IV

_Sobrevivencia das tradições do regimen imperial._

_Agnosticismo da Constituição republicana_

Limitando o exame aos orgãos incumbidos de executar a lei e dar

realidade tangivel a seu pensamento, talvez se possa sem pessimismo

tornar patente que a comprehensão official do problema do ensino por

muito tempo se resumiu: no grau primario, em vulgarisar a leitura, a

escripta e os rudimentos de arithmetica; no grau secundario, abandonar o

curso de humanidades á concurrencia privada, modelada por poucos

institutos officiaes; no grau superior, onde predominam os

estabelecimentos officiaes, acceitar a collaboração da iniciativa

individual. Nesses dous ultimos estadios, a admissão nas escolas só se

regula pêlas facilidades financeiras dos paes; não é absolutamente uma

como que promoção seleccionada dos melhores elementos revelados nas

escolas primarias.

Forma-se, dest'arte, nos niveis superiores, uma aristocracia culta,

fundada na riqueza mais do que no talento. As proprias excepções

confirmam o asserto, e provam quanto o systema fere os principios

basicos de uma sociedade verdadeiramente democratica.

Claro que existem numerosas excepções nesse modo de encarar o problema,

e os esforços feitos em S. Paulo, com grande exito, no Rio, e em alguns

outros Estados, bem mostram que o assumpto preoccupa os governos e lhes

inspira progressos paulatinos, si bem que, infelizmente, por demais

desconnexos.

No circulo dos pensadores, dos sociologos, dos theoristas em geral, tal

conceito, fundamente erroneo, não encontra guarida; mas á formal

condemnação intellectual não se segue a repulsa pratica ou a instituição

de processos pedagogicos mais acordes com as normas hoje geralmente

preconisadas para formar a mentalidade da juventude. E, nesses termos,

continua a predominar o habito rotineiro das administrações

publicas, não raro mal preparadas para a comprehensão integral do

delicado problema e para a direcção dos meios de prover ás exigencias

indeclinaveis da cultura progressiva da mocidade, que se resumem no

indispensavel advento de uma educação fundamentalmente nacional, no que

tem de mais alto.

E, entretanto, encontram certa justificativa ou, antes, certa explicação

para a sua norma de agir os mantenedores de um ideal pedagogico que,

rapido, levaria á estagnação mental e social os educandos, a sociedade

de amanhã, portanto.

A inercia perpetuou regras, talvez comprehensiveis no regimen monarchico

de religião official, mas inteiramente descabidas no regimen separatista

inaugurado pêla Republica.

Ao proclamar-se esta, nenhuma doutrina lograva acceitação universal nos

arraiaes dos vencedores. Talvez, mesmo, poucos dos novos governantes

tivessem cogitado do novo aspecto da questão educacional, uma vez

firmada a liberdade de pensamento, e se julgassem aptos a solver um dos

problemas mais arduos da psychologia humana, formar homens de bem,

obedientes ás regras da moral, sem ferir o agnosticismo que o Estado

devia honestamente respeitar, por honra propria e para dar livre

expansão ás confissões religiosas.

Benjamin Constant, espirito afeito ás altas indagações moraes, sentiu o

vacuo deixado pêla abolição da disciplina confissional no que ella

pudesse ter tido de activo, de creador na mente das creanças, embora não

houvesse a Egreja catholica dominante sufficientemente exercido sua

acção neste rumo, talvez embalada pêla falsa certeza da perennidade de

uma situação privilegiada, a que o progresso do Brasil veio pôr termo,

equiparando perante o Estado leigo os credos divergentes.

A fundação das cathedras de moral nos institutos de ensino superior

obedeceu a essa preoccupação.

Fortemente combatida, sua creação pouca vida teve, e deveria resultar

ephemera como aconteceu, pois á disciplina visada cumpriria tomar conta

da creança no periodo em que se formam sentimentos, idéas, habitos, afim

de constituir aos poucos o ambiente em que viesse a mover-se o homem,

crear o complexo de regras, com sancções interiores, directoras de sua

vida.

Na escola primaria--como disciplina despertada no animo infantil,

mais do que preleccionada--; nas escolas normaes--como estudo

theorico e pratico, collimando fins pedagogicos--; nas escolas de

philosophia--sciencia investigada em um conjuncto de altas indagações

mentaes--; em todos esses institutos, a moral se achava em seu logar

proprio, ora ministrando regras de vida, ora apurada em analyse e aulas

dos docentes.

Mas em cursos profissionaes, no sentido estricto da palavra, escolas de

engenharia, de medicina, de arte militar, a cadeira de moral sairia

menos util, por encontrar o ambiente moral do alumno já formado na edade

de entrar para taes estabelecimentos, por destoar do genero peculiar de

raciocinio proprio ás especialisações, por visar pontos de detalhe, e

não o complexo das noções basilares da existencia, entre as quaes a

moral deve figurar.

O combate contra o plano de Benjamin Constant, embora alvejasse o ensino

superior, repercutiu nos graus inferiores. Nada se fez para preencher na

escola primaria, onde se formaria a _psyche_ commum dos brasileiros, a

tarefa de suscitar sentimentos communs, aspirações generalisadas,

esforços de progresso interior ininterrupto, gravitação incessante para

o bem, missão que, em regimen unitario, caberia á Egreja, e que, na

vigencia da liberdade de pensamento, deveria recair sôbre o professor

elementar, fôrça insubstituivel para a formação dos laços unionaes

decorrentes da communhão de ideal, de aspirações e de processos.

