desaffeição ou embirra vinha de longe e até certo ponto justificada. O
rapaz, creado com mimo de filho unico, era endiabrado aos sete annos.
As tias defendiam-n’o quando a mãe o ameaçava; o pae defendia-o das
iras das tias; a mãe escondia-o no regaço quando o pae com fingida
colera o procurava onde sabia que o não encontraria. De sorte, que
o traquinas zombava de todos, e nomeadamente de Custodia, victima
obrigada e por excellencia da tirannia do rapaz.
Se a velha se estava remendando, com o dorso curvo e o nariz espremido
e entalado nas cangalhas, Innocencio pinchava-lhe ás cavalleiras,
dando-lhe de calcanhares nas ilhargas, onde ella se queixava de uma
«obstrucção» de cada lado. Outras vezes, fazia-lhe por detraz pontaria
ás cangalhas com a bengala do pae, e de subito lh’as fazia saltar,
repuxando-lhe dolorosamente os refêgos do nariz. Custodia engulia as
pragas que lhe vinham da arca do peito, visto que a mãe e tias do
menino riam da brincadeira; todavia, a raiva repremida converteu-se em
peçonha de odio, que o tempo não pôde inteiramente esvurmar do coração
da velha.
O que ella podia ter feito era resgatar-se do verdugo, deixando a casa;
mas impediam-n’a muitas razões de força, entre as quaes realçavam o
affecto que ella tinha á menina, de cuja mãe fôra já ama; depois o
pedido que lhe fizera o capitão Alves de se não apartar de sua filha
emquanto os bemfeitores lhe dessem uma tigela de caldo; finalmente, a
liberdade de ir ás suas missas, e grangear a salvação da sua alma, sem
faltar aos reparos e reboques do corpo com a argamassa dos biscoitos
ensopados nos haustos sorvidos da cabacinha, com que a fantasia se
lhe etherisava misticamente até aos tactos substanciaes infusos. E,
depois, como adicção a tantos impedimentos, a meza de Gervasio era
abundantissima, vinho a granel, cama bem enroupada, afóra estipendio
superior aos serviços da velha, que todos se cifravam em grangear a
gloria eterna de seus amos e responsar a boa saída de todos os negocios
da casa.
Isto não obstante, congraçar-se com Innocencio é que não pôde mais a
retrincada Custodia. Lanço de fallar mal d’elle a Thomazinha não o
perdia; e, desde que as tias do pequeno lhe segredaram que talvez os
dois meninos viessem a ser esposos, a velha entrou a scismar e a fazer
trezenas a varios santos para que a filha de sua ama tivesse melhor
fado que ser mulher de tão mal-creado tunante. Assim que Thomazinha
teve idade e entendimento do que era matrimonio, a velha foi-lhe
insinuando a noticia do que tinha percebido, sem todavia a desviar
de querer Innocencio para marido, caso lhe não deparassem os santos
da sua particular devoção outro noivo com riqueza e melhor genio que
o filho de Gervasio. A menina escutava a sua criada complacentemente
e denotava nenhum empenho em passar de pobre a rica, e de orfã
beneficiada a filha e herdeira dos Barros das Cangostas. Póde ser que
o muito amartellar-lhe da velha contra a malvadez de Innocencio, e por
sobre isto uma certa aversão á dependencia, pesada sempre nas condições
ingratas, predispozessem a moça ao desagrado que avultou em antipathia
chegado aos quinze annos o coração.
Andava inquieta e mais fervorosa em advogar perante os seus santos a
desconveniencia de tal casamento a senhora Custodia da Porciuncula,
na occasião em que Gervasio deliberára realisal-o, receoso dos
filtros que lhe traziam o filho ebrio de amorios de má casta e peores
consequencias.
Nas egrejas é que a solicita velha gastava as manhãs expondo
mentalmente aos seus advogados que Innocencio era um bandalho, indigno
de Thomazia; e que a filha de sua defunta ama, se elles santos
quizessem, poderia arranjar marido mais capaz, e tão rico como o outro.
