O pequeno applicava-se ao estudo, e ia ensinando a Thomazia o que
aprendia, já com certo aprumo e vaidade de preceptor. A menina
entretinha-se com mediocre prazer nas praticas do alfabeto, e ia
arguindo vocação negativa para cultivar o entendimento. Era a soberana
ordem das cousas, raras vezes desconcertada. Chovia-lhe a natureza
dons de infantil formosura, e dava-lhe ao mesmo tempo sequidões
esterilisadoras de intelligencia. Cada dia lhe abrolhava flores novas;
e cada dia lhe entibiava mais a percepção. Por maneira que a menina
já choramigava quando Innocencio lhe pedia contas da invencivel
difficuldade de soletrar.
--Deixa lá a pequena!--exclamou a madrinha compadecida.--Eu tambem não
sei ler, e graças a Deus não me tem feito falta. Uma mulher de casa não
lhe chega bem o tempo para cuidar do seu arranjo. Isso de lêr é lá para
as fidalgas que não sabem no que hão de gastar as horas. Aprende tu,
que és homem, e deixa a menina. Se ella não tem geito, para que apertas
com ella? É forte birra a tua, rapaz!
--Eu não quero que ella seja bruta!--disse Innocencio com uma
authoridade e sobrecenho irrisorio, attentos os seus doze annos.
--E que tal!--clamaram as tias em quanto a menina córava, e a mãe se
benzia, murmurando:
--Ora esta! querem vocês vêr! O rapaz já diz que não quer que ella seja
bruta! Assim nos vae chamando brutas a todas! Então tu governas em
Thomazia?--tornou a risonha senhora.--Ella é tua parente ou _adrente_?
Innocencio fez uma pirueta de educação mediocremente esmerada e saiu da
presença da mãe aos pinotes.
Ora vejam agora como a serpente da vaidade mordeu de assalto o amor
proprio da menina. Ao outro dia, pediu ao seu impertinente mestre que
lhe ensinasse a lição, estudou-a, deu de si boa conta á custa de muito
martelar na combinação litteral dos nomes bisillabos, e conseguiu em
poucos mezes livelar-se com a sciencia do pedagogo. Fez-se o prodigio
em razão de lhe ter chamado elle bruta!... Indicio de alguma coisa, a
meu vêr; se boa, se ruim, o futuro, querendo Deus, nos irá assentando
as bases para seguro juizo.
Na aprendizagem incompleta das primeiras letras consistiu a educação
litteraria de Thomazia Alves. O padrinho entendia que as quatro
operações não lhe desconvinham e a leitura de uma carta lhe podia ser
util. D’aqui em deante, nem elle sabia nem lhe constava que mulheres
podessem aprender coisa proveitosa.
Por encurtar fastios, sigamos de salto os annos de Thomazia até aos
quinze.
Eil-a bella quanto póde imaginal-a a mais artistica e ambiciosa
fantasia. Faltava, porém, alma e luz n’aquelle rosto, porque as
imperfeições, embora poetas e romancistas as esqueçam, são inevitaveis.
A estatua de certo tinha vida bastante para valer em tresdobro da
Galathea e das notorias Venus de innocente marmore; todavia, a glacial
placidez do semblante, se não fosse natural, deslustral-a-ía com umas
sombras de desvanecida e concentrada na contemplação de si mesma. Não
era; e que fosse, ainda assim daria muito que invejar ás poucas a
quem a prodigalidade do destino concedeu peregrino rosto e adoravel
alma a transluzir-lhe em olhos e sorrisos; que alteza de pensamento
e profundidade de conceitos isso não vale tanto á mulher bella como
quatro flôres do campo nos cabellos.