A estagnação foi facilitada pêlo elemento politico, que, receando

augmentar o acervo de difficuldades da phase inicial da Republica,

manteve com o maior zêlo o pessoal director de todos os serviços.

Permanecendo inalteradas as auctoridades superiores prepostas ao ensino,

triumphou o predominio quasi invencivel da rotina e dos habitos

burocraticos, que dão tanto peso ás opiniões peculiares, aos meios

administrativos sôbre quantas iniciativas buscam innovar, isto é

perturbar habitos adquiridos, exigir novos esforços materiaes e mentaes,

violar a placidez da applicação, quasi mecanica, de leis e regulamentos

aos casos occurentes, pouco variaveis e já estudados uma vez por todas.

A hostilidade da entrosagem administrativa ao esfôrço novo, despertado

pêlo problema educacional, que se vinha impor á solução dos

governantes, tinha como collaboradora a norma legada pêlo Imperio em

materia de ensino. Como extranhar que, fortes pêla tradição que

representavam, pêlo manuseio das leis que applicavam, as auctoridades

literarias tivessem conseguido manter a orientação anterior á quéda do

antigo regimen? Por outro lado, como levar-lhes a mal desconhecerem um

problema novo, que os proprios triumphadores mal lobrigavam, e que,

ainda insolvido hoje, constitue um labéo para as instituições

republicanas de nosso país?!... Era natural, pois, se mantivesse ao

mecanismo antigo o mesmo funccionamento, já inadequado aos phenomenos

posteriores.

Como attenuante, pode ser allegado o analphabetismo geral do sertão. As

estatisticas offerecem base pouca segura, por não estarem assimiladas,

por sua notoria deficiencia. Qualquer algarismo que se cite, vem,

portanto, viciado desde a origem.

Seria optimismo, em todo caso, acreditar superior a 20% o numero dos que

sabem ler e escrever. Em taes condições, pouco valeria incitar as almas

a vôos mais altos, quando chumbadas inseparavelmente ao solo pêla

ignorancia absoluta. Melhor e mais util seria, de resultados immediatos

e mais efficazes, dar a taes espiritos adormecidos o impulso inicial da

instrucção rudimentar.

Ficaria perdido todo esfôrço gasto em tentativas de sublimar

intelligencias, amodorradas na treva do abandono mental secular. Das

proprias disciplinas ensinadas na escola, quantas se gravariam

permanentemente nos cerebros incultos de taes desvalidos intellectuaes,

e quantos exemplos ainda hoje se citariam de regresso ao desconhecimento

primitivo?

As difficuldades immensas offerecidas pêla ausencia de meios de

communicação vinham complicar o caso. Admittido se tivesse formado uma

doutrina pedagogica, geralmente acceita, de nivel mais alto do que a

craveira adoptada até então, si continuassem os professores os mesmos, o

unico meio de os iniciar em sua nova tarefa seria a inspecção amiudada

das escolas, o contacto intimo com funccionarios convenientemente

preparados, que ministrassem os elementos do programma preconisado, lhes

guiassem os passos vacillantes na nova rota, abrissem horizontes novos

no campo da educação infantil. A vinda por turmas dos professores ruraes

á séde da circumscripção literaria, ou á capital do Estado, lhes daria o

viatico indispensavel á estrada que se lhes apontava para o

desempenho de suas funcções. Remedios faceis em zonas providas de meios

rapidos de locomoção, cortadas de vias-ferreas, ou em centros populosos.

Mas essas eram excepções, relativamente muito raras, no vasto territorio

nacional, ainda hoje, vinte annos depois, com menos de 22.000 kilometros

de estradas de ferro para seus 8 1/2 milhões de kilometros quadrados de

superfície, sem estradas de rodagem, dignas do nome, tendo apenas os

máos trilhos abertos nas serranias e nos chapadões pêlas tropas

sertanejas e pêlo tradicional carro de bois. É preciso não ter viajado o

interior do Brasil, não ter visto escolas, tristes casebres sem soalho

nem forro, destituidas de tudo quanto hoje se exige para a mais modesta

habitação, quanto mais para uma escola; não ter percorrido as distancias

immensas de freguesia a freguesia, e dellas aos pontos centraes, onde se

poderiam haurir recursos, intellectuaes e materiaes; é preciso o

desconhecimento do meio, para acreditar na possibilidade de generalisar

taes reformas e melhoramentos por occasião da quéda da Monarchia.

O sertão as inutilisaria sem lucta, por simples inercia.

E ainda para que tal reorganisação se pudesse dar, fôra mister houvesse

uma norma a propagar, uma nova doutrina a evangelisar, um novo codigo

pedagogico a pôr em effectividade. Nenhuma dessas condições iniciaes

existia.

O escopo das auctoridades literarias não variara, e os methodos

rotineiros continuavam em plena voga. Nenhuma esperança, pois,

desabrochava quanto á formação de uma camada professoral, com ideaes

mais altos, mais proximos do alvo de todos os esforços no ensino. E

quanto ao elemento antigo, o corpo de docentes ruraes, raras eram as

excepções ás quaes se pudesse pedir a méra tentativa de comprehender

que, em pedagogia, alguma cousa ha acima da cartilha de A. B. C.,

decorada nas aulas e cantada cadenciadamente pêlas creanças, os

classicos exercicios graphicos dos pauzinhos, debuxados a principio e

copiados a mão livre mais tarde, como preliminar aos segredos da

escripta corrida e do bastardinho, as quatro operações fundamentaes da

arithmetica.

