sempre a maculou, instaurou processo a Socrates pelas suas opiniões
religiosas e pela sua propaganda politica; e este grande homem foi
condemnado a beber a cicuta, morrendo com admiravel serenidade.
CAPITULO X
HEGEMONIA DE ESPARTA
Vencida Athenas, os Espartanos procuraram completar a sua hegemonia
sobre as ilhas e as cidades do litoral, conquistando a soberania do mar.
Apoderaram-se de Samos, obrigando os cidadãos a emigrar e a abandonarem
as suas riquezas; tiraram aos habitantes de Chio os seus navios, e
mataram por traição 80 democratas de Mileto; subjugaram Elis; expulsaram
novamente de Naupacta os infelizes Messenios; lançaram pezadissimos
impostos ás cidades maritimas e substituiram em toda a parte as
constituições democraticas pela sua organização aristocratica. Com as
contribuições formaram o seu thesouro publico; as populações do
Peloponeso forneciam-lhe soldados; as das cidades do litoral e das
ilhas, esquadras e marinheiros.
O seu dominio era mais oppressor para os povos subjugados do que fôra o
de Athenas, mais duro, mais cruel, e sem ter ao menos a compensação de
manter n'uma alta esphera intellectual a cultura dos espiritos. Era a
prepotencia da força, o desprezo da justiça, o anniquilamento do
direito. Era a decadencia inexoravel, sem remedio.
Decadencia em tudo, rapida, nas instituições, na grandeza, na
civilização, no prestigio! Os éphoros tinham usurpado a auctoridade
toda; os reis estavam reduzidos á condição de uns simples generaes
hereditarios; uns mil cidadãos, quando muito, constituiam toda a
oligarchia soberana. A propriedade estava em meia duzia de mãos; as
classes servis, cada dia mais numerosas, principiaram a conhecer a força
de que poderiam dispôr contra os seus oppressores, se conseguissem
unir-se.
De toda a Grecia, apenas Argos, Corintho, Thebas, e a Etolia, não
reconheciam o jugo terrivel de Esparta, e em breve haviam de ser o
nucleo de uma formidavel coalisão.
*A retirada dos Dez Mil.*--No throno da Persia tinham-se succedido, a
Xerxes, Artaxerxes Longomano (465-424), Xerxes II e Sogdiano (424),
Dario II Nothos (ou o Bastardo) (423-404), e Artaxerxes II Mnémon, que
deu a satrapia da Asia-Menor a seu irmão Cyro «o Moço». Este,
pretendendo ter mais direitos ao throno do que seu irmão, intentou
arrancar-lhe o poder; e, para isso, juntou um formidavel exercito, no
qual tomou a seu soldo treze mil mercenarios gregos, tropas que lhe foi
facil juntar, pois com o termo da grande guerra muitas forças militares
estavam desoccupadas.
Esparta, pelo seu lado, tinha interesse em favorecer a guerra civil na
Persia, como uma garantia da sua propria tranquilidade e segurança do
seu dominio; e por esse motivo não só permittiu o levantamento das
tropas, como tambem poz á disposição de Cyro 25 galeras e um corpo de
septecentos hoplitas.
Cyro invadiu a Persia, penetrou até ás portas de Babylonia; e ahi, na
planicie de _Cunaxa_, travou-se uma grande batalha, na qual os Gregos
ficaram victoriosos, mas onde o régio aventureiro foi morto (401).
Cercados por todos os lados, os Gregos começaram a sua famosa retirada.
