Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da

baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais

asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda

a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as

graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,

com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as

galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o

pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias

edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da

Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos

predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina

de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,

modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras

primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da

moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor

systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,

branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços

cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se

cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre

frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de

outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais

elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos

nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada

do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de

todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa

luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,

activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,

parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de

verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,

com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo

das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos

rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema

queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.

É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os

_Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.

Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando

recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:

«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade

não ha creanças.»

Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros

bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e

balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,

desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os

musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os

musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,

ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do

largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos

effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não

encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse

sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua

preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou

com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o

seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe

fresco.

Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa

frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As

creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem

proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e

intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber

rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres

instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A

menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito

indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que

houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas

para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo

quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha

instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da

infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,

e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as

flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do

jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.

Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas

da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde

aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa

ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são

appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das

linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano

diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua

funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe

suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os

jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du

Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou

não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,

Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora

completamente as leis que regem o universo e que determinam esses

phenomenos.

Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,

assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem

nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia

das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da

actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão

moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister

gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a

essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que

retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da

casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato

que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma

possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou

onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá

respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias

borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que

a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias

elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta

no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro

de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda

preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo

do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os

orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas

couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas

desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes

ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na

bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha

e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos

Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os

_coupés_ magnificos da piedade escolhida.

Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do

seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da

Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,

arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um

tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou

desdem.

Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios

theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie

contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o

dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas

theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo

resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das

sociedades corruptas:--o socego.

Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a

ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com

os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra

região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso

do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as

raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e

da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo

um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela

cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia

medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta

cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos

alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o

aguadeiro, ralhando com o marido.

Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida

domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno

quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão

infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a

cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as

caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e

inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos

arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos

retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores

de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no

meio dos cortinados.

Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção

decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,

similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de

Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais

nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere

á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas

mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para

se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel

a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera

que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos

que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções

ou do luxo que não usa.

Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de

romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não

lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe

tornar encantadora a familia.

Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua

predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha

da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.

Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e

serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da

perfeita educação.

Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente

superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil

processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma

simplicidade tragica.

O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o

dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe

apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres

pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem

penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por

uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de

espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter

exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a

alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O

seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será

aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver

jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e

se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver

desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais

segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas

mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em

_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos

refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos

tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de

França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes

essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se

um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer

obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,

_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as

suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do

seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito

caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar

ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu

espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e

do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado

nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão

gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as

suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,

encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade

attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de

Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu

cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não

saberá negar.

* * * * *

Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,

medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo

Bazilio_, romance realista.

Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é

esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha

senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de

espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que

supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de

1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então

cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados

de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições

gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza

da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação

da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.

Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,

atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,

phylanthropos.

A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma

sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os

pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.

Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou

pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela

convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo

problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do

mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as

leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;

que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum

phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer

integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que

prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,

que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer

dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental

em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria

zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,

dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha

trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação

mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em

risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse

e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de

caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis

sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non

verba_.

Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que

se tirou a designação _realismo_.

Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que

é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo

numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser

simplesmente lyrica.

O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um

facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante

do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de

uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser

Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral

dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com

que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte

afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral

negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a

morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as

cartas.

A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da

queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.

Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das

comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande

mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um

estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na

sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da

philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na

hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na

critica dos costumes, na propria critica da arte.

Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de

vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se

dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do

_Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um

modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas

as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação

burgueza.

De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa

contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te

rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um

insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas

companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas

filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter

apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:

«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou

uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente

honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta

ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na

minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso

fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o

problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,

com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte

romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um

alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como

elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre

asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e

meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente

pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito

em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os

elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a

proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu

pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,

um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e

convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a

concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as

influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do

amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento

em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião

compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou

demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a

reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,

fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a

maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a

applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,

finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia

como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha

these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio

da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»

Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse

compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro

teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um

artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma

funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um

gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma

religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim

como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser

indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,

se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte

e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de

ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante

a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.

Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do

_Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo

uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve

gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro

seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á

observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da

biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle

que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a

divina revelação de um novo mundo.

* * * * *

O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.

Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois

de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se

desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,

exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»

* * * * *

O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.

Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o

_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02/05) · 第 2 / 4 段