A confiança que a beata Custodia punha em suas rogativas era tão
segura, que já de antemão a fé lhe dava a certeza de que, finda a
trezena a S. Gonçalo da Sé, lhe havia de apparecer signal de ter sido
ouvida.
Ao decimo quarto dia, concluida a devoção dos treze decorridos sem
novidade, saía Custodia da Sé, e ao descer do Arco da Senhora de
Vandoma para a Rua Chã, chegou-se d’ella um bem assombrado e galhardo
moço que lhe disse:
--Muito bons dias, senhora Custodia.
--Deus lhe dê os mesmos. Quem é vossa senhoria?--cortejou e perguntou a
velha, alvoroçada com o rebate de ser chegado o enviado de S. Gonçalo,
seu procurador de causas matrimoniaes em ultima estancia.
--Sou, disse elle, um rapaz que muito ama a senhora D. Thomazinha, e
venho confiar de vocemecê este segredo, pedindo-lhe que não duvide
fazer os serviços que puder á felicidade da menina a quem adoro.
--Vossa senhoria sentiu alguma coisa no coração para vir ter-se
comigo?--perguntou a risonha Custodia, querendo verificar se de feito o
gentil moço fôra tocado por S. Gonçalo d’Amarante.
--Senti, sim...--confirmou elle, bem que respondesse a uma idéa que não
era a intencional da pergunta.
--Sentiu coisa no seu interior?--tornou ella.
--Uma paixão ardente pela menina que me não deixa dormir nem comer.
--Desde quando foi isso? lembra-se?...
--Desde que a vi no Reimão, e depois que a tornei a ver no theatro...
--Mas aqui ha coisa de duas semanas que tem vossa senhoria sentido lá
dentro do seu coração?
O rapaz não achou bem escorreito o inquerito e quedou-se a olhar muito
a fito nos olhos inquietos da velha, e a repetir:
--Aqui ha coisa de duas semanas?...
--Sim... pergunto eu se foi ha duas semanas que vossa senhoria formou
tenção de casar com a minha menina?
--Se formei tenção...?--titubeou elle.
--Pois então?--volveu Custodia desconfiada do ar perplexo do
casquilho.--Vossa senhoria o que quer, não é casar com a senhora D.
Thomazinha?!
--Com toda a certeza...--acudiu o taful vergastando a perna direita com
o chicotinho, e ferrando os dentes n’um sorriso de motejo.
--Está bom; mas queria eu saber cá por certas razões se vossa senhoria
essa vontade que tem de casar com a menina lhe veio ha coisa de treze
dias para cá.
--Sim, eu... ha muito que gósto da senhora D. Thomazinha; mas... a
tenção de casar... é como vocemecê diz... foi... ha quantos dias?
--Ha treze para cá.
--Justamente: ha treze para cá...
--Então posso ir agradecer ao meu S. Gonçalo...--acudiu com
enthusiastico fervor a velha.--E como é a sua graça de vossa senhoria?
Proferiu o moço um nome com dois appellidos que n’aquelle tempo
significavam uma familia das mais enriquecidas no commercio. Custodia
esbugalhou os olhos inchados da alegria que lhe sobejava do riso, e
exclamou:
--Que bonito noivo vae ter a filha da minha ama!... Não caibo na
pelle!... Vossa senhoria, ainda que eu seja confiada, ha de ser tão
rico ou mais que o Innocencio do senhor Gervasio das Cangostas...
--Não sei; mas por que me faz essa pergunta?
--Cá me entendo.
--Tambem eu a entendo, senhora... senhora...
--Custodia da Porciuncula, sua criada por muitos annos e bons.
--Vem a dizer a senhora Custodia que o filho do Gervasio quer casar com
a senhora D. Thomazia...
--É o pae, pelos modos, que trabalha para amanhar isso; mas a pequena
não assigna, é por’ora...; e, se Deus quizer, o marido d’ella ha de ser
vossa senhoria, ou S. Gonçalo não tem poder nenhum...--disse Custodia
com a pia intenção de estimular o capricho do santo empenhado.