_Clearoo_, seu general, e outros officiaes, foram aleivosamente
assassinados n'uma conferencia a que os Persas os convidaram; mas o
atheniense _Xenophonte_, que tinha tomado parte, como voluntario, na
campanha, poz-se á frente das tropas, e, de accordo com o espartano
_Cheirisopho_, conduziu-as; no meio das mais incriveis difficuldades,
atravez de quatrocentas leguas de paiz inimigo, por meio das montanhas
impracticaveis da alta Mesopotâmia, da Armenia e do Ponto, até ás praias
do Mar Negro. Quinze mezes durou esta extraordinaria operação militar,
assignalada por cem combates, realizada por um punhado de homens, sem
conhecimento do paiz nem da lingua, sem guias, passando a vau torrentes
impetuosas, subindo cerros escalvados, atravessando vastidões
inhospitas, cobertas de neve espessa, soffrendo toda a especie de
privações, acossados de perto pelos inimigos, inquietados a todo o
momento pelos habitantes.
A retirada dos Dez Mil foi um dos maiores feitos militares da
Antiguidade, e immortalizou duas vezes Xenophonte, como capitão e como
historiador. A _Anabasis_ (ou a narrativa da expedição de Cyro «o Moço»
contra a Persia e do regresso do exercito grego sob o commando do
proprio historiador) é a melhor obra de Xenophonte.
*Expedição de Agesiláu.*--Os Persas, irritados com os factos que
acabamos de narrar, e pretendendo vingar-se, procuraram submetter de
novo as cidades jonias do littoral, que eram então tributarias dos
Espartanos. Estas pediram auxilio a Esparta, que lhes mandou um
exercito, cujas vantagens ao principio foram insignificantes; mas depois
mudaram as coisas de feitio quando o rei Agesiláu (398-361) tomou o
commando da expedição.
Agesiláu devastou a Phrygia, a Bithynia, a Caria, a Lydia; venceu perto
de Sardes (396) o satrapa Tissaphernes, e outros governadores persas em
diversos combates; inriqueceu de magnificos despojos os seus soldados. E
preparava-se para chegar até ao coração do Imperio pelo caminho traçado
pelos Dez Mil, quando recebeu ordem terminante de regressar a Esparta.
Eram os Persas que tinham suscitado a Esparta uma guerra no interior da
Grecia, e Agesiláu tinha de correr em auxilio da patria ameaçada.
*Guerra Corinthia.*--Incitada pelo oiro dos Persas, mas principalmente
pela tyrannia espartana, Thebas foi a primeira cidade a insurgir-se
contra a supremacia de Esparta; com ella se ligaram Corintho, Argos,
Athenas, e a Thessalia. Lysandro, que partiu immediatamente para a
Beocia, afim de remover o perigo imminente, foi vencido e morto na
batalha de Haliarte (395). N'isto chegou Agesiláu, a tempo de ganhar
sobre os alliados a _batalha de Coronea_ (394).
A Persia deu ao atheniense Conon uma esquadra phenicia, com a qual foi
destruida, em frente de Cnido, a armada lacedemonia. Esparta perdia o
dominio do mar, e Athenas concebia a esperança de rehavêl-o, sendo esse
o pensamento de Conon. Este restituiu a independencia ás ilhas de Chios,
de Lesbos, de Samos, expulsou os governos oligarchicos impostos pelos
Espartanos, e, auxiliado pela Persia, effectuou o restabelecimento das
fortificações da cidade e do porto de Athenas, e a construcção de mais
navios.
A republica atheniense, sentindo-se renascer, inviou Thrasybulo com uma
esquadra para reduzir Byzancio, o que elle fez, sendo, porêm, morto na
Pamphylia; mas, ao mesmo tempo, Athenas commetteu um grande erro,
soccorrendo Evagoras, rei de Chypre, contra os Persas, o que lhe retirou
a protecção d'estes, inclinando-os de novo para o lado de Esparta.
Por outro lado, Iphicrates, atheniense, general muito habil, fundou uma
tactica nova, servindo-se de soldados armados á ligeira e dando aos
hoplitas uma organização e um armamento mais nacionaes. Assim conseguiu
derrotar completamente n'um recontro a infantaria, até ahi invencivel,
de Lacedemonia.
Esparta atemorizada com as vantagens dos Athenienses, tanto no mar como
na terra, negociou com o grande rei o vergonhoso _tratado d'Antalcidas_.
