carta era para o meu filho?... era para o meu filho que tu estavas
escrevendo a cartinha, sim?
--Era, sim, senhor.
--Não minta!--entreveio Innocencio; rodando sobre os engonços dos
calcanhares com a presteza de um manequim. Não minta! A senhora não
foi, ha bocado, á janella, quando passava a cavallo o João José da
Costa Guimarães?
--Quem é esse?--acudiu a menina com assombrada innocencia--eu conheço
lá o Guimarães!...
--Não conhece aquelle rapaz que ia a surrir-se para cima, e a
assoar-se a um lenço branco?--replicou o moço--Não sabe quem é o Costa
Guimarães?!... Ora adeus!...
--Eu tinha aberto a janella--voltou Thomazia triste, mas
socegada--porque... estive por traz dos vidros a ver se...--E
suspendendo-se por dois segundos, continuou com mais calor.--Eu direi a
meu padrinho o que estava fazendo, e a razão por que fui á janella.
--Então, diz lá...--sobreveio Gervasio.
--Hade ser só a meu padrinho...
--Vae lá p’ra cima, Innocencio--disse o pae ao rapaz.
Saiu Innocencio com os olhos abatidos e as mãos nos bolços da judia.
Levava ares de tolo, e todavia doia-lhe o coração deveras. Gervasio fez
um gesto de cara para deante e cabeça para traz, significando á menina
que fallasse.
--Eu, padrinho, estava atraz das vidraças a ver se o Innocencio saía.
Quasi sempre o vou espreitar de modo que elle o não saiba, para que não
pense que eu lhe quero bem por que elle é rico. Hoje estava eu á espera
que saisse; esperei, esperei muito tempo; e cuidando que elle estava á
porta da rua a olhar para a Maraquinhas Gomes, abri a janella, quando
ia a passar o tal homem a cavallo, que eu não sei se é Guimarães, se
que diacho é. Vae n’isto, o Innocencinho foi p’ro meio da rua, e poz-se
a olhar para mim muito carrancudo. Eu pensava que a zanga d’elle era
por eu o andar espreitando; e vae elle de que se hade lembrar? vem
dizer ao padrinho que eu estava a namorar o outro. Coisa assim!...
Thomazia tirou um lencinho da algibeira, e levou-o aos olhos para que
Gervasio lh’os não visse enxutos.
A cara do velho alargou-se dilatada pelo calorico da alegria; é preciso
a fisica para explicar os movimentos das caras onde não ha metafisica
nenhuma. Tem não sei que aspeito alvar o contentamento das almas boas.
O de Gervasio José de Barros jubilava tão grandemente e tão convencido
da innocencia da afilhada, que não se satisfez com menos de abraçar a
orfã e exclamar:
--Ó menina, perdôa ao meu filho, que é um asno!... Anda aquelle bólas
com a cabeça tão desarranjada, que se tu lhe não dás juizo com o
casamento, eu qualquer hora pego d’elle e mando-o comer no Brazil o pão
que o diabo amaçou. Mas o que o Innocencio quer, filha, é que tu gostes
d’elle, e mal sabe o patarata que tu lhe queres tanto... Gostas do meu
filho, deveras, rapariga?
--Sim... eu...; mas... elle... como é rico, e tem muito quem o
queira... e eu sou pobre... por isso...
--Asneiras, menina, asneiras! Quem é rico sou eu, não é elle, entendes,
Thomazia? Eu é que tenho alguma coisa, riqueza não digo, por que ha
quem tenha mais; mas ganhado com mais honra, não. Ora agora, o meu
filho por emquanto é tão rico como tu; e ao futuro, se me andar fóra
dos eixos, póde ficar a ver o sete-estrello, entendes?... Eu já te
disse que...
--Mas se elle casar com outra menina rica...--interrompeu Thomazia.
--E d’ahi?
--Não lhe faltarão senhoras do agrado do padrinho...
