Á ceia, no aspecto de Innocencio reluzia a inquietação interior.

A mesma abstinencia e taciturnidade do jantar. Por mais que a mãe

desvellada o desafiasse a fallar, não havia tirar-lhe frase que não

fosse desconsolada e sêcca. Levantados da mesa, despediram-se todos

d’elle porque Innocencio tinha de madrugar. Thomazia abeirou-se do

triste moço, e deu-lhe um abraço, que elle recebeu com estranho

estremecimento.

--Manda-me duas melancias da quinta, sim, Innocencio?--disse a menina

compungida.

--Pois, sim...--murmurou elle, sentindo cair-lhe sobre o coração um

cesto de melancias.

Custodia appareceu tambem para despedir-se, e deu ao moço uns bentinhos

da Senhora do Rosario, compendiando n’um discurso apropositado as

virtudes da nómina, e fechando a pia allocução com estas palavras:

--Cá ficamos todos a resar pelo menino. Não lhe hade succeder mal

nenhum. As orações d’este anginho hão de guardal-o.

E, dizendo, apontava para Thomazinha, que abaixou os olhos.

Innocencio surriu-se, e disse:

--Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella pediu.

Declaro que tenho noticia de poucos ditos com tanta graça e tão

pouco desvanecimento! _Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella

pediu..._ Isto é bom, quando a pequena inclinava o pescoço em geito de

magoada! E para que vejam que o moço açabarcára n’aquelle só dizer

todo o espirito que a natureza dera proporcionalmente á familia, basta

saber-se que ninguem atinou com a dolorosa ironia do surriso e das

palavras.

Ao repontar do dia, Innocencio entrava no barco-da-carreira. Soavam as

trez pancadas das Ave Marias em S. Francisco. Ao mesmo tempo, Custodia,

com o saioto pelos hombros, e um olho ainda tapado d’exalações

nocturnas, lançava a terceira pitada de sal virgem na fogueira do

alecrim, e dizia: _Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a

resalgar, para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar, sem

com a Thomazinha casar._

E Innocencio, sentado á prôa do barco, olhava para as trapeiras da rua

das Cangostas, e dizia entre si:

--Como diabo estou eu amando tanto esta Thomazia!...

Quando o coração se desentranha em gritos, assim eloquentes, está

perdido um homem.

CAPITULO VII

Argumento

Descreve-se Innocencio, consoante as tradições. Como elle se carteava

com a Mariquinhas e com a Rosa. Libertinagem do mancebo, desde

as luvas côr de figado até ao quino do botequim da rua de Santo

Antonio, e outras devassidões. O palacio de cristal e D. Ignez de

Castro em 1868. Um passeio a _vol d’oiseau_ pelo espirito e coração

de Innocencio José de Barros. Explica-se a ida d’elle para o Douro.

Porta-se bem, e não póde comer, rio acima. Apostrófa Thomazia, e

declama quatro versos dos _Ciumes do Bardo_. Espanta-se o gentio do

barco da carreira, e elle assobia para disfarçar. Custodia continua a

salgal-o, e elle cada vez mais insipido.

Ainda não é tarde para dizer de Innocencio o que pude averiguar das

tradições guardadas por muitos que o conheceram, no anno de 1843 em que

vão correndo os successos d’esta exemplar historia.

Era de sua pessoa bem ageitado o filho de Gervasio José de Barros.

Largo de aspaduas. Entroncado e rijo. Trigueiro, côr de bom sangue.

Olhos negros, grandes e um tanto pasmados. Nariz denunciante da raça,

judaico, longo, adunco e transparente. Nariz de Judas Escariotes

chamava-lhe Custodia, quando elle lhe macerava os perigalhos das ventas

d’ella com a bengala do pae. Mãos e pés guardavam proporcional e

harmonicamente um tamanho que fazia impressão. Não lhe vinha de Israel

a superabundancia das extremidades: aquillo haviam-n’o ganhado seus

avós na peninsula hispanica, onde as tribus dispersas e acurvadas por

trabalhos rudes engrossaram os musculos e estiraram os tendões de pés

e mãos. Isto não é regra. Se o fosse, a terra natal de Innocencio

correria o risco de ser considerada uma conquista de hebreos.

Tenho dito da pessoa material; agora vejamol-o em espirito.

Passava por não ter nenhum na roda dos seus conhecimentos. Era

taciturno e desconfiado. Sobejava-lhe instrucção para se fazer

ouvir; porque notava em silencio algumas parvoiçadas alheias. Lia

correntiamente, não envergonhava a ortografia; e a grammatica

perdoava-lhe as offensas, por entender que elle nem a conhecia de nome.