*Paz d'Antalcidas.*--Por este tratado (387) foram submettidos aos Persas
os Estados Gregos do continente asiatico com a ilha de Chypre,
conservadas a Athenas as ilhas de Lemnos, de Imbros e de Scyros, e
reconhecidas como independentes umas das outras todas as cidades da
Grecia. Argos e Thebas, que se recusavam a obedecer ao tratado, foram a
isso constrangidas por Esparta.
Por este tratado, imposto á Grecia por um monarcha extrangeiro, as
costas occidentaes da Asia-Menor foram para sempre arrancadas ao dominio
hellenico, todas as ligas foram dissolvidas, todas as confederações
desmembradas, ficando assim destruidos todos os centros de força e de
vida collectiva.
CAPITULO XI
DECADENCIA DE ESPARTA. HEGEMONIA DE THEBAS
Pela paz d'Antalcidas tornou a affirmar-se a preponderancia de Esparta,
mas por pouco tempo. A orgulhosa cidade, oppressora e despotica,
principiou por conquistar e destruir _Mantinéa_ (386) qua se não
submettia ao jugo com a exigida complacencia; depois inviou novamente
para todas as cidades os seus partidarios aristocraticos, carregando-os
de honras e poder. A cidade grega de Olyntho, na Macedonia, formava com
outras cidades proximas uma liga, a _confederação chalcidica_. Os
Espartanos prohibiram essa liga como contraria á paz d'Antalcidas.
Os Olinthos não quizeram dissolvêl-a (382); e por isso viram o seu
territorio invadido pelos Espartanos que lhes puzéram cêrco á cidade e
os obrigaram a submetter-se depois da uma lucta de tres annos.
Em 380, o general lacedemonio, _Phebidas_, atravessando a Beocia,
ligou-se com os chefes do partido aristocratico de Thebas para os ajudar
a derrubar o partido democratico, e tomou de surpresa a Cadmea ou a
cidadella, com desprezo de todos os direitos. Tres annos depois,
_Pelopidas_ surprehendeu a seu turno a Cadmea, libertou-a, e reuniu toda
a Beocia n'uma alliança commum (379).
Os Athenienses alliam-se então com as Thebanos, e uns e outros conseguem
tirar grandes vantagens contra Esparta, na terra e no mar. Na recontro
de Tegyra (375), forças inferiores dos alliados derrotam a temivel
infanteria dos Lacedemonios. Um certo numero de ilhas e de Estados
maritimos, taes como Chios, Rhodes, Samos, Mitylene, formam uma segunda
_liga atheniense_; a victoria do atheniense _Chabrias_, proxima de
Naxos, em que toda a esquadra espartana foi anniquilada, restituiu a
Athenas a supremacia maritima.
Juntamente com Pelopidas dirigia os negocios em Thebas um dos maiores
homens da Antiguidade, _Epaminondas_. Pelopidas tinha estabelecido o
_batalhão sagrado_, corpo em que os guerreiros eram unidos pelos laços
da amizade mais apertada; e Epaminondas introduziu uma nova tactica, a
ordem de batalha obliqua. Graças aos seus esforços combinados, foram
reduzidas á submissão as cidades menores da Beocia e destruidas Thespia
e Platéa (374).
Athenas, descontente com o Engrandecimento e a ambição de Thebas,
concluiu pazes com Esparta. Thebas foi intimada a dissolver a sua liga
recente e a libertar as cidades confederadas. Epaminondas, negando-o
formalmente, viu os Lacedemonios invadirem o territorio thebano. Marchou
ao incontro d'elles, levando Pelopidas debaixo do seu commando, e
derrotou-os completamente na memoravel batalha de Leuctra, na qual
terminou todo o prestigio militar dos Espartanos (371).