Thomazia ganhára fama, bem que os pregoeiros da sua formosura
escassamente a vissem nas egrejas, nas procissões, nos camarotes da 3.ª
algum domingo de tarde, e uma ou outra vez nas hortas do Reimão, onde
Gervasio José costumava desde menino ir merendar sob a folhagem das
parreiras. Se o apetite lhe faltava e o cirurgião lhe formulava oleo de
mamona, dizia elle á familia:
--Bem sei... Vamos ao Reimão merendar uns linguados com a respectiva
salada. O meu oleo de mamona é o verdasco de Basto ali tirado da pipa,
e quatro azeitonas de Sevilha.
Apesar das precauções do avisado enfermo nos lanços da preguiça de
estomago, Thomazia era vista dos peraltas que ainda em 1841 se não
pejavam de apear de seus cavallos e carruagens á porta das tavernas do
Reimão e Barros-Lima.
Se o commerciante reparasse nos seus confrades da medicina do linguado
e da azeitona, podia vêr alguns d’elles caracolando os ginetes que lhe
pateavam sonoramente a testada da sua casa nas Cangostas.
Elle, de certo não; mas a sua afilhada, menos mal servida de
reminiscencia, reconhecia trez ou quatro dos cavalleiros que uma vez
e diversas vezes tinha visto nos bucolicos festins do padrinho ou
nos festins espirituaes da madrinha mui devota do Senhor-exposto de
Bello-Monte e da Misericordia.
Isto, porém, não desluz nem mareia a candura de Thomazia. Era um acto
de memoria e mais nada; acto, porém, que não condizia com a frouxa
faculdade de reter a taboada salteada. Ha compensações; é o que é.
Ora agora, que a senhora D. Thomazia de Barros (o _dom_ começou a
honorifical-a ahi por 1840, anno em que seu marido foi da camara) que
a senhora D. Thomazia e suas cunhadas e marido não tinham sombra de
suspeita da leviandade da menina, é bem de entender, sendo tal e tão
crescente o amor que lhe davam.
Ahi por volta dos dezeseis annos da moça, a familia Barros congregou-se
em sessão, cujo memento se infere de terem descido ao escriptorio de
Gervasio. Se um caso desatado da historia podesse ser contado aqui,
sem enfado de quem lê, diriamos que Thomazinha, vendo-se só e ouvindo
estrupiada de cavallo, entreabriu as portadas da varanda, e por um
resquicio espreitou o cavalleiro até á revolta da rua para o largo de
S. Domingos. Está averiguado que elle a viu tambem com olhos satanicos;
mas ella, por sua parte, ficou illesa e quieta de coração. Quando é
que a lua, nas alturas onde os poetas lhe mandam declarações de amor,
se deu por offendida ou perdeu tanto como isto da sua proverbial
castidade? Thomazia podia pleitear isenções com a lua n’este caso e
vencel-a em muitas qualidades amaveis.
Desçamos ao escriptorio.
É proposto e não discutido o casamento de Innocencio José de Barros
com a ditosa menina. Divergem ainda assim os pareceres, no tocante ao
prazo da realisação. Os tios Jeronimo e Felizardo opinam que o rapaz
está muito novo. As tias Sebastiana e Florencia abundam n’este parecer;
mas Gervasio, bamboando trez vezes a cabeça como quem prefacía uma
revelação ponderosa, diz:
--O rapaz tem dezenove annos. Vocês cuidam que o tempo de hoje é o
nosso? Estão enganados. No meu tempo, antes dos vinte e cinco, homem
que tolejasse com mulheres, era um asno de quem as pessoas serias não
faziam cabedal. Eu tinha vinte e oito e alguns mezes, quando pensei em
procurar companheira. Isto agora é outra coisa. Voltou-se o mundo. As
mulheres estão _desaustinadas_ e os mancebos, assim que lhes pinta o
buço, ninguem tem mão n’elles...
--O nosso filho é bem comportado--atalhou a senhora D. Thomazia com
applauso do auditorio, que se mexeu nas suas cadeiras de segovia
marchetadas de botões de cobre.
--O nosso filho, repetiu com intencional surriso o orador, o nosso
filho é como os outros. Eu que lh’o digo é que o sei; e agora... vão
vocês saber que Innocencio... namora!
