças
de morte contra a esposa, dizia:
--O homem é levadinho de todos os diabos!
Findo o primeiro acto, perguntou D. Thomazia ao marido se tinha gostado.
--Gostei...--respondeu seccamente Innocencio.
--E ouviste o que elles disseram?
--Ouvi, que estava perto.
--Cuidei que não...--disse-lhe ella ao ouvido.--A tua comedia esta
noite é a Rosinha...
--És tola...--replicou brandamente o esposo.--Que me importa cá a mim a
mulher!...
--E a mim importava-me menos o homem de Caminha...--voltou Thomazia.
Este breve dialogo correu sem attenção da familia, que se occupava em
ponderações relativas aos casos tristes do acto 1.º
Innocencio foi fumar para o vestibulo.
Roque, o irmão discreto de Rosa, visinhou-se d’elle com bom semblante,
apertou-lhe a mão, e deu-lhe os emboras do seu casamento.
Innocencio tartamudeava, humilhando-se com conscienciosa vergonha á
superioridade do outro que devia ser o corrido.
--Sempre fui teu amigo desde a escola--disse Roque--e hei de sêl-o até
á morte.
--Tambem eu fui sempre teu.... tartamelou Innocencio, pedindo-lhe o
cigarro para accender o charuto.
--Lá com o que faz a minha familia não me importo. Se estiverem de mal
comtigo, deixal-os estar. Pois hei de querer-te mal porque não casaste
com minha irmã Rosa? Não... Fizeste o que te pediu o coração, e...
--Foi meu pae...--atalhou Innocencio abemolando piedosamente a voz.
--Eu logo vi que foi teu pae: que tu por tua vontade não casavas
com quem casaste. Isso mesmo disse eu á minha familia... Parece que
adivinhava! Quando me affirmaram que casaste por namoro, gritei sempre
que era mentira; ou então não sabias quem ella era...
--Ella quem?
--A senhora D. Thomazia, acho que é Thomazia a mulher.
É; mas então... dizes tu... que eu não sabia quem ella era?
--Sim, não sabias...
--Sabia muito bem. O pae d’ella era um capitão que morreu no cêrco, e a
mãe uma senhora que morou sempre defronte da minha casa, e era filha de
um negociante fallido com honra, depois dos francezes.
--Não digo o que tu pensas, meu amigo. A minha idéa é outra.
--Sim, tu disseste que eu não sabia quem era Thomazia--insistiu
Innocencio com a voz alterada.--Que vem isso a ser?
--Já que m’o perguntas com esse fogo, sempre te vou explicar o meu
pensamento. Tu és um rapaz de caracter e brios. Diz-me cá: se te
avisassem de que a menina com quem querias casar andava escrevendo
cartas a uns e a outros, casavas com ella?
--Não; mas...?
--E se te contassem que um dos seus namorados vinha ler as cartas
d’ella na Praça Nova, no meio de uma roda de lordes de luva branca,
para que elles rissem até romper pelas ilhargas, casavas com ella? Sim,
pergunto eu...
--Não, já t’o disse; mas que tem isso com minha mulher?
--Que tem? essa é boa! tem tudo; porque tua mulher é que escrevia
cartas ao Costa Guimarães, que tu conheces perfeitamente, não conheces?
--Sim...
--E elle, ali á esquina da Praça Nova, que o vi eu com estes dois,
esteve a ler em alta voz uma carta, em que ella por signal dizia
tolices de palmo e meio, e eram as gargalhadas tantas que até parava a
gentalha espantada. Aqui tens agora por que eu te dizia que...
--Tu juras pela vida de teu pae que não mentes, Roque?--exclamou
Innocencio trespassado de dôr que só vilissimas almas ousariam motejar.
--Juro pela vida de meu pae que não minto, e que sustento o que digo
deante do Costa Guimarães, e deante da tua criada Custodia que era a
confidente da correspondencia.
Innocencio encostou-se á parede, livido e tremulo, com os olhos
encarniçados e fitos no rosto do denunciante, jubiloso de sua vingança.
Depois, impetuosamente, saiu do seu torpor, e disse convulso:
--E que ganhaste em vir contar isso, tu?
--Não ganhei nada... nem te peço paga nenhuma. Isto veio a proposito de
eu te ter sempre defendido, quando ouço dizer que tu bem sabias quem
tua mulher tinha sido em solteira.
Innocencio rompeu de roldão por entre o povo apinhado no atrio e saiu,
sem redarguir, ao irmão de Rosa.
Chegou a meio do largo da Batalha e retrocedeu. Entrou outra vez no
camarote, quando corria já na ultima scena o acto 2.º la desfigurado.
O pae tirou-o fóra pela lapella do casaco, e obrigou-o ora suave, ora
asperamente a contar-lhe a conversação com Roque. Ouviu-o retraindo
os assomos da ira, esteve-se a scismar rematado o conto, e disse
placidamente ao filho attribulado:
--Innocencio, não tomes a peito isso que póde ser mentira, e, se o não
fôr, tambem não é crime que te envergonhe. Thomazia fez uma acção má em
escrever ao Guimarães; mas olha que na idade d’ella essas coisas não
tem aquella nenhuma. Todas namoram, todas escrevem e a gente não póde
pedir-lhes contas do que fizeram antes de serem nossas mulheres. Tua
mãe, quando me escreveu a mim, já tinha escripto a outro; e ha muitas
senhoras honradas que escreveram a uma duzia d’elles ao mesmo tempo.
Mau é terem ellas quem lhes leve as cartinhas...