--Não me dês leis, menina. O que me convem sei eu... Não quero cá a
menina rica... Quero-te a ti, por que te estimo como filha; quasi me
nasceste nos braços; e prometti á alma de teu pae olhar tanto por ti,
como se fosses irmã do meu Innocencio. São dois filhos que eu tenho.
Se elle te não quizesse, Thomazia, sabes o que acontecia? pelo menos
metade do que eu tenho havia de ser teu; isso lá nem a justiça nem o
bersabú t’o tiravam. Se elle casar comtigo, como de feito, fica-vos
tudo; não tendes partilhas que fazer, e fica-vos bastante, graças a
Deus, e louvores a quem m’o deixou sem pragas de orfãos e viuvas.
Thomazia não se enterneceu até ás lagrimas; mas ficou tanto ou quanto
commovida por sentimento de gratidão ao amor paternal do velho.
Figurou-se-lhe ver a imagem do pae, ainda não delida totalmente da sua
memoria, arguindo-lhe com severidade a perfidia com que respondia á
generosa alma do seu bemfeitor. Sem intervenção do venerando fantasma
de seu pae, sobrava para magoal-a a vergonha espontanea que sobreleva
os malissimos instinctos.
O regosijado Gervasio José saiu ao pateo e chamou o filho, e a mulher,
e as irmãs, sentindo não ser usual invocar os visinhos para quinhoarem
da alegria de um coração bonissimo. Innocencio foi o ultimo que desceu.
--Venham cá!--exclamou o velho com as bochechas rosadas e cheias de
riso.--Anda cá tu, meu filho, que és um lorpazito como eu fui quando
amava tua mãe, e como hão de ser teus filhos e netos até ao fim do
mundo _peronia secla seclorium_. Ouve lá, menino. Olha que a Thomazia
foi á janella para te ver; e tu, que trazes a cabeça lá por cascos de
rôlhas, cuidaste que ella ia ver o outro. Menina, conta ahi tu como
foi a coisa a este teu noivo, que está ali com um nariz de palmo a
olhar p’ró chão e com a vista de esguelha! Não me estejas a olhar-me
p’rá pequena com esse olhar de porco, Innocencio! Vaes mal com esse
sistema... Pagar amor com ingratidão nem os cães. Menina, diz ahi tu
como foi que...
Thomazinha, sem erguer o collo da pudica inclinação em que o tinha,
murmurou mui constrangida:
--Já contei ao padrinho... Se elle não quer acreditar, deixal-o. O
que eu faço d’aqui em deante é não tornar á janella, e acabam-se as
desconfianças...
--Como as desconfianças se acabam sei eu,--emendou D. Thomazia.--O que
se hade fazer ao tarde faça-se ao cedo.
--Dizes bem, mulher!--obtemperou o marido.--Hade isto ficar decidido
aqui hoje.--E voltado solemnemente ao filho, continuou:--Innocencio,
queres receber por tua esposa esta menina?
Deteve o rapaz a resposta, roendo a unha do dedo pollegar, e revirando
de soslaio os olhos a Thomazia.
--Então?--bradou o pae--comes os dedos ou respondes?
--Ella que diga...--murmurou Innocencio, passando a roer nas unhas da
outra mão.
--Afilhada!--apostrofou o velho guardando os mesmos tom e postura
graves.--Queres casar com meu filho?
A menina corria a orla do avental retorcendo as franjas de retroz uma
por uma com os seus alvissimos dedos.
--Responde, Thomazia!--tornou Gervasio dando aos hombros com
impaciencia.
--O padrinho bem sabe a minha vontade... Eu estou por tudo... mas...
--Mas quê...--abreviou o velho desconfiado das reticencias.
--Se elle me não ama depois... O padrinho bem sabe que o Innocencinho
nunca me disse se eu queria casar com elle... Tem lá outros namoros de
meninas ricas... e eu sou uma pobre orfã... Se depois se arrepender...
--Que dizes áquillo, Innocencio?--tornou Gervasio.
--Eu...
--Sim, tu! pois com quem diabo fallo eu!
--Ó Gervasio!--atalhou a irmã Sebastiana--não tens precisão de fallar
no porco-sujo!...