--S. Bento!--exclamou a senhora D. Thomazia, sobrelevando ás
interjeições dos outros ouvintes.
--Namora, sim, senhores. Pois que cuidam? Vocês não sabem que elle é
rico? não sabem que ha por ahi muita moça que pensa que ha de casar-se
rica, porque tem um palmo de cara ageitada? Não sabem--proseguiu
elle alteando a voz graduada pela inspiração propria e espanto dos
ouvintes--não sabem que assim que ahi chegam brasileiros ricos
ao Porto, são os proprios paes das raparigas casadoiras que os
mostram ás filhas e as picam para que ellas andem para deante antes
que as visinhas os apanhem? Não sabem...--continuou Gervasio José
adivinhando o quilate rhetorico do _quousque tandem_ de Cicero,
repetido com ascendente energia.--Não sabem que meu cunhado, quando
cá veio do Pará, me disse a mim que lá na America não se feiravam
tão desavergonhadamente as pretas como aqui as brancas? Se não
sabem,--concluiu o velho restaurando a respiração esbofada--saibam que
mais de seis mulheres andam na piugada de Innocencio, e de quatro que
eu conheço, não ha uma que tenha dez réis de seu, assim que eu levar
ao tribunal as lettras reformadas que cá tenho dos paes d’ellas.
D. Thomazia tinha-se benzido tantas vezes, quantas foram os triumfaes
_não sabem_. Jeronimo e Felizardo bufavam, e coçavam-se como se
quizessem arrancar á unha das cabeças d’elles idéas condignas da sua
indignação. As tias do rapaz pareciam corridas do seu sexo e espantadas
da pureza dos seus costumes.
Seguiu-se ao silencio de trez minutos esta pausada interrogação de
Gervasio:
--Que me dizem agora vocês? É tempo de o casarmos ou não?
--E quanto antes--responderam tios e tias.
--E tu que dizes, Thomazia?--tornou elle voltando-se á esposa, que
sobre-estivera silenciosa e cogitativa.
--Que hei de eu dizer?... Estava a pensar no que meu irmão me disse
quando cá veio... Homem! e se elle não gosta da nossa afilhada? Amisade
é uma coisa, amor é outra... Achas que o nosso filho, se quizesse casar
com Thomazia, andaria lá com esses namoros que dizes?...
O marido surriu-se, e, por entre os beiços velhacamente franzidos,
murmurou:
--Namorar não é casar... Vocês são mulheres, e não sabem nada do
mundo... Eu cá me entendo... O rapaz, já lhe disse, é como os outros do
seu tempo. As raparigas desafiam-n’o; elle que lhe ha de fazer?
--É não lhe dar trela!--respondeu pressurosa a senhora D. Thomazia.
--Valha-te Deus, mulher!--redarguiu o esposo, editando segunda vez
o surriso sôrna e justificativo de que o homem não resalvára a sua
innocencia da peste contemporanea--valha-te Deus! Um homem é um homem.
A culpa não n’a tem elles; são ellas. Eu cá me entendo... Se o rapaz
fosse creado com as leis e costumes de ha quarenta annos, os namoros
custavam-lhe um par de trochadas boas; mas hoje em dia não ha rei nem
roque logo que elles asneam. O mais prudente é um pae leval-os ás boas;
se não, quando um homem mal se percata, está-lhe em casa o juiz e o
escrivão com um requerimento lá de uma trocatintas que lhe tira o filho
de casa e o leva para a sua. Isso está-se vendo, e medo não me falta a
mim; por isso me tenho posto á espreita, e não faço bulha, que não vá
o rapaz atirar dois couces ao apparelho, e por aqui me sirvo. Só aqui
ha dias lhe disse: «Innocencio, tem-me lume n’esse olho: não faças
cavallada. Olha que as moças que te fazem festas, o que querem é o teu
dinheiro; mas vão erradas; que eu o que tenho, posso perdel-o; nemja
que um filho m’o leve para onde eu não quero que vá o suor de teus
avós, entendes, Innocencio?»