Epaminondas ingrossou o seu exercito com as forças que lhe inviaram
quasi todos os povos do norte da Grecia, atravessou o isthmo de Corintho
em 369, penetrou na Laconia, desceu o valle do Eurotas e chegou até á
planicie de Esparta a apresentar batalha ao velho rei Agesiláu. Este
conservou-se habilmente na defensiva, com as suas tropas em posições
fortissimas, d'onde o general thebano não poude desalojál-as.
Epaminondas satisfez-se com esta humilhação imposta ao orgulho de
Lacedemonia; e, depois de ter devastado toda a Laconia até ao mar,
voltou para a Beocia com o seu exercito.
No seu regresso, chamou á liberdade os Messenios, e restituiu aos
descendentes dos antigos habitantes o paiz de seus paes, o que fui um
golpe mortal para Esparta. Estes conseguem levantar, contra Thebas,
Athenas, a Persia e Diniz de Syracusa. Epaminondas invade segunda vez o
Peloponeso, mas é forçado a retirar abandonando os seus alliados de
Argos e de Mantinéa, os quaes perdem contra Esparta a batalha a que os
Espartanos, por não terem perdido n'ella nenhum dos seus homens, ficaram
chamando a _batalha sem lagrimas_.
Ainda Epaminondas invadiu o Peloponeso, pela terceira vez, em 366, e
pela quarta vez, em 362, avançando direito sobre Esparta. Agesiláu reune
todas as suas forças e corre ao incontro d'elle, apoiado pelos
Athenienses e pelos aristocratas da Arcadia. Dá-se a _batalha de
Mantinéa_ em que a victoria é ganha pelos Thebanos á custa da vida de
Epaminondas. Pelopidas tinha morrido, dois annos antes (364) n'uma
expedição a Thessalia. Com a morte d'estes dois grandes homens, Thebas
recahiu de novo na sua obscuridade. Mas nem Esparta nem Athenas puderam
tambem levantar-se mais.
CAPITULO XII
SUPREMACIA DA MACEDONIA
Os antigos reis da Macedonia haviam sido tributarios dos Persas.
_Alexandre I_ (498-454) ora alliado dos Persas, ora alliado dos Gregos,
atacou e desbaratou parte do exercito persa, quando este fugia atravez
da Macedonia, depois da batalha de Platéa. Os reis que se lhe seguiram,
taes como _Perdiccas II_ (425), introduziram nas altas classes do paiz
os costumes civilizados dos Gregos. _Archeláu_ (413-399) deu
hospitalidade a Euripides e convidou Zeuxis a pintar-lhe o palacio e o
templo de Pella. A este succedeu _Amyntas II_ (399-369), cujo reinado
foi muito tempestuoso. O filho mais novo d'este monarcha, _Philippe_,
viveu algum tempo, como refens, em Thebas, em casa de Epaminondas, e ahi
se familiarizou com a organização e os costumes dos Hellenos, estudando
ao mesmo passo o segredo da força e da fraqueza das republicas gregas.
Chamado ao throno, por morte de seus irmãos, bate os seus competidores,
compra a alliança de Athenas, estabelece amizade com os Thracios,
derrota os barbaros Peonios e Illyrios, e consegue restituir á Macedonia
as suas fronteiras naturaes (358). Feito isto, pensa logo em alargál-as.
Começa por conquistar umas apoz outras as colonias gregas assentes no
littoral dos seus Estados, e organiza uma esquadra. Penetra na Thracia e
chega até ás proximidades de Byzancio; involve-se nos negocios da
Thessalia onde então lavrava a _guerra sagrada_, e transforma
insensivelmente este paiz n'uma provincia macedonica. Avança, em
seguida, para as Thermopylas; mas ahi os Athenienses, cuja vigilancia
era despertada pela eloquencia do grande Demosthenes, oppõem-se-lhe á
passagem, desconcertando-lhe os projectos, e Philippe tem,
prudentemente, o cuidado de retirar-se (352).
