--Tomo a liberdade de offerecer a vossas senhorias um carroç

COLLECÇÃO ECONOMICA

Volumes de in-16.º, de 240 a 320 paginas

ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES

A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis)

Eis os titulos dos ultimos volumes publicados:

N.º 21--Forte como a morte, por Guy de Maupassant.

* N.º 22--A alma de Pedro, de J. Ohnet.

N.º 23--Camilla, de Guérin-Ginisty.

N.º 24--Trahida, de Maxime Paz.

N.º 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot.

N.º 26--Magdalena Férat, por Emilio Zola.

N.º 27--Os Reis no exilio, por A. Daudet.

N.º 28--Divida de odio, por Jorge Ohnet.

N.º 29--Mentiras, por Paul Bourget.

N.º 30--Marinheiro, por Pierre Loti.

N.º 31--A montanha do Diabo, por Eugenio Sue.

N.º 32--A Evangelista, por A. Daudet.

* N.º 33--Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest.

N.ºˢ 34 e 35--Odio antigo, por Jorge Ohnet.

N.º 36--Parisienses!... romance, por H. Davenel.

N.º 37--Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband.

N.º 38--A confissão de Carolina, romance.

N.º 39--Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland.

N.º 40--Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins.

N.º 41--O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet.

N.º 42--A agonia de uma alma, romance, por Ossip Fchubin.

N.º 43--Memorias d’um burro, por Madame Ségur.

N.º 44--A nihilista, por Catulle Mendés.

N.º 45--O grande Industrial, por George Ohnet.

N.º 46--Morta d’amor, por Albert Delpit.

N.º 47--João Sbogar, por Carlos Nadier.

N.º 48--Viagem sentimental, por Sterne.

N.º 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.

N.º 50--A confissão de um rapaz do seculo, por Musset.

N.º 51--O romance de um principe, por Pierre de Lano.

N.º 52--O castello de Lourps, por J. K. Huysmans.

N.º 53--Amor de Miss, por J. Blain.

N.º 54--A sogra, por Dubut de Laforest.

N.º 55--Colomba, por Próspero Merimée.

N.º 56--Katia, pelo Conde Leon Tolstoï.

N.º 57--Alma simples, por Dostoiewsky.

N.º 58--Duplo amor, por J. H. Rosny.

N.º 59--Contos fantasticos, por Hoffmann.

N.º 60--A princeza Maria, por Lermontoff, traducção de Alberto de

Oliveira.

N.º 61--Rosa de maio, por Armand Silvestre.

N.º 62--Manon Lescaut, pelo Abbade Prevost.

N.º 63--O romance do homem amarello, (costumes chinezes), pelo General

Tcheng-Ki-Tong.

N.º 64--A dama das violetas, (imitação), por F. Guimarães Fonseca.

N.ºˢ 65 e 66--Nemrod & C.ª, por J. Ohnet, traducção de Luiz Cardoso.

N.º 67--Prisma de amor, por Paul Bonhome.

Os vol. com este signal * estão esgotados mas vão ser reimpressos.

Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA

VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS

DAS

LITTERATURAS PORTUGUESA E ESTRANGEIRAS

Romances, Contos, Viajens, Historia, etc., etc.

Volumes in-8.º de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente

edição, em optimo papel.

Preço de cada volume 200 réis brochado, ou 300 réis elegantemente

encadernado em percalina.

Para as provincias accresce o porte do correio, 20 réis cada vol.

Eis os titulos dos ultimos volumes publicados:

N.ºˢ 20 e 21--=A Irmã da Caridade=, por Emilio Castellar, traducção

de L. Q. Chaves.

N.º 22--=Migalhas de historia portugueza=, por P. Chagas.

N.º 23--=A Cruz de brilhantes=, por A. Campos.

N.º 24--=Contos=, por Affonso Botelho.

N.º 25--=Contos phantasticos=, por Theophílo Braga.

N.º 26--=O mysterio da estrada de Cintra=, por Eça de Queiroz e

Ramalho Ortigão.

N.º 27--=O naufragio de Vicente Sodré=, romance historico de Pinheiro

Chagas.

N.º 28--=Vida airada=, por Alfredo Mesquita.

N.º 29--=O Bacharel Ramires=, por Candido de Figueiredo.

N.ºˢ 30 e 31--=Amor á antiga=, romance de Caïel.

N.º 32--=As Netas do Padre Eterno=, por Alberto Pimentel.

N.º 33--=Contos=, por Pedro Ivo.

N.º 34--=O correio de Lyão=, por Pierre Zaccone.

N.º 35--=Vida de Lisboa=, por Alberto Pimentel.

N.º 36--=Historias de Frades=, por Lino d’Assumpção.

N.º 37--=Obras primas=, por Chateaubriand.

N.º 38--=O Exilado=, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo.

N.º 39--=Poema da Mocidade=, por Pinheiro Chagas.

N.ºˢ 40 e 41--=A vida em Lisboa=, por Julio Cesar Machado.

N.ºˢ 42 e 43--=Espelho de Portuguêses=, por Alberto Pimentel.

N.º 44--=A Fada d’Auteuil=, por Ponson du Terrail, traducção de

Pinheiro Chagas.

N.º 45--=A volta do Chiado=, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo).

N.º 46--=Séca e Méca=, por Lino d’Assumpção.

N.º 47--=Ninho de guincho=, por Alberto Pimentel.

N.º 48--=Vasco=, por Arthur Lobo d’Avila.

N.º 49--=Leituras ao serão=, por Antonio Xavier Rodrigues Cordeiro.

N.º 50--=Luz coada por ferros=, por D. Anna Augusta Placido.

N.º 51--=A flôr secca=, por M. Pinheiro Chagas.

N.º 52--=Relampagos=, por Armando Ribeiro.

N.º 53--=Historias Rusticas=, por Virgilio Varzea.

N.º 54--=Figuras Humanas=, por Alberto Pimentel.

N.º 55--=Dolorosa=, por Francisco Acebal, traducção de Caïel.

N.º 56--=Memorias de um Fura-vidas=, por Alfredo Mesquita.

N.º 57--=Dramas da Côrte=, por Alberto de Castro.

N.º 58--=Os Mosqueteiros d’Africa=, por J. da S. Mendes Leal.

N.º 59--=A divorciada=, por José Augusto Vieira.

N.º 60--=Phototypias do Minho=, por José Augusto Vieira.

OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

LIX

O SANGUE

VOLUMES PUBLICADOS

N.º 1--Coisas espantosas.

N.º 2--As tres irmans.

N.º 3--A engeitada.

N.º 4--Doze casamentos felizes.

N.º 5--O esqueleto.

N.º 6--O bem e o mal.

N.º 7--O senhor do Paço de Ninães.

N.º 8--Anathema.

N.º 9--A mulher fatal.