Nem era necessario para se entender com algumas meninas. Desde os

dezoito annos que se carteava ora com a Mariquinhas Gomes, ora com a

Rosinha da Praça Nova. Os epistolarios d’estes amorios em flor acabaram

em papelotes. Este destino foi o mesmo que rachar-se a urna onde

estiveram os aromas do amor virginal de Innocencio. Vaporaram-se.

Aos vinte annos, o representante de Pero Barrios teve seis mezes de

vida dissoluta. Comprava todos os domingos um par de luvas côr de

figado ou côr de laranja alternadamente. Alugava cavallo ao Lopes,

pedindo sempre que lhe puzessem telim orlado de vermelho, e despedia a

chotar, a galopar, a ferir fogo por essas ruas. E não caía. O cavallo

ia-lhe entalado nos calcanhares ingentes. Era um centauro o grupo.

Vestia-se a primor da moda e consumia verniz em barda, torturando-se

com heroico stoicismo. Ninguem lhe ouvia um gemido, tendo razões para

gritar como seus avós com os pés untados de gordo sobre brasas vivas.

Gervasio não o encrepava d’estas demasias de luxo, bem que ignorasse

as cavalhadas dominicaes. Dava-lhe mezada para ir ao Tivoli, e

achava que seu filho tinha razão de querer admirar trez vezes por

semana o Grilocôcho, o Fontainhas, o Fidanza e a Grata, sujeitos que

resplandeciam na prosperidade do theatro nacional do Porto, chegada ao

seu apogeu, para depois cair até á IGNEZ DE CASTRO, representada hoje,

5 de janeiro de 1868, no _Palacio de Cristal_. O palacio faz avançar a

gente a empurrões!

Apanhemos o assumpto, passando a voar por coisas da vida e costumes

de Innocencio, assaz contraditorias do seu nome baptismal. Sobra

razão para que o consideremos empestado da peçonha que afistulava a

mocidade de ha vinte e cinco annos. O botequim da rua de Santo Antonio

era um cardume de libertinos: quem ali entrasse a tomar um capilé,

e se demorasse dez minutos, saía cinico. E Innocencio, começando a

frequentar aquella caverna com o candido intento de jogar o quino,

passou depois ao bilhar, e d’aqui ás mezas marmóreas onde a sã moral

era espostejada como cadaver combalido em amfitheatro anatomico.

Por estas razões o filho de Gervasio não tinha sentido pela orfã o

affecto dulcissimo que só florece em almas castas. Affeito a vêl-a

formosa todos os dias, nem sequer a comparava com outras. Passava por

ella como qualquer pessoa de juizo e medianamente admirativa pelas

Venus de alabastro. Lembrava-se de a conhecer e trazer ás cavalleiras

quando ella tinha dois annos. Depois viu-a crescer, desabotoar flores

que lhe não rescendiam algum perfume; nenhuma florecencia o assalteou

de improviso; todas as primaveras da Thomazia lhe pareceram uma e

mesma primavera. Esta regularidade de vida fazia implicancia ao

extraordinario que requer o amor. Fôra mister ajuntar á formosura de

Thomazia vicio ou virtude que sacudisse, de repellão subito, o espirito

adormecido de Innocencio.

Bem viram como saltou o coração no peito do rapaz, quando o galhardo

Costa Guimarães remessava o cavallo pelas Cangostas. Amor assim nascido

é o descredito de uma paixão que se gosa de ser a primeira na jerarchia

das nobres. A gentileza do picador rival e a fina raça do cavallo, as

duas coisas, produziram a instantanea irrupção da cratéra. Belleza,

innocencia, agrados e caricias honestas nunca vingariam espertar o

affecto do descuidado moço, que até áquella hora se andára narcizando

a remirar-se no espelho dos alfaiates, ajustando ás mãos rebeldes as

luvas côr de figado.

O abalo, porém, foi perdendo força, ao mesmo passo que a menina, docil

á vontade de Gervasio e incapaz de reagir senhorilmente, se prestava a

satisfazer a vaidade do cioso deixando-se desposar com elle.

Se a orfã conhecesse o jogo de scena da comedia humana, continuaria a

fomentar as suspeitas do indifferente Innocencio, indo á janella na

occasião em que as patas de cavallo denunciassem a passagem de algum

façanhudo _Saint-Preux_, terror da moral desde a Porta Nobre até ao

Poço das Patas. Então veriamos o amador um tanto velhaco de Rosinha

de Barcellos apertar com o pae para que lhe désse a posse legitima e

santificada da linda menina que os burguezes, notaveis na gineta e

nobilitados por seus cavallos, lhe andavam disputando com sensivel

vantagem.