Uma renovação do ensino primario importava, pois, na renovação do

professorado, na creação de um corpo docente imbuido do novo credo e de

suas praticas, na constituição de um escol que pudesse e soubesse

contribuir para o preparo intellectual dos professores das escolas

normaes, na reforma destas e no exito de uma escola normal primaria

superior, da qual saissem os professores das escolas normaes communs, os

inspectores do ensino primario, as auctoridades literarias, em summa.

Nada disso existia. E como conspirassem contra tal revolução do ensino

(o termo não é excessivo) as commodidades da rotina, as asperezas do

meio, a ausencia de um novo codigo pedagogico, a deficiencia do elemento

docente, como taes fôssem os obices ao esfôrço salvador, de nada se

cuidou. Continuou a pratica antiga a amadornar os cerebros, impedindo o

surto mental da mocidade. Um que outro pensador, consciente da gravidade

do problema, procurava, por si, dar as soluções que o caso comportasse,

com a evidente inferioridade systematica do desequilibrio caracteristico

do autodidacta.

E, entretanto, o agnosticismo do Estado estava impondo o abandono do

carreiro antigo e a escolha de nova trilha para a obra escolar republicana.

Ao envés de uma religião official, quisera a Republica dar egual

tratamento a todas as confissões, e para isto separara das provincias da

fé a orbita das acções humanas, na qual a razão é conselheira unica, e

neste terreno estabelecera sua competencia e actividade, vedado o

intervir na elaboração das convicções espiritualistas.

Certo, a palavra «razão» deve ser interpretada _latissimo sensu_,

abrangendo a intelligencia, a consciencia, o sentimento, a successão

verificada dos factos. Ainda assim, deixa larga zona intacta, na qual

somente a crença pode imperar. Como observa Renouvier[2],

por maiores sejam os esforços officiaes no sentido de augmentar o valor

instructivo e educativo do ensino, é fôrça reconhecer não haver uma

doutrina leiga capaz de preencher o vacuo moral dos espiritos e dos

corações. Dahi a falta de coordenação; a como que incoherencia dos

principios formulados pala razão pura; os conflictos continuos entre o

interesse immediato e os reclamos de um ideal superior; a imposição do

util prevalecendo muita vez sôbre a exigencia do bem. Dahi, ainda, a

observação tão funda do mesmo philosopho: «De dia para dia augmenta

a convicção de que a instrucção, instrumento do raciocinio, não é o que

constitue ou o que realmente informa a razão, menos ainda o que gera os

sentimentos motores do coração humano. Nega-se que os conhecimentos

scientificos possam jamais supplementar as crenças moraes ou destrui-las».

De facto, para o sentimento se devem dirigir todos os esforços

educativos, pois esse é o motor principal das acções humanas.

Por isso, ao cessar o ensino religioso, houve em realidade uma

diminuição no valor dos processos pedagogicos, onde tal ensino fôra

feito segundo o espirito dos evangelhos, sem se ater á letra arida do

catecismo. Falava o expositor em nome de um dogma revelado, traduzindo a

Verdade Eterna, com a auctoridade do Infinito Poder e da Suprema

Bondade. Sempre que tal orientação foi seguida, e sem analysar as

premissas em que se fundava, a educação do sentimento se revelava mais

intensa, reagindo com mais vigor na vida interior de que decorre a

actividade externa do homem.

Essa não foi, porém, e por mal nosso, a regra mais geralmente adoptada,

que reduzira a explanação da doutrina, na maior parte dos casos, a méro

exercicio mnemonico. Era obvia a inviabilidade da semente, já morta,

lançada no cerebro infantil.

Que o não fôsse, entretanto, e, ainda assim, como poderia o Estado

prender-se na auctoridade de um dogma, sem desrespeitar outros credos

igualmente dignos de reverencia? E como, por tal forma, manifestar sua

preferencia em circulo de actividade vedado á sua intervenção normal, e

no qual era claramente incompetente? A solução unica possivel e

acceitavel seria: nas regras de viver que fatalmente teria de pregar aos

educandos, pêlo exemplo, pêla palavra, pelos actos, adoptar como norma

ensinar o melhor de quanto se pensa, diz ou fez, com espirito eclectico,

sem exclusivismo em suas conclusões. Para isso, agir sôbre todos os

moveis incitadores da acção: o dever, a honra, os sentimentos

affectivos, o interesse bem entendido, o amor-proprio, o receio da

critica dos homens de bem, as noções de um ideal mais nobre.

Para dar a taes lições o pêso, a auctoridade e o poder persuasivo de que

tanto hão mistér, varios obices teriam de superar.

Insufficiente experiencia psychologica, porque a materia a preleccionar

é de data recente; ainda sem a auréola que o tempo sóe dar ás verdades

longamente ouvidas e transmittidas; porque o assumpto inquirido, a

moral, é por demais vasto, evolutivo e contingente.

Resistencia intrinseca á divulgação, porque o modo de a fazer, de

docente a discipulo, não obedece a um methodo já scientificamente

preciso, por falta de auctoridade decorrente da escassez de pontos de

referencia verificados; da variabilidade dos conceitos; dos conflictos

essenciaes, conforme o ponto de vista adoptado; das controversias

originadas na subordinação acceita para os conceitos elementares.