N.º 10--Cavar em ruinas.

N.ºˢ 11 e 12--Correspondencia epistolar.

N.º 13--Divindade de Jesus.

N.º 14--A doida do Candal.

N.º 15--Duas horas de leitura.

N.º 16--Fanny.

N.ºˢ 17, 18 e 19--Novellas do Minho.

N.ºˢ 20 e 21--Horas de paz.

N.º 22--Agulha em palheiro.

N.º 23--O olho de vidro.

N.º 24--Annos de prosa.

N.º 25--Os brilhantes do brasileiro.

N.º 26--A bruxa do Monte-Cordova.

N.º 27--Carlota Angela.

N.º 28--Quatro horas innocentes.

N.º 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez ... rico!

N.º 30--A filha do Doutor Negro.

N.º 31--Estrellas propicias.

N.º 32--A filha do regicida.

N.ºˢ 33 e 34--O demonio do ouro.

N.º 35--O regicida.

N.º 36--A filha do arcediago.

N.º 37--A neta do arcediago.

N.º 38--Delictos da Mocidade.

N.º 39--Onde está a felicidade?

N.º 40--Um homem de brios.

N.º 41--Memorias de Guilherme do Amaral.

N.ºˢ 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.

N.ºˢ 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.

N.ºˢ 47 e 48--O Judeu.

N.º 49--Duas épocas da vida.

N.º 50--Estrellas funestas.

N.º 51--Lagrimas abençoadas.

N.º 52--Lucta de gigantes.

N.ºˢ 53 e 54--Memorias do carcere.

N.º 55--Mysterios de Fafe.

N.º 56--Coração, cabeça e estomago.

N.º 57--O que fazem mulheres.

N.º 58--O retrato de Ricardina.

N.º 59--O sangue.

N.º 60--O santo da montanha.

_CAMILLO CASTELLO BRANCO_

O SANGUE

ROMANCE

[Illustration: TERCEIRA EDIÇÃO]

1907

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação

Movidas a electricidade

_Rua Augusta--44 a 54_

LISBOA

1907

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO

Movidas a electricidade

Da Parceria Antonio Maria Pereira

_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar_

LISBOA

INTRODUCÇÃO

--Como tu estás conservado, homem!

Exclamou, n’um d’estes dias, o meu amigo Antonio Joaquim, encarando

comigo, na revolta d’uma esquina.

--Nem pés de gallinha, nem calvo, nem bigode grisalho, os dentes

todos!--proseguiu elle, encruzando os braços sobre a placida cornija do

abdomen.

«Nem sequer duzentos kilos de toicinho, envolucro sujo com que a

natureza veste os seus filhos maiores de quarenta annos, para que

o alfaiate não possa jámais embonecal-os com as graças seductoras

d’um tisico sorvido pelos vampiros do amor!... És invejavel! Pois

convence-te de que és velho!

--Vinte annos ha que eu me convenci, amigo Antonio. Passados mais

alguns, morri. Hoje, o que vês n’este arcaboiço, é uma alma insepulta

e penada que se offerece penitente e docil ás tuas injurias. Não

espremas, comtudo, a esponja, meu amigo. Sabe que todas as passadas,

que dou, vão na vereda escabrosa do meu calvario...

--Devo prevenir-te que não venho disposto para fazer via-sacra--atalhou

o meu velho amigo.--Se vaes até ao calvario, faz lá recommendações ao

mau ladrão, e diz-lhe que, se florescesse em Portugal, mil oitocentos

e trinta e cinco annos depois, seria visconde de Gestas, visto que

elle se chamava _Gestas_. Diz tambem a Dimas, ao bom ladrão, que os do

nosso tempo todos são bons como elle, e por isso todos se salvam. E, se

quizeres questionar com algum dos apostolos, caso lá os topes, diz-lhes

que, presentemente, a gente graúda, á imitação de Christo, considera

os bons ladrões dignos do céo; e que, desde o facto algum tanto

reparavel de ser perdoado um salteador com prejuizo de terceiro, todos

os salteadores «de sobrado alto», como lhes chama a _Arte de furtar_,

são, sobre perdoados, honrados,--o que até certo ponto é christianismo

progressivo.

--Então, como te vae?--atalhei eu, cortando a insulsa calumnia apontada

ao brioso peito de muitos dos meus melhores amigos.

--Vae-me bem, não vês? Tenho esta grande barriga em que está sepultado

o melhor do meu _eu_ subjectivo, e tenho gôta n’este joanete do pé

direito. Tu, pelos modos, és alma penada, e eu sou alma despennada, que

é peor. Tu ainda sobes ao calvario e respiras ar desafogado, em quanto

eu a custo me desatasco da lama. Em summa, estou velho...

--E rico?

--Tambem.

--E feliz?

--Feliz como um cerdo amarrado com uma corrente de ouro. Tu não sabes

ainda o que é a felicidade da pobreza, homem! Não soubeste ainda abrir

o thesouro em que a Providencia divina te remetteu o arnez impenetravel

aos golpes da desgraça...

--Não sei... Terei eu lá em casa isso?!

--Tens, ingrato, se tens!... É o trabalho.

--Ah!

--Esse _ah!_ é alvar. O trabalho é como aquelle anjo que em fórma de

pomba pairava sobre a face de Santo Adelino adormecido, para que os

raios do sol não lhe acordassem os sentidos e a consciencia da dôr. O

trabalho é um absintho celestial, que suavemente embriaga e entorpece

as faculdades cognoscitivas atormentadoras do infeliz ocioso. O

trabalho é a compensação da pobreza...

--E a riqueza que é? uma calamidade que dispensa a pomba de Santo

Adelino ... não é?

--Se alguem ha ahi, até certa idade, verdadeiramente feliz por ella,--o

que não creio--a riqueza é um abutre cruelissimo que principia a

espicaçar o rico, assim que o espelho, e a dispesia, e as insomnias, e

a indifferença das novas, e a consideração das velhas, e o commedimento

dos rapazes em sua presença se conjuram para lhe dizer: «envelheces».

Aqui tens o verdugo, que dá o laço ahi pelos quarenta e cinco annos,

e aperta e arrocha, até aos setenta, até aos oitenta, prolongando-lhe

o supplicio, ao apuro de lhe fazer invocar a morte, execrar o ouro,

amaldiçoar os homens e blasfemar de Deus.

--E que me dizes do pobre que, na tal idade das insomnias e dispepsias,

carece de saude para o trabalho e do trabalho para o pão de seus

filhos?...

--Eu te digo...

--Podes responder d’uma assentada a outra pequena duvida: se será

mais infeliz o rico enfermo rodeado de filhos fartos, do que o pobre

alanciado de suas dôres e dos olhos supplicativos de sua familia?