--Pois bem--replicou o interlocutor, anediando a rosca da luzente
e calamistrada cabelleira que lhe assentava nas espaduas.--Faz-me
vocemecê o favor de entregar uma carta á menina?
--Pois isso nem dado nem de graça; lá fallar-lhe, isso, não lh’o posso
arranjar; mas escrever-lhe, não ha remedio, p’ra se entenderem; e eu
aqui estou p’ra levar a carta.
--Aqui a tem--disse o «elegante». (Alcunhavam-se n’aquelle tempo de
_elegantes_ os sujeitos ferozes de que saíram depois mais parvuos e
derrancados os modernos _janotas_.)
--Pois já a trazia feita?!--clamou a senhora Custodia com a sincera
exultação de quem via em tudo S. Gonçalo e se via a si com a efficacia
de suas recommendações.
E ao tempo que recebia a carta sentiu uma substancia mais fresca e
solida do que o papel em contacto com os seus dedos.
--Isto que é?--perguntou ella, sem pôr os olhos sobre o objecto
estranho.
--Faça-me o favor de receber estas tres mexicanas para rapé--disse
urbanamente o moço.
--Nemja eu... não, senhor... queira servir-se de me perdoar; mas eu
não ando n’isto por interesse... Tome lá, que eu não pego n’este
dinheiro...
--Então, faz-me essa desfeita, senhora Custodia?!--redarguiu elle.
--Tenha paciencia...--insistiu a briosa velha. Não sou da casta de
muitas criadas que eu cá sei. Isto que faço... sabe por que o faço?
sabe por que eu levo a carta á menina?... É por que m’o manda quem
póde... vem do céo este destino... o que eu quero é vêl-a feliz á filha
da senhora que eu criei aos meus peitos, e heide olhar pela sorte
d’ella em quanto viver. O que eu queria era ir d’este mundo depois de a
deixar bem casada, para poder dizer lá no céo á mãesinha d’ella: «a sua
filha lá ficou feliz a resar por nós ambas».
Custodia estava enxugando os olhos, em quanto o elegante chicotava
a ponta da bota de verniz, e remirava a costura da pantalona até á
polaina com o desvanecimento de lhe ajustar a primor o talhe.
Ditas algumas poucas palavras de despedida e convenção de se entreverem
volvidos dois dias, separaram-se.
A velha ainda foi á Sé agradecer a S. Gonçalo com effusão de alma
convencida do milagre. Depois, em casa, apropositado o ensejo, segredou
a Thomazia os successos decorridos, e concluiu entregando-lhe a carta
do sujeito que havia de passar na rua ás quatro da tarde.
Thomazia inferiu logo quem lhe escrevia, segundo os signaes que deu
Custodia. Devia de ser o cavalleiro costumado na rua.
--Elle tem melenas pretas e um bigodinho retorcido?--perguntava
Thomazia com alvoroço.
--Tem, sim, menina.
--E a modo de trigueiro, a olhar assim por debaixo do chapéo?
--É isso, é isso mesmo.
--E muito fino da cintura, com a mão pequenina?
--Tal e qual. Que lhe parece, minha filha? Gosta d’elle?
--Sim... eu...
--Pois ahi tem o que hade ser seu marido.
--Ora!... Quem sabe?...
--Quem sabe!--respondeu severamente Custodia, pondo um braço ao alto, e
um dedo apontado.--Quem sabe?! O meu S. Gonçalo d’Amarante é que sabe,
e, por intercessão do glorioso santo, Deus é que o quer.
Thomazia abriu a carta. A lettra era ingleza, garrafal e elegante de
hastes, enquadrada em cercadura de flores que enramavam frecheiros
Cupidos. Custodia cavalgou os oculos para se pasmar de um coração
ferido em ninho de folhagem, sobre a qual duas calhandras ou
passarinhos parecidos, asseteados tambem do amor, davam mostras de se
estarem beijando com os amorosos bicos.