Fraqueza dos professores, notadamente nos países catholicos, porque a

longa separação do dominio temporal do dominio espiritual mantida pêla

Egreja nas cousas da consciencia, mal preparara os representantes do

primeiro a tratarem de assumptos que dizem respeito directamente á

formação psychica da creança. Dahi a inferioridade da prédica da escola.

Falta de unidade, por se tratar do problema do _eu_ analysado

experimentalmente pelo proprio interessado, sujeito, pois, á multiplice

causa de erro da observação imperfeita, da parcialidade do observador,

dos conflictos interiores entre a conveniencia e o ideal; falta, em

resumo, do nexo capaz de equiparar-se ao forte liame que une, prende e

enfeixa em um todo unico o conjuncto de preceitos oriundos da revelação,

no ensino sacerdotal.

Raridade dos professores, dignos dêsse nome, aptos a fazerem do

desempenho de sua missão um verdadeiro trato de almas, depurando, aos

poucos e com amor, da ganga que os envolve os elementos sãos e

brilhantes, que se encontram na mente infantil; educadores proprios a

formar almas vivas e palpitantes e não méras cópias de um typo official,

exemplar fundido por decreto.

Coefficientes peculiares á infancia: inattenção e incapacidade de se

concentrar ante o interesse despertado por phenomenos externos;

frivolidade; leviandade de pensamento; esquivança a questões mais

arduas, mais sêccas, de aspecto menos sorridente.

Certo, o preparo da sociedade leiga para dirigir a formação das

consciencias muito deixa a desejar. Consequencia do tradicional

exclusivismo com que o Catholicismo dominava esta provincia, vedando aos

leigos intervir nas cousas da alma, ainda perturbado e aggravado pêla

crise profunda reinante em todos os cerebros quanto ás crenças em geral,

aos proprios elementos alicerçaes da sociedade, ás mesmas bases da vida

humana no que ella se distingue dos animaes.

E é necessario esforço immenso para, gradativamente, ir constituindo o

corpo de observações, o conjuncto de noções, os principios de sã

relatividade, as ordens imperativas do ideal superior, que deve

ministrar essa regra de vida, interna e externa, que é a moral.

Acima de tudo, o ensino não pode nem deve ser questão de palavras,

gymnastica verbal onde a memoria tenha o unico papel.

Quer-se que taes ensinamentos não sejam somente retidos pêlo cerebro,

mas lhe penetrem a substancia, até se tornarem estados permanentes da

consciencia; mais até, que valham por principios activos, formem o

ambiente do individuo, e presidam á elaboração obscura de todos os actos

humanos, feitas assim taes normas o coordenador e o inspirador das

causas motrizes ultimas do coração, dest'arte fortalecidas e disciplinadas.

Por que forma obter taes resultados, entretanto, sinão pêla pratica e

pêla exposição diuturna das regras correspondentes, até que a repetição

do gesto cree o habito, e este se incorpore na consciencia juvenil como

relação normal e sã? Bastaria tal ponderação para justificar o ensino

leigo da moral, sem preconceitos, sem pretenções a invadir os páramos da

fé revelada, antes collaborador natural e efficaz do ensino religioso,

como _substratum_ commum a todos os credos, e, ainda no sentido

philosophico do termo, por estabelecer a unidade entre a regra, o dogma,

os sentimentos e os actos.

Mas, para ahi chegar, que thesouros de paciencia, de bondade, de

intuição superior será preciso prodigalisar!... Que situação

extraordinaria ahi se crea para o Mestre, quanto se exige delle para o

collocar, quando não em contraposição, em confronto com o Sacerdote que

até hoje monopolisou tal disciplina nos países catholicos! E só por êste

preço, entretanto, poderá o ensino leigo ser uma sorgente de vida. É,

pois, pela cultura intellectual, intensivamente feita, que as idéas

novas corrigirão, depurarão ou levarão cada vez mais alto os

conceitos anteriores á conquista das normas essenciaes da actividade

espiritual e, como consequencia, da actividade que nos fere os sentidos.

Pêla sublimação da vida interior, virão a crescente dignidade, elevação

e utilidade social da vida exterior.

Entregar-se a seu sacerdocio com dedicação absoluta; dar a propria alma

ás creanças que educa; penetrar-lhes a alma e deixar-se penetrar pêla

mentalidade infantil, tal o conjuncto de condições que devem presidir á

obra do professor, que queira mostrar-se á altura de tão melindrosa e

nobre incumbencia. Felizmente os ha, e a elles se deve, em todos os

países, o que já hoje se pode considerar firmado nos dominios do ensino

da moral.

Assim, conseguiram pôr em relevo, de modo a crear estados mentaes

permanentes, militantes por vezes, certas noções basilares sôbre a

justiça, o direito e dever social, a dignidade essencial e suprema do

homem e seu destino moral.

Souberam mostrar que elle é chamado a construir livremente sua propria

sorte, para isso normalisando e dando regras ao chaos interior das

tendencias desencontradas, dos impulsos cegos, dos instinctos obscuros e

das nobres aspirações generosas; ou ainda, citando sempre o egregio

Pécaut, extrahindo do individuo apparente e natural o homem verdadeiro e

occulto, unico digno dêsse nome augusto, e fim de todos os esforços

educativos, egualmente distanciado do determinismo absoluto e do

naturalismo sceptico e indulgente de Montaigne.

Foi-lhes dado expor convincentemente que a regra moral é secular,

opposta ao ascetismo, curando da sanidade da alma de forma a penetrar,

como espirito, a materia da vida, exalçando-a sôbre a animalidade.

