III

_Aspecto brasileiro do problema._

Coincidiram a depuração da Ordem, sua volta aos intuitos primitivos de

Santo Ignacio e o rejuvenescimento de seu ardor missionario com o

periodo de luctas e de gestação confusa de que proveio a emancipação

politica da America meridional.

No Brasil, ruira a obra pombalina. Viera, entretanto, substituida pêlo

espirito nascido da Encyclopedia, da Revolução francesa e da ascendencia

crescente da investigação analytica. Sem se elevarem até o conceito da

separação dos dominios, o temporal distincto do espiritual, taes

factores geraram o molde em que se vasou a Carta constitucional do

Imperio: a preeminencia do poder civil ao lado da religião official, a

intervenção regalista nos negocios ecclesiasticos.

Do choque de elementos tão dispares resultaria o mau estar reciproco da

Egreja e do Estado durante os sessenta e sete annos do regimen monarchico.

Os esforços dos defensores do Catholicismo por manterem puro o dogma; a

reivindicação constante do poder publico de seu direito de superintender

e regulamentar o exercicio do culto no que tivesse de commum com as

necessidades correntes da vida civil, traducção empirica do conceito,

confusamente sentido embora, da discriminação necessaria das provincias

da actividade espiritual e da actividade civil; os reclamos de mais em

mais energicos desta ultima, manifestados em movimentos, como a

maçonaria, ás vezes injustissimos em sua propaganda, por excesso de

espirito sectario em seus juizos sôbre Roma; todas essas correntes

desencontradas feriam-se e abalroavam, levando profundamente agitado o

país. Culminou a desordem de 1871 a 1875, quando incandesceu a famosa

lucta que se chamou a questão religiosa.

Serenou a atmosphera com o advento da Republica. A separação das duas

competencias, desde logo feita por acto de 7 de Janeiro de 1890,

permittiu a livre expansão das exigencias espirituaes dos crentes.

Nesse ambiente de paz viviam e evoluiam os credos religiosos, quando

actos do passado Govêrno da Republica, procurando impedir o desembarque

em nossos portos de membros da Companhia de Jesus, expulsos de Portugal,

vieram pôr novamente em destaque um dos problemas mais serios, mais

graves, mais urgentes e mais descurados de quantos devem occupar as

cogitações dos homens publicos de nossa terra: a obra collaboradora da

Egreja no desenvolvimento progressivo do Brasil.

A medida, em si, era indefensavel, de ridicula, iniqua e revoltante.

Ridicula, por não haver como fazê-la respeitar, tantos e tão faceis os

meios de illudir a argucia policial dos incumbidos de reconhecer os

jesuitas entre os centenares de passageiros transatlanticos. Iniqua e

revoltante, por vir crear, contra o agnosticismo firmado na Constituição

Federal, uma forma nova de delicto, crime de crenças e de idéas, causa

de perseguição e de desrespeito ás garantias asseguradas a todos os

habitantes dêste país e a quantos lhe procuram as plagas. Dobradamente

iniqua, si nos lembrarmos de quanto o Brasil deve aos filhos de Inigo de

Loyola, e de que á fundação da nacionalidade presidiram, em épochas

varias, os vultos augustos de Manoel da Nobrega, Anchieta e Antonio Vieira.

Não basta, entretanto, para condemnar a iniciativa infeliz, allegar sua

inconstitucionalidade. Satisfaria tal processo, apenas, aos espiritos

afeitos ao judiciarismo estreito, enxergando somente o caso concreto e

sua conformidade com as normas vigentes.

Mais alta deve ser a indagação, para que seus fructos provem proficuos.

O aspecto social do phenomeno deve sobrepujar ás demais caracteristicas,

o _fieri_ de que resulta, os antecedentes que o geraram, as

consequencias possiveis. Não é um facto esporadico, de geração

espontanea. É um producto de factores seculares, causa, a seu turno, de

novos phenomenos universaes, que cumpre analysar.

Como isolar o _attimo fuggente_, e fixá-lo, especimen de museu, em

categorias predeterminadas? Como immobilisar o essencialmente

transitorio e passageiro, o que nunca é, e sempre evolve? Seria

reproduzir as photographias dos movimentos, dos quaes cada placa revela

uma phase e não o conjuncto. Fôra verdadeira libertinagem de espirito,

nunca o exame sincero que inspira pensadores.