--Pois que querem vocês?--explicou o velho.--Um homem perde a
paciencia! Está ali aquelle focinhudo a roer os cascos, e não acaba de
desembuchar o que lá tem dentro!
--Responde a teu pae, menino!--interpoz-se D. Thomazia.--Ou sim, ou
não. Contra vontade não quero que te cases...
--Isso é assim!--atalhou um novo personagem n’esta poetica e
fidelissima scena de familia.
Era a senhora Custodia da Porciuncula que assomava no limiar do
escriptorio com as calmandulas enroscadas no pulso.
--Peço licença... Ninguem me cá chamou; os meus santos é que me
trouxeram...--disse ella.
Abriram-lhe passagem com agradavel sombra as trez senhoras em quanto a
menina desabafava o animo, encarando na sua confidente.
--A senhora D. Thomazia tem razão--proseguiu Custodia, inclinando
profundamente a cabeça deante da consorte de Gervasio.--Casar, se o
coração não puxa, é mau arranjo. Sempre me ha de lembrar o verso em que
o boticario dizia:
Menina, casar sem gosto
Por fazer vontade alheia
É cair no inferno em vida,
Remar contra a maré cheia.
Innocencio careteou uma visagem de anojado do tom enfatico e talvez
ridiculo com que a senhora Custodia usava citar os aforismos liricos do
boticario. A velha deu tento do desdem do moço, e calou-se de subito,
relançando-lhe a vista azedada.
--Deixemo-nos agora lá do verso do boticario--disse o pae de Innocencio
egualando-se ao filho no descaroado desamor a poetas, mormente quando
se discutia uma coisa séria. Não venha cá a Custodia dar sentenças, que
o negocio hade arranjar-se sem o seu voto, se Deus quizer...
--Senhor Gervasio--replicou a velha--se Deus quizer, sim; mas se Deus
não quizer, não...
--Deixa fallar a mulhersinha, Gervasio,--interveio a esposa,--deixa-a
fallar, que é mulher experimentada.
--Será, será; o diabo o negue...--acudiu o burguez maliciando o dito
casto da mulher.
--Anjo bento!--murmurou a senhora D. Florencia--ahi vens tu outra vez
com o cão tinhoso!
--Sabeis vós que mais?--redarguiu Gervasio--ide á fava! Estou a
mandal-as todas p’ra riba, e fico sósinho com os pequenos... Que estás
ahi a resmungar, Custodia?... Diz lá o que quizeres... Achas que a
filha de teus amos vae mal casada com o meu filho?
--É consoante, senhor Gervasio. Se elles gostam um do outro, muito que
bem; se não gostam, tanto faz ser rica como pobre; contentes é que
elles hão de viver, quando eu fôr rainha. Não é isto nem aquillo...
Estes meninos, cá segundo entendo, não estão talhados p’ra se casarem.
O senhor Innocencinho não gosta da senhora D. Thomazinha.
--Quem t’o disse?!--bradou Gervasio.
--Ora, quem m’o disse! Basta vêl-o. Se elle gostasse d’ella, estava
aqui agora aquella menina á espera que elle se resolva? Então já lh’o
elle tinha dito, e acabavam estas caramunhas de parte a parte... Emfim,
senhor Gervasio, queira perdoar o meu atrevimento, mas a minha opinião
é que os deixe estar solteiros. O seu filho não lhe faltam noivas; e á
menina, se Deus quizer, não lhe hão de faltar noivos. O melhor dote que
ella pode ter é a sua virtude e a carinha de santa que tem.
Gervasio roçava as costas das mãos uma na outra e bufava, voltando
a parte posterior de sua pessoa á sã filosofia de Custodia. As trez
senhoras, convictas de que a velha era servida de favores do alto e
sempre mais ou menos inspirada, attentavam religiosamente no que ella
dizia. A menina desafogava-se da oppressão, respirando pelo desabafo da
criada. Innocencio guardava um silencio que tanto podia considerar-se
summo siso como supina toleima.
