Os Espartanos, ciosos da preponderancia dos seus rivaes, preparavam-se

para guerreál-os, apezar da lucta em que andavam com Argos e outras

cidades do Peloponeso, quando uma serie de calamidades os feriu. Um

espantoso terramoto, que abalou, a Arcadia e a Laconia, precipitou sobre

Esparta um grande desmoronamento do monte Taygeto (465). A maior parte

da cidade ficou em ruinas, perecendo vinte mil pessoas.

Os hilotas, crendo favoravel o momento para a sua emancipação, atacaram

os sobreviventes, mas foram repellidos. Dispersando-se e fugindo,

ligaram-se com os Messenios que, revoltando-se de novo, se

intrincheiraram no monte Ithoma, começando uma _terceira guerra de

Messenia_, a qual durou dez annos (464-454).

Foi só depois de finda esta guerra, que os Espartanos puderam voltar as

suas attenções para Athenas. Invadiram a Héllada com um formidavel

exercito, sendo o seu fim contrabalançar a influencia de Athenas com o

restabelecimento da hegemonia de Thebas sobre as cidades beócias, a qual

tinha sido anniquilada durante as Guerras Persicas.

Ganharam a victoria de _Tanagro_ (456) contra os Athenienses,

commandados por Pericles. Mas, dois mezes depois, Myronidas inutilizou

todas as vantagens adquiridas pelos Espartanos, ganhando a batalha de

_OEnophyta_,--batalha que tornou os Athenienses senhores da Phocida, da

Locrida e da Beocia.

Chegára, assim, Athenas ao apogeu da grandeza, d'onde em breve tinha de

cahir, porque a propria extensão das suas possessões lhe havia de ser

fatal. Romperam dissidencias entre Athenas e Esparta, por causa da

intendencia no Templo de Apollo. Os Espartanos queriam-n'a para os de

Delphos, seus alliados; os Athenienses, alliados dos Phocidios,

sustentavam as pretenções d'estes, os quaes as fizeram triumphar pelas

armas. Um exercito espartano restituiu o templo aos primeiros; um

exercito atheniense, commandado por Pericles, retomou-o para os segundos

(448). Estas excursões guerreiras dos dois povos dominantes, atravez da

Beocia, accenderam os odios dos partidos; e os exilados beocios da

facção aristocratica puzéram-se em campo, chegando a apossar-se de

várias cidades. _Tolmidas_, general atheniense, atacou-os com pequenas

forças, e foi completamente desbaratado na batalha de _Choronea_ (447).

A Beocia cahiu, de novo, sob o poder de Thebas; Mégara e a Eubéa

revoltaram-se, e um exercito espartano, atravessando o isthmo, chegou

ameaçador ás fronteiras da Attica. Pericles comprou a pezo de oiro o

general lacedemonio; e concluiu com elle um tratado em virtude do qual

Athenas, para não perder a Eubéa, restituiu todos os pontos de que se

havia apossado nas costas do Peloponeso.

As duas cidades rivaes ajustaram uma tregua de 30 annos (445),

garantiram mutuamente as suas hegemonias. Assim ficou Esparta com a

preponderancia continental; Athenas, com o dominio do mar.

CAPITULO VII

O SECULO DE PERICLES

Pericles, grande estadista e guerreiro, que nasceu em 494 A. C., era

filho de Xantippo, o vencedor dos Persas em Mycale. Apezar da sua

ascendencia nobre, adoptou os principios democraticos e poz-se á frente

do partido popular.

Em 461 começou a apparecer nos negocios publicos, e induziu o orador

Ephialtes a propôr um decreto que arrancava ao areopágo as suas mais

importantes attribuições para as transferir para o povo, despojando

assim aquelle supremo conselho da nobreza, de todo o seu poder moral e

dos seus privilegios aristocraticos, transformando-o n'um simples

tribunal de jurisdicção muito limitada. O decreto foi approvado; e

quando Cimon, ao regressar de uma das suas expedições, tentou operar uma

contra-revolução a favor da aristocracia, o povo votou-o ao ostracismo,

como já dissémos.

Foi discipulo, em dialectica, de Zénon d'Eléa; e de Anaxagoras, nas

altas concepções philosophicas,--adquirindo nos habitos serios de um

estudo profundo e de uma reflexão aturada, uma certa majestade grave e

serena, que em todas as suas palavras e em todos os seus actos

transluzia, a ponto dos seus contemporaneos lhe darem o qualificativo de

_Olympico_.

