Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São

historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das

montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos

carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira

de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra

a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio

que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...

Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da

cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de

Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a

Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?

Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de

Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante

da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?

Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por

tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do

sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio

quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os

dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles

dizeres?

Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com

effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás

convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em

suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de

jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal

phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado

abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar

os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a

que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa

patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!

* * * * *

Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado

ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos

seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo

especial:

1.º Rir atraz da procissão dos Passos.

2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um

viajante.

3.º Não ter dado pateada a um lente.

4.º Parecer constrangido a dar lição.

5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

* * * * *

Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4

appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de

expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.

Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa

necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder

teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos

universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder

mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de

legislador mediocre.

* * * * *

Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta

aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e

absolvidos pelos tribunaes civis.

N'esta conjunctura perguntamos:

É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente

de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de

uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem

julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de

uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente

tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem

contrarias?

Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias

especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?

Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se

trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de

sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.

Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que

quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado

não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.

Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões

d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de

covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade

que ainda possa haver na mocidade portugueza.

Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza

physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,

com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem

corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua

especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.

* * * * *

Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para

sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho

systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir

honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da

força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros

cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para

sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das

côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de

atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos

naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da

velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,

proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a

escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

* * * * *

No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que

Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os

seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da

Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso

para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne

Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução

presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras

seguintes:

«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia

das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no

livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada

fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e

perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem

abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns

exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e

assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o

medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e

desconheceriamos o dever.

«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes

conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.

_Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia

ethica da regeição dos dogmas.

«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum

christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura

senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.

«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação

espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de

varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que

muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar

produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é

frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças

procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é

insufficiente para nivelar.

«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio

homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_

e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma

moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida

d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.

«Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam

aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,

comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham

em si um caracter offensivo.

«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á

sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando

eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um

cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses

atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na

morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa

celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão

zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto

emprego dos seus ultimos momentos.»

Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes

é christão, o outro não.

O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé

religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da

perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação

dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia

peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,

comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais

delicada flor da cavalleria.

O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista

theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso

agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de

Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um

caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;

é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da

verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»

* * * * *

Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de

verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral

de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem

exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da

intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma

moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these

para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado

presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente

em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão

necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio

fundamental da conciliação das consciencias!

* * * * *

Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario

mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da

Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que

determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,

tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem

escravisados pelos poderes clericaes.

Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho

aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos

crescem. Crescem em virtude de que lei?

Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe

respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A

noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o

fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e

embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é

ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador

operario acrescenta:

«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se

desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou

de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia

crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de

Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a

amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina

dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado

as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de

coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim

vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e

para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na

Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de

sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...

Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de

certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos

deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque

sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas

gerações.

«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É

tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a

legislação humana e a moral universal.»

* * * * *

Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres

do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de

principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de

Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras

convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas

perigosas e banidas das discussões publicas.

Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra

que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira

garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia

das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,

evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos

principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas

reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes

de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o

methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves

que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque

de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,

como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos

os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que

esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.

Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino

mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem

nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram

manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus

cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por

todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,

vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu

morto.

Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que

expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias

physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse

facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções

theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,

a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á

tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o

resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços

publicos.

Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha

professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais

vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes

que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo

d'ella:--por falta de inspecção e de policia.

Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é

solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam

não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da

intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se

armam.

Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos

dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!

Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores

mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:

«_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do

_Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da

instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo

de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1

para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.

Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.

Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes

tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais

proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem

e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo

mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas

maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação

portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com

isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo

d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e

religiosa.»_

A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de

prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção

estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde

quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que

não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade

deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente

ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade

portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,

foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde

quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,

compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.

D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um

litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor

Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só

para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e

vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos

artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor

Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte

portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,

em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao

vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira

bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal

Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete

partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens

mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.

Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O

ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas

navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o

mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a

sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o

senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no

Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se

hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte

nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,

onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,

feitos na rua dos Correeiros.

Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,

Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,

Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos

exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.

Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam

escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João

de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o

mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de

hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e

apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo

official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e

que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de

secretaria.

No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente

instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue

propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo

dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o

soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na

confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os

Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo

de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia

fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia

tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o

mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a

litteratura de uma nação.

A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a

instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a

prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das

accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da

instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior

seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla

mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava

discutindo:

_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario

ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,

á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este

artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,

tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças

podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou

professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa

proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a

respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo

tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a

instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena

de processo e demissão immediata do professor, aos principios da

religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão

profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica

dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel

entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda

reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes

e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é

que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano

desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa

aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou

sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois

interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio

Maior para lh'o provar.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02/05) · 第 3 / 4 段