Quebrados os impetos da colera, Gervasio José abriu uma porta de
entrada para um armazem de geropigas, e disse ao filho:
--Anda comigo, rapaz.
Entrados ao armazem, fechou o velho a porta, e rompeu assim de vizeira
com Innocencio:
--Queres casar ou não? Gostas da rapariga ou não gostas? Diz lá o
que quizeres, que eu não t’o levo a mal. Se vês que te não agrada o
casamento, dil-o p’r ahi á bocca cheia. Cá ás costas não quero culpas.
Queres a moça ou não queres?
N’este lance, o rapaz viu trez bonitas raparigas: uma era a visinha
Mariquinhas Gomes, que tocava piano; outra, era a Felismina da rua das
Flores, que lhe tinha dado amendoas, na Misericordia, em quinta feira
santa, ao pé da pia; a terceira era a Rosinha da Praça Nova, que lhe
pisára um pé, estando elle a jogar o quino em casa da mesma menina, a
mais presada das trez. Por tanto eram trez provas de ternura que lhe
lancetavam o coração n’aquelle momento. Trez meninas, aliás quatro com
Thomazia, que lhe embaraçavam a escolha, obrigando-o a ter mais engenho
que o pensador e historico burro de Buridan.
N’esta oscillação, demorou-se o que bastou para o pae concluir assim
terminantemente:
--Está visto... Não queres a rapariga... Acabou-se; não fallemos mais
n’isto. Vamos embora.
--Olhe cá, meu pae...--susteve Innocencio.
--Que é?
--Eu queria dizer-lhe uma coisa...
--Então?
--Peço quinze dias de espera.
--P’ra quê? P’ra te decidires? Deixemo-nos de historias. Se o coração
t’o não pede, acabou-se. Tanto faz scismar no caso como estar a dormir.
Arrumou-se a pendencia. Nada perdido. Vou tratar de casar a pequena
com um dos meus sobrinhos de Villa-Flor. O que eu não quero é têl-a
solteira em casa; que isto de mulheres, ás duas por trez, desandam, e
ninguem tem mão n’ellas. Acabou-se. Vamos embora.
A determinação de Gervasio era sincera. Póde ser que um misterioso
relampago, n’aquella hora, lhe aclarasse, em confuso, o porvir
desditoso de tal enlace. O certo é que a vontade de unir o filho á orfã
se lhe varreu de todo.
CAPITULO VI
Argumento
E vae eu disse e vae elle disse. O grande tratante que era João José
da Costa Guimarães. Operações da Providencia. Custodia pragueja como
uma vivandeira. Como a menina se foi consolando. Costa Guimarães fica
sendo na alma de Thomazia a figuração de um sapo. Reconsiderações de
Custodia, e o coração de rôla da innocente. A velha pensa em embruxar
Innocencio. Reminiscencias do farmaceutico amado. Esconjuros de sal
virgem e salgação de Innocencio. Como o rei de ouros saiu de corpo e
pensamento com a dama do mesmo naipe. O rapaz não póde já comer os
pés de bacoro, eguaria predilecta. Pede-lhe Thomazia duas melancias.
Lampejo de espirito d’elle. Gritos indicativos de que um homem está
perdido.
--Menina--dizia Custodia á orfã, passados dois dias--não vê os meus
olhos?
--Estão vermelhos...
--É de chorar... Tanto resei, e a final... historias. Deus me perdôe,
se pecco; não é o Guimarães quem a hade levar á egreja.
--Ah!--suspirou Thomazia. Então que disse elle?