Na analyse das tendencias, das series a que pertencem os problemas

inquiridos, das relações mutuas que originaram; no evoluir dos

conceitos; nas necessidades antigas a satisfazer; nos reclamos das

exigencias de hoje; nos rumos previsiveis da sociedade de amanhã; nesse

complexo de noções, experimentaes ou ideaes, se encontra a decifração,

quiçá nem siquer entrevista, do enigma, insoluvel aos olhos de muitos,

da vida, tomada em seu conjuncto intrinseco e nas suas relações com o

cosmos.

Incomprehensivel e sem remedios se afigura a desordem nas provincias do

dominio espiritual onde concorrem, é de esperar que transitoriamente, as

confissões religiosas e o Estado: o ensino e, em alguns casos, as

convicções determinadoras da direcção politica.

Tal estado de duvida só se manifesta, entretanto, em se encarando os

factos isoladamente, sem nexo causal no tempo e no espaço. Cessa a

confusão, e aclara-se o horizonte, se os examinarmos do ponto de vista

relativo, restabelecida a perspectiva historica na evolução das idéas,

das doutrinas e das aspirações.

É, pois, no passado, tambem, que devemos haurir as lições que explicam o

facies actual do problema: na antiga constituição das ordens religiosas;

nas regras firmadas pelos Concilios; nas luctas do regalismo e do

espirito gallicano contra a universalidade da Egreja Catholica, luctas

que repercutiram em nossa Constituição Imperial; nos corollarios da

separação da Egreja e do Estado, decorrente da proclamação da Republica;

no aspecto novo que apresenta desde ahi a formação intellectual e moral

das gerações que surgem.

Não se poderia imaginar, em país christão, constrangimento maior para as

Egrejas derivadas das lições admiraveis do Nazareno, do que o ambiente

creado pêlo Estatuto de 25 de Março 1824.

Aos acatholicos era apenas tolerado o culto, contanto que suas reuniões

se fizessem em edificios sem signal exterior, capaz de os distinguir dos

demais, designando-os como templos. Era a medo, por tolerancia, que se

exerciam os actos solennisadores das mais importantes occupações humanas

para todos os idealistas, os reclamos da fé.

Em Roma, nos tempos do Imperio fundado pelos Cesares, tão latitudinaria

em assumptos religiosos, mesmo nos periodos das perseguições, as

confrarias funerarias, em que se tinham transformado as pequenas

colonias christãs, encontravam sossêgo e inteira liberdade de celebrar

os ritos em seus cemeterios, as catacumbas, protegidas contra qualquer

invasão pêlo respeito sagrado da propriedade que caracterisa a lei

romana. Menos tolerante, a Constituição imperial do Brasil fazia do

exercicio do culto, para os acatholicos, uma occupação furtiva,

sequestrada á ampla luz da publicidade, cercada de precauções contra

olhares indiscretos. Felizmente, o bom senso dos governantes e a

diffusão generalisada de normas mais razoaveis de pensar sôbre opiniões

alheias divergentes, vieram corrigir na pratica o que tinha de

intransigente o duro texto da lei.

Mais grave, do ponto de vista dogmatico, era a situação dos catholicos,

membros da religião adoptada pêlo Estado.

Instituição divina, extranha ás regras e aos modos de resolver das

potencias temporaes, haurindo sua fôrça na revelação e suas leis nas

deliberações conciliarias e na acção ininterrupta dos seus papas, a

Egreja Catholica não pode negar sua origem, acceitando a collaboração

dos governos, como potencias temporaes, para os actos reguladores de sua

vida interna, quer quanto ao dogma, quer quanto á disciplina e

hierarchia ecclesiastica. Por isso, inteira e indiscutivel razão assiste

aos redactores do Syllabus, condemnando _in limine_ todos esses

compromissos com o Seculo. É, por parte delles e de seu ponto de vista,

uma altissima affirmação de lealdade e de fé.

Comprehende-se, portanto, quanto foi deleterio á pureza do Catholicismo

no Brasil o influxo official, imbuido de gallicanismo e inflexivel em

suas descabidas exigencias regalistas. Foi a lucta de todos os dias, o

conflicto perenne entre duas concepções antagonicas, em que a Egreja,

desarmada, cedia á imposição do mais forte, mal resalvando os principios

eternos de sua acção. O caso iniquo da prisão dos bispos não foi sinão

um accidente escandaloso nessa sequencia de choques entre Roma e o

Brasil. O clero tornou-se um ramo do funccionalismo publico. As

determinações de ordem espiritual só chegavam aos ministros do culto,

incumbidos de as applicar, após a depuração pelos orgãos administrativos

prepostos á superintendencia governamental dos negocios ecclesiasticos.