--Vejam vocês! que graça teem estes bonecos!--dizia a senhora Custodia,
jogando com a cabeça e oculos para apanhar em cheio o raio visual.--E
este menino tão gordo!--proseguiu ella pondo o dedo arroixado de um
unheiro sobre a cara jubilosa de Cupido.--Isto não póde ser o menino
Jesus, por que tem aqui uma cestinha á bandoleira. Será São Joãosinho?
--Nada, não é--corrigiu a menina.--Isto é o Amor.
--O amor?!--interrogou com absorta ignorancia a senhora Custodia da
Porciuncula.--Este rapazinho assim era pêllo é o amor?...
--Foi o Innocencio que me ensinou a conhecer o retrato de Cupido.
Chama-se Cupido tambem.
--Ah! isso póde ser; que eu, quando era moça, bem me lembra de ouvir
cantar o boticario da minha terra umas modinhas á guitarra, onde dizia
lá o verso:
Maldito seja o cupido
Que cravou no peito meu
A setra que não penetra,
Marilia no peito teu.
--Já hoje se não cantam d’estas modinhas!--continuou em tom de lastima
a velha, tirando os oculos.--Agora o que se ouve por ahi é umas
senhoras a dar uns guinchos que parece que estão com as dôres de parto.
Pelos modos cantam á moda italiana...
--Vamos agora ver a carta?--atalhou Thomazia.
--Vá lá.
Começou a menina deletreando correntiamente o fraseado. A velha abria
os olhos á proporção da bocca, por onde ella dava signaes de querer
engulir a indigesta intelligencia das expressões. Thomazia ia lendo
monotonamente e ladeando a vista d’uma linha para a outra á espera
de topar palavra em que tomasse o fôlego e sentisse a satisfação de
entender a idéa do namorado estilista. Chegou a anhelada passagem.
A seguinte frase ajustou-se-lhe ao entendimento esclarecido pelo
coração: «Suspiro por vós como o rôlo que geme na arvore solitaria
pela rolinha amada.»
--Ai!--suspirou Thomazia.--Vês o que elle diz, Custodia?
--Elle que diz?--perguntou a velha.--Má mez p’ra mim, se eu entendi
pataca! Ha uns modos de dizer á moderna que parece latim! E a menina já
sabe isso que ahi diz o que é que diz?
--Algumas palavras não as entendo; mas outras sim. Pois tu não entendes
isto? Diz elle que suspira por mim...
--Sim, isso entendi eu; mas...
--Que suspira por mim como o rôlo...
--O rôlo?!
--Sim; o rôlo que geme pela rolinha...
--Ah! já, já, já!--exclamou a velha, batendo palmadas nas cabeças
perfurantes dos joelhos.--O boticario tambem cantava esse verso á
guitarra. Deixe-me vêr se me alembra... ha de alembrar...
O rôlo quer a rolinha
E a gemer chama por ella;
O pombo quer a pombinha;
Só tu me despresas, bella!
--E depois dizia--proseguiu a senhora Custodia com juvenil enthusiasmo:
Invejo a sorte do rôlo,
E do pombo a sorte invejo;
Santas leis da natureza,
Não falteis ao meu desejo.
--Ai! que tempo! que tempo!... Tivesse eu cabeça, que bem podia a esta
hora ser a dona da botica!... Morria por mim o pobre do Gregorio...
Sim, o Gregorio--disse ella baixando o tom da voz á feição de nota
explicativa entre-parenthesis--o Gregorio era o boticario, que me
botava estes versos e muitos que me hão de lembrar!... Fui tôla... na
cabeça me deu... Ai! homens, homens!