--E vae elle que disse?--interrompeu com alvoroço a senhora D. Thomazia.
--Nem uma nem duas; sentou-se ali áquella mesa e esteve a riscar com a
penna sobre o papel uns narizes que ainda lá hão de estar. Aqui teem
vocês o que se passou. Agora estou resolvido a dizer-lhe que é minha
vontade que elle se case com Thomazia. Se sim, bem estamos; se disser
que não... veremos.
--Se elle disser que não,--obviou a esposa bem aconselhada pelas
advertencias do mano Luiz--acabou-se; á força não quero casamentos.
Discutiram detidamente os dois conjuges e vieram afinal em que, por
suaves modos, se consultasse a vontade do moço.
A vontade da orfã não foi discutida. Discutir o coração da pobre...
para quê?!
CAPITULO III
Argumento
Discorre o author ácerca das reticencias com singular originalidade.
De como as duas creaturas não se amavam. Thomazia e pilhada a
escrevinhar e ingrampa o velho. Intenta elle debalde convencer
o filho, chamando-lhe pedaço de asno, como se não fosse plus
quam-perfeito. O que Gervasio José entende por amoricos de caquerácá,
e outras coisas que do capitulo melhor se verão.
Não se amavam.
Que grande milagre não se amarem!... O uso de se verem duas pessoas
entre-amadas gasta-lhes o amor. O uso de se verem as que muito se
estimaram, não lh’o deixa nascer. O imprevisto, a surpresa, o dominio
incerto e disputado, isto sim, é céo ou inferno, onde o amor rejubila
como anjo, ou se estorce em fogo de reprobo.
Não se amavam: é onde bate o ponto.
Innocencio respondeu, rodeando rethoricamente o assumpto, que era amigo
de Thomazia; mas que...
E ficou-se.
A menina, recebida a noticia que a madrinha lhe deu, disse que a sua
vontade era a dos seus bemfeitores; mas que...
E nada mais.
Adiante das reticencias ponha o leitor uma coisa insignificante chamada
«coração». As reticencias podiam dar a misteriosa origem de bastas
agonias. Onde ninguem vê nada, estão ladeiras de muitos abismos.
Ha ahi muita gente transviada na vereda que leva ao deserto sem
horisontes--deserto, onde não enfolha arvore com sombra, nem borbulha
fonte que reviva peitos sedentos de vida. Na historia d’essas almas
que já aqui levam o letreiro fatal do poeta florentino--almas sem
esperança, e, por tanto, sem amor, sem alegria, sem fé, sem Deus--na
perdição d’essas, ha um quê indescriptivel, origem fatidicamente
inescrutavel. Seria uma palavra? um acto de irreflexão cega? destino?
impulso irresistivel da bossa? Não. Foi uma frase cortada, uma expansão
sincera afogada pelo pejo, pelo respeito, pelo terror. Foram as
reticencias.
Gervasio, posto que transigisse com a insanavel gangrena da geração
nova, não abdicava da rigidez de sua authoridade paterna. Avisado
do _mas_... de seu filho, saltou logo furioso a filar a peior das
conjecturas, imaginando-o em arranjos de se fazer raptar judicialmente
por alguma das seis oppositoras ao rapaz.
Assombrou a cara de ameaças, accendeu os olhos de coriscos, fez dos
narizes respiradouro de cólera fumegante, e, esbarrando com o filho
n’um corredor, expediu do peito estes gritos:
--Estás enganado, marióla! Casar, casarás tu; mas dinheiro meu não vês
uma de _x_. Arranja mulher que te dê de comer e vestir e casa; que
eu... não sou de uns certos paes que mudam de genio quando os filhos
desobedientes lhes levam os netos...