--Ahi vens tu com o estilo!... Se entras a commover-me, cessa o nosso

debate que é todo philosophico e ouro puro de Droz, de Franklin e

d’outros moralistas...

--Que moralisavam os desgraçados lá d’entre as cortinas adamascadas

dos seus gabinetes, tapetados de alcatifas de tres pêllos... Se elles

fossem os desvalidos, quem lhes ensinaria a moral da paciencia?

--Socrates, Philo, Jesus Christo, João Jacques Rousseau...

--Que sacrilega camaradagem!... Rousseau havia de ensinar os paes

pobres a engeitar os filhos... Meu caro Antonio Joaquim, rico sei

eu que estás; mas a tua philosophia não é a peça mais valiosa que

possues. Eu não sei o que póde ensinar-me Socrates nem Philo. De

Christo sei tres palavras em latim e espero que no outro mundo os

anjos m’as decifrem. _Beati qui lugent_ «felizes os que choram»

disse o amigo dos pobres. Como ninguem o tinha dito, nem escripto,

nem pensado, a interferencia da divindade na desprezada condição dos

infelizes começou na hora em que foram ditas as palavras «felizes os

que choram». E quem as disse não podia ser mero homem... Em summa, se

queres consolar algum engeitado da devassa fortuna, não lhe reprezes

as lagrimas com o dique da philosophia; deixa-o chorar. Lá estão as

estrellas que saem fóra do céo para levarem ao seu creador a relação

das agonias que gemem de noite não vistas nem escutadas de alguem.

--Estás comigo...

--Mas não estou com o teu Rousseau.

--O meu Rousseau... não lhe chames meu, que eu não o tenho nem o li;

citei-t’o por me parecer incrivel que o não tivesses lido, andando elle

nos alforges de todos os fisicos que ungem de unguentos a lepra da

humanidade. Pois tu imaginas que eu leio coisa nenhuma? Faz-me justiça,

se queres que eu admire as tuas novellas sem as lêr... A proposito

de novellas, lembrei-me ha dias de ti, n’um lance que me pareceu

original...

--Um lance original!...--atalhei eu.--Coisa que dê um livro original!?

--Um livro? isso não sei; mas, se é verdade o que ouvi dizer de ti...

--Que ouviste dizer de mim?...

--Franqueza! Tu não te offendes, nem eu sei se é louvor, se offensa a

censura: ouvi dizer que fazias dez livros originaes de uma idéa sem

originalidade nenhuma. Isto é verdade?

--Parece-me que sim... Eu tenho calculado que a Providencia me concedeu

dez idéas: foi prodiga comigo. Estas idéas repartidas por cincoenta

volumes conferem com a conta da censura. Vaes tu dar-me uma idéa

original: tenho que explorar no restante da vida... Então que foi?

--Não é historia que se conte na rua. Vem jantar comigo. Tu ainda

comes? Ás almas insepultas é concedido errar, em volta da lagôa estigia

d’uma terrina de sôpa do «hotel Francfort»? Não ha inconveniencia em

que as almas penadas assimilem alguns bocados de boi assado? Se não

ha, vem, puro espirito! Jantarás comigo alguns dias; e no ultimo, ao

troar a trombeta clangorosa, os teus ossos, melhormente vestidos,

não irão perfurando a encontrões as carnes dos que merreram gordos e

apopleticos. Vens?

--Vou. Posso desde já dizer ao meu editor que descobri a idéa numero

onze? E que a descobri na transparencia da tua cabeça?

--Isso não. Se por ahi desconfiam que tenho terço de idéa, minam-me os

creditos. Deixa-me fruir a reputação que me faz insuspeito á confiança

de pessoas com quem tenho negocios. A besta é coisa superiormente

importante, desde que S. João, o apocaliptico, viu uma corpulentissima.

Todas as bestas, mais ou menos aparentadas com a do vidente de Pathmos,

trazem boa sina comsigo. Pelo menos, emquanto eu tiver que vender e

comprar faz-me a mercê de me não vilipendiar com a denuncia de que eu

te dei uma idéa... Lembra-te dos desgostos que me iam dando as tuas

VINTE HORAS DE LITEIRA. Foi preciso que o teu livro esquecesse para

que eu recobrasse os creditos fallidos.

--E esqueceu já o meu livro?!

--Ora!... se esqueceu!... quando eu voltei ao Porto, quinze dias depois

da publicação, apenas se lembrava d’elle consternadamente a empreza

editora. Vamos jantar.

O repasto do hotel Francfort foi leve.

Quem come francezmente cria alma; corpo é que não.

Aquelle magro môlho em que boiam cascas farináceas não entulha os

ductos da intellectualidade. A viscera vital por excellencia não

escoiceia o visinho de cima como succede nos casos em que o esôfago

arfa sacudido pelo estomago repleto de fibrina. O coração agita-se

docemente quando o novo chilo se está elaborando.

Respeitado nos seus altos camarins e não azoado com o estridor dos

dentes e das funcções digestivas, o espirito exercita-se em pleno gôso

de suas faculdades.

A alimentação franceza póde levar á dispepsia, sem duvida; porém, o

que no homem ha digno da maior estima e merecedor de toda a cautela,

a alma, essa asseguro eu que não tem senão um passo a dar entre a

cosinha franceza e a idealisação germanica. Se os jejuns espiritavam

os cenobitas de Isthria até entreverem Deus por um postigo do céo,

as aguas aromaticas das caçoulas do «hotel Francfort» subtilisaram o

espirito do meu amigo Antonio Joaquim a uns altos devaneamentos, que me

não pareciam d’elle nem dos seus annos.

Fallava-me da nossa mocidade como quem perdêra com ella muitas coisas

bellas e irreparaveis. Elle, que não tinha perdido senão o direito que

todo o homem tem a fazer uma dada somma de tolices! Elle que, entre o

berço e o thalamo, apenas teve tempo de crescer, engrossar e depôr no

regaço de sua esposa um coração cheio de casta ignorancia das coisas

boas e más d’este mundo!...

Que saudades do passado eram pois as d’elle? Seriam as dos prazeres

não experimentados na idade competente, e dos quaes o coração vasio

lhe estava agora, no declive da vida, a pedir contas? Assim como

a demasiada cautela da dieta enfraquece o estomago e o predispõe

á anemia e á enfermidade, porventura, guardadas as distancias que

topograficamente não são grandes, ao coração minguado de alimentos

fortes virão afinal as doenças resultantes da inactividade violenta a

que o forçaram preceitos ou circumstancias?

Parece-me que sim.

De qualquer das maneiras, Antonio Joaquim, discorrendo tristemente

sobre a brevidade da vida, e o reflorir da alma, quando o fogo da

cabeça já não derrete a neve eminente de quarenta e tantos invernos,

fez-me dó e ao mesmo passo desafiou-me a chorar com elle: situação

ridicula que sustentamos por espaço de meia hora.