Demosthenes redobra de energia, solta do alto da tribuna grega as suas
vigorosas _Philippicas_, e durante quinze annos lucta com toda a força
do seu genio e com toda a sua penetração contra os designios do seu
temivel adversario. Mas se a palavra do maior dos oradores impunha
respeito á astucia do monarcha ambicioso, não teve força para conjurar a
catastrophe. Em 348, Philippe vibrou o seu grande golpe, tomando
Olyntho, a poderosa metropole das cidades gregas da Chalcidica, que
Athenas protegia e que Demosthenes tinha querido salvar.
Athenas, ameaçada na Eubéa e até mesmo na Attica, teve de assignar um
tratado de paz. Mas Philippe, deixando de cumprir as clausulas juradas,
ataca as Thermopylas, termina a guerra sagrada que lavrava entre os
Phocidios e os Thebanos, subjuga os primeiros arrasando-lhes as cidades,
e toma assento no conselho amphictyonico onde se arroga os dois votos
que os Phocidios alli possuiam (346).
Eis, pois, Philippe, arbitro da Grecia, pela posse da Thessalia, das
Thermopylas, e da influencia no conselho amphictyonico. Sabendo esperar,
não quiz precipitar-se na conquista definitiva, afim de evitar qualquer
reacção geral perigosa. Dirigiu-se para a Thracia, onde o atheniense
Phocion, aliás seu partidario, o impediu de se apoderar das colonias
gregas do Hellesponto; chegou até ao Danubio e ahi assentou os limites
septentrionaes do seu reino; levou a guerra á Illyria, ao Epiro, ao
Chersoneso, sitiou Perintho e Byzancio, que Phocion defendeu
efficazmente. Os Athenienses apoderam-se da Eubéa, emquanto Demosthenes
organizava ligas das diversas cidades, sublevando-as contra o inimigo
commum.
Mas o orador atheniense Eschines, rival de Demosthenes, subornado pelo
oiro de Philippe, consegue no conselho amphictyonico a investidura do
rei da Macedonia no commando e direcção de uma nova guerra sagrada
contra os Locrios. Philippe volta immediatamente á Grecia (338), esquece
o pretexto da sua intervenção, apodera-se de Elatéa e dos desfiladeiros
que conduziam á Beocia, e chega quasi ás portas de Athenas.
Demosthenes realiza então um supremo esforço, e obtém, á força de
eloquencia, a alliança de Thebas. As duas cidades apresentam-se unidas
no ultimo campo de batalha da liberdade e da independencia grega.
Esparta conservou-se isolada no seu perpetuo egoismo. Incontraram-se os
exercitos junto a Cheronéa, na Beocia. Os hoplitas athenienses, o
batalhão sagrado dos Thebanos, despedaçaram-se contra a _phalange
macedonica_. Demosthenes tomou parte na acção. A victoria de Philippe
foi decisiva e completa.
O vencedor foi de uma desusada e honrosa moderação; reuniu uma assembléa
geral dos povos em Corintho, e, para legitimar até certo ponto o seu
dominio sobre a Grecia, renovou o projecto de uma grande expedição
nacional contra os Persas, e fez-se nomear generalissimo de todas as
forças gregas. Quando estava a ponto de realizar os seus vastos
designios, um dos seus guardas assassinou-o, crê-se que por suggestões
da rainha repudiada, _Olympias_.
*Alexandre Magno.*--Philippe legava a seu filho, Alexandre, mancebo de
vinte annos apenas, elementos preciosos para este levar a cabo a impresa
por elle concebida. Deixava-lhe um exercito numeroso e aguerrido,
generaes habeis e thesouros accumulados para aquelle fim.
