baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
_Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.
Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
não ha creanças.»
Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
fresco.
Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
phenomenos.
Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
_coupés_ magnificos da piedade escolhida.
Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
desdem.
Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
sociedades corruptas:--o socego.
Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
aguadeiro, ralhando com o marido.
Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
meio dos cortinados.
Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
ou do luxo que não usa.
Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
tornar encantadora a familia.
Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
perfeita educação.
Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
simplicidade tragica.
O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
saberá negar.
* * * * *
Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
Bazilio_, romance realista.
Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
phylanthropos.
A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
verba_.
Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
se tirou a designação _realismo_.
Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
simplesmente lyrica.
O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
cartas.
A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.
Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
critica dos costumes, na propria critica da arte.
Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
_Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
burgueza.
De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
_Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
divina revelação de um novo mundo.
* * * * *
O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»
* * * * *
O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._