Dessa passagem, por vezes verdadeira filtração de actos que deveram

escapar á analyse do poder temporal, não raro saíam deturpadas, do ponto

de vista dogmatico e disciplinar, as deliberações da Curia.

A idéa fixa de constituir uma egreja nacional mutilara a vida

conventual, cerceando-a em sua origem--pêla extincção do noviciado--e

ferindo-a nos seus recursos--pêlas leis de amortisação. Extinguia-se por

tal forma o clero regular. Nos seminarios rareavam cada vez mais as

vocações religiosas. Nas freguesias, insuficientes quanto ao numero de

fiéis, o parocho, desinteressado muita vez de sua missão divina, como

funccionario publico retribuido, ia alheiando de si a alma de suas

ovelhas e nos seus ensinamentos transformava o estudo do catecismo em

mero exercicio mnemonico formal, em vez de salutar investigação de

essencia.

Era o amesquinhamento systematico. Sobrepunha-se o govêrno regalista do

Imperio á auctoridade com que, em assumptos de fé, devera falar a Egreja.

Como ficar sorpreso si, em circumstancias tão adversas, ia aos poucos

amortecendo o espirito apostolico de que deve estar inspirado todo

pastor d'almas? O proprio ambiente social anesthesiava as virtudes

heroicas daquelles que, com sacrificio da propria commodidade, iriam

curar das alheias exigencias eternas.

E eram consequencia damninha de tal situação as vacancias das sédes

parochiaes, a invasão de clero famelico vindo de além-mar, pouco afeito

ás necessidades da alma brasileira, principalmente nas zonas pobres do

país, nas quaes a deserção dos sacerdotes creara um estado de vago

deismo, profundamente impregnado de crenças e praticas fetichistas

trazidas pêla escravidão negra. Que o digam, até hoje, os clerigos

incumbidos das missões interiores!...

Cessou, como por encanto, tal desconforto, desde o momento em que,

proclamada a Republica, se tornou lei um dos principios fundamentaes

propugnados durante a propaganda: a inteira liberdade de cultos. Esse

foi um dos inesqueciveis serviços politicos do Govêrno Provisorio.

Comprehendendo que, nos primeiros tempos do triumpho, a fôrça e o

prestigio dos vencedores não encontrariam contraste, assentaram em

solver definitivamente varios problemas capitaes que vinham dividindo a

Nação. Alguns, como a federação das provincias e a secularisação de

varios actos, dantes reservados ás auctoridades religiosas, já eram

triumphantes na opinião, e figuravam até no programma de um dos partidos

monarchicos. Outros, como a plena liberdade de pensamento, embora menos

divulgados, reuniam o assentimento de quasi todos os pensadores, em

ambos os arraiaes da politica imperial. Permittiram os actos do

Provisorio apressar o advento de soluções pêlas quaes anseiava a grande

maioria dos dirigentes, sem choques, sem protestos, antes com o applauso

de todos.

Várias eram, entretanto, as formas possiveis de applicação do preceito

novo. Sabiamente, ainda, o Govêrno escolheu a mais lata, a mais

generosa, a mais desprendida, a mais respeitosa dos escrupulos da

immensa maioria dos catholicos brasileiros.

E, ao publicar-se o decreto da separação, divulgada a forma por que

seria entendido, pôde a Pastoral collectiva do Episcopado brasileiro

saudá-lo como um acto de redempção da Egreja.

A Constituinte sanccionou e completou as medidas tomadas pêlo Govêrno

revolucionario: manteve a inteira liberdade de pensar e prohibiu

quaesquer relações de alliança ou dependencia entre o Estado e a Egreja,

fundando assim o agnosticismo, que deve reinar nas espheras officiaes,

agindo como orgãos da collectividade.

Verificado que as estipulações do Estatuto de 24 de Fevereiro eram

applicadas na letra e no espirito, teve inicio um progresso notavel na

organisação religiosa do país. Incrementaram-se as missões acatholicas;

abriram-se numerosos collegios regidos por discipulos desta ou daquella

variação protestante; erigiram-se templos e casas de oração em logares

reconditos do sertão e nas capitaes; a propaganda continua, incessante,

ampliou seu circulo de prédica, e não ha exaggero em affirmar que

constituem um nucleo respeitavel os fiéis dos credos divergentes do

Catholicismo.