Demosthenes conseguiu sublevar de novo as cidades á noticia da morte de
Philippe. Alexandre, que tinha acabado de submetter as tribus illyricas,
atravessou a Macedonia, a Thessalia, e chegando em frente de Thebas
atacou a cidade e tomou-a, arrasando-lhe em seguida os muros. Os Gregos,
aterrados, declaram-n'o, em Corintho, generalissimo e dão-lhe soccorros
para a invasão da Asia. Não o acompanharemos na sua marcha triumphal,
que determinou a destruição perpetua do Imperio dos Persas. A morte
surprehendeu-o em Babylonia (328) no meio dos seus ambiciosos sonhos de
grandeza e de monarchia universal. Este homem assombroso, que ao expirar
contava apenas 33 annos incompletos, intregou, no leito da morte, o seu
annel a Perdiccas. E quando os seus generaes lhe perguntaram a quem
deixava a corôa, respondeu:--Ao mais digno.
CAPITULO XIII
DESMEMBRAMENTO DO IMPERIO DE ALEXANDRE
Alexandre deixava:--sua mulher, Roxana, de quem houve um filho pósthumo,
Alexandre; um outro filho, bastardo, Hercules; um irmão imbecil,
Arrhideu; duas irmans, Cleopatra e Thessalonice; e sua mãe, Olympias. A
herança começou por ser attribuida ao filho posthumo do heroe e a
Arrhideu, ficando Perdiccas com uma auctoridade similhante á de ministro
supremo. Os diversos governos foram repartidos pelos generaes:
_Ptolomeu_, teve O Egypto; _Leonnato_, a Mysia; _Antigono_, a Phrygia, a
Lycia e a Pamphylia; _Lysimaco_, a Thracia; _Antipater_ e _Cratero_, a
Macedonia; _Eumenes_, a Cappadocia; _Laomédon_, a Syria; _Pithon_, a
Média; _Peucestes_, a Persida.
Pithon teve de suffocar em sangue uma revolta de 23:000 Gregos na
Alta-Asia; e, na Asia-Menor, Eumenes incontrou inesperada resistencia ao
tomar posse do seu governo da Cappadocia. Antigono recusou-se a
auxiliál-o, tendo Perdiccas de lhe prestar apoio com o exercito real.
Antigono é obrigado a fugir e acolhe-se á côrte de Antipater e Cratero.
Eumenes tem de fazer frente a todos tres, ao passo que Perdiccas avança
para o Egypto contra Ptolomeu, mas é morto pelos seus proprios soldados,
nas margens do Nilo. Então Antipater apodera-se da regencia e proscreve
Eumenes, cujos Estados são dados a Antigono (321). Mas Antipater morre
logo depois (320) deixando a regencia a Polysperchon. Eumenes liga-se na
Alta-Asia com os satrapas armados contra Seleuco de Babylonia, onde
Antigono o persegue (317), conseguindo havêl-o ás mãos e mandando-o
matar (316).
Ao mesmo tempo que os generaes se dizimavam entre si, a familia real
ia-se anniquilando a si propria. Olympias, ligando-se com Polysperchon,
fez morrer Arrhideu e sua mulher Eurydice; Roxana mandou matar Statira
ou Barsina, filha de Dario, e uma das mulheres de Alexandre. Cassandro,
filho de Antipater e rival de Polysperchon, cercou Olympias em Pydna, e,
havendo-a ás mãos, matou-a (315). Havendo-se já apossado de Itoxana e do
filho d'esta, casou com Thessalonice, irman do conquistador, e
estabeleceu assim as suas preterições á herança. Quasi toda a Grecia,
incluindo a Thessalia e a Macedonia, lhe obedeciam; Athenas cahiu sob o
poder de Demetrio de Phalera, que a administrou sábiamente durante dez
annos.
Pela morte de Eumenes, ficou a Asia a Antigono. Seleuco, governador de
Babylonia, cedeu-lh'a sem combate e refugiou-se na côrte de Ptolomeu, no
Egypto, a quem excitou á guerra. Ao mesmo tempo, Lysimaco na Asia-Menor
e Cassandro na Europa avançam contra Antigono, que pretendia reunir todo
o imperio de Alexandre. Demetrio, filho de Antigono, foi derrotado por
Ptolomeu, em Gaza (312); e a paz foi estipulada em 311.