Pela morte, de Cimon, Pericles ficou em Athenas com um ascendente

incontestado e absoluto. O seu governo foi uma verdadeira dictadura. Sob

o titulo de _stratégo_ (general) annualmente eleito, sem nenhuma outra

dignidade (pois ha duvidas até sobre se alguma vez foi archonte), tomou

a direcção de todos os negocios, e exerceu com nobreza e rectidão uma

auctoridade cuja extensão podia ser um perigo.

Conservou as fórmas republicanas do governo e não reprimiu os habitos da

liberdade. Os poetas comicos e muitos philosophos, todos partidarios da

aristocracia, chegavam a diffamar Pericles, nas suas peças e nas suas

licções, sem nenhum receio de repressão para os abusos da sua critica.

As magistraturas, em logar de serem dadas pelo suffragio, como até ahi,

passaram a ser distribuidas pela sorte, processo mais democratico,

porque deixava os cargos abertos a todos, ao passo que a eleição, imbora

exercida pelo povo, os fazia recahir sempre nos grandes. Este systema de

sorte não tinha inconvenientes em uma sociedade constituida como o era a

atheniense. Aqui, os cidadãos (isto é, os athenienses de condição livre)

não passavam de uns vinte mil, e constituiam uma verdadeira aristocracia

popular, na qual todos os membros tinham sensivelmente a mesma educação

politica, e estavam nas circumstancias de desimpenhar os mesmos cargos.

Conservou-se, porêm, o processo da eleição para a nomeação dos

stratégos, cujas funcções eram muito importantes, e comprehendiam todos

os negocios militares, e todas as relações da politica externa. E, com

respeito aos archontes e aos senadores, a sorte só podia exercer-se

entre os que se apresentavam candidatos, os quaes se submettiam a um

rigoroso exame prévio.

Attribuiu a gratificação de tres óbolos diarios a todo o cidadão que nas

assembléas judiciarias e nas politicas tomasse assento, consagrando o

seu tempo ao estudo e á regularização das questões ahi apresentadas e

debatidas. Augmentou o estipendio dos soldados e dos marinheiros;

ordenou distribuições gratuitas de trigo ás classes pobres; tomou a

cargo da cidade a educação dos filhos d'aquelles que morriam pela

patria; arbitrou soccorros periodicos aos invalidos e infermos; etc.

Inviou colonos para muitos pontos da Asia e das ilhas, dando-lhes terras

e conservando-lhes os seus direitos de cidadãos de Athenas; decretou

grandes solemnidades nacionaes, festejos publicos para regosijo e

illustração do povo; finalmente, cobriu Athenas com os mais sumptuosos e

bellos monumentos que jámais se edificaram, alguns dos quaes estão ainda

de pé, attestando a sua magnificencia primitiva debaixo das mutilações

que os tempos lhes trouxeram.

Como os rendimentos da Attica não podiam chegar nem para o centesimo do

custo de tantas obras primas, Pericles não hesitou em lançar mão das

contribuições que os alliados derramavam no thesouro commum, e cujo fim

era assegurarem, em caso de ataque, a defesa dos interesses geraes das

cidades confederadas. Este proceder infiel, que a posteridade quasi não

teve animo de estigmatizar, em vista das maravilhas artisticas a que deu

origem, foi um aggravo que as cidades juntaram a muitos outros já

recebidos de Athenas, e que com elles concorreu para a queda d'esta

potencia oppressora.

Pericles commetteu um grande erro mandando fazer o recenseamento dos

verdadeiros cidadãos da Attica, excluindo d'esta classe todos os que não

eram filhos de pae e mãe athenienses. Cinco mil habitantes perderam

assim os seus direitos politicos.

É prodigioso o esplendor das artes na Athenas de Pericles. Atravez dos

seculos ficou deslumbrando o mundo o sol de civilização que d'alli

irradiou. Nomes immortaes, como os de nenhum outro povo, attestam a

preeminencia da raça hellenica em todas as concepções do espirito, e dão

lustre inolvidavel aos tempos que, por toda a posteridade, ficaram

consagrados com o nome de _seculo de Pericles_.