Egualmente notavel foi o impulso dado á grande massa de crentes da

religião dominante. Nenhuma, quanto esta, soube valer-se das liberdades

concedidas pêlo regimen que acabara de se instituir.

Abriu-se nova era para o clero regular. Repovoaram-se os cenobios: pelos

noviços, que se admittiram de novo, e pêla acceitação de frades

naturalisados. Outras congregações fundaram casas no Brasil.

Procurou-se, com segurança de vistas e alta intuição psychologica,

estreitar o contacto entre os fiéis e seus directores, pêla

multiplicação das parochias e pêla divisão das dioceses demasiado

extensas. Os ministros do culto, não sendo mais pensionistas do

Thesouro, foram obrigados, tanto pêla sua vocação, como pêlas exigencias

de sua vida, a apertar os laços que os prendiam a seus fregueses,

enobrecendo o influxo reciproco de ambos, custeiado o culto pelos seus

religionarios, mantido e elevado o prestigio do sacerdote pêla

supremacia moral de sua missão e pêlo desassombro e abnegação com que a

desempenhasse.

Mais tarde, si não desde já, se fará justiça ao grande progresso que tal

medida representa na elevação da vida interior do homem, na honestidade

com que a vida interior dirige e superintende aos actos da vida de relação.

Pouco tempo depois, começou em França a agitação de que provieram as

leis sôbre as congregações, o rompimento da Concordata de 1801, os

inventarios e as expulsões _manu militari_ dos que protestavam, ainda

que pacificamente, contra as usurpações do poder civil.

O Brasil foi um dos refugios dêsses exilados pêla intolerancia sectaria,

e, em breve, casas de congregados dos dous sexos foram fundadas em

pontos varios do territorio nacional.

Ordens pura e exclusivamente contemplativas não se estabeleceram aqui.

Numerosas foram as que se dedicaram á educação, especialmente no grau

secundario. Os trappistas crearam verdadeira escola agricola em

Tremembé. Os benedictinos mantiveram cursos primarios e secundarios

frequentadissimos. Os salesianos fundaram missões e especialisaram-se no

ensino profissional e no ensino secundario. Os lazaristas, velhos

hospedes do Brasil, conservaram suas antigas casas. Os jesuitas

continuaram em seus velhos collegios e installaram novos sem o menor

protesto.

Em toda a parte, notou-se o mesmo empenho de organisar a obra admiravel

da conquista moral do país pêla educação, emprehendimento altissimo, que

attesta a vivacidade, a pujança, a sinceridade da fé, motriz de tão alto

escopo.

Mas esta immensa tarefa pedagogica nunca despertou a attenção dos

governos republicanos, como devera ter acontecido, não para a reprimir

ou perseguir, mas para a estudar e lhe seguir o exemplo, afim de dar com

a escola leiga o contrapêso necessario, indispensavel, mesmo, á escola

confissional.

Inerte quanto ao desenvolvimento desta ultima, o Estado cuidava apenas

de manter e estreitar suas relações extra-officiaes com os

representantes do culto. Em algumas circumscripções politicas, mal se

velam os subsidios indirectos fornecidos a determinadas egrejas. Em

outras, o acôrdo se manifesta no terreno partidario e politico, trazendo

verdadeiras allianças. Era geral, portanto, o ambiente de concordia

reinante entre o poder temporal civil e o poder espiritual ecclesiastico.

Neste meio, de paz e de collaboração sympathica, estalou a ordem

impedindo o desembarque dos jesuitas expulsos de Lisboa. Si bem as

noticias de Portugal tenham sido, nestes ultimos tempos, de uma

nebulosidade extranha, e seja difficil conhecer a verdade entre tanta

versão contradictoria, quiseram applicar a essa congregação o conceito

de _moines ligueurs_, que os echos repetiam em França no periodo de

lucta das leis Waldeck-Rousseau e Combes.

Mesmo si a accusação procedesse além-Atlantico, na vigencia de uma

religião de Estado, como generalisá-la e acceitá-la no Brasil, com o

regimen confissional separatista, com relações mutuas inteiramente

outras? Jesuitas ha na America portuguesa desde os primeiros annos da

fundação da Ordem, e sem elles é inexplicavel nossa propria historia.