A elles, ainda, se deve o alto predominio dado hoje em dia ás noções de

responsabilidade pessoal e de solidariedade fraterna de todos os homens,

que tornam interdependentes todos os seres, no progresso como na

decadencia, na ascensão para a luz como no mergulhar em trevas, e que

fazem menos arduas as tentativas collectivas, visando fins eternos, mau

grado o estreito ambito das existencias individuaes.

Graças a taes educadores pôde o ensino nortear-se por um ideal sito no

futuro, abrindo illimitado campo ás esperanças humanas, ao envés do rumo

seguido na direcção ecclesiastica do espirito da mocidade, direcção

que proclama a perfeição suprema o passado, devendo, pois, a educação

ser um longo esforço para um alvo circumscripto.

É sempre devido a esses excellentes obreiros, philosophos, homens de

Estado e docentes, que pôde o conceito moderno do ensino elevar-se acima

da simples questão de execução de programmas didacticos, e valer mais

pêlo espirito, pêla alma que o impregna e vivifica, do que pêlo cuidado

e esmiuçado das disciplinas transmittidas.

Em nossas sociedades progressivamente democraticas, o suffragio

universal impunha, correlatamente, a instrucção primaria universal,

gratuita, portanto. Dahi a ineluctavel necessidade do ensino normal e

leigo da moral, como remedio unico para respeitar todos os cultos.

Já representaria grande progresso obter que todos pudessem conhecer, de

modo a utilisá-las, as materias preleccionadas na escola primaria. Seria

ainda insufficiente, entretanto, si, pêla ausencia de um nexo central

coordenador, todas as disciplinas não viessem concorrer, além do serviço

prestado particularmente ao individuo, para a evolução ascensional do

homem, pêla altura cada vez maior que alcançam dominar no mundo da

ethica. Esse, o intuito da escola primaria: preparar uma democracia

intelligente, justa, e fraternal, unida por uma cultura commum, guiada

por sentimentos progressistas communs, essencialmente unos, extremes de

intolerancia ou de sectarismo. O sentimento da dignidade unido ao da

responsabilidade moral, dentro em pouco fariam da multidão anonyma,

inconsciente e impulsiva, um povo capaz de inquirir, de analysar, de

escolher, de se governar.

É sempre a bella phrase lembrada por Pécaut: «pêla alma da escola, ir ao

encontro da propria alma do país». Dessa forma se constituirá em todos

os graus da hierarchia social uma escol de caracteres fortes, de

espiritos sãos, capazes de iniciativas, de governar a si proprios e de

preparar as soluções para os problemas novos que surgem todos os dias.

Trata-se, portanto, de descobrir as caracteristicas individuaes, onde

existam, de favorecer as iniciativas, de animar o esfôrço singular, de

promover a cultura intensiva da originalidade digna, de procurar na

maxima diversidade de manifestações servir a unidade de rumo collectivo,

de fazer convergir para o bem do país o labor intellectual e moral de

seus filhos.

É, portanto, a educação nacional que a escola leiga, em todos os seus

graus, procura instituir.

V

_Missão do Estado_

E foi a educação nacional o fundamento do legislador constituinte ao

estabelecer a laicidade em todos os institutos de ensino publicos.

Mais do que a qualquer outro, ao grau primario interessava sobremodo a

regra constitucional, por se applicar á generalidade dos jovens

brasileiros, emquanto somente um numero limitado cursaria escolas

secundarias e superiores.

Nestas, o systema de aquilatar o preparo do alumno, pelos exames

publicos perante commissões especiaes, exigia confronto de doutrinas,

cotêjo de opiniões, que obrigava a fugir do exclusivismo confissional.

Das proprias materias dos cursos, muitas obrigavam por sua natureza a

raciocinar mediante processos estrictamente logicos, fortalecendo assim

o poder de analyse do educando.

A edade era outro coefficiente favoravel á eclosão de processos mentaes

sãos, pois o cerebro do adulto já viria com o cunho da escola primaria e

com mais facilidade para julgar por si.

Finalmente, a escolha dêste ou daquelle methodo de ensino, orientado por

essa ou aquella philosophia, racionalista ou espiritualista, puramente

irreligiosa ou christã em sua essencia, a escolha seria revelação das

crenças e obra do livre arbitrio do interessado, e, em nome da liberdade

de pensamento, inaccessivel como tal á intervenção externa, em todo

Estado sincera e honestamente agnostico.

Socialmente, o lado interessante e grave da questão é que neste meio

culto se recrutam os directores da evolução do país, e na direcção se

reflecte o feitio especial da mentalidade formada nas diversas escolas.

Por isso mesmo, das confissões militantes, animadas de espirito de

proselytismo, as mais ardentes visam exactamente o chamado ensino

secundario e o ensino superior para ahi assentarem sua tenda de combate

ao que coherentemente apontam como êrro e germen mortal para a

sociedade, de acôrdo com o dogma que lhes motiva a fé.

Este aspecto cumpre observado pelos homens de Estado, afim de saberem a

norma mais acertada de agir em bem dos interesses collectivos,

respeitando todos os credos, e, para isso, impedindo o advento de

situações que permitiam ser violado o principio essencial--a liberdade

de pensar.

Para dar ás noções que diffunde a auctoridade indiscutivel da verdade

provada, a escola moderna limita-se a ensinar segundo a razão.

