Das leis de Lycurgo eram umas de caracter politico, as outras de ordem

civil. As primeiras mantiveram as relações estabelecidas entre os

Espartanos dominadores e os Laconios avassallados; conservaram os _dois

reis de Esparta_, regulando os direitos da realeza dividida pelas duas

casas. Os dois reis deviam pertencer á raça dos Heraclidas, possuindo

portanto a sua dignidade por direito hereditario; eram investidos nas

mais altas funcções do sacerdocio e da justiça; pertencia-lhes o

commando dos exercitos e o cuidado de velarem pela execução dos decretos

formulados pelo senado, e livremente acceites pela assembléa do povo. O

senado (_Gerusia_) compunha-se de 28 velhos, cuja edade minima fosse a

de 60 annos, pertencentes a familias nobres. A assembléa do povo

(_Ecclesia_), na qual tomavam parte todos os cidadãos de mais de 30

annos de edade, tinha o direito de adoptar ou de regeitar sem discussão

as propostas feitas pelo senado e pelos reis. Finalmente, o collegio dos

_Ephoros_ (cinco nomeados por um anno) era composto de magistrados que,

sendo nos primeiros tempos da sua creação simples governadores de

districtos e juizes nas questões civis, chegaram em tempos posteriores a

um alto grau de poder, superintendendo nos serviços de todos os

funccionarios, sem exceptuar mesmo os _Gerontes_ (senadores), e chegando

a tomar contas aos proprios reis.

As leis civis de Lycurgo assentaram sobre o principio da mais estricta

egualdade entre todos os cidadãos, a começar pela egualdade dos bens.

Dividiu elle o sólo da Laconia em 39:000 quinhões, sendo 9:000 para as

9:000 familias espartanas, ficando esses quinhões indivisiveis e

transmissiveis por direito de primogenitura, e 30:000 para os Laconios,

que talvez não passassem de usufructuarios. Os Hilotas não só não

tiveram quinhão na partilha, mas ainda foram obrigados a cultivar, como

servos e jornaleiros, as terras dos Dorios. As terras assim

distribuidas, com a condição de não passarem a mãos estranhas,

constituiam uma especie de feudos militares inalienaveis. Com o mesmo

pensamento de manter a egualdade, Lycurgo prohibiu o luxo; e, para

desacreditar a riqueza e tornál-a de um certo modo impossivel,

proscreveu toda a moeda de oiro e de prata, permittindo apenas a de

ferro, com pezo consideravel e diminuto valor, afim de obstar á

accumulação d'ella. Instituiu as refeições publicas subordinando-as á

mais apertada frugalidade. Prohibiu tambem o commercio, as artes e as

lettras; e ordenou que todos os cidadãos concorressem aos mesmos

exercicios physicos, afim de preparar rijos defensores para o paiz. No

mesmo intuito incaminhou a educação da mocidade, de modo que as creanças

pertenciam mais á republica do que a seus paes; as que nasciam fracas ou

disformes eram impiedosamente mortas, afim de não alterar o vigor e a

belleza da raça.

Assim Lycurgo constituiu sobre bases novas a cidade, a familia, a

propriedade, a educação. Ha muitas duvidas sobre o tempo justo em que

esta revolução se effectuou, tornando-se provavel que levasse a

consummar-se um longuissimo prazo, sendo muito mais resumida a obra de

Lycurgo.

Na opinião de muitos criticos é contestada a existencia do proprio

Lycurgo, sendo este nome apenas admittido como symbolo de uma serie de

revoluções politicas e sociaes, comprehendidas n'um periodo de tempo

indeterminado.

*Guerras de Messenia.*--Esparta, vendo-se livre das suas dissensões

internas, graças á rigorosa legislação de Lycurgo, resolveu continuar a

conquista do Peloponeso, e estabelecer a sua supremacia sobre os povos

que a rodeavam. De 860 a 815 A. C. occupou-se em reduzir as cidades

laconias que se haviam emancipado do seu jugo durante o periodo que ella

consumira na sua reorganização civil e politica. Depois voltou as suas

armas contra Messenia.

Eram os Messenios de raça dorica, como os Espartanos; e, bem como os

d'estes, os seus reis pertenciam ao tronco real dos Heraclidas. Muito

tempo viveram em boa paz os dois povos irmãos, prestando culto a Diana

no mesmo templo, erguido na fronteira commum, em memoria da sua origem

fraterna.

Talvez rivalidades de supremacia e de poderio começaram a dividir os

dois Estados, alimentando entre ambos hostilidades surdas durante mais

de meio seculo. Porfim, em 766, rebentou uma guerra aberta e geral. Foi

a _primeira guerra de Messenia_, a qual durou vinte annos.

Os Messenios depois de uma serie de desastres consultaram o oraculo de

Delphos, o qual, pela voz da pythoniza, lhes ordenou a immolação de uma

virgem pura, da familia real dos Epytidas, para acalmar a vingança dos

deuses infernaes. Aristodemo immolou sua filha para obedecer ao oraculo;

mas, vendo cahir Itoma, cuja defesa sustentára durante dez annos, e

perdendo a esperança de ver salva a patria, matou-se sobre o tumulo da

filha, tão impiedosa e barbaramente immolada. Os Messenios

submetteram-se porfim (723) e os Espartanos impