II

_Criticas contra os jesuitas. Decadencia. Reorganização_

Era immenso o acervo de serviços prestados pelos jesuistas ao

Catholicismo, fôssem quaes fôssem os desvios posteriores.

A missão exterior tinha fundado imperios nas reducções paraguayas,

estabelecido colonias christãs no Congo africano, onde Livingstone achou

tribus que delles tinham apprendido a ler e a escrever. Na selva

amazonica, no extremo-oriente, nos grandes lagos canadenses, na India

central, na Malasia, em toda parte a roupeta do jesuita testimunhava o

ardor apostolico da Ordem e seu incansavel zêlo na lucta contra os infiéis.

A missão interior reconquistara para a orthodoxia mais de metade dos

países já dominados pêla Reforma. A França permaneceu a filha

primogenita da Egreja, e coroou seu esfôrço anti-protestante pêla

revogação do edito de Nantes, em 1685. A Allemanha e a Austria, de quasi

inteiramente adhesas a Luther e Melanchton, dividiram a meio os

territorios confissionaes. Na Italia, toda heresia pereceu. E em todos

esses logares, os grandes triumphadores foram os jesuitas, e a elles se

deve a reintegração no gremio da fé das regiões contaminadas.

Á Egreja prestavam o incomparavel auxilio de sua voz e de seu esforço

incessante, com o fito de lhe manter com inteira pureza, nas grandes

Assembléas do Catholicismo, seu duplice caracteristico essencial de

doutrina fundada na revelação e na auctoridade, livrando-a do virus

dissolvente e lethal do parlamentarismo conciliario.

Ao espirito humano permittiram, pêla resistencia victoriosa ás

tendencias fragmentadoras da Reforma, evoluir e crescer em um ambiente

regido pêla disciplina mental, impedindo assim disseminação improficua

pêlas innumeras orientações individuaes, incapazes, naquella phase

historica, de produzir o esfôrço collectivo necessario ao progresso

ascensional da humanidade.

Deante de tão grande benemerencia para a Egreja, e tambem para o

pensamento social, como explicar os odios, leigos e religiosos, que a

Companhia desperta, a ponto de seu nome ser correntemente usado como

synonymo de hypocrisia, astucia malfazeja, ganancia e falta de escrupulos?

Pôsto de lado o fructo da campanha de malquerença das Ordens mais

antigas, supplantadas pelos jesuitas, persiste ainda a formidavel mole

de accusações movidas por seus adversarios, philosophos e protestantes,

governantes e governados, clero e povo. Cedo teve inicio a grita, e

foi-se repetindo e propagando, hauridas as censuras principalmente no

immortal pamphleto das _Provinciales_, de Pascal, nos _Extraits des

assertions_ publicados pêlo Parlamento de Paris por occasião do processo

Lavalette, no _Discursus de erroribus qui in forma gubernationis

Societatis Jesu occurrunt_ do celebre Mariana, e na audaciosa fabula das

falsas _Monita Secreta_. Citadas taes fontes, de parcialidade absoluta

contra as regras de Santo Ignacio, é obvia a suspeição das criticas que

nellas encontram assento.

Ha, em Pascal, a par de insufficiente conhecimento das _Constitutiones_,

intuição admiravel de certas tendencias da Companhia. A sua obra,

entretanto, reçuma por demais o mal contido rancor do jansenista

perseguido, e a lucta de Port-Royal contra a orthodoxia official.

As _Assertions_ são verdadeira obra de má fé. A longa hostilidade com a

Companhia permittiu á magistratura de França enxergar nos abusos do

padre Lavalette, na Martinica, uma occasião de se vingar da Ordem,

aproveitada com pouca lealdade. As respostas dos jesuitas, mostrando a

improcedencia, a inexactidão dos assertos da publicação parlamentar,

enfraqueceram, quasi annullaram o valor do libello.

O livro do padre Mariana, que não ousou publicá-lo em vida, é o reflexo

do espirito particularista das provincias ibericas, especialmente da

Hespanha, quando esta, descontente com a eleição de Aquaviva para Geral

de uma Ordem até então preponderantemente hespanhola, quis attenuar a

auctoridade incontrastada do superior e dar certa autonomia ás

circumscripções nacionaes. Para isso, teve de escrever o processo

accusatorio da concentração de toda a vida no cabeça da Companhia, e a

regra de fiscalisação mutua, descambando na delação constante, vigente

entre seus membros.

O caso das _Monita Secreta_ é de audacia inaudita. Quiseram os

adversarios da Sociedade de Jesus attribuir seus triumphos e seu

enriquecimento a uma regra secreta, que se contrapunha ao admiravel

_Institutum Societatis Jesu_, e em virtude da qual se tornava conducta

commum ou normal exactamente o que mais se exprobava, como abuso e

crime, a seus membros. Ora, uma associação de poderes concentrados como

essa, uma monarchia dirigida pelos conceitos de um homem só, na phrase

de Gregorio XIV, sociedade cuja fôrça residia na permanencia immutavel

das regras dadas pêlo Fundador, não precisava de doutrina secreta; antes

soffreria com o conflicto fatal entre a massa dos fiéis do credo publico

e o pugillo de iniciados na norma esoterica.

Nos lustros que precederam a guerra de Trinta Annos, e mais tarde no

periodo que viu surgir o celebre edito de Restituição, que generalisou a

questão e desencadeou a procella, veiu a lume uma literatura de

pamphletos, visando os pontos de vista antagonicos dos contendores

religiosos, e combatendo ou defendendo os jesuitas, justamente

considerados os representantes directos do pensamento pontificio,

norteado pêlo restabelecimento da unidade da fé nos países de Reforma, e

pêla attribuição de meios assecuratorios da manutenção do culto. Pessoa

profundamente conhecedora do _Institutum_, um jesuita renegado talvez (e

foi citado, sem provas embora, o nome de Hyeronimus Zahorowski), fêz

circular, a principio, copias manuscriptas, e, a partir de 1614, a

edição de Cracovia das _Monita privata Societatis Jesu_.

Era a deformação, systematicamente pejorativa, dos principios prégados e

postos em practica pêla Companhia. O protesto de todas as auctoridades

maiores fez-se ouvir, mas a malquerença contra a Ordem, junto á analogia

de trechos entre a regra verdadeira e a contrafacção pamphletaria, deram

curso á plausibilidade da versão de duas doutrinas, publica uma e

clandestina a outra, e reforçaram o ambiente de malevolencia já existente.

Hoje em dia, nenhum historiador serio liga importancia a tal calumnia.

Na época em que se divulgaram, as _Monita_ foram arma do mais alto valor

contra a Companhia.

Do conjuncto de criticas e de invectivas, ficava, entretanto, um

residuo, que parece ter sido justo, commedido e exacto, pêla inteira

conformidade com as normas estabelecidas por Loyola.

A piedade, no conceito dos jesuitas, tornava-se exercicio automatico,

gymnastica intellectual, visando subordinar a consciencia á direcção

exterior, á letra dos casuistas, dando primasia absoluta a uma virtude

unica--a obediencia--, e esta nas suas três manifestações dos actos, das

vontades e das intelligencias. Era o _perinde ac cadaver_.

O ensino proprio e o alheio, no dizer de Macaulay, eram levados até onde

podia comportá-lo a cultura, sem que degenerasse em emancipação

intellectual.

Na direcção das consciencias, o laxismo ia tão longe que os casuistas

jesuitas, hespanhoes em sua maioria, sendo, entretanto, em geral, homens

de moral inatacavel, permittiram se firmasse a convicção erronea de

haver uma moral peculiar á Ordem, ethica na qual as distincções subtis,

o abuso da restricção mental, a latitude do conceito de peccado venial,

o conceito estrictissimo de peccado mortal, a arguta acrobacia da

direcção de intenção, tudo eram outros tantos factores para se accusar a

Companhia de hypocrita, de protectora dos peores desvios, de

accommodaticia para com as mais graves aberrações.