Seria o sensualismo, inexoravel e duro, si lhe não viesse attenuar a

crueza dos contornos a moral com seus vôos para as mais altas regiões do

altruismo. Em todo caso, as exigencias intrinsecas do roteiro, adoptado

pêlo Estado para sua obra escolar, impõem o agnosticismo como regra,

afim de dar o cunho das chamadas verdades scientificas ás affirmações

feitas nos institutos docentes. É o reconhecimento publico de que são

inaccessiveis á razão humana os debates e indagações sôbre as causas

primeiras, que somente as relações e nunca o absoluto se tornam sensiveis.

Mas, por mais que se tente limitar a analyse ao verificavel e

demonstravel, é innata a tendencia do espirito a ir além. Bastaria para

justificá-lo a angustia das eternas interrogações sôbre o porquê da

vida, sôbre o cosmos, o logar do homem na natureza, a finalidade de seu

destino. Abrir os olhos, já é ver-se assediado pêlo mysterio. E, embora

se proclame a inutilidade da cogitação sôbre o incognoscivel, não ha

cerebro que se detenha perante o enigma perpetuo que domina a existencia

e hesite em transpor o limiar da região defesa.

Ninguem se satisfaz com uma simples negativa, tão metaphysica e

expressão de arbitrariedade mental como a affirmativa contraria.

A temporalidade da missão do Estado não lhe permitte ir além de seu

papel de mantenedor da ordem, dispensador de justiça e despertador de

energias.

Cabe-lhe instituir mais equitativa distribuição das vantagens da vida

collectiva; dar felicidade commum a todos os homens; repartir

imparcialmente os encargos; promover, finalmente, a verdadeira egualdade

e a fraternidade humana, fazendo desapparecer a injustissima e feroz

distincção vigente de classes, privilegiadas pêla artificial repartição

das riquezas e das commodidades, materiaes e espirituaes, que as

acompanham; manter o ambiente de liberdade absoluta. Taes incumbencias,

porém, por mais que se inspirem no altruismo, na moral mais pura e

elevada, movem-se no circulo das acções terrenas, das verdades

demonstraveis, das conveniencias bem entendidas, das exigencias de um

idealismo tangivel e relativo. Muito longe estão do mundo reservado á

fé, que as confissões porfiam por conquistar.

A falta de competencia do Estado é, portanto, evidente, e para intervir

em assumptos de fé teria de sair dos limites de sua tarefa e exercer um

acto de fôrça, escolhendo sem criterio proprio uma doutrina entre as

varias theses em presença. Si, individualmente, um homem pode exercer

esse direito, genuinamente pessoal, que auctoridade para proceder por

forma egual assistiria ao Estado, representante de um conjuncto de

opiniões, desencontradas nesse terreno, e que só se podem manter unidas

em associação cohesa, eliminadas as causas de dissidio e, entre estas, a

que mais avulta, o credo espiritualista?

A natureza das cousas, portanto; a divergencia das confissões

contendoras; a mesma reverencia merecida por ellas, indistinctamente; os

conflictos e violencias possiveis contra as demais, decorrentes da

supremacia artificialmente creada para uma dellas; esse complexo de

considerações, já sanccionadas pelos annaes das guerras de religião e

pêlas controversias dos tempos modernos, proporcionou o triumpho mais

completo do espirito relativo: a instituição da liberdade de crenças,

afastadas todas da tutella official, vivendo e prosperando de acôrdo com

suas virtudes intrinsecas, com sua faculdade de satisfazer ás aspirações

ansiosas das almas na sua sêde do Bem, da Justiça e da Felicidade.

Sendo o agnosticismo do Estado uma das maiores conquistas do espirito

liberal, merece estudado com particular interesse tudo quanto possa

perturbar a posse em que já se acha a sociedade de tão alto bem.

Entre os factores de maior importancia na constituição do ambiente em

que taes problemas se discutem e solvem, está seguramente o ensino.

Poderá sobrevir algum conflicto entre os elementos sociaes formados na

escola confissional e os que saírem da escola leiga, conflicto em que

possa perigar o principio superior da liberdade de pensamento?

Cumpre preliminarmente notar que não é esta uma questão a solver pêla

maioria de pareceres: um divergente, que exista entre milhões de

correligionarios, terá tanto direito a ser respeitado em sua crença

quanto os membros da seita dominante. Examinemos, pois, a orientação

educadora, de confronto com as exigencias dos principaes grupos

religiosos, e tambem com aquellas dos partidarios da negação pura e

simples, quasi sempre systematicamente hostil, de toda actividade

supra-sensivel.

Não insistamos sôbre esta ultima. Exemplos recentes provaram que, em

nome de mal entendida e desvirtuada liberdade de pensar, os

pseudo-livres pensadores entendiam admiravelmente o modo de organisar os

processos de perseguição.

A estreiteza sectaria renovou em nossos dias, no dominio das idéas, sem

a mesma escusa de alta espiritualidade--a salvação das almas--os rigores

da Egreja catholica nos seculos de heresia.

Existe afinidade sentimental e intellectual estreita entre os

autos-da-fé e as leis francesas sôbre as congregações, as violencias dos

inventarios processados _manu militari_ e as expulsões em massa por

motivos de crenças. Pertencem á mesma familia espiritual os algozes

calvinistas de Servet, os inquisidores que mandaram Giordano Bruno ao

supplicio e Galileu á retractação da verdade, os delatores leigos da

questão das _fiches_ e os anti-clericaes exaltados que hoje multiplicam

os obices á livre prédica confissional. São, aqui como lá, manifestações

de intolerancia e de sectarismo.

Si viessem a triumphar seus methodos na orientação leiga do Estado, nova

éra de perseguição se abriria, e a liberdade de pensamento só existiria

para quem pensasse e instruisse de acordo com os dominadores do dia.

Valeria por uma inquisição leiga, as _dragonnades_ do atheismo em

delirio. Nenhuma intelligencia normal poderia tolerar similhante estado

de cousas. Nenhum Estado, digno do nome, acoroçoaria a livre propaganda

dêsse evangelho de odio.

A preponderancia da Sociedade de Jesus no seio do Catholicismo é de tal

ordem, que não será exaggêro nem injustiça considerar o ensino

ministrado por ella como caracteristico da pedagogia ecclesiastica. As

tendencias que favorece são as que deveriam prevalecer definitivamente

na sociedade theocratica sonhada pêla Egreja universal. Ora é

exactamente na immutabilidade dos conceitos desta, no ensino, como em

todo o mais, que ella se tem collocado em crescente hostilidade aos

reclamos dos contemporaneos.

Todos os esforços educadores inspiram-se intensamente no objectivo de

fazer da formação mental da mocidade uma obra viva de sinceridade, de

boa fé para comsigo e para com os outros, de labor collectivo para o

melhoramento do individuo e da humanidade, pondo no futuro, sem limites,

o alvo ideal alentador da acção, obra de tolerancia, de respeito mutuo,

de sacrificio, de abnegação, procurando comprehender o êrro alheio para

perdoar e corrigir, persuadindo. Só se desenvolve, pois, nas auras da

liberdade.

No pensamento pedagogico e moral dos jesuitas, a liberdade só se tolera

para exercer uma vez unica o acto que a deve aniquilar: a submissão

absoluta á regra, ao superior, ao dogma, ás conveniencias da Ordem,

pautada, cumpre acrescentar, por uma elevadissima noção de seu dever

para com Deus e a Egreja, mas intolerante, exclusiva, combatente e

incapaz de infringir seu ideal primitivo de obediencia passiva.

Que auxilio poderia, pois, prestar a uma sociedade voltada para o

futuro, prenhe das admiraveis realizações das utopias de hoje, em que

auxiliaria a tão formidavel evolução o influxo de um homem que deu sua

alma, no conceito de Michelet? E, como consequencia de seus methodos

abafadores de toda originalidade, accrescenta o grande historiador:

«todos tiveram merito, instrucção; alguns foram heroes, de admiravel

persistencia e coragem, mas, em meio de tanto valor, nenhum talento

superior».

Educadores admiraveis da vontade, ensinaram-lhe somente a obedecer. Sua

moral deixou de ser a disciplina vivificante, fortalecedora das energias

da alma, para se tornar uma acrobacia esteril entre os textos e as

opiniões dos doutores em theologia. Deslocaram, da consciencia para a

auctoridade, o ponto nodal de sua ethica; a obediencia, em vez da

responsabilidade, tornou-se o extracto essencial de sua pedagogia; seu

formalismo matou no brôto todas as iniciativas.

Assim conseguiram discipulos excepcionalmente preparados para o grau

secundario do esforço mental, que se caracterisa pêlo exito em descobrir

consequencias formaes, pêla capacidade de achar os corollarios de um

asserto qualquer, pêla explanação de theses alheias; esfôrço, enfim,

subordinado á existencia dos grandes actos de creação mental, que

assignala indelevelmente a obra dos pensadores egregios.

Ainda ahi, a obediencia e o respeito ao preestabelecido suppririam o

aniquilamento da fôrça creadora individual.

Com esta grande deficiencia, o ensino jesuita não permittiu a

originalidade, a iniciativa benefica, e só preparou reproducções de um

certo feitio mental, de valor social infimo, si olharmos para o impulso

motor da humanidade na sua evolução ascensional.

Essa mesma obediencia á Regra apresenta graves perigos politicos.

Não se acha o Estado em face de uma simples congregação docente, com

programmas mais ou menos perfeitos: a propria Egreja, universal em sua

essencia e nas suas tendencias, ergue-se deante delle, com um programma

politico, além de suas normas moraes e divinas. E no programma politico,

que os Syllabus concretisaram e as recentes encyclicas sôbre o

modernismo e sôbre S. Carlos Borromeu vieram relembrar aos catholicos,

são profligadas numerosas conquistas liberaes, que não foram,

entretanto, obra de perseguição contra a Egreja, sim prova de reverencia

aos demais cultos e, acima de tudo, á liberdade humana.

É, portanto, perfeitamente admissivel que o proselytismo, digna e

honesta consequencia de toda convicção operante, se transforme nas

escolas regidas pêla Companhia, que sempre se salientou na vanguarda, em

lucta aberta contra os principios de que se gloriam todos os espiritos

emancipados: o respeito ás crenças alheias, a protecção a toda

actividade lealmente inspirada por uma convicção, a sinceridade e a fé

no progresso social.

Nem ha nisto simples hypothese formulada sôbre plausibilidades. A

historia dessa milicia do Papa incarna um longo esfôrço por fazer

predominar seus pontos de vista dogmaticos, educacionaes e politicos.

A recente lucta em França contra as Congregações, sejam quaes forem os

excessos sectarios, foi provocada pêla acção politica do espirito

jesuita, e não seria tarefa difficil balisar pêlos periodos de maior

actividade da Sociedade os actos de reacção do poder civil, sem apreciar

até que ponto estes ultimos desobedeceram aos principios moraes, que a

laicidade proclama, nem analysar o passado de rancores accumulados que

explodiram no combate levado ao Catholicismo pêlo gabinete

Waldeck-Rousseau, e sobretudo pêlo de Combes.