Elle adivinhava o que perdêra; e eu sabia o que tinha perdido; elle

anhelava imagens lucidas que tardiamente se lhe espelhavam na alma; e

eu tocava em mortalhas que se desfaziam em cinzas.

Estas angustias eram entremeadas com alguns tragos ardentes de cognac,

que mais me accendia no peito rebates de saudade de um tempo em que o

absinto me era doce e refrigerante como a orchata e capilé d’estes meus

caducos dias emplasmados em linhaça e refrigerados com soda-wather.

As lagrimas estancaram-se. E eu, para divertir o animo da inconsolavel

tristeza, perguntei ao meu amigo:

--E a idéa original que me prometteste?

--Vou dar-t’a. O prefacio foi longo, mas ajustado ao assumpto. Fallei

da nossa mocidade, porque a historia principia então. Ha vinte e dois

annos que eu te conheci no theatro de S. João. Lembras-te?

--Muito. Quem fez as apresentações foi um meu contemporaneo, que vinha

de Coimbra comigo. Chamava-se...

--Nicoláo d’Almeida; vinha com o acto do 4.º anno.

--Ainda vive?

--Vive morto.

--Como? Vive morto?!

--Lá chegaremos... Representava-se a _Degolação dos Innocentes_, e era

um domingo de tarde...

--Bem me lembro--atalhei eu.

--Estás certo d’aquelle pedaço de omoplata de carneiro que caiu sobre

ti d’um camarote de 3.ª ordem?

--Se estou!

--Muito folgo que te lembres. O Nicoláo apanhou-a do chão n’um lenço

que levantou pelas pontas, e convidou-nos a seguil-o ao camarote onde

o cordeiro, tambem innocente, soffrêra as consequencias da degolação.

Recordas?

--Mal. Ajuda a minha memoria que se está deliciando n’essas recordações

liricas.

--Fomos e vimos uma familia de varios Herodes, descarnando as costellas

da victima com um ranger de dentes bastante a justificar que ainda

temos que farte sangue e queixos hellenicamente ruidosos, d’aquelles

que Homero cantou. No camarote estavam, á primeira luz, varios sujeitos

gordos e mulheres de condigno bojo que representavam em geral e cada

qual em particular um curral de carneiros assados e digeridos. As

esposas e filhas e irmãs, ou o que eram d’aquelles antropófagos, tinham

as mantilhas penduradas dos cabides, dando ao interior do camarote um

aspecto lugubre de ágape gentilica onde as victimas sacrificadas fossem

logo comidas. Um dos sacrificadores, que parecia o mais auctorisado

por ter em punho a cabeça meio descascada do cordeiro, suspendeu-se no

lanço de a levar aos dentes engatilhados, e, arrotando, regougou:

«Os senhores que querem?!»

Nicoláo fez uma grave mesura, estendeu o braço para dentro com o lenço

pendurado e respondeu solemnemente:

--Foi d’este camarote, sem duvida, que uma das senhoras deixou cahir a

parte respectiva do bôdo?

--Do bode??--perguntou o chefe dos cannibaes, forçando com um arranco

interior a descida do bocado que lhe entopia os gorgomilos.

--Do bode,--tornou Nicoláo--se vossa senhoria quer que seja bode,

carneiro, porco-espinho ou como é que deva chamar-se o animal comido e

ex-proprietario d’esta pá.

--Foi o Felizardo que deixou cair...--disse uma creatura femeal,

relançando a vista repreensiva sobre o sujeito que se chamava Felizardo.

No entanto, o nosso amigo, com ademans de quem entrega uma luva que

alguma formosa senhora lhe deixou feliz e acintemente cair ao alcance

da mão, acercou-se d’uma das trez senhoras esphericas, e deu ares de

lh’a querer depositar no regaço, largando trez pontas do lenço.

--Ai, credo!--exclamou a velha sacudindo as mãos e encolhendo contra o

tabique a parte proeminente da região umbilical, expressões que deves

empregar, se escreveres a historia, por que o termo do uso commum é

d’aquelles que tresandam a theatro anatomico. Lembras-te d’isto?

--Como se o estivesse vendo--confirmei eu alanciado de saudades.--Até

me recordo de uma bellissima rapariga que estava n’esse camarote.

--Bem sei eu por quê... Era ella uma das formosuras que ficam impressas

na alma, atravez de annos e seculos, como as virgens de Urbino ou as

outras imagens menos virgens de Ticiano. Que sabes tu d’essa mulher que

viste ha vinte e dois annos?

--Nada: creio que nunca mais a encontrei... decerto não. Apenas me

lembro de que Nicoláo d’Almeida me escreveu para a provincia, dias

depois do episodio do carneiro, e me dizia que estava apaixonado pela

mulher divina que comia carneiro. Não dei peso á linguagem chula da

noticia, nem tornei a vêr Nicoláo d’Almeida. Alguem me disse depois que

elle vivia relegado no seu solar do Alto Minho, e que não concluíra

a formatura. Ha mais de quinze annos que ninguem me fallou d’elle.

Agora me dizes tu que o Nicoláo vive morto... Coitado! Queria ainda

vel-o n’esse estado extravagante!... Começo a crer que me dás uma idéa

original...

--Lá chegaremos... O caso é que te recordas bem da menina que se

escondia entre as mulheres gordas com uma andorinha entre trez peruas?

--Sim.

--Pois então ahi tens um dos personagens componentes da idéa original

que te offereço.

--Quem? a tal?! Aquella familia como _original_ podia figurar nas

exposições fotograficas; mas considerada _idéa_ não me daria para

um capitulo. Pelo que vejo, a idéa offerecida com tão magnanimo

desinteresse é a pá descarnada do carneiro!...

--Principia ahi pontualmente. Olha que começos teve uma tragedia

obscura!... Continuemos as reminiscencias de 1845. Nicoláo, ao dar de

rosto na mulher que se retraía de ser vista, quedou-se dois segundos

a a contemplal-a, perdeu o engraçado atrevimento, e saíu do camarote

canhestramente como se fosse corrido. Quando desciamos a platéa, disse

elle: «Eu vi aquella mulher em Caminha ha anno e meio; e, desde que a

vi, outra imagem não pude mais vêr em meus sonhos, nem encontrei mulher

que m’a fizesse esquecer. Aquella é a minha inevitavel fatalidade!»

--D’isso é que eu de todo me não recordo.

--Talvez lh’o não ouvisses. Entramos á platéa. Nicoláo nunca mais

desfitou a vista do camarote da 3.ª, sem que visse a linda cabeça de

Thomazia (chamava-se Thomazia) por entre os volumosos commensaes.