Uma lagrima borbulhando no canto interno do olho direito de Custodia da
Porciuncula attesta que, n’aquelle momento, se desdobram scenas tristes
deante de sua alma. Respeitemos a secreta angustia que ainda póde
espremer-lhe uma lagrima do coração mirradinho. Um lance desgraçado
de sua vida nos basta para conjecturar que passava por ella o suão
infernal de um amor desditoso. Aquella mulher, quarenta e dois annos
antes, acceítára a creação de um filho estranho, tendo atirado o seu
á roda dos expostos. Quantas agonias de arrependimento e saudade
n’aquella lagrima!
--Vamos lá... leia o mais, menina--disse ella com vehemencia limpando
os olhos, e sacudindo os braços como se quizesse afugentar as imagens
mortificativas.
D. Thomazia foi lendo até final, sem encontrar frase que lhe
lisongeasse a percepção. A linguagem era cada vez mais repolhuda, e
entremeada de vocabulos exdruxulos e de tal compridez, que a menina
partia-os a meio para arejar os bofes. Confessou ella ingenuamente que
não tinha estudos para entender os dizeres do sujeito; sem embargo, o
coração interpretou aquelles adoraveis enigmas.
--O que elle diz é que me ama; isso lá, diz!--asseverou Thomazia.
--E que quer casar com a menina? vem isso lá?--perguntou atiladamente
Custodia.--Sim; é preciso saber-se se diz que a ama para o bom fim.
--Pois não ouviste que elle escreve...
--O quê? que escreve?
--Que suspira pela rolinha amada...--observou Thomazia relendo o trecho
predilecto.
--Mas isso que diz da rolinha não é cá o que eu quero saber.
Deixemo-nos de rolinhas. Falla ahi em casar? Eu não ouvi...
--Casar? sim... eu, _casar_, não achei cá.
--Pois então, menina--decidiu severamente a velha--se não achou, não
responda sem que elle diga pelo claro o que quer. Que eu--modificou a
senhora Custodia--estou certa de que o mancebo quer casar; mas, pelo
sim, pelo não, quero tudo em pratos limpos. Ora com isso de rôlos e
rolinhas não temos feito nada. Eu já não sou d’hoje nem d’hontem. O
mundo está cada vez mais diabo, Deus me perdôe. Os meliantes já não
eram poucos no meu tempo... que fará agora, que a religião está na
espinha! Emfim, depois de ámanhã hei de ir onde a elle, e bem sei o que
lhe hei de dizer.
Parecia querer a menina advogar o texto sibillino da carta, allegando
que a sua falta de sabedoria a não deixava entender os pontos onde a
pessoa lhe propunha o casamento. Correu d’olhos outra vez a carta a
vêr se, pelo menos, encontrava a palavra _himeneu_, erudição que a
pratica das comedias lhe havia ministrado, e depois lhe serviu, como
se disse, na mentira a Gervasio. O que prova, ao mesmo tempo, que a
erudição é boa e má.
_Himeneu_ era vocabulo de que os estilistas de 1844 já se não serviam.
Não estava na carta esta velharia tão necessaria a Thomazia, n’um lanço
em que o seu espirito podia confundir a ignorancia e ruim suspeita de
Custodia. Ficou triste a moça; mas não duvidosa das intenções honestas
do seu amador, mormente, se, consoante a fé vacillante da velha, lh’o
tinha suggerido S. Gonçalo--intervenção em que a menina não punha a
maior confiança.
Como quer que fosse, Custodia, passados dois dias, foi em cata do
programmatico noivo, e disse-lhe que fizesse outra carta que se
entendesse, e pozesse claro o sentido do namoro.
O elegante não se riu interiormente da ignorancia da Thomazia, porque,
bem averiguado o caso, não era redacção d’elle a carta, nem elle,
dizendo verdade, se tinha avantajado á innocente da rua das Cangostas
em percebel-a. O interprete de seu coração tinha sido um poeta,
prosador biblico, precursor temporão d’estes teutonicos de hoje em
dia, cujo progresso os distancía tanto do lirismo de 1844, que já os
espalhafatos d’aquelle tempo nos parecem agora comparativamente chãos
como a carta d’amores de uma costureira.