--Tenho muito que lhe contar, filha do meu coração... Eu dei-lhe a
carta á esquina da viella dos Gatos! Elle leu-a logo, por que eu lhe
disse que a menina queria resposta. Futurou-se-me que o dianho do
homem cobria a cara com o papel para se rir ás escondidas! Depois,
poz-se a fechar a carta e não me dizia nada.--Que heide eu dizer á
menina?--disse eu; e vae elle disse: «Que lhe hade dizer? eu sei cá!» e
vae eu disse:--Pois a menina não lhe diz ahi que a vá pedir já, se quer
casar com ella?--E vae elle disse: «Sim, ella diz isso; mas eu...»--E
vae eu disse: «Mas eu quê? então o senhor que cuida? Cuida que isto são
brincadeiras?--E vae elle disse: «Ainda estou muito novo; se me casar
hade ser lá p’ró diante». E vae eu... Em fim, assim que ouvi isto,
parece que o coração se me despegou por aqui abaixo. Fui-me metter na
egreja de S. Bento, e estive lá a chorar, que já nem via o padre. D’ali
a pouco...
--Ai!--gemeu Thomazia.
--Deixe dizer o mais, e não se afflija que homens não faltam, menina.
D’ali a pouco fui ouvir outra missinha aos Congregados, e quando saía
para ir resar aos Clerigos vi o tal Guimarães á porta de um botequim
que está nos baixos dos frades, sim dos frades que lá estavam quando
havia religião, e estava elle no meio de outros a ler um papel, e os
outros a dar gargalhadas.--Querem vocês ver, disse eu cá comigo, que
o berzabum do patife está a mostrar a carta da minha Thomazinha? Vou
espreitar... E fui muito escorcemelada com a parede, e metti-me n’uma
porta, d’onde ouvia tudo. Meu dito, meu feito! Era a carta da menina...
--Ai!--espeitorou a anciada moça, pondo as mãos lindas sobre o alto
seio que parecia beijal-as ao levantar-se nos arquejantes éstos.--Era a
minha carta?!--exclamou ainda Thomazia, levando as mãos ao rosto.
--Era, era, filha; mas não chore, que os ditos da menina, não n’a
envergonham.
--E que diziam os outros?
--Olhe, quando o bregeiro lia aquillo que dizia: _Dizei-me se quereis
já, já unirse-vos a mim pelos sagrados laços de..._ de que era que a
menina dizia lá?... do _jubileu_ ou coisa assim... os outros até davam
saltos a rir-se, e dizia um:--Oh! que burra!--e outro berrava: «Eu
quero ver essa mulher das Cangostas; dá-me essa seresma por piedade,
Guimarães!»... a chamarem-lhe seresma aquelles canalhas! Ai, menina! As
lagrimas saltaram-me como punhos!...
Thomazia menos ferida no coração do que na vaidade--não já de redactora
de cartas, senão de mulher que a si mesma se via digna de respeito no
seu amor--chorou agora tão sincera e amargamente, quanto dois dias
antes fingira lagrimas deante do padrinho. As operações da Providencia!
Custodia continuou:
--Não chore, meu anginho, não chore, que me parte de meio a meio o
coração!
--E tu a dizer-me--soluçou a orfã--que os santos te tinham mandado o
meu noivo... Se não fosse isso, eu não caía em lhe escrever...
--Tem razão, tem razão: mas que quer, menina? A gente engana-se. Cuidei
que as minhas orações valiam alguma coisa... Paciencia... Deus sabe
melhor o que faz do que nós o que pedimos. Que leve a breca o homem e
má peste o tolha! Tantos diabos o apanhem como bagadas me cairam por
esta cara!...
A menina estava mais desabafada. De tão superficial amor, assim
ultrajado, qualquer outra senhora, mais bem compleicionada, declinaria
facilmente ao odio. Odio é que ella sentia ao villão que lhe expozera
á zombaria o estilo da carta. Ainda ha de nascer a mulher que perdôe
insulto de tal porte; que a diffamação da honra é menos affrontosa do
que o escarneo de uma carta em que vae o coração. Portanto, a imagem
de João José da Costa Guimarães, no espirito de Thomazia, fazia a
impressão de um sapo, e mais nada.
Custodia da Porciuncula, assim que a menina se amostrou mais socegada,
fallou-lhe assim:
--Ora, diga-me cá, anginho... Que lhe parece o Innocencio? Elle gostará
da menina ou não?
--Eu sei cá!... por quê?