Saimos ao vestibulo, concluida a tramoia de Herodes, e esperamos que

ella descesse. Tu já tinhas saído no intervallo do 3.º acto, e por

isso não assististe a um rasgo de generosidade com que pódes fechar

originalmente a introducção do teu romance.

Chovia a odres. A familia carnivora esperava no pateo que estiasse

a chuva cada vez mais torrencial. Nicoláo d’Almeida saíu açodado

dizendo-me que o esperasse. Guiado prosperamente pelo amor, foi topar

um carroção que despejava as ultimas dez pessoas da terceira familia

em uma casa da rua de Santo Antonio. Offereceu ao carreteiro porção

fabulosa de pintos, e conduziu á porta transversal o carroção que,

debaixo das cataratas do céo, parecia a Arca Santa no trigessimo

nono dia do diluvio universal. Avisinhou-se cortezmente o bacharel

da familia que se aconchegava como rebanho que farisca lobo, e disse

voltado a um dos trez homens gordos:

--Tomo a liberdade de offerecer a vossas senhorias um carroção que os

conduza a sua casa.

--Este e o do osso...--disse uma das gordas á orelha da outra.

A menina achegou do cóllo a mantilha e baixou os olhos divinisados de

pejo.

O sujeito, a quem Nicoláo se dirigira, respondeu bem-humorado:

--Não é de desagradecer o favor, porque chove que tem diabo, e nós

moramos nas Cangostas.

O nosso amigo saíu debaixo do alpendre e disse ao boieiro: «Leva estes

senhores á rua das Cangostas.»

E, cortejando o rancho, saíu comigo pela outra porta, murmurando: «Que

mulher!»

--Bem!--exclamei eu, já temos dois não vulgares elementos para um

romance ideado originalmente; a saber: a pá d’um anho e um carroção!

Duas especies raras!

* * * * *

Antonio Joaquim proseguiu até noite alta a historia.

Devo confessar abertamente que o enredo, confiado a compositor de

engenho affeito a immolar a verosimilhança para comprazer a dois

ou trez leitores, dava largas a fantasias originaes. Na minha

officina, por mais que a Europa se queixe, as obras hão de sair

sempre fundidas das fôrmas da verdade. Não importa que o verdadeiro

orce pelo fastidioso, e as maravilhas da invenção lhe ganhem no

stadío da popularidade. N’um paiz de gente que lê sempre, como este

em que os paes se reproduzem para ter o gosto de dar leitores á

republica litteraria, ha partidos para todas as bandeiras da milicia

intellectual. Eu, de mim, sem invejar a voga dos meus visinhos,

conto sempre com consummidores que vencem em sêde de lêr a temeraria

affoiteza dos editores. Escrevo para a gente séria. O meu partido é o

da gente séria. Tenho por mim todos os _amigos da verdade_ que assignam

as correspondencias das gazetas. Para estes e outros inéditos é que

eu vou concertar os apontamentos que hontem escrevi, ao compasso da

narrativa do meu amigo Antonio Joaquim, a quem deixo aqui estampada a

minha eterna gratidão.

O SANGUE

CAPITULO I

Argumento

Fundação da rua das Cangostas, no Porto; origem dos Barros, e sua

descendencia até ao seculo XIX. Diz-se quem comia o anho no theatro de

S. João e outrosim quem era a menina que tolheu o espirito de Nicoláo.

Dá-se noticia de Innocencio. Virtudes do negociante, e suas duvidas a

respeito da liberdade. Não entende o que seja diplomacia, e representa

o fervor constitucional dos seus contemporaneos. Como Gervasio José se

bateu para que o não roubassem, e dá assim a razão por que se bateram

muitos que foram liberaes depois. Lagrimas de creança. A razão por que

os orfãosinhos não choram.

Quando os frades de S. Domingos, do Porto, no primeiro quartel do

seculo XVI offerecêram terreno da sua cerca aos portuenses que

quizessem edificar, muitos aceitaram a liberdade dos dominicanos, e

para logo se formou a rua das Cangostas. Um dos fundadores da nova

rua chamava-se Pero Barrios, judeu oriundo de Castella, e official de

tecidos de prata e ouro.

Os filhos de Pero, indecisos entre Moisés e Jesus, inclinaram-se

á religião que mais os caucionava de sustos e desfalques no seu

prosperado commercio. Seguiram pontual e ostensivamente o rito romano,

guardando em secreto os preceitos d’uma religião comesinha que ainda

hoje nos parece ser a predominante na Europa: a religião da absoluta

indifferença por todas.

D’esta arte, a familia Barros, já aporteguezado o appellido

hespanhol, fruia socegadamente os seus haveres mediante as toleraveis

incommodidades de ir, cada quaresma, confessar culpas veniaes aos

dominicos, de presentear o prior com algumas varas de galão de ouro

para guarnecer os paramentos sacerdotaes, acudir aos jubileus, aos

lausperennes, e á missa nos dias santos com fervor edificativo.

Estes trabalhos eram suaves e bons de levar comparados aos dos

contumazes e boçaes hebreus, que, por amor das tabuas da lei, se

deixavam levar de casa á mesa do santo officio, da mesa ao carcere, do

carcere á polé, da polé ao templo de Jesus misericordioso, do templo

ao tribunal civil, e d’aqui á fogueira. O filho de Jethro, por optimo

legislador e subtil embaidor que haja sido, realmente não valia tanto.

Outro Pero de Barros, bisneto do primeiro morador na rua das Cangostas,

reedificou a casa de seu bisavô, fazendo-lhe portas voltadas á rua,

feitio que a camara do seculo XVI não consentira sem pleito aos

primeiros edificadores, como se depreende de um documento ainda

archivado no cartorio municipal.[1]

[1] Veja o LIVRO 1 DAS CHAPAS, fl. 314. A camara queria perceber fôro

das casas que tivessem portas para a rua, e embargava a obra dos

esquivos ao pagamento. Os frades ganharam o pleito, fazendo levantar os

embargos e isentar os proprietarios.

Aquelle Pero de Barros era já abastado em 1700. Seus filhos levantaram

mão da tecelagem de ouro e deram-se ao commercio de estofos chamados de

Damasco. Em 1750 os netos do segundo Pero, já muito ricos, mercadejavam

em vinhos, e possuiam grandes montados no Douro que plantavam de

vinhaes, animados pelo trafego mercantil que respondêra cabalmente ás

previsões do ministro de D. José I.

No primeiro quartel d’este seculo, os Barros eram contados entre os

maiores proprietarios do Porto, e tinham largado todo o negocio,

laborando tão sómente na cultura dos seus bens de raiz.