A politica, dirigida por elles, não mais collimava altos designios

nacionaes. Orientava-se pêlas conveniencias internacionaes do

Catholicismo e da Ordem, e, em geral, arruinava os países que a

acceitavam. Assim, a intima ligação dos jesuitas com o legado pontificio

Chigi durante longo tempo difficultou a pacificação da Allemanha na

guerra de Trinta Annos, mau grado os immensos prejuizos que dahi

decorriam para os povos conflagrados. O fanatismo do partido catholico

era açulado pêla Ordem, para o fim de, em virtude do principio de

applicação usual _cujus regio, ejus religio_, se obterem conversões em

massa na redistribuição de provincias protestantes por principes adhesos

á Egreja.

O empobrecimento moral e material da França foi consequencia da

revogação do edito de Nantes, triumpho assignalado da Companhia na sua

campanha contra os reformados.

O despovoamento da Bohemia seguiu-se á victoria austriaca sôbre o

elemento tcheque, e em dezenas de milhar se computaram as familias

expulsas de suas antigas casas, graças á applicação inexoravel do

plano de saneamento confissional ideado pelos jesuitas Lamormaini e

Philippi.

A Polonia foi victima da intervenção politica continua da congregação.

Em Portugal accelerou a decadencia de um país que se exhauria em

tentativas coloniaes desproporcionadas com seus recursos em homens e

meios materiaes. Felippe II deu o primeiro golpe e o mais funesto na

grandeza e no poderio da Hespanha, mas os desastres que se seguiram

revelaram o influxo deleterio da Sociedade de Jesus.

E, com esses, outros exemplos poderiam ser citados, que justificariam o

conceito de Monod: «Sempre que os jesuitas exerceram acção

preponderante, na Austria, na Bohemia, na Polonia, nos países latinos,

seu reinado foi acompanhado do empobrecimento economico e da decadencia

intellectual».

Tal correlação, junta ás consequencias do progressivo desvio da

Companhia da primitiva regra de Ignacio, tem sido mal interpretada pêlo

vulgo, e a tudo--males advindos ás sociedades civis, enriquecimento

desmedido das casas da Ordem, enfraquecimento moral das consciencias

regidas pêlo _distinguo_ da casuistica, nivel abastardado do ensino pêla

pedagogia auctoritaria--a tudo se ligava a prevenção de assim agirem os

filhos de Loyola com o fito de tudo destruir para sôbre os escombros

edificar o imperio de sua propria Associação, garantindo liberdade plena

para seus membros e impondo submissão aos demais viventes, polvo sombrio

a sugar a vida da collectividade.

É esse o reflexo das luctas a que já nos temos referido, mais uma prova

de quão pouco influem raciocinio e calma nas correntes sentimentaes da

multidão.

Nenhuma doutrina fundamentalmente damninha ou immoral--contraria ao

interesse collectivo, em summa--, pode duradouramente predominar, pois a

convergencia espontanea de tendencias superiores, e socialmente

vantajosas, elimina aos poucos a tendencia regressiva que qualquer

doutrina representa. É o que se teria dado com os jesuitas, si

verdadeiras foram as accusações que lhes moviam seus adversarios.

Um dêstes, porém, e dos mais intelligentes, Voltaire, bem os defende de

taes increpações, quando pondera: «Nenhuma seita, nenhuma sociedade

teve jamais ou poderá ter o intuito preconcebido de corromper os homens».

No seu afan de salvar eternamente as creaturas, de «ser tudo para todos,

para ganhar a confiança de todas as almas», não tinham remedio os

discipulos do Navarro immortal sinão multiplicar os pontos de contacto

com o seculo, afim de se insinuarem em todas as classes e em todas ellas

dirigirem a vida, collimando a eternidade.

Toda convicção profunda, principalmente em se tratando de problemas

sociaes, é operante em sua essencia.

E desde que, contra as determinações primeiras do Fundador e mau grado a

reserva imposta pelas assembléas da Ordem, se viram arrastados á

direcção de consciencias régias, a intervenção dos jesuitas na politica

era fatal e inevitavel, e fôra illogico suppor que tal se desse,

contravindo os fundamentos da associação: predominio absoluto das

conveniencias religiosas sôbre todas as considerações terrenas; acção

internacional de seus membros ao envés das exigencias das

collectividades nacionaes, lembrados de que universal é a Egreja e sem

limites o Verbo-Divino; noção de humanidade contraposta á de patria. E

só traíram tal missão os jesuitas, quando se accentuou a decadencia da

Companhia.

É possivel que no tribunal da penitencia, em uma épocha agitada como

foram o seculo XVI e o seguinte, quando as consciencias viviam

perturbadas por paixões terriveis e actos de violencia, é possivel que a

tolerancia e a benevolencia fôssem dictadas em parte pêlo dever politico

de attrahir o maior numero de fiéis, certos como estavam os socios de

Santo Ignacio da superioridade de sua acção, de seu triumpho final no

bem e na pureza. Mas, por certo, nem foi o movel unico de sua

actividade, nem, talvez, siquer o mais valioso.

Era velha a lucta entre a severidade e a indulgencia nos fastos da

Igreja, e encontrava forma remota no contraste entre as imprecações de

Isaias e de Ezequiel e a meiguice de Christo.

Fora da Sociedade encontravam-se laxistas. E, no seio della, a subtileza

na analyse dos determinantes do acto culposo procedia essencialmente do

amor ao proximo, que procurava encontrar attenuantes da falta, nem só

restringindo os casos graves, passiveis de fulminação capital, como

alargando a noção de venialidade.

Mas o que mais contribuiu para crear a fama depreciadora da moral

applicada pêla Companhia, foram as obras de theologia de Escobar,

Busenbaum, Laymann, Sánchez e outros, onde os mais escabrosos casos

vinham estudados e attenuados á luz de distincções de tal subtilidade,

que se pôde sustentar ser permittida pelos jesuitas a pratica de todos

os peccados.

O êrro, entretanto, era duplice.

Nem só taes obras não aconselhavam pratica alguma, apenas estudavam

faltas já commettidas (o que é essencial no julgamento do alcance moral

dos compendios). Visavam, além disso, guiar e instruir o director de

consciencias em circumstancias espinhosas, procurando prever todos os

desvios possiveis (e nisto residia grave cinca) e apurar, para cada um,

o grau de responsabilidade e de culpa do delinquente. Não sem razão

foram considerados verdadeiros manuaes do direito penal ecclesiastico,

inteiramente comparaveis á literatura penal moderna; ambas destinadas

aos juizes e aos philosophos, aos auctores nunca se devia accusar de

provocadores da realisação de crimes que infringissem a lei vigente. E,

entretanto, essa censura fez-se aos casuistas...

Não nos occupamos dos desvios excepcionaes dêste ou daquelle membro da

Ordem: o juizo formulado abrange a esta em seu conjuncto.

Tanto o influxo politico da Ordem, como suas normas ethicas, postos de

lado os abusos, nada tinham de systematicamente contrario á moral.

Eram conceitos antagonicos que se degladiavam: um, puramente religioso,

internacional e superior ás cousas do mundo, tudo subordinava ás

exigencias oecumenicas da Egreja; outro, admittia a iniciativa

individual, mesmo no exame da lei revelada, circumscrevia-se aos limites

de uma patria, não reconhecendo superioridade alienigena, pois ao

proprio poder proclamava como dimanando directamente de Deus, e

resultava do espirito de analyse favoneado pêla Reforma, das

conveniencias nacionaes, do individualismo avido de se fortalecer.

Seria a escola, fatalmente, a arena da contenda, pois ahi se formaria a

mentalidade das novas gerações de combatentes.

De um lado, a escola jesuita, baseada na auctoridade dos textos,

contando, antes que aquilatando, os testimunhos e as opiniões,

immobilisada nas noções pedagogicas do seculo XVI, impermeavel ás

novas correntes intellectuaes, nada concedera ás exigencias novas da

nova phase social.

De outro lado, a escola regida por protestantes ou imbuida do espirito

philosophico, de jansenismo ou de outros matizes mentaes, favorecia

iniciativas, cultivando o _eu_, prégando a liberdade.

Contrapõe-se o surto individual á obediencia passiva, a exuberancia de

movimento á immobilidade hieratica, obra de vida opposta á rigidez da

morte.

Estas mesmas virtudes, entretanto, que levavam o pensamento emancipado a

augmentar a intensidade da existencia pêlo auxilio prestado ás forças

animadoras de suas proprias fontes, em seu nascedouro intellectual;

essas mesmas virtudes aconselhavam á Egreja, tradicional e voltada para

o passado, proteger as instituições que tão leal e fielmente traduziam

seu modo peculiar de encarar e solver o problema capital da salvação das

almas. Catholicismo e jesuitismo, no bom sentido do termo, estavam por

demais unidos, intimamente ligados, como a essencia e uma das suas

manifestações, para que pudessem perennemente estar divorciados. Era

inevitavel cessasse o dissidio. Pouco durou, de facto: apenas o

pontificado de Clemente XIV.

Não fôra, porém, inteiramente innocua para a disciplina da Ordem a

resistencia á bulla de suppressão.

O nucleo de socios que se haviam revoltado contra a deliberação

pontificia e tinham encontrado protecção junto a principes acatholicos,

violara francamente o voto de obediencia; e, em sociedades fortemente

organisadas, como a Companhia, as brechas na muralha da disciplina são

pontos fracos por onde irrompem todos os abusos.

Bem se viu quanto fôra prejudicial a infracção da Regra, quando,

restabelecida a Ordem pêlo breve _Sollicitudo omnium_ de Pio VII, em

1814, tiveram os Geraes de luctar contra a insubordinação de varios dos

seus soldados. Só por 1820, restabelecida a séde no Gesú de Roma, pôde o

Geral Aloysio Fortis sanear a Companhia e novamente impor-lhe a

primitiva obediencia.

Felizmente para a Sociedade, coube-lhe a fortuna de eleger uma serie de

Geraes notaveis, capazes de comprehender a nova situação social e de

agir de acordo com ella. Philippe Roothan foi o maior de todos, mas

sua obra foi dignamente continuada por Beckx, Anderledy, Martin e Wernz.

Constitue honra altissima para a Sociedade de Jesus o apêgo invencivel

ás Constituições de seu Fundador. Nas maiores difficuldades e provações,

nunca quiseram apartar-se dellas e sempre as consideraram intangiveis.

Quando consultado pêlo Papa sôbre modificações da Regra, que evitariam a

bulla de suppressão da Ordem, respondeu o Geral Ricci, que bem sabia as

agruras decorrentes de sua resposta e morreu preso no castello

Sant'Angelo: «_Sint ut sunt, aut non sint!_» Com taes precedentes, a

reorganisação levada a cabo por Philippe Roothan e seus successores não

podia visar modificações de essencia: crearam, apenas, novos modos de

agir, sempre de acordo, entretanto, com o intuito primeiro de Inigo.

Roothan evitou empresas directas de acção catholica, fora dos quadros da

Curia. Em compensação, redobrou de esforços junto a esta, e, por seu

intermedio, pôs em practica suas normas de dominio universal das

consciencias. Cada vez mais augmentou seu valimento juncto á hierarchia

ecclesiastica. Egrejas nacionaes não podiam mais subsistir, e, em Roma,

as mais altas auctoridades acceitavam plenamente o influxo e a

collaboração intelligente do jesuita.

Tanto bastava para tornar predominante o pensamento de Loyola nas

deliberações do clero.

Dentro em pouco os factos vieram provar a valia de sua voz: Affonso de

Liguori, mestre da casuistica adoptada pêla Ordem, foi canonisado e

proclamado doutor da Egreja, dando assim sancção universal aos methodos

de theologia moral usados pelos jesuitas; a proclamação, pêlo Papa

exclusivamente, do dogma da Immaculada Conceição, foi ainda um asserto

da superioridade pontificia sôbre o concilio; os Syllabus de 1864 e de

1907, a condemnação do modernismo, foram outras tantas affirmações da

immutabilidade dos conceitos da Egreja; os dogmas do primado da Santa

Sé, da infallibidade papal e do episcopado universal do Summo Pontifice,

pêlo Concilio do Vaticano, em 1870, valeram pelo solenne triumpho da

obra de Lainez em Trento.