Estamos chegados á ida de Innocencio para as quintas do paiz

vinhateiro. Foi elle quem se offereceu. O pae maravilhou-se do insolito

zelo vinicola do rapaz. Ora o caso tem explicação e misterio.

A explicação é que dois irmãos da Rosinha, interessados no casamento da

irmã, denunciaram a Innocencio que o Costa Guimarães se gabava de ter

recebido cartas de Thomazia. Cuidavam elles que este aviso impediria

o ir por diante o tal ou qual affecto com que a menina da Praça Nova

suspeitava inclinar o coração de Innocencio á sua bella hospeda.

Agora o misterio. Chama-se assim á mingua de o podermos destrinçar pelo

claro. O inintelligivel está em que o moço não accusou a orfã ao pae,

nem proferiu palavra indicativa das agonias do seu animo.

D’aqui procedeu a deliberação de ir para o Douro, apostado a

distrair-se com uns ares filosoficos de pessoa sizuda que houvesse

lido as doçuras e allivios que Zimmermann promette aos solitarios.

Como quer que fosse, tudo que eu dissesse em honra d’este rapaz seria

pouco encarecido, attentos o juizo e generosidade com que elle escondeu

do pae as leviandades de Thomazia. Assim se absteve heroicamente de

vingar-se d’ella e sair victorioso das suas suspeitas, assentando em

honestas bases a repugnancia que lhe fazia tal casamento.

Elle ahi vae Douro acima. Ao dar do meio dia, olhou de soslaio para os

alforges onde abundavam as vitualhas e disse de si para comsigo:

--Não tenho vontade de comer!... e vou em jejum!

Depois, concentrando-se em intestino mais fidalgo que o outro

relacionado com os alforges, monologou, pondo os olhos nas ribas

alcantiladas do Douro:

--Thomazia!... que diabo de feitiço me fizeste!...

E, pendendo a fronte, assentou a barba no seio, e meditou d’este feitio:

--Verdade é que eu nunca lhe disse que lhe tinha amor... Coitada!...

ella bem sabia que eu fazia a côrte á Gomes, e nunca me mostrou má

cara... Mas, se ella gostasse de mim, não m’o dizia? Dizia, sim... E

talvez não dissesse, por que tem lá a sua soberba, e não queria mostrar

que me queria bem por eu ser rico. Prompta a casar comigo estava ella,

pois não estava?! Estava... eu bem lh’o ouvi dizer a meu pae... Mas

então para que escrevia ao outro?... Seria p’ra me metter ferro?... Eu

sei cá!

E aqui acudindo-lhe á memoria uns versos que elle tinha decorado dos

_Ciumes do Bardo_, exclamou em voz soturna, bracejando com impeto não

destituido de harmonia mimica:

Mulher! que mixto horrendo és tu na terra,

para unir crimes taes com tantas graças?

Que nome te convém? cruel? perjura,

impia, blasfema, algoz, monstro dos monstros?

E calou-se.

Os barqueiros olhavam espantados para elle, e duas passageiras já

idosas tomaram-lhe medo.

Innocencio, caindo em si do rapto, quasi se viu ridiculo, e entendeu

que o disfarce era assobiar assim a modo de quem se vae divertindo

monologando passagens de Castilho e relembrando no assobio trechos de

Donizetti que elle conhecia dos realejos.

Como acima se disse, este caso passava ao meio dia em ponto. E á

mesma hora, quando as nove badaladas caíam da torre dos Clerigos, a

senhora Custodia da Porciuncula, de cocoras á beira da fogueirinha,

fazia estalejar os espirros do sal virgem, e murmurava: _Eu te salgo,

Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar, para que não possas

comer, dormir, fallar, nem socegar sem com a Thomazinha casar._

CAPITULO VIII

Argumento

Como Innocencio foi enguiçado. Para onde lhe deu o vinho da colheita

de 1817. Palestra afflictiva com o pae, que não crê em bruxêdos.

Lastimas de D. Thomazia, e horrores das tias que julgam paradoxo um

jejum de tres dias. Innocencio come á tripa forra, e ama á proporção.