Dizia, em 1806, João Maria de Barros, representante dos antigos e já

esquecidos israelitas de Cordova, que seu pae lhe deixára em dinheiro

de contado quinhentos mil cruzados em ouro, estipulando-lhe que esta

reserva a transmittisse intacta aos seus descendentes, com a obrigação

restricta de darem este dinheiro para a reedificação de Jerusalem,

se alguma hora os hebreus dispersos se congregassem e fintassem para

renovar a cidade de Salomão, consoante o promettido pelos seus

profetas. Este pio legado acabou na pessoa de João Maria de Barros,

em razão de lhe entrarem em casa os francezes invasores em 1808, e

descobrirem debaixo d’um leito de páo santo o cofre ferrado com o

recheio dos quinhentos mil cruzados, os quaes a esta hora constituem,

em Pariz, a opulencia de alguma duqueza, filha do soldado, que roubou a

casa da rua das Cangostas, e morreu general do imperio.

De João Maria ficaram trez filhas e trez filhos. O mais velho, Gervasio

José de Barros, casou em 1820 com uma parenta. Os outros ainda em 1846

estavam solteiros, e de crer é que já não casassem, porque todos eram

maiores de cincoenta annos, segundo me parecêram nos instantes em que

os vi no camarote do theatro de S. João.

Esta era a familia que comia o carneiro assado, em quanto os algozes de

Herodes afinavam os cutellos para a degolação dos quatorze mil meninos

da Judéa, horror que parecia não pungir grandemente o coração d’aquella

familia mais ou menos aparentada com os pequerruchos descabeçados.

No camarote, porém, estava uma formosa menina: d’essa vamos agora

esclarecer os dois leitores que ainda não adormeceram.

Um capitão de infanteria n.º 18, aquartelado em Santo Ovidio, do Porto,

teve de sua mulher uma filha em 1826.

A mãe da creancinha morreu de parto, e o capitão, com a filha ainda mal

lavada nos braços, fazia grandes clamores á beira do cadaver da esposa.

A residencia da morta era fronteira á casa de Gervasio José de Barros.

A senhora Thomazia, mulher do negociante de vinhos, ouvindo os gritos

do attribulado viuvo, atravessou a rua com suas cunhadas, e foi topar

com o espectaculo tristissimo. Queriam as boas creaturas consolar

o viuvo, offerecendo-se a cuidar da creação da menina, se elle não

tinha pessoas de familia que o fizessem com mais direito. O official,

debulhado em lagrimas, confiou a filhinha á misericordia das trez

senhoras e rogou á alma de sua mulher que pedisse a Deus as cobrisse de

bençãos e prosperidades.

Quando o cadaver saíu com lustroso saimento á custa dos Barros, passou

a creancinha para casa das bemfeitoras, e andou de cóllo para cóllo de

todos, como se fosse da familia.

Thomazia, ao oitavo dia, foi ser madrinha da menina que se chamou

tambem Thomazia; Gervasio foi o padrinho, e os irmãos vestiram opas na

cerimonia. Foi dia de festa na casa; mas nem todos exultavam. O capitão

baptisou tambem a filha com lagrimas, e não pôde engulir bocado do

farto jantar, por que via defronte a janella da alcôva onde sua mulher

expirára oito dias antes.

A este tempo, Gervasio José já tinha um filho de trez annos, chamado

Innocencio. Quem embalava o berço de Thomazia era o pequenino; mas

importava vigiar-lhe o zelo de adormecer á força a creança, porque

elle, ás vezes, dobrava-se sobre o colchãosinho da pequena, e tanto

se aconchegava para a beijar, que lhe magoava o rosto com o nariz um

tanto judaico. As sete pessoas da familia riam muito da asáfama do seu

Innocencio á volta do berço, e parece que mais estremeciam a orfanada

do amor maternal á medida que o menino se lhe ia mais afeiçoando.

O capitão Joaquim Alves Pinto, pae de Thomazia, foi desligado, no

seguinte anno de 1827, como suspeito constitucional. O negociante

levou-o para sua casa onde o agasalhou com tal alegria, que o

favorecido com a hospedagem parecia elle. Entretanto, o official

chorava secretamente a dependencia, e a quebra na carreira por onde

esperava grangear dote para sua filha. Joaquim Alves, procedente de uma

familia pobre de Monção, sentára praça em 1806, e alcançára nas bravas

luctas de então o posto d’onde repentinamente fôra desapossado.

Conjurou-se com os revolucionarios na esperança de readquirir a

patente. Foi um dos que levantaram o grito da revolta, em Aveiro,

na manhã do dia 16 de maio de 1828, associado aos cidadãos, e

officialidade de caçadores n.º 10. No mesmo dia, insurgiu-se no Porto

infanteria 6 e outros corpos de diversas armas. D’aqui até á hora em

que o _Belfast_ se fez de vela para Inglaterra carregado de generaes

e doutores, o capitão, ora esperançoso ora desalentado, exercitou a

actividade de quem estava jogando o seu futuro e o da filhinha. Chegado

o dia 3 de julho, e escondida nas brumas do oceano a náo que levava

enrolada no porão a bandeira da liberdade, Joaquim Alves queimou as

faces da filha com as lagrimas da desesperação, e pediu de joelhos, á

beira do berço onde ella dormia, e a rodeavam as senhoras lagrimosas,

que lhe amparassem a desgraçadinha que nem já tinha pae. Todos lhe

asseguraram o seu amor á menina e a certeza de que não sentiria a falta

de sua mãe, ao mesmo passo que o negociante de vinhos lhe insinuava na

algibeira um rôlo de peças, dizendo que lh’as pagaria, quando voltasse

general.

O emigrado fugiu por Galliza e seguiu a sorte dos mais affoitos e

constantes, bem que a levasse melhorada emquanto lhe durou a esmola do

seu compadre.

Foi crescendo a menina acariciada por egual com Innocencio que a

disputava aos braços da ama. Se a extremavam d’elle os corações dos

paes, as exterioridades pareciam dizer que no affecto de familia os

dois meninos eram irmãos.

De longe a longe, vinham noticias do emigrado: mas pedidos de novo

emprestimo nunca vieram. O capitão de si pouco dizia: todo o seu

lastimar-se era de saudoso da filha e da patria, para onde pedia a Deus

monção de voltar, ainda que tivesse de despir a farda sem mancha e

vestir a jaqueta de operario.

Consolavam-n’o as noticias idas do Porto. Gervasio com a sua linguagem

de ouro em bruto levava-lhe a mal que elle se queixasse da fortuna,

quando sua filha estava mimosa como se fosse irmã de Innocencio. «Saiba

vocemecê--escrevia o bonissimo homem--que Thomazia já tem dote; tanto

monta que o compadre venha general como tambor. Tenho no Douro uma

quinta que me dá quarenta e cinco pipas de feitoria, e que já cá em

casa se chama a quinta da Thomazinha. Se vocemecê precisar de dinheiro,

lá lhe irá. Faça de conta que é a filha que lh’o empresta do rendimento

da quinta, etc.»

