universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
responda pelo erro.
Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
em uma instituição do Estado.
Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
apagou-lhe a lanterna.
Quem foi que deixou no mundo esta lição?
Foi o theologo.
Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
de Rio Maior.
* * * * *
Notemos porém um facto consolador:
O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
cerebro é uma idéa que se extingue.
Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
do professor e o processo pelos tribunaes civis.
Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
methodos porque se mortificam os impetos da carne.
Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
cartilha de Padre Mestre Ignacio.
E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
ensino publico de uma nação!
* * * * *
Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
_Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_
O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
_Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!