Discurso de Gervasio conducente ao casamento. Pudor da menina e

pieguices amorosas do rapazola. Resolução de afogadilho. Casam-se em

S. Nicoláo, e vão passar a «lua de mel» ao Bom Jesus do Monte, em

Braga. Diz-se da mula e macho que os transportam e dos passarinhos que

cantam.

Ao cabo de trez dias, Innocencio derivava em um barco de pipas na

corrente do Douro. Que trez dias d’aldeia! Trez dias de insomnia, de

dessocego, de afflicção e fastio. Repuxava-lhe a alma para o Porto

uma força irresistivel. A espora da saudade picava-lhe fibras illesas

até então. Chegado ao galarim do tedio e do desespero, furou uma pipa

da colheita de 1817 e bebeu com aquellas sedes ardentes de Musset,

de Espronceda e de outros infelizes que fizeram adegas dos corações

vasios. Mas, ah! o coração de Innocencio estava cheio do amor de

Thomazia. O vinho empoçou-se-lhe no estomago e d’aqui fumegou-lhe

para o cerebro uns delirios que rompiam em apostrofes metricas,

sacrilegamente apanhadas nos _Ciumes do Bardo_. Quantas vezes tenho

ouvido relanços d’aquelle poema servindo a paixão declamatoria de

alarves mais obstinados que Innocencio! Fazem-me lembrar onagros a

pastar nos roseiraes, quando os ouço a espumar das sujas bocas aquelles

versos de ouro!

Applacada a sesão, Innocencio correu-se de pejo da sua sombra.

Revoltou-se contra si mesmo, exclamando:

--Oh! quanto sou asno! Que vim eu fazer ao Douro?! Não podia eu estar

agora á beira de Thomazia, e livre d’estes ciumes que me...

E, dizendo, enganchou os dedos de fórma de garra, e fincou-os com força

de ventoza sobre o lado esquerdo do peito, como quem diz que os ciumes

lhe agadanhavam o coração.

Feito isto, chamou um gallego da vinha, entregou-lhe o alforge e a

mala, desceu ao caes do Pinhão, e esperou que desatracasse barco de

pipas.

Taes foram as angustias que precederam a partida e inesperado

apparecimento de Innocencio no escriptorio do pae.

--Já por aqui?!--exclamou o velho.--Que novidade trazes, Innocencio?

--Nenhuma...--respondeu o moço com tristeza.--Não pude lá estar mais

tempo... Estive a morrer...

--No rio? houve desastre?

--Não, senhor... Quero dizer que me vi tão afflicto, tão apoquentado,

que...

--Que tiveste, rapaz?--atalhou o velho alvoroçado.--Tu estás amarello,

meu filho!... Tens os olhos molhados!... Que é isso?...

--Meu pae!...--murmurou Innocencio, apanhando a cabeça com as palmas

das mãos.--Eu desconfio que me fizeram feitiçaria... Não pude comer nem

dormir trez dias!...

--Como assim?...--acudiu Gervasio despegando-lhe as mãos da

testa--então que sentes, menino?

--Sinto-me doudo d’esta cabeça... A minha razão diz-me que não ame

Thomazia, e eu não pude esquecel-a uma hora, um minuto, em quanto andei

por lá...

--Então cuidas tu que isso é bruxedo?--atalhou o pae com ridentissimo

carão.--Ó filho, isso não é o que tu cuidas; é um mal proprio da

natureza que péga em todos. Qual feitiçaria, nem qual carapuça! Nunca

os males sejam maiores... Se gostas d’ella, fazes o que deves; tambem

ella morre por ti. Ainda não ha meia hora que Thomazinha me veiu aqui

trazer esta carta para eu t’a mandar ámanhã dentro da minha pelo

correio. Aqui a tens, olha, lê-a e verás que a mocinha estava cá como

tu por lá. Esteve ahi a chorar como vides, e a dizer que tu, se a não

querias, dissesses isso e não andasses a desacredital-a.

--Eu não a desacredito!--exclamou Innocencio indignado com razão.--Pois

eu que disse?...

--Ora vamos lá... vamos lá... Tu disseste que o outro do cavallo andava

por ahi a espinotar pela rua p’r amor d’ella, e que...

Foi interrompido Gervasio pela estrondosa descida da familia que

recebêra do criado a nova de estar Innocencio no escriptorio.

A mãe e as tias penduraram-se no rapaz; e Thomazia, com os braços

abertos, esperou a sua vez para o apertar ao seio.