Nunca impediram, e constantemente auxiliaram a marcha progressiva de

nossa terra. E como olvidar tal passado, que nos põe em debito de

gratidão para com a Companhia, a pretexto de ser um elemento de

desordem, e ter uma politica obscurantista que nos levaria ao regresso

social?

Investiguemos o caso.

Postos de lado exaggeros e inexactidões creados sôbre os jesuitas pêlo

desconhecimento de sua historia e pêla hostilidade, nem sempre

escrupulosa, de seus desaffectos, tem sua pedagogia, tem seus methodos

de ensino, seu escopo na preparação mental dos discipulos, que, já

agora, fornecem a base mais segura para julgar de sua valia na

collaboração prestada ao progresso de um país.

Não fôra a situação social que atravessamos, de plena transição entre um

passado que se desfez e uma méta futura ainda desconhecida, e por certo

a solução do caso quedaria entregue ao livre debate, á concurrencia

entre as doutrinas que aspiram reger a universalidade das consciencias.

Problema essencialmente espiritual, ao Estado ficaria vedado

intervir no pleito. Em países de opinião publica forte, organisada,

consciente, tal disputa é possivel, e não se justifica a intervenção do

poder temporal no dominio das convicções.

Outra a feição do problema em países de meia-cultura, nos quaes o

desequilibrio ethnico, mantido e que convém por emquanto manter, pêlo

affluxo de immigrantes, crea uma instabilidade mental facil de ser

explorada; onde o analphabetismo domina e as heranças de longo passado

fetichista ainda se manifestam nas crendices, polluindo a pureza do alto

espiritualismo verdadeiramente religioso, enfraquecendo ou mesmo

annullando a intensidade da vida interior.

Ahi, a missão do Estado é preparar a elevação progressiva do ensino

popular, até o ponto em que, attingida a maioridade mental, possa ficar

entregue ao livre confronto das confissões o preparo espiritual das

novas gerações.

Dêsse dever decorre a obrigação moral por parte do Estado de não esmagar

crença alguma, de assegurar a todos o ambiente de paz e da tolerancia a

que tem direito. Ao mesmo tempo, a deficiencia intrinseca do meio onde a

competição vae exercer-se; a differença de elementos de vida dos varios

credos; a longa posse exclusiva do Catholicismo e sua preponderancia

esmagadora na massa nacional aconselham aos espiritos reflectidos a não

dar a protecção indirecta, que consistiria em entregar a lucta pêlo

predominio a adversarios, nús e desarmados, uns, contra outro, munido de

todos os apetrechos forjados na multisecular situação privilegiada de

que gosou.

O meio unico de resguardar a solução definitiva do problema espiritual é

o ensino provisoriamente entregue ao Estado com o correctivo da

concurrencia crescente por parte das instituições, religiosas ou leigas,

analogas ás officiaes, mas com a differença essencial seguinte: o Estado

ministrando um ensino rigorosamente agnostico, as escolas livres

seguindo sua orientação propria, acautelada apenas do Codigo Penal. E no

caso de, ainda em periodo de transição, se exigir uma prova publica de

habilitação, seja esta dada publicamente, sem indagar da proveniencia

dos candidatos, perante o mesmo jury avaliador dos meritos.

Não se conseguiria tal resultado, si, desde já, fosse enfraquecida a

intervenção official nos varios graus do ensino, e, principalmente, no

primario e no secundario. Dahi resultaria o predominio dos mais

bem apparelhados no momento actual, as escolas inspiradas nos conceitos

pedagogicos da Companhia. E isto, do ponto de vista social, seria franco

regresso a periodo de intolerancia e de desrespeito ás crenças alheias,

regresso que se não poderia hoje em dia admittir. Nem ha neste asserto a

menor sombra de injuria: é a consequencia honesta e inevitavel de toda

convicção profunda e exclusiva, e, por isso mesmo, operante.

É, pois, do ponto de vista do ensino, e dêste tão somente, que cabe

apreciar o influxo da Sociedade de Jesus, examinar seus methodos e seu

alvo, em confronto com os conceitos modernos sôbre a educação, com as

normas de liberdade espiritual instituidas pêlo direito constitucional

de nossa épocha.

Cumpre ainda comparar a mentalidade oriunda das escolas leigas com a que

se forma nas escolas confissionaes, especialmente as da Companhia.

Finalmente, é mister investigar si se acham em presença systemas

antagonicos, si o conflicto eventual se pode evitar.

Os jesuitas e o ensino · 第 6 / 10 题