Nas bellas artes monumentaes e decorativas basta citarmos os nomes de

_Phidias_, de _Ietino_, de _Mnesicles_, de _Zeuxis_ e de _Parrhasio_; na

poesia dramatica _Sophocles_ e _Euripides_ (_Eschylo_ foi um pouco mais

antigo); na comedia politica e satyrica _Aristophanes_; na historia, na

philosophia, etc., _Herodoto_, _Socrates_, _Anaxagoras_, _Hippocrates_,

e tantos outros, logo pouco depois seguidos de _Aristoteles_, _Platão_,

_Xenophonte_, _Thucydides_!

CAPITULO VIII

GUERRA DO PELOPONESO

*Desde a revolta de Corcyra até á paz de Nicias.*--A tregua de trinta

annos celebrada, em 445, entre Esparta e Athenas, não poude durar mais

de quatorze. Em 436, rebentou uma guerra entre Corintho e Corcyra, sua

colonia, na qual Athenas tomou o partido d'esta contra a metropole. Ao

mesmo tempo, os Athenienses tinham tornado tributaria a colonia

corinthia de Potidéa, na Macedonia, e n'esse momento lhe estavam pondo

cêrco por ella, confiada no apoio do Peloponeso, negar-se a pagar-lhe

tributo (432).

Corintho, Esparta e as cidades do Peloponeso accusaram Athenas de ter

rompido as treguas, e de opprimir os seus alliados. Estavam em presença

duas ligas hostis: uma, a _liga atheniense_, na qual intravam as

colonias jonias e a maior parte das ilhas (Lesbos, Chios, Samos, etc.),

apoiada pelo partido democratico de todas as cidades e firmando o seu

poder material principalmente na sua marinha; outra, a _liga

peloponesica_, a cuja frente estava Esparta, e que se compunha dos

Estados doricos e da maior parte dos Estados eolios (Beocia, Phócida,

etc.), tendo pelo seu lado o partido aristocratico das differentes

cidades, e contando, como principal recurso material, com a bravura do

exercito de terra.

Reunida a dieta geral do Peloponeso, em Esparta, os Corinthios

apresentaram as suas recriminações, em virtude das quaes os Lacedemonios

reclamaram de Athenas o levantamento do cêrco de Potidéa, o da

interdicção pronunciada contra Megara, e a restituição da liberdade a

todos os confederados, mórmente aos Eginetas. Como os Athenienses não

satisfizessem nenhuma d'estas exigencias, um exercito espartano invadiu

a Attica e devastou-a.

Ao principio a lucta foi-se protrahindo n'uma série de escaramuças e

surpresas de saque. Todos os annos, pela primavera, os de Esparta vinham

devastar a Attica, e a esquadra atheniense andava exercendo as suas

rapinas pelas costas do Peloponeso. Ao terceiro anno de guerra, uma

peste horrivel, vinda das bandas da Ethiopia, dizimou a população

accumulada em Athenas. Pericles, depois de perder dois dos seus filhos,

cahiu, tambem, fulminado pelo flagello (429).

O partido popular deu-lhe para successor Cléon, por nenhum modo capaz de

se comparar a Pericles,--mas dotado, ainda assim, de talentos

administrativos, e de patriotica energia. A guerra continuou. Athenas

viu a destruição de Platéa, sua fiel alliada, pelos Espartanos e pelos

Beocios, os quaes assassinaram os habitantes capazes de pegar em armas e

reduziram á escravidão as mulheres e as creanças. Os Athenienses tomaram

a ilha de Lesbos onde exerceram represalias crueis: no primeiro momento

queriam matar todos os habitantes de Mitylene (427), reduzindo á

escravidão as creanças e as mulheres; depois, reconsideraram, e

condemnaram á morte mil revoltosos. A lucta tomára o caracter de uma

vingança horrorosa.

No sexto anno da guerra, a peste reappareceu, e houve, grandes

terremotos na Attica, na Beocia, e nas ilhas. Em 424, Brasidas, illustre

general lacedemonio, consegue intrar em Amphipolis e faz pender as

vantagens para o lado de Esparta; mas Demosthenes (não é o orador),

general atheniense, contrabalança este exito do seu adversario,

apoderando-se da importante posição de Pylas (Navarino), na costa da

Messenia, onde se mantêm, apezar dos ataques de Brasidas, o qual não

poude conseguir mais, para inquietar o inimigo, do que desimbarcar

quatrocentos e vinte Espartanos na pequena ilha de Sphacteria, onde,

depois de uma defesa pertinaz, foram uns mortos, outros aprisionados por

Cléon (425).