--Mas, meu pae--atalhou Innocencio--eu não o entendo... Quem lhe disse
que eu...?
--Lérias, meu amigo! não me conte lonas! Você que respondeu a seus tios
a respeito de Thomazia? Venha cá... entre aqui dentro n’este quarto da
tia Sebastiana, que não quero que a pequena nos escute...
E, dizendo, tirou pelo filho para o quarto de sua irmã, que tinha saido
com a outra para o Lausperenne das Almas de Santa Catharina.
No lanço, porém, de empurrar a porta, soou dentro do quarto um ai
espavorido.
Era Thomazia.
--Que é isso?!--perguntou Gervasio.--Que medo tiveste, rapariga?!
--Eu estava aqui...--tartamudou a orfã, encostando-se a uma commoda,
sobre a qual estava uma folha de papel e o tinteiro da sua escripta.
--Estavas a fazer o teu traslado?
--Estava... a escrevinhar...--tartamudou a candida assucena
acerejando-se lindamente.
--Deixa lá vêr como estás adiantada...
--Ora...--tornou ella, oppondo uma atrapalhada resistencia ao velho,
que foi direito ao papel.
Innocencio desconfiaria dos inoffensivos exercicios caligraphicos
da sua discipula? Parece que sim; por que, adeantando-se á moderada
curiosidade do pae, estendeu o braço e subtraiu o papel por entre os
dois.
Thomazia ia começar um desmaio, quando a innocencia reagiu ao insulto
nervoso, recobrando-lhe a alma para sair-se bem do apêrto.
Innocencio leu alto, alternando os olhos entre ella e o pae.
_Meu caro amor do meu coração, e unico bem da minha paixão..._
--Ai!--exclamou o risonho velho.--A menina faz versos? ou isso não é da
tua cabeça?...
Thomazia respondeu com um tregeito de modestia acompanhado de tosse de
pigarro; tudo, porém, lhe realçava a graça do semblante.
O moço continuou, lendo:
_Não tenho palavras com que possa explicar-vos..._
E estacou. É que não continha mais a carta.
Innocencio atirou o papel ao chão, entortou os beiços com dois sorrisos
sarcasticos, e murmurou:
--O pae não sabe o que é isto?... Não sabe?
--Não: pois que é isso? respondeu Gervasio.
--É uma carta de namoro.
--Que é?--bradou o velho. Tu escrevias esta carta a alguem, Thomazia?!
A menina sorriu-se e disse com imperturbavel candura:
--Escrevia, sim, senhor; mas não a mandava... Eu bem sei que me não ama
a pessoa a quem eu escrevia...
--Querem vocês vêr...--atalhou Gervasio com o carão allumiado de dois
raios de esperteza e alegria interior--querem vocês vêr... Tu ainda não
percebeste, Innocencio?
--Eu, não, senhor.
--Pois não percebeste, pedaço d’asno?... A carta era para... Diz tu,
menina... Para quem era a carta?...
Thomazia olhou carinhosa para o padrinho, e balbuciou muito dengosa:
--Elle bem sabe... mas... não lhe faz conta dizer.
--Entendeste agora, rapaz?--bradou o velho victorioso e inchado de sua
soberba.
--Ora, meu pae...--replicou o incredulo fazendo um momo plebeu como a
frase--eu não engulo maranhões... Esta carta não era para mim...
--Pois p’ra quem havia de ser, bruto?--retorquiu o pae, batendo palmas
na cabeça.
A orfã, apparentando doloroso constrangimento, pediu ao padrinho
liçença para sair do quarto.
--Vae, afilhada, que eu bem sei que és uma boa menina--condescendeu o
velho.--Pena é que este rapaz não tenha o coração de teu padrinho...
Thomazia saiu de rosto abatido e braços pendentes.
--Ó alma de cantaro!--apostrophou Gervasio--pois tu acharás debaixo da
rosa do sol rapariga mais galante e que mais te encha as medidas?!