A agonia da Grecia durou mais de um seculo. Em 280 houve uma terrivel
invasão de Barbaros. Os Gaulezes, seguindo o valle do Danubio,
devastaram a Macedonia e a Thracia. Foram expulsos em 278.
CAPITULO XIV
REDUCÇÃO DA GRECIA A PROVINCIA ROMANA
Em 251, Arato, banido de Sicyonia, refugiado em Argos, livrou a sua
cidade natal do tyranno que a opprimia, organizou em Sycionia uma
democracia temperada, e incorporou-a na liga achaica. Esta, que fôra até
ahi obscura, só teve importancia quando Arato lhe communicou o impulso
necessario para destruir a hegemonia macedonica e as tyrannias que
pezavam sobre as cidades do Peloponeso.
Arato aggregou á liga achaica Megalopolis, Mantinéa, Argos, Trezena e
outras cidades; combateu os Etolios; e arrancou aos Macedonios Corintho,
Athenas, Megara, Salamina. Em 229, a confederação contava como alliados
o maior numero dos Estados do Peloponeso, a Megarida, Salamina, e a
Attica. Esparta e a Laconia mantinham-se fóra da liga. A Beocia, a
Locrida, e a Thessalia, soffriam ainda o jugo dos Macedonios. A Etolia
era então alliada dos Acheus.
Foi n'este mesmo anno 229 que os Romanos puzéram o pé na Illyria.
Eil-os, pois, a caminho da Grecia. Já lhes estavam submettidas as ricas
cidades gregas da Italia Meridional (Grande Grecia), seguiram-se a estas
as da Sicilia, e dentro em breve a grande Syracusa reconhecia o seu
dominio.
Os grandes planos de Arato foram, porêm, contrariados pelos Espartanos.
Então Arato teve de chamar os inimigos da Grecia em seu auxilio.
Antigono Doson, rei da Macedonia, introu em Esparta, e a cidade de
Lycurgo cahiu para sempre.
Pela morte de Arato (213), Philopoemen, de Megalopolis, reorganizou a
liga e combateu a influencia romana. Mas a liga etolia declarou-se a
favor dos Romanos; e, em 197, os Gregos foram vencidos nas planicies de
Cynocephalos. Pouco depois, o consul Flaminio proclamou, em nome do povo
romano, a independencia local de todos os Estados Gregos, começando
assim a acostumál-os ao protectorado romano. Em 189 foi destruida por
estes conquistadores a liga dos Etolios. Em 183 os, Romanos
apoderaram-se de Philopoemen, e condemnaram-n'o á morte pela cicuta. Em
168 Paulo Emilio alcançou a victoria de Pydna, que destruiu o poder da
Macedonia. E finalmente em 146 a Grecia foi reduzida a provincia romana,
com o nome de _Provincia da Achaia_.
FIM
* * * * *
Os Mysterios da Inquisição
POR
F. Gomes da Silva
Obra illustrada a cores
POR
MANUEL DE MACEDO E ROQUE GAMEIRO
Sob o titulo *Os Mysterios da Inquisição* condensam-se variadissimos
factos historicos, desentranham-se os horrores d'epochas passadas,
escalpellam-se figuras d'outros seculos, investigam-se particularidades
estupendas, encadeiam-se acontecimentos dispersos e tenebrosos,
enaltecem-se as grandes virtudes, faz-se rebrilhar a verdade, e põem-se
em relêvo todas as personagens que entram n'este grande drama, em que
vibram commoções da maior intensidade e affectos do mais exaltado amor.
O romance *Os Mysterios da Inquisição* constará de 3 volumes de grande
formato. A distribuição será feita semanalmente, em fasciculos de 3
folhas ou 24 paginas com uma gravura a côres, pelo preço de 60 réis, ou
em tomos de 15 folhas ou 120 paginas com 5 gravuras, por 300 réis.