--Não que isto é uma pergunta... Está-me a parecer que o rapaz lhe quer
bem, e que... bem me entende... lá como casamento não era desarranjo,
acho eu. Já lhe disse que o arrenego, e tomára eu ver a menina casada
com outro; mas, se elle fosse bom marido, rico é elle; e, pelo que
vejo, não ha que fiar em ninguem, para a gente andar á cata d’outro. Eu
cá nas minhas aquellas de santos já me não fio, Deus me perdôe... Sabe
que mais, senhora D. Thomazia?... Entende-me?
--Sim; mas... tu não viste que o padrinho desde antes de hontem não me
disse mais nada?
Como a innocente percebeu a velha! Muito longe de repugnar-lhe o
conselho, offereceu logo razões impeditivas de realisar-se! Coração de
rôla!
Era verdade. Gervasio nada mais lhe tinha dito, desde que saíra com
o filho do armazem da geropiga; e Innocencio apenas se avistára
com ella ás horas de jantar ou ceia. Que os olhares se encontravam
rapidos como dois relampagos afusilados de polos fronteiros, isso era
tambem verdade. Tanto os paes como os tios de Innocencio festejavam
particularmente estes bons indicios de ainda verem coroadas as suas
esperanças, por effeito de uma reciproca e espontanea rebentação de
amor nas duas almas a um tempo.
A’quella consideração da orfã, obviou Custodia:
--Isso lá do padrinho não lhe dizer nada tanto faz como coisa nenhuma,
filha. O caso é o rapaz; o rapaz é que é preciso prendel-o.
--Ahi vens tu com as tuas prisões e telhiços!--atalhou Thomazia.--Eu
não tenho fé com essas endróminas.
--Não tem?--garganteou a velha rindo sêccamente.--A menina é muito
nova...
--Então por que não prendeste aquelle malvado do Costa Guimarães?
--Por que o não prendi?
--Sim.
--Deus lá o sabe... Cá eu nas minhas orações não chamo demonios, é
santos, entende? e os santinhos, se me não ouviram, é por que bem
sabiam a rôlha que era o tal patife. Dê graças a Deus, menina! Foi bom
que isto acontecesse antes de lhe entrar o amor de raiz, por que já lá
dizia o verso do boticario:
Costilia, se me não amas...
Costilia, dizia elle que era Custodia... Eu não sei...--explicou a
velha, e proseguiu mudando o tom chão da nota para o declamatorio:
Costilia, se me não amas,
Diz-m’o ao cedo e não ao tarde;
O fogo apaga-se ao cedo,
Nemja quando ha muito arde.
Pois é como é, meu serafim do céu... Não nos lembre mais o demonio
do homem, e vamos cá ao que serve. A menina deixe-me manobrar, e lá
pela sua parte não faça nada; isto é, quando o Innocencio olhar para
a senhora D. Thomazinha, olhe tambem; se elle lhe fallar, falle-lhe;
se elle não fallar, não falle. E deixe-o andar; que o rapaz ha de
ganhar-lhe paixão. Oh se ha de!... eu que lh’o digo...
--Mas eu não gosto d’elle...--interrompeu a moça, fazendo uma visagem
de fastio.
--Ora vamos lá, vamos lá; o rapaz não é mal-ageitado; e, de mais
d’isso, os homens todos são uns... E a riqueza, menina?--aqui levantou
de ponto a voz e arregaçou as palpebras, entumecendo os olhos de
emfase--E a riqueza? A menina sabe lá quanto esta gente tem de seu?!
Quando eu vim crear a sua mãesinha, ha mais de quarenta annos, ouvi
muitas vezes dizer a seu avô que os antigos d’este Gervasio eram judeus
que mediam ás razas ouro em pó... Lá me custa, isso é verdade, que a
menina se case com homem de raça judia; mas tanto o pae como o avô de
Innocencio foram baptisados, e as senhoras essas são boas christãs. O
rapaz, quando era pequeno, ainda ás sextas feiras lhe fervia o sangue;
mas agora, eu tenho pedido ao Senhor que o faça bom, e hade fazer.