--Esta carta não era para mim...--tornou Innocencio, relendo a
parte poetica, no dizer do velho, e a oração incompleta que parecia
ser prosa.--_Não tenho palavras com que possa explicar-vos_--leu
elle.--Pois ella que me queria explicar?! Sim; que me queria explicar
ella a mim?
--Queres que eu te responda, menino?... Espera, que eu já volto.
Saiu Gervasio, tirando-lhe da mão o papel. Foi entender-se com a
afilhada, deteve-se alguns segundos, e tornou:
--Eu te desengano já, pateta. Thomazia estava para pôr adeante d’isto
que aqui está... Que diz? Deixa-me lêr: _Não tenho palavras com que
possa explicar-vos..._ ahi vae o resto: _a satisfação que recebi quando
vossa mãe me disse que nos queria ligar pelos sagrados laços do..._
não me lembra do que ella disse... é uma coisa muito fallada nas
comedias... _sagrados laços do... laços do..._
--Do himeneu?--acudiu-lhe o rapaz.
--É isso... É o que ella queria escrever, por que diz que se acovardava
de t’o dizer de cara a cara. Percebes, homem? Que estás ahi malucando?
A apostar que tens alma de não amar este serafim!! Esta creaturinha
tão linda que foi creada comtigo! Rapaz! olha bem para mim! Ouve lá,
que isto é a valer. Se a não quizeres para tua companheira, quero-a
eu para minha filha. Percebes tu? Para ella ter que comer á farta
não precisa de casar comtigo. Olha se me entendes, Innocencio. O pae
d’ella sou eu. Tu anda lá por onde quizeres, que eu... cá estou. O
filho podem levar-m’o; o dinheiro não... Cuidas que eu não sei a tua
vida? (aqui Gervasio espirrou um riso de maganão). Tenho-me calado,
por que pensava que lá essas tuas raparigas eram amoricos de cáquerácá.
A coisa é seria pelo modo... Deixas a minha afilhada lá por alguma
farropilha que te botou o anzol? Bem asno és... Tu cá virás com a cella
na barriga... Lá t’avém. Boas noites.
CAPITULO IV
Argumento
Desengano aos fariscadores de escandalos. Como póde o engenho fazer
o milagre de conservar personagens honestos até ao 4.º capitulo
inclusivé. De como no Porto de ha vinte annos houve homens endiabrados
com senhoras, e outras coisas tristes. Por que dizem que a esperança
é verde. Entra na historia a senhora Custodia da Porciuncula, e as
santas manhas d’ella, que foi amada de um boticario poeta. Vê-se que
a menina gostava do enviado de S. Gonçalo de Amarante, mas não lhe
entende o estilo. Explica a senhora Custodia o que é o rolo a suspirar
pela rola, servindo-se do texto do boticario, que por signal se
chamava Gregorio. Dizem-se outras coisas que tocam o coração.
Não se alegrem os pessimistas, os corvos que crocitam onde ha sómente
podridão. Cuidam que teem escandalo já no capitulo 4.º? Vem mal parados
cá para os personagens das minhas novellas, os quaes só começam a
derrancar-se do 5.º capitulo por deante.
Aquella cartinha de Thomazia era casta como os coloquios amorosos das
virgens com as estrellas, segundo poetas dizem que ellas se palram
a horas improprias e suspeitas. Eu de mim declaro que ainda não
surpreendi palestras d’essa especie: o que eu tenho visto é virgens,
mais authenticas que as onze mil da legenda, conversando, pelo alto
silencio da noite, não já com estrellas, mas com uns corpos opacos, a
espaços luminosos por effeito da luz de algum fosforo.
E Thomazia não fazia isto nem aquillo; não conhecia estrella nenhuma,
nem dava azeite nos gonzos da janella para a deshoras chover sobre o
objecto amado o maná dos favos do coração.