Deixou-se estreitar, affavel e ao mesmo tempo melancolico, o ditoso,

com uns tregeitos que seriam de tolo se não fossem antes umas

mimalhices que a boa fortuna permitte aos seus beijamins. Innocencio

fez um bico de beiços e um pendor de palpebras assim a modo de quem

quer chorar as suas penas no seio de quem lh’as deu. N’este em meio,

chegou Custodia, e encarando com os dois meninos abraçados e mudos,

bradou, batendo as mãos:

--Está feito o milagre! ouviram-me os meus santos! Eu que disse,

senhoras?--continuou ella virando-se para a mãe e tias de

Innocencio--eu não disse ás minhas amas que elles se queriam como um

casal de pombinhos? Ora ahi os teem a rever-se um no outro como dois

serafins! benza-os Deus, que tão galantes são! Tomára eu não acabar sem

ver os filhinhos d’estas duas creaturas! Vejam, vejam, como ella se faz

vermelha!...

--Está bom, está bom, Custodia--disse o alegre Gervasio--vae dizer á

cosinheira que ponha lá que comer na mesa, que o menino está a cair de

fraco.

--Bem se te vê na cara, meu filho--confirmou a mãe.--Comeste pouco por

lá?

--Ha trez dias que não come--explicou Gervasio.

--Jesus, santo nome de Jesus!--conclamaram as trez senhoras,

benzendo-se.--Ha trez dias!...

--Ó meu Innocencinho!--lamuriou D. Thomazia de Barros, saltando-lhe

outra vez ao pescoço.--Estiveste trez dias sem comer!?

O rapaz surriu-se tristemente e murmurou:

--Isso que tem?...

--Que tem?--voltou a velha lastimosa--que tem? Podia levar-te a bréca,

meu querido filho! Trez dias sem comer!...

--É a primeira que ouço!--disse D. Florencia, com as mãos juntas sobre

o promontorio da região hipogastrica.

--Trez dias!--obtemperou D. Juliana--eu não sei como elle ainda se tem

de pé! Vamos p’ra cima, vamos, Innocencinho. Anda comer.

E queriam amparal-o todas para o ajudarem a subir as escaleiras.

--Não é preciso...--disse o rapaz, desviando-as.

Era um gosto de sibarita ver o amante a funccionar com o apparelho da

mastigação, desobstruido já o canal onde o amor infeliz costuma empécer

como salamandra em cano de chafariz.

Regalavam-se todos a cada naco de paio que rodava no trago de vinho.

Não obstante, a mãe, de certo ponto em diante, pedia-lhe que não

comesse tanto, que podia dar-lhe na fraqueira. O pae contraditava a

esposa atirando-lhe para o prato colheradas de letria e ovos moles,

bradando em tom aforistico:

--Come, que a barriga é como um sacco; emquanto couber, deita-se-lhe

p’ra dentro.

Findo este repasto de Romeu, quanto era possivel ser-se na rua das

Cangostas, Gervasio, que tinha bebido de meias com o filho uma garrafa

de 1815, desatou a fallar com enthusiasmo e tal qual eloquencia. O

discurso pozera a mira em concluir ali d’uma vez para sempre o tantas

vezes mallogrado intento dos desposorios. Depressa chegou ao fito

n’estes termos idíllicos e commoventes:

--Rapariga, tu gostas do meu filho, e elle quer-te deveras. P’r’amor

de ti é que o Innocencio não comeu nem dormiu, nem parou, em quanto

não veio para a tua companhia. É amor verdadeiro. Agora, não admitto

réplicas de parte a parte. Casar, que é tempo. Casar, e acabaram-se as

historias. Casar, e... tenho dito!

A menina lobrigou por debaixo da sobrancelha o repleto noivo, cujo

coração se recostava regaladamente sobre o coxim do estomago; situação

absurda nos termos, e todavia experimentada por todos os amantes

felizes depois de um banquete em que se haja comido á portugueza,

segundo as formulas de Domingos Rodrigues. Os olhos de Innocencio

cheios de graça dardejavam aos de Thomazia um raio obliquo de ternura

com o supplemento de um sorriso entre alvar e amoroso.

Gervasio, arrebatado pelo mutuo colloquio de olhos que todos

presenciavam, levantou-se, foi ao pé da afilhada, chamou o filho, tomou

as dextras de ambos, achegou-as com patriarchal gravidade, e disse:

--Meus filhos, Deus vos abençôe! Sede felizes, como eu tenho sido com

vossa mãe.

As lagrimas das trez velhas realçaram a solemnidade das expressões

singelissimas de Gervasio, que faziam lembrar os tempos antigos.