Ainda hontem divulgou-se nas Côrtes hespanholas a correspondencia do

Cardeal Cascajares, preconisando a fusão dos dous ramos dynasticos

rivaes daquelle país, com o fito de formar um grande partido catholico

monarchico, projecto favoneado por Leão XIII, o Cardeal Rampolla e o

Imperador da Austria.

A historia de nossos dias archiva a formação de partidos catholicos

nacionaes, com intuitos mais ou menos claramente inspirados pêlo

programma politico da Egreja oecumenica.

Não é, pois, visionario quem alludir ao grande problema politico interno

creado pêla separação da Egreja do Estado e oriundo do conflicto

possivel entre o conceito theologico do homem e da sociedade, e a

mentalidade que presidiu á organisação republicana, e até hoje se mantém

nas suas leis organicas; conflicto que pode romper, na lucta pêla

victoria entre os dous ideaes, quando das escolas, leigas umas,

confissionaes outras, sairem e pelejarem os directores da politica

nacional de amanhã, reflectindo a contenda mais funda entre essas duas

concepções da propria vida.

E é licito indagar si se trata mesmo de previsão, ou de simples

indicação de tendencias já hoje manifestas e que tem posto á prova a

fidelidade do Estado agnostico ás suas affirmações de neutralidade

confissional.

Tal divergencia não é de se receiar quanto ás escolas filiadas ás

innumeras variações protestantes. Schisma aberto em nome da liberdade

individual na interpretação dos textos sagrados, seu principio essencial

age continua e perpetuamente como fermento para, sem cessar, favorecer e

alentar novas correntes religiosas e auctorisar a mutabilidade do dogma.

Não permitte, portanto, a grande centralisação confissional, que dá ao

Catholicismo e seus orgãos de acção o poder e a preponderancia que tem

na vida espiritual dos povos.

Além disso, a tendencia analytica do Protestantismo e a austeridade de

seus habitos mentaes coincidem por demais com os caracteristicos do

espirito de investigação scientifica para que se não deem entre os dous

allianças tacitas e comprehensão reciproca. Ao dogma sempre aberto á

corrigenda individual, corresponde o conceito moral em via de constante

melhoramento progressivo.

É geral, hoje em dia, a coexistencia sympathica da laicidade com as

confissões derivadas da Reforma.

De dous pontos do horizonte, portanto, podem sobrevir as tempestades: do

espirito sectario, systematicamente hostil ao Catholicismo e pedindo

medidas repressoras; da propaganda dos artigos politicos do Syllabus,

pelos fiéis da religião romana.

Ao primeiro, deve o Estado oppor, com brandura, mas inexoravelmente, sua

tarefa de protector equanime de todos os modos de pensar, de orgão

alheio ás disputas espirituaes e, por isso mesmo, egual respeitador de

todas as divergencias. Não o deve fazer, entretanto, do ponto de vista

erroneo de uma ironia superior. Nos varios credos não lhe é licito

enxergar susperstições que cumpra extirpar. Em nome de que principio o

faria, si representa a inteira liberdade de pensamento?

E como eliminá-las todas, o que seria escolha de um credo tambem--o

atheismo--, si proclama não possuir o criterio da verdade absoluta e age

na esphera essencialmente relativa dos phenomenos, das manifestações

sensiveis, portanto?

Mas seria insufficiente uma attitude puramente negativa. Para libertar

as crenças, como convém á plenitude da vida social, com o homem, digam o

que disserem, e mau grado as excepções individuaes, um idealista

impenitente, cumpre considerá-las a todas com sympathia e agradecer-lhes

o alto serviço que prestam á mentalidade humana, á dignidade crescente

da existencia, á moralidade cada vez superior do individuo e da

aggremiação, ao aperfeiçoamento da vida collectiva, pêlo desenvolvimento

e intensificação da vida interior do homem.

Outra e mais ardua é a missão do Estado quanto ao ataque sempre

renascente dos restauradores do conceito antigo, exalçado pêlo

Catholicismo nas condemnações de 1864 e de 1907, ao formular a lista dos

dizeres fulminados pêla Egreja. Mas, para ser proficua, a acção do

Estado deve, serena, evitar armas e processos utilisados por seus

adversarios, o que valeria por uma abdicação e por uma confissão do

nenhum valor do agnosticismo, prégado como fórmula definidora da

separação de poderes.

É, portanto, tratando os catholicos com a mesma profunda sympathia

devida a todas as demais convicções, e ainda com a maior gratidão pelos

immensos serviços prestados á humanidade, que o Estado deverá organisar

a defesa da obra leiga; não para aggredir a êste ou áquelle dogma; sim

para manter o ambiente de neutralidade espiritual mais propicio para a

livre concurrencia de todas as confissões, assegurando assim o triumpho

áquellas que mais dignas se mostrarem da direcção das consciencias.

É, pois, na organisação leiga de um ensino, forte em seus varios graus,

e accurado nos meios postos em acção para augmentar o valor moral e

social do homem, que se encontra a defesa do agnosticismo contra as

investidas dos partidarios do exclusivismo religioso e da suppressão de

conquistas, que o espirito liberal de todos os cerebros politicamente

emancipados consideram definitivamente incorporadas no patrimonio da

Sociedade.

Como organisá-lo, entretanto?

Os jesuitas e o ensino · 第 7 / 10 题