Admittia-se, desde as Thermopylas, que os Espartanos podiam ser mortos,

mas nunca aprisionados, de modo que o resultado da lucta em Sphacteria

produziu um grande effeito moral nos Athenienses. Os Espartanos começam

a sentir uma série de revezes: perdem Cythera e outras posições

importantes, vêem devastada a Laconia, teem de reprimir as insurreições

dos Messenios e dos Hilotas, assistem a novas vantagens ganhas pelos

Athenienses, e, vendo o Peloponeso como que bloqueado por estes, perdem

a força moral e mandam implorar a paz, que lhes é affrontosamente

recusada.

Em breve, porêm, a fortuna das armas muda de rumo. Os Athenienses são

vencidos pelos Beocios em Delio; Brasidas, apoiado pelo Rei da

Macedonia, Perdiccas, foi combater as colonias athenienses á Thracia e á

Chalcidica, para ferir Athenas no seu poder maritimo, cortando-lhe as

suas relações com os povos que lhe forneciam a cordoalha dos seus navios

e as madeiras de construcção. O partido da paz, isto é, o partido

aristocratico, tendo á sua frente _Nicias_, começou depois d'isto a

crear preponderancia. Mas Brasidas e Cléon eram intransigentes e

apoiavam a guerra a todo o transe. Em 421, Brasidas tomou Amphipolis,

que os Athenienses perderam pela negligencia de Thucydides, tão mau

general como grande historiador.

Cléon apresenta-se deante da praça para reconquistál-a aos Lacedemonios.

Dá-se uma batalha, em que os Athenienses são vencidos, mas na qual os

dois generaes perdem a vida, terminando assim os dois principaes

obstaculos que havia contra a paz. Então os partidarios da paz adquirem

de novo a superioridade, e conclue-se a _paz de Nicias_, pela qual foi

garantida uma tregua de armas de cincoenta annos.

A tregua foi observada na apparencia durante uns septe annos, mas de

facto rompida um anno depois da conclusão do tratado.

*Alcibiades.*--Os Corinthios, vendo que se concluira a paz entre Esparta

e Athenas, sem contar com elles nem com os outros Estados secundarios,

indignaram-se contra Esparta, e, ligando-se com Argos e algumas cidades

da Arcadia, resolveram tirar a Esparta a hegemonia do Peloponeso.

Deu-lhes o seu apoio o atheniense _Alcibiades_, sobrinho de Pericles e

discipulo de Socrates, homem com admiraveis dotes naturaes, riquissimo,

formoso, espirituoso, sabio, eloquente, mas tambem ambicioso, desleal,

corrompido, sem fé nem convicções, indifferente para tudo,--n'uma

palavra, o mais brilhante, mas tambem o mais immoral e o mais perigoso

cidadão de uma republica.

Logo que se involveu nos negocios do Peloponeso determinou uma guerra

entre os Espartanos e os confederados. D'esta lucta sahiu Esparta

victoriosa na batalha de Mantinéa (418). Apresentando-se como adversario

de Nicias, chefe da aristocracia e do partido da paz, fez isso menos por

suggestão da consciencia do que para explorar em proveito da propria

ambição os sentimentos bellicosos das classes mais baixas.

Decidiu, com a sua eloquencia, os Athenienses a imprehenderem uma

expedição contra a Sicilia, da qual teve o commando juntamente com

Lamacho e Nicias. O pretexto era soccorrer Segesto contra Selinonte e

Syracusa; o fim verdadeiro da expedição, ferir as colonas doricas e

cosquistar as ricas cidades gregas da Sicilia. A impresa malogrou-se. Na

vespera da partida da esquadra (415) appareceram mutilados durante a

noite, em toda a cidade, os Hermes ou bustos de Mercurio. Os inimigos de

Alcibiades atribuiram-lhe este sacrilegio, bem como o de ter profanado

os mysterios de Elensis; e, transformando as suas suspeitas n'uma

accusação capital, revocaram-n'o, mal elle tinha chegado á Sicilia, afim

de ser julgado no tribunal. Segundo o relatorio apresentado pelo orador

Andocides, aquelle sacrilegio fôra uma conspiração secreta contra a

constituição democratica, e como suspeitos de cumplicidade n'elle foram

presos e condemnados á morte muitos cidadãos respeitaveis. Alcibiades,

temendo a mesma sorte, expatriou-se, e, sendo condemnado, retirou-se

para Esparta, onde, por vingança, premeditou a ruina da sua patria, e

determinou os Espartanos a renovarem a guerra. Por conselhos d'elle, os

inimigos de Athenas apossaram-se da forte posição de Decelia, na Attica,

e resolveram-se a soccorrer os Gregos da Sicilia, onde Nicias,

contrario á guerra, conduzia as operações frouxamente. Gylippo, habil

general espartano, foi em soccorro de Syracusa e deu um golpe fatal nos

Athenienses, que cercavam a cidade. Lamacho morreu (414) com uma grande

parte dos hoplitas; a propria esquadra atheniense foi toda destruida

pelos navios mais poderosos dos Syracusanos e dos Corinthios; Nicias e

Demosthenes foram decapitados em Syracusa ás mãos do algoz; os que não

morreram com as armas na mão, foram condemnados a uma escravidão

durissima (413).

Em Athenas, ao saber-se d'estes desastres, quasi todas as familias

vestiram lucto; os confederados athenienses desligaram-se da cidade

feliz e procuraram o apoio de Lacedemonia; um exercito espartano,

intrincheirado em Decelia, fechava as communicações; uma esquadra

espartana, commandada por Tissaphernes, governador da Asia-Menor, em

nome dos Persas, atacava as forças navaes de Athenas; a Eubéa cahiu no

poder das forças do Peloponeso; e, dentro de Athenas, um partido

oligarchico, dirigido por _Pisandro_, procurava derrubar a constituição

democratica, de intelligencia com Esparta. Para isso, instituiu um

_conselho dos quatrocentos_ que a si mesmo se elegia, limitou a

communidade do povo a cinco mil cidadãos, que nunca foram convocados

para o exercicio dos seus direitos civis.

A esquadra atheniense, do commando de _Thrasybulo_, que estava em Samos,

pronunciou-se contra esta revolução e manteve a antiga ordem de coisas.

Alcibiades, a esse tempo descontente com os Espartanos, retirou-se para

a Asia, chamou aos seus interesses Tissaphernes, tomou o commando da

esquadra de Samos, ganhou proximo de _Cyzico_ (410) e em mais dois

combates gloriosas victorias contra os Lacedemonios, apoderou-se de

Byzancio, de Chalcedonia, e de outros pontos da costa, e estabeleceu no

Hellesponto um direito de navegação que fez affluir um novo rendimento

para Athenas.

Alcibiades, amnistiado e glorificado por um decreto publico, introu em

Athenas como triumphador, foi nomeado generalissimo do exercito e da

esquadra, e o povo atirou ao mar as tábuas onde as suas faltas estavam

inscriptas. Partindo para a Asia, afim de completar a submissão das

antigas possessões athenienses e de bater a esquadra inimiga, foi

infeliz n'uma impresa contra a ilha d'Andros. Durante uma ausencia sua,

um de seus immediatos foi derrotado nas alturas de Epheso (407) pela

esquadra de Lacedemonia, commandada por Lysandro. Os Athenienses,

tristemente impressionados com estes revezes, retiraram o commando a

Alcibiades e nomearam, para o substituir, dez generaes, entre os quaes

se contava _Conon_. Então Alcibiades, reunindo alguns mercenarios

extrangeiros, retirou-se para as fortalezas que mandára construir na

Thracia, e d'alli começou a fazer guerra por sua propria conta, como um

aventureiro.

Os Espartanos, commandados por _Callicratidas_, atacaram Lesbos e

bloquearam os navios athenienses no porto de Mitylene. De Athenas foi

uma nova armada em soccorro da primeira. Travou-se um grande combate

naval proximo das ilhas _Arginusas_ (406), onde Callicratidas, successor

de Lysandro, ficou morto. A victoria decidiu-se afinal pelos

Athenienses.

Seis dos generaes vencedores foram condemnados á morte pelo povo, não só

por terem deixado de recolher os cadaveres dos seus mortos (o que era um

sacrilegio para as idéas religiosas dos Gregos), como tambem por terem

deixado perecer sem soccorro as tripulações de 25 triremes desamparadas

durante o combate e batidas pela tempestade.