Podem lastimar quantos veneram a admiravel obra do Catholicismo, que,

com taes recusas de admittir concepções modernas, a Egreja

voluntariamente se colloque á margem das idéas contemporaneas e se

condemne a quedar extranha e hostil a todo progresso e a toda conquista

de niveis mais altos de civilisação. É incontestavel, entretanto, que

tal attitude de intransigencia absoluta só pode inspirar o profundo

respeito, de que são dignas as convicções sinceras.

Por isso mesmo que se trata de convicções, não podiam os membros da

Companhia permanecer inactivos. O proselytismo, comtudo, tomou aspecto

novo. Não mais se nota a intervenção directa sob a forma politica, mas

ainda se move, ora prégando doutrina junto aos dirigentes, ora agitando

as almas religiosas. Ahi, exactamente, se encontra a explicação da

diversidade de sua vida nas nações protestantes e nos povos catholicos:

junto ás primeiras, age sôbre a minoria dos habitantes, e, para afastar

difficuldades com os poderes publicos, evita cuidadosamente a politica e

limita-se a evangelisar as massas; junto aos ultimos, sua acção varia

conforme a posição reciproca do Estado e da Egreja, dominadora em se

tratando de uma religião official, com tendencias muita vez invasoras no

regimen concordatario, exigindo relações liberaes nos casos da

agnosticismo constitucional por parte do Estado.

Em todas as circumstancias, seu esfôrço se exerce como em missão

interior, e esse é o fim principal de sua obra escolar.

O velho ideal da Companhia--a escola livre, a Egreja livre, o mando

absoluto da Egreja no mundo--deve certamente despertar grandes

sympathias nos países de regimem agnostico, pois os dous primeiros

termos da trilogia merecem todo apoio de quantos reconhecem a differença

necessaria entre o dominio temporal e o dominio espiritual. Em ambos,

trata-se de assumpto reservado á livre escolha dos interessados. Mas a

Egreja só admitte a liberdade para si e não para a communhão. Quanto ao

terceiro termo, o predominio da Egreja, cabe á livre concurrencia das

opiniões em contraste conquistar a confiança das almas, ao Estado

cumprindo manter neutralidade absoluta na contenda, dando, a todos os

credos, eguaes direitos e egual protecção no seu exercicio. É facil,

portanto, inferir dahi os elementos favoraveis que o regimen agnostico

assegura a todas as confissões.

Os novos Geraes bem comprehenderam as vantagens da situação, e o esforço

da Companhia norteou-se no sentido de alta intellectualidade, dirigida a

propaganda pêlo jornal, pêlo livro, pêlas revistas scientificas,

contraposta a trabalhos analogos feitos por adversarios seus. Ainda

nesta phase, a literatura da Ordem foi militante contra a impiedade,

fôssem quaes fôssem sua origem e sua manifestação.

Alterou-se, pois, profundamente o modo por que os jesuitas intervinham

para assegurar o advento da monarchia espiritual absoluta que sonhavam

para o mundo.

Na politica propriamente dita, sua acção confunde-se com a de Roma, pois

hoje em dia elles a inspiram por intermedio da Curia. Na direcção das

consciencias, já possuem a primasia que lhes era attribuida no

seculo XVI e no seguinte.

Resta, portanto, sua nobilissima tentativa de conquista pêla escola,

alvo verdadeiro de sua missão interior: a evangelisação das almas e a

formação do espirito da mocidade, que um dia governará. Pouco importa si

o processo é lento: a Egreja, tanto quanto o Estado, tem por dever

considerar os factos sociaes _sub specie æternitatis_.

Os jesuitas e o ensino · 第 5 / 10 题