Voltou o repatriado entre os 7:500 da heroica expedição. Correu á

rua das Cangostas com o alvoroço de quem antevia a morte na primeira

batalha e receava não ter tempo de ver a filha. A menina, linda como

os anjos que alguma vez se deixam ver n’aquella idade, tinha seis

annos. O capitão vinha roto, empoado, sujo, encanecido, com as barbas

grisalhas até meio do peito. A pequenita Thomazia, nos braços d’elle,

chorava de medo, e limpava as faces que o pae lhe humedecia de lagrimas

e arranhava com os bigodes. Alegria verdadeira, n’aquelle encontro, não

a tinha ninguem. O dono da casa, lembrado da invasão dos francezes,

enterrava o dinheiro e entrouxava as preciosidades para fugir. O

dilemma que o apertava era que, se os liberaes lhe não saqueassem a

casa, lh’a saqueariam os realistas.

--Tanto me faz a mim ser roubado por uns como por outros--dizia elle

com admiravel lucidez de intelligencia.--Quem tem alguma coisa que

perder vae-se pondo ao fresco. Pelos modos, os liberaes do Porto são

os pobres sómente; que os ricos fogem todos. Um partido de pobres não

ha de ir longe. Vocemecês, se veem todos vestidos n’este gosto, que

remedio teem senão vestir-se sem pagar?--argumentava elle com logica de

seu uso.--E quem não tem com que pagar, por mais honrado que seja, ha

de ir roubar as coisas onde ellas estiverem. Nada... Estou aqui, estou

no Douro. Mal por mal, antes me quero de bem com oitenta mil homens e

de mal com sete mil e quinhentos...

O capitão não estava para cathequisar correligionarios: a lembrança

da Belfastada tolhia-lhe as molas da eloquencia; e o coração, todo

embebecido na filha, apenas lhe dava um agro-doce de lagrimas que o bom

do Gervasio não podia avaliar n’aquella cojunctura de medo aggravado

pelo silencio do militar.

A menina, decorrida meia hora, familiarisou-se com o temeroso aspecto

do pae, e já lhe respondia breve ás perguntas carinhosas. Não obstante,

quando elle se retirou, receioso de quebrantar a disciplina, Thomazia

voltou-se para as senhoras Barros, e disse, com certa tristeza,

que seu pae era muito feio. A madrinha reprehendeu-a amorosamente,

recommendando-lhe que lhe désse muitos beijos, quando elle tornasse.

A menina obedeceu com repugnancia, respondendo friamente aos afagos do

pae, que, desde o dia seguinte, ficou hospedado em casa de Gervasio.

Mais tranquillo e animado, o capitão discursou largamente ácerca das

esperanças bem fundadas da victoria das pequenas forças do imperador

sobre o desorganisado exercito do infante. Justificou o acerto das

operações com a certeza do auxilio de Inglaterra e França, onde

diplomaticamente estava vencida a causa de D. Maria, provada a sua

legitimidade á posse do throno de D. João VI.

O negociante não percebeu completamente o que vinha a ser a victoria

da diplomacia lá fóra, e a guerra tão desegual e mal principiada cá

dentro. A juizo d’elle, seria melhor que as armas vencessem primeiro,

e a diplomacia depois. Para em summa o dizer, o rico da rua das

Cangostas esteve por um nada a perguntar se a diplomacia era alguma

rainha que promettia vir com o seu exercito bater os miguelistas de

cá, depois de destroçar os de lá. Absteve-se, porém, de revelar esta

ignorancia desculpavel em sua vida alheia da terminologia das sciencias

de governar, quando o capitão o allumiou dizendo-lhe que a diplomacia,

no caso presente, valia mais do que um bom exercito; visto que as

nações europeas, convencidas dos direitos da rainha, mandariam dinheiro

e tropa engrossar as forças dos liberaes, isentando os cidadãos

portuenses de pagarem a quem lhes defendessem as casas, fazendas e

vidas.

Sem embargo d’este jacto de luz, Gervasio José enrugou o sceptico

nariz, e murmurou:

--Assim será; mas então a diplomacia que mande quanto antes para cá

dinheiro e tropa.

Depois da derrota de Souto-Redondo e da desanimação da casa Carbonell,

de Londres, o descorçoamento dos liberaes era tal, que aos mais

alentados se figurava a urgencia da capitulação, mórmente se o gabinete

de Madrid ministrasse a D. Miguel munições e gente. Gervasio José

de Barros, com a alma fria de morte e as faces amarellas de terror,

perguntava entre colerico e sarcastico ao seu hospede:

--Então, senhor Alves, e a diplomacia? Esse diabo vem ou que faz? Ora,

meus amigos, estou na tinta a respeito de diplomacias. O que eu trato

é de enfardelar outra vez e arranjar salvo-conducto. Tenha paciencia

o senhor Alves. A afilhada vae comigo. Cá não n’a deixo eu; que a não

criei para que a apanhe alguma bomba. Eu não quero saber d’isto. O

partido liberal é uma sucia de pobretes que querem arranjar-se. Fazem

muito bem; mas com o que meus avós ganharam não hão de elles medrar...

O capitão appellava da desacreditada diplomacia para o generoso animo

de seu compadre, instando-o a que não désse exemplo do egoismo e da

fuga aos seus pares na riqueza e no dever de auxiliarem humanamente

a causa de todos os opprimidos da força, da jerarchia e do dinheiro

accumulado em homens que não tinham mais alma que as suas burras de

ferro.

O negociante, assim que visse chorar a esposa, levava logo o canhão da

japona aos olhos. Lagrima da senhora Thomazia caía no coração do marido

e ungia-lh’o de caridade e amor ao proximo. Tanto pôde a linguagem do

capitão e o enternecimento da sua comadre, que logo d’alli Gervasio foi

levar um grande donativo ao thesouro para as despezas da guerra.

Desde este dia, o indifferentista em politica transformou-se n’um dos

melhores e mais liberaes defensores do Porto, animando os irresolutos

da sua plana dinheirosa a contribuirem para a salvação commum, e

assalariando os seus caseiros do Douro a virem e a trazerem comsigo

braços para a defeza da liberdade.

Ao avisinhar-se o dia de S. Miguel de 1832, derramou-se no Porto a

noticia de um ataque realista ás trincheiras todas, e logo se espalhou

a ordem do dia do general sitiante na qual litteralmente se promettia

aos soldados saque livre ás casas dos malhados.

Quem o diria? Em dia de S. Miguel, Gervasio de Barros abraçou a mulher,

o filho e as irmãs, com olhos enxutos, e saiu para a bateria do Fojo

com uma clavina ao hombro e duas pistolas nos bolços interiores d’uma

jaqueta de pelles, obrigando os dois irmãos a seguirem-n’o, com estes

brados que valem bem a melhor allocução militar de Cezar ou Bonaparte:

--Rapazes! aqui é fazer das tripas coração!