O rico mancebo que encommendava os rascunhos aos seus amanuenses,
sem lhes graduar o calibre intellectual das mulheres, e, pelo commum,
se não déra mal com o genero farfalhudo, pediu copia sem pautar o
espirito da pessoa, trasladou-a com esmerada caligraphia, convicto de
que os corações amados desnecessitam entender a rethorica dos corações
amantes. Advertido agora pela honesta alcaiote d’estes amores mal
estreados por causa do luxo da lingua (que _para tudo serve e presta_,
como diz Rodrigues Lobo, e até para tolos é dadivosa) foi o joven logo
d’ali escrever outra carta com o estilo de casa, bom, espalmado, optimo
para o effeito de que o entendessem.
Á leitura da segunda carta, Custodia batia as palmas e exclamava,
abafando o esganiçado enthusiasmo:
--Agora, agora! Isso percebo eu, menina!
Thomazia tambem percebia tudo, tirante as sandices que podiam ser
sómente inventariadas por pessoas de espirito culto. No mais, não
faltava á declaração um ar de sincera estupidez, solapando o bestial
intento de seduzir a moça.
Agora fica já conhecido o sujeito a quem a menina das Cangostas estava
respondendo.
CAPITULO V
Argumento
Innocencio espreita e apanha a menina. Diz-se o que era o babeiro do
amor. Cacareja elle uma risada sinistra. Como o cavallo do elegante
collaborou no amor subitamente accendido no peito de Innocencio.
Terrores de Thomazia. Custodia dá-lhe espirito, promettendo tolher
a lingua do joven. Quem era João José da Costa Guimarães. Como ella
alimpou os olhos enxutos e logrou segunda vez Gervasio. Intervem
Custodia no lance solemne de se estar Innocencio roendo as unhas sem
acabar de resolver-se a casar. Cita um apophtegma do boticario. É mal
recebida a authoridade metrica no auditorio. Recolhe-se Gervasio e
mais o filho a um armazem de geropiga, onde lhe diz o que melhor se
verá adiante. Como um homem precisa ser mais entendido que o burro de
Buridan.
Innocencio não enguliu, como elle dizia, o maranhão: riu-se da boa fé
paternal e espantou-se da astucia da rapariga.
Por volta das quatro horas da tarde, estava elle, á porta da rua,
fogueando o seu charuto, ás escondidas do pae, e resfolegando soffrego
as fumaças, com a voluptuosidade de rapaz que fuma ás furtadellas.
N’este comenos, passou, em upas e corcovos de fogoso ginete, o enviado
de S. Gonçalo, com os olhos disfarçados no parapeito da janella onde
Thomazia costumava sair já nada esquiva. Innocencio retraíu-se para
o escuro do pateo, e deu tento de rangerem em cima as portadas da
janella. Espreitou de esconso o cavalleiro, e viu-o meio-voltado sobre
o sellim, com esbelto meneio, revirar um olho á janella e surrir,
correndo pelo bigode um lenço branco. O lenço branco, n’aquelle tempo,
era ainda o babeiro do tenro amor, a bandeira do coração em batalha de
ternos dardos.
Passou o galhardo picador, e Innocencio, pulando ao meio da rua, deu de
cara com Thomazia ainda embevecida na figuração ideal do gentil rapaz,
com os olhos postos no cunhal da casa onde se lhe desfizera a visão.
O filho de Gervasio cacarejou uma risada rispida e melodramatica
como de actor garraio. A orfã olhou despavorida, e viu Innocencio a
trincar o charuto, debaixo da aba do chapéo carregado sobre o nariz,
coruscando-lhe das pupilas umas áscuas de raiva não vulgar.
Fez pé atraz a menina, e sumiu-se com o seu pejo e medo. Innocencio
voltou para o pateo, acendeu outro charuto, e começou a passear
freneticamente no lagêdo, scismando sem atinar com o alvitre mais
adequado á sua refervente indignação.