Os noivos olhavam para o aspeito jubiloso do velho, como querendo

furtar-se á contemplação reciproca de suas pessoas. Depois, deslaçaram

as mãos, e escutaram attentos um longo discurso do pae, tendente a

demonstrar que os casamentos feitos ao tarde não provavam bem; sendo

certo--dizia elle em mais claras frases--que os vicios trazidos do

trato do mundo para o seio da familia, quando um homem se casa depois

de os ter radicado na alma, estão sempre a dar rebentos e fructos máos.

Custodia foi presente ao mavioso espectaculo. Anciava-lhe o arcaboiço

do peito em resfôlegos de alegria. Aquillo era obra d’ella, segundo

sua fé na magia do sal virgem lançado ao lume. Se devia ao diabo,

se aos santos, o rapido e feliz exito das suas obtestações, não n’o

sabia ella decidir. De qualquer das maneiras, sobravam-lhe motivos de

vaidade, e não lhe faltava tempo de reconciliar-se com Deus, á imitação

dos feiticeiros S. Anastacio e S. Gil de Santarem, dado o caso de

interferencia diabolica nos effeitos prodigiosos do sal virgem.

* * * * *

Tiradas licenças e dispensa de banhos, no praso de dois dias,

Innocencio José de Barros e Thomazia Alves receberam as bençãos na

egreja de S. Nicoláo.

Era no mez d’agosto de 1843. O calor tornava invejavel os amores

das aves regorgeados nas sombras das frescas florestas. Innocencio,

poeta pouco mais ou menos como todos os seus visinhos, invejou as

aves dos bosques do Bom Jesus de Braga. Conhecia elle de nome a sasão

das primeiras delicias conjugaes, chamada _lua de mel_. Consultou as

inclinações bucolicas da esposa, e recebeu um alegre consenso á sua

idéa. Os velhos condescenderam.

Thomazia sentada em vistosas andilhas cilhadas no largo albardão de

uma mula, e Innocencio galhardamente encavalgado sobre um macho de

arriaria, sairam caminho de Braga, ao repontar uma tépida manhã,

festejada dos passarinhos e perfumada das madresilvas dos valles.

CAPITULO IX

Argumento

Innocencio entedia-se de judeus e arvores. Partem os noivos para

Monsão. Nicoláo d’Almeida em Caminha. Os tolos de 1845 menos damninhos

que os de 1868. Ciumes de Innocencio e má creação. Recordações

atacantes do administrador do concelho que apertou a mão de Thomazia.

Aperta e estorcega o braço da mulher. Entram arrufados no Porto,

depois de terem visto na «Ponte da Pedra» o Guimarães, que se porta

como quem era. Innocencio e o macho. Thomazia desabafa com Custodia.

Tempestade imminente formada em casa de Rosinha, que lia o «Homem dos

trez calções». De como Leonardo queria matar Innocencio, e o que o pae

lhe diz a este respeito.

Ao quarto dia da lua, Innocencio, sentado na «Fonte do Sátiro», por

volta do meio dia, abriu a bocca, benzeu as fauses escancaradas com o

dedo polegar--costume pio e cauto da sua familia--e disse á esposa:

--Vamos nós embora ámanhã, Thomazinha? Isto já me aborree... E a ti?

--Eu...--murmurou a senhora espriguiçando-se--tanto faz... Se queres,

vamos.

--Estou farto de ver arvores e judeus... e tu, Thomazinha?

--Sim, eu, tambem... Mas queres tu, Innocencinho? Vamos nós a Monção

ver as minhas tias, irmãs de meu pae? Prometti de lá ir visital-as...

nunca as vi... A gente que vae fazer já para casa?!

--Pois vamos lá, se queres, menina.

E, torneando o braço pelo collo mal velado da esposa, desceu com ella

por sob a abobada de folhagem onde os pintasilgos e os cerezinos os

rivalisavam no mimo do dialogo.

Ao quebrar da calma, desceram para Braga, e na madrugada seguinte

jornadearam para Monção.

Detiveram-se alguns dias em casa das irmãs do capitão Alves, e voltaram

por Caminha.

Recorde-se o leitor de ter dito Nicoláo d’Almeida ao meu amigo Antonio

Joaquim, no theatro de S. João em 1845, que, dois annos antes, vira em

Caminha e nunca mais podéra esquecer a formosa mulher que outra vez

topára agora no camarote da 3.ª ordem.

Foi então que elle a viu, e por tal maneira se lhe areou o juizo ao

vêl-a que fez azoar Innocencio.

O sangue · 第 5 / 13 段