A carta seria coisa, por pequenissima, mal-cabida nas grandiosas
proporções d’esta historia, se eu não tivesse avesado o leitor a saber
as miudezas de tudo. Vejam se tanta candura merecia a pena de duas ou
trez paginas em 8.º!
Foi assim: Aquelle sujeito, que passou galhardamente, no seu
estrepitoso fouveiro, Cangostas acima, quando a familia Barros estava
congregada no escriptorio, era um moço bem apessoado, enlevo de olhos
incautos, e D. João Tenorio quanto cabia nas forças seductoras de
um portuense de 1843. Havi-os então de bico revôlto, fataes, menos
scientificos que Fausto, e com mais quatro diabos no corpo que o outro.
Que devastadores de corações em flôr e do mais!
Se é certo tudo o que se conta dos peraltas portuenses de ha quarenta
annos até á regeneração da moral, que data ahi de 1850 para cá, somos
todos pouco mais ou menos filhos d’elles, embora nos assignemos com
os appellidos dos maridos de nossas mães. Isto, se é verdade, bem que
não leze as leis da procreação, é deshonesto e digno de esquecimento.
Esqueça-se. Viva tanto esta lembrança como ha de viver o livro que
leva a denuncia.
Pois o cavalleiro, freguez do Reimão, e consumidor do linguado frito
das hortas do Barros Lima, era um d’aquelles açoites que traziam
espavoridos no Porto os anjos do pudor, custodios das mulheres
respectivas.
Cuidava eu que elle não tinha lobrigado Thomazia a espreital-o pela
fisga das duas portadas. Viu-a e dardejou-lhe dos olhos fulminantes uma
flecha ervada no succo da sardonica erva que faz rir o coração. Sabem
o que é rir o coração? Esta pergunta não a faço aos desgraçados nem
aos velhos meus contemporaneos. É ás loiras almas dos dezesete annos
de Thomazia. Loiras?! por que não? Quem quizer materialisar o ideal da
suprema graça ha de enlourecel-o, assemelhal-o á suprema graça real.
Pois o ouro que é senão louro? Porque chamaram verde á esperança, se
por _verde_ não quizeram figurar poetas o _pasto_ commum das almas, os
ervaçaes onde ellas se vão em sasão propria renovar sangue e pellagem?
Loura é que se pinta a esperança aos olhos dos que ainda resistem á
espessura de umas trevas negras e frias como a leiva interior das
sepulturas. Aos cegos para côres da felicidade não pergunto eu, pois,
se sabem o que seja rir o coração.
Thomazia não me responderia nem poetica nem grammaticalmente; e por
isso mesmo, se respondesse, não seria mais intelligivel nem correcta
que um d’estes bardos tirados pela fieira allemã; sublime, porém,
devia sêl-o; ou então o movimento que ella fez, levando a mão ao lado
esquerdo do seio, era dôr de estagnação de fluido, ou, mais sobre o
claro, encalhe de sangue.
Pois não disse nada a ninguem, nem á ama que a creou, nem á velha que
já tinha sido serva de seus avós.
Ora, esta velha tinha ganhado tão pela raiz a estimação das novas
amas, perfumando a casa do rosmaninho da sua virtude, que era já
tambem da familia. Andava por egrejas desde que alvorecia a manhã até
ás dez, em jejum, com os bolços atacados de biscoitos de Valongo,
importunando a côrte celestial com deprecações pela felicidade de seus
amos, asseverava ella. Entre egreja e egreja mascava alguns biscoitos
de envolta com dois _padres-nossos_, e, n’algum recanto de pateo,
desentupia-se, emborcando uma cabacinha de tão generoso vinho, que
S. Jeronimo, se lh’a vasassem á força nas mirradas goelas, daria com
a caveira na cara de quem lhe impedisse o caminho de Roma. Ao fim da
quarta missa, a tia Custodia sentia-se morrer de fraca, e ia para
casa, em jejum. Algumas vezes contava as suas visões. Se as ella não
teria!... Que visões não dá uma cabacinha enxuta!