Tome tento, menina; ande-me com o lume no olho, não deixe fugir a
occasião, que isto de homens, são assim--disse Custodia, fazendo no ar
um gatimenho com a mão descarnada.--Casar, e quanto antes, que não vá
algum d’aquelles diabos da Praça-Nova dizer ao Innocencio que a menina
mandou a carta.
--É verdade!--exclamou Thomazia transida já do receio de se lhe frustar
o casamento que, pouco ha, desdenhára.
--Não se assuste... O Innocencio ámanhã vae p’ró Douro ver as vinhas
de mando do pae, e só volta d’aqui a oito dias. Em quanto vae e volta
ninguem já se lembra de nada.
Estavam a soar as badaladas do meio dia. Custodia disse a Thomazia que
a deixasse sósinha, por que assim se fazia necessario.
Foi a velha á cosinha e colheu da saleira um punhado de sal. Fechou-se
na agua-furtada, e pulverisou o sal n’um caco. Depois, accendeu uns
gravatos de alecrim, e esperou que batesse o meio dia n’outra torre.
Ao primeiro toque, tirou uma boa pitada de sal, lançou-a á lavareda
do alecrim e ciciou estas palavras debruçada sobre a vaporação da
fogueirinha: _Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar
para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar, sem com a
Thomasinha casar._
Seguiram-se mais duas pitadas de sal virgem e dois esconjuros no mesmo
estilo.
Concluida a operação magica, acocorou-se a beata, sorveu duas vezes
de simonte, ageitou o regaço, montou as cangalhas, e botou as cartas.
Saiam-lhe dispostas as figuras do baralho tão de molde com o desejo
que, á terceira vez, a sibilla ganiu um ai de puro jubilo, estremecendo
sobre a tripode do capacho em que se amezendára. O rei de oiros, que
era Innocencio, calhava sempre de _corpo e pensamento_ com a dama do
mesmo naipe, que era Thomazia. Por isso ella ganiu com uma expressão
torva, sobre-humana e como de vocalisação infernal; pois não ha duvidar
que ha o que quer que seja satanico na cartomancia, quando as mãos
escarnadas e roixas das profetisas cruzam sobre o baralho aquellas
bençãos e murmuram umas vozes esconjuratorias que a mim, homem d’este
seculo e progressista, me já tem feito arripiar as fibras intimas e
riçar os cabellos.
Entretanto, estava jantando a menina. A cadeira de Innocencio
defrontava com a sua. Reparou ella que o rapaz comia pouco, sem embargo
de lhe estar a mãe avitualhando o prato com uns pés de sevado, iguaria
dilecta do filho. Deu fé, além d’isso, de que elle lhe esguelhava a
miudo os olhos, perfilando o rosto para a não encarar de fito.
--Ámanhã a estas horas onde estarás tu, meu filho?--perguntou a mãe já
com tristeza da presentida saudade.
--Estou no rio Douro--respondeu altivamente Innocencio com semblante
acabrunhado.
--Estás Entre-ambos-os-rios--disse Gervasio.--Não se esqueçam de lhe
metter duas gallinhas no alforge. Deixa-te lá estar oito dias, e não
venhas senão depois de bem desfolhadas as vinhas. Manda-me lavar os
toneis, e olha se me aproveitam o sarro. Agora não te vás lá pôr a
malucar; que tu não me trazes essa cabeça escorreita!...
--Deixa o menino!--atalhou a senhora D. Thomazia.
--O menino!--murmurou desdenhoso o pae--menino de vinte e dois annos!
Innocencio assoprou do fundo peito um suspiro demorado como o de
borracha de vento que se esvasa vagarosamente. A menina levantou os
olhos ao rosto do moço e surpresou os d’elle a fugirem do encontro.
Findo o repasto, e dadas graças a Deus, Thomazia foi chamar Custodia
para vir jantar, e contou-lhe em breve o que passára na mesa. Custodia
grasnou um riso protervo de brucha e disse:
--Deixe-o comigo.