Estranhava-se o rapaz! Poucas horas antes, a quasi certeza de que
Thomazia escrevia a outro, levemente lhe agastára a vaidade; e agora,
o vêl-a acudir ao reclamo do mais famigerado galã do Porto, e o
cuidar que era aquelle o encuberto amor da rapariga, isto sómente lhe
atanazava o peito de raladores ciumes! Comparava-se com o outro em
gentileza e agrados. Raivava convicto da sua inferioridade; porque
o seu rival cavalgava guapamente, era bem parecido, galeava pelos
figurinos, tinha uns ares soberbos de quem despreza invejosos, entrava
na roda dos provincianos fidalgos, e, de mais a mais, rico.
Vejam de que paixão ruim nasceu o amor de Innocencio! Foi a inveja que
lh’o esporeou! Isto não admira. Não é bem sujo e fetido o adubo em que
se aquece a raiz de um assetinado lirio? De detritos podres não surdem
e avoejam insectos de azas iriadas de ouro e azul?
A orfã agachou-se a tremer á beira de Custodia e disse-lhe anciada:
--O Innocencio viu-me na janella... Agora ahi vem elle acusar-me ao
padrinho... Que ha de ser de mim, Custodinha?
--Não, que a menina negue--acudiu a velha destemida.--Negue, que eu vou
responsal-a, e tolhel-o a elle, que hade querer fallar e não poder.
A serva de Deus recolheu-se, apanhou entre os joelhos a cara, e
quedou-se orando n’aquella postura pouco reverenciosa e quasi indecente.
No entanto, a rapariga, offegante de medo, subia e descia de mansinho
as escadas que levavam da agua-furtada, onde era o quarto da velha,
ao segundo andar. De cada vez que voltava, ia á beira de Custodia, e
segredava-lhe:
--Não ouço nada.
--Deixe-me cá...--resmuneou a creatura, que continuava de bôrco os
seus arranjos com os espiritos superiores.
Corrido um quarto de hora sem que Innocencio fizesse rumor, a velha
alçou a cabeça, e disse com modesto aprumo:
--Está tolhido! Os meus santos não se cançam de ouvir a peccadora. Devo
uma novena ao meu padre Santo Antonio.
Acabadas de proferir estas palavras, reboou desde o patamar do
escriptorio a vozeira de Gervasio José, chamando Thomazia.
Estremeceu a menina; e a velha ficou por momentos descrida de ter bem
tolhido a lingua de Innocencio.
--Ai! e agora?!--exclamava Thomazia.
--Vá lá, vá lá; faça-se de novas, e negue, que eu cá fico a rezar... E
não se me ponha lá a choramingar... ouviu? Noivo tem a menina...
--Então, digo-lhe ao padrinho que tenho noivo?... acho que o melhor é
ser verdadeira, não é, Custodia?...
--Não diga nada por ora, que em fim...
Gervasio vinha já subindo as escaleiras, quando a moça descia com a
mais serena compostura de semblante, dizendo:
--Aqui vou, meu padrinho...
--A senhora não ouviu chamal-a ha pedaço?--perguntou desabridamente o
velho.
--Não ouvi...
--Essa é boa! onde estava vocemecê?
--Na trapeira a dar agua aos manjaricões.
--_Hum..._--regougou Gervasio, medindo-a com olhar carrancudo.
--O padrinho está zangado?--atalhou affavelmente Thomazia.
--Venha cá ao meu escriptorio: temos que fallar...--E accrescentou
abaixando a voz:--Estou pasmado...
--De que, meu padrinho?!
Entraram no escriptorio. Thomazia viu as costas de Innocencio que
estava olhando para o saguão atravez da vidraça.
--Com que então...--disse Gervasio, bamboando a cabeça--com que então...
A moça esperava o resto, serenamente encarada, com as mãos nos
bolcinhos do avental.
--Afinal de contas...--proseguiu o entalado velho, saltando do exordio
ao final de contas.--Que me dizes tu a isto, Thomazia?...
--A isto quê, meu padrinho?! Eu não sei por que vocemecê me está
tratando assim...