*Queda de Athenas.*--Depois da derrota e morte de Callicratidas, Esparta

restituiu a Lysandro o commando da esquadra. O almirante espartano soube

conciliar habilmente o favor de _Cyro_ «_o Moço_» governador da

Asia-Menor, e com o auxilio dos Persas augmentou as forças navaes de

Lacedemonia. Percorreu audazmente todo o Mar Egeu, tomou Lampsaco, e

surprehendeu a esquadra atheniense ancorada em _Ægos-Potamos_ («_Rio das

Cabras_»); na costa do Hellesponto, não longe de Sestos. Só pudéram

escapar oito navios athenienses que Conon salvou em Chypre, e um bom

veleiro, o _Paralos_, que levou a triste noticia a Athenas (405). Assim

acabou o predominio maritimo e a grandeza politica d'esta cidade.

A batalha de Ægos-Potamos foi uma horrorosa carnificina. Os marinheiros

e soldados athenienses estavam na maior parte desimbarcados, em jogos e

distracções, quando foram surprehendidos. Os navios eram capturados e

destruidos quasi sem resistencia. Tres mil Athenienses, com muitos dos

seus chefes, foram, em seguida, conduzidos a Lampsaco e sacrificados á

vingança dos Espartanos.

Lysandro percorreu em seguida todas as cidades maritimas da obediencia

de Athenas, nenhuma das quaes ousou resistir-lhe, destruindo n'ellas os

governos democraticos e substituindo-os por oligarchias. Depois atacou

Athenas pelo lado do mar, emquanto pelo lado de terra a cercavam os reis

espartanos Agis e Pausanias. A grandiosa cidade, digna de melhor sorte,

dilacerada internamente pelo furor dos partidos, prolongou quanto poude

a sua defesa heroica; mas, porfim, nos apertos da fome, teve de

render-se sem condição (404).

Os vencedores impuzéram-lhe:--a demolição dos seus muros e das

fortificações do Pireo; a intrega de todos os navios, exceptuando doze

galeras, limite maximo a que ficava reduzida a sua marinha; a evacuação

de todas as cidades conquistadas; o regresso dos exilados amigos de

Esparta; o pagamento de um tributo annual; a abolição da constituição

democratica, e a sua substituição pela oligarchia dos _trinta tyrannos_.

Para a humilhação ser mais completa, as galeras athenienses foram

queimadas, e as muralhas bem como as fortificações foram arrasadas ao

som de flautas, no meio de chascos grosseiros, e em presença de todos os

alliados de Esparta coroados de flores.

CAPITULO IX

TYRANNIA DOS TRINTA EM ATHENAS. RESTABELECIMENTO DA DEMOCRACIA

A administração do governo atheniense foi confiada por Lysandro a 30

membros da nobreza, alliados de Esparta, os quaes receberam a missão de

organizar o Estado no sentido aristocratico por meio de leis novas.

Estes oligarchas, a cuja frente estava _Critias_, ficaram conhecidos

pelo nome de _trinta tyrannos_; e o seu governo foi um verdadeiro

periodo de terror; tantas foram as crueldades e prepotencias por elles

practicadas, não só contra os democratas, mas até mesmo contra os

aristocratas mais moderados. Só tres mil cidadãos gozavam do direito de

burguezia, e os _trinta_ chegaram a decretar que só os _tres mil_

poderiam habitar em Athenas, sendo banidos os outros cidadãos. As

diversas cidades regurgitavam de proscriptos athenienses.

Thrasybulo, chefe dos democratas, e um dos heroes da grande guerra,

imprehendeu libertar a cidade. Sahiu de Thebas com um punhado de

proscriptos, e intrando na Attica, onde se apossou de uma pequena

fortaleza, repeliu dois ataques dos Trinta e dos Lacedemonios,

surprehendeu de noite o Pireu e conseguiu chamar os oligarchas ao

combate. Critias morreu combatendo; os outros tyrannos retiraram-se para

Eleusis, com permissão de Thrasybulo, que restabeleceu a constituição

democratica e promulgou uma amnistia, restituindo d'este modo a

tranquillidade ao Estado. Athenas offertou ao seu libertador a corôa de

oliveira.

*Socrates.*--N'estes desgraçados tempos viveu o grande philosopho

Socrates, um dos maiores nomes da historia da humanidade. Nascido em

469, pagou á patria o seu tributo de sangue combatendo em Potidea, em

Amphipolis e em Delion. Na primeira d'estas batalhas salvou a vida a

Alcibiades, na ultima ao moço Xenophonte. Não é aqui logar para expormos

as suas idéas philosophicas, na manifestação das quaes empregava um

methodo interrogatorio, que ficou celebre com a designação de _ironia

socratica_.

Historia da Grecia · 第 4 / 6 段