D’ahi a pouco, a esposa e irmãs do bravo saiam para os hospitaes

conduzindo trouxas de ligaduras, fios, camisas e lençoes.

Apoz onze horas de combate, Gervasio e seus irmãos voltaram na chusma

exultante dos vencedores; mas vinham tristes com o pó da batalha

empastado mais nas lagrimas que no suor. O capitão Joaquim Alves Pinto

era um dos setenta e sete officiaes prisioneiros e mortos; mas entre os

ultimos é que o negociante viu o pae de Thomazia, no Carvalhido.

Proromperam em clamores as senhoras, estreitando aos seios a pequena,

sem lhe dizerem que o pae morrêra. A menina chorava e tremia de medo,

cuidando que os soldados atacavam a casa; que todos os dias sua

madrinha a mandava rezar e pedir á Virgem que as livrasse do saque.

Corrido mais d’anno é que Thomazia teve discernimento para entender,

sem que lh’o dissessem, que seu pae não era já d’este mundo.

Poucas lagrimas verteu, e essas chorou-as por imitação, vendo molhadas

as faces das suas bemfeitoras, quando ella perguntou se o pae tinha

morrido.

Que são lagrimas aos sete annos? Além de que, Thomazia não sentia a

falta das caricias paternaes, nem a do pão, nem a do vestido.

A madrinha fez um gesto de desgosto quando a encontrou no mesmo dia a

compor a trunfa d’uma moira de farrapos.

--Coitada!--disse ella entre si!--Que seria d’ella hoje, se Deus me não

guiasse a casa da mãe, quando a morte lh’a levou! Cada vez te quero

mais, innocentinha!

E animou-a como se fosse mister applacar-lhe as afflictas saudades do

pae.

Pobres orfãos, vós não choraes em meninos, por que a vossa vez de

chorar vem depois.

CAPITULO II

Argumento

João de Pinhel quer levar o rapaz para o Pará. Amores infantis de

Thomazia e Innocencio. Idéas do brazileiro ácerca do casamento

predestinado para creanças. Como a menina se fez linda, e não queria

saber ler. Vê-se o que faz a vaidade e o que ella promette aos sete

annos. Delicias de Gervasio José nas hortas do Reimão, onde correram

os dias mais felizes da geração que vai acabando. Diz se que os

peraltas do Porto exercitaram o seu tirocinio de elegancia nas

merendas do linguado frito. Investidas dos cavalleiros portuenses

ao coração virginal de Thomazia. Congrega-se a familia para casar

Innocencio com ella. Vê-se que o rapaz era namoradiço, e o pae tanto

ou que velhaco, sem desfazer na sua honradez commercial, cousa

invulneravel no Porto. Receia o pae que o filho atire dois couces ao

apparelho. Tendencias artisticas de Innocencio para desenhar narizes,

e do mais que no capitulo se disser.

Quando Innocencio, filho de Gervasio, prefez doze annos, veio a

Portugal um tio seu materno, estabelecido no Pará, solteiro e rico.

Quebrantado pelas enfermidades do clima, Luiz de Pinhel, que assim

se chamava o opulento fazendeiro de cacau, promettia pouca vida aos

quarenta annos. Algumas melhoras cobrou com os ares patrios, mas a

sciencia futurou-lhe peorar e morrer, se voltasse ao Pará.

Não obstante, insistiu na ida para liquidar os seus haveres contados

por centenas de contos, e pediu instantemente a sua irmã Thomazia que

deixasse ir com elle o sobrinho Innocencio para quem estivera trinta

annos amontoando os cabedaes já agora inuteis para si.

A resistencia foi energica e indelicada; mas, ao verem que Luiz

de Pinhel desistia despeitado da benevola pretenção, convieram em

consistorio os paes e tios que se deixasse ir o menino; que tanto

montava acrescer-lhe ao seu dote de bons cincoenta contos o triplo

d’esta quantia.

--De maneira, dizia o pae, que o nosso rapaz vem a ser o homem mais

rico do Porto, e juntará a fortuna que teria, se os ladrões dos

francezes lhe não roubassem ao avô quinhentos mil cruzados, não

fallando no juro desde 1808 até hoje, que já lá vão vinte e oito annos.

Vejam vocês p’ra onde isto deitava!

O rapaz, porém, não ia de vontade para o Pará. Cada vez que a pequenina

Thomazia lhe dizia: «Então tu vaes-te embora, Innocencio?» o menino

debulhava-se em lagrimas e dizia entre arrancos que era a mãe que o

mandava. As senhoras presenciavam consternadissimas este lance, e não

podiam ter o pranto.

Um dia chamaram ellas Luiz de Pinhel para espreitar como as duas

creanças se abraçavam a soluçar. O tio condoeu-se, e disse muito

commovido:

--Agora, minha irmã, sou eu que peço, e ordeno, se fôr preciso.

Innocencio não vae. Se eu morrer, cá lhe vem dar o que fôr meu; se eu

viver, irá mais tarde, quando lhe chegar vontade de vêr mundo.

E chamando a si os pequenos disse-lhes cariciativamente:

--Brincae, meninos, brincae; que eu não te levo o teu amiguinho,

Thomazia. Lá virá tempo em que a ambição ou o amor vos apartem...

Thomazia sorriu-se e levando o irmão de parte, segredou-lhe:

--Não sabes, Luiz, que muitas vezes a gente tem pensado em os casar?

Estes já não se apartam...

--Isso é muito possivel; e, se elles vão n’este affecto, chegados

á idade, não ha mais que leval-os á egreja; que bem casados levam

elles já os corações. Mas olha, Thomazia, que não ha fiar n’estas

affeiçõesinhas. Eu conheço alguma cousa o mundo, e por isso andei

sempre por longe d’elle, e mettido cá no meu trabalho, por não saber em

que havia de gastar a vida, que bem depressa gastei... Estas creanças

que brincam, em começando a olhar seriamente uma para a outra, já

não acham gosto ás brincadeiras da meninice. Depois, cada qual trata

de procurar cousas e affeições novas, porque o coração humano é

assim. O moço não tem o coração do menino, nem o velho o coração do

moço, percebes? O que eu te quero dizer é que não vás tu por engano

casal-os muito cedo, sem elles saberem o que fazem nem o que querem.

É muito perigoso que, na idade de saberem o que são e hão de ser até

á morte, se não submettam ás obrigações para que a sua razão não foi

consultada. Entretanto, Deus os faça tão bom homem e digna mulher como

são bons e amigos em creanças.

O paraense foi-se embora com grande jubilo de Innocencio e Thomazia.

Os paes do menino tambem exultaram, ficando-lhes a certeza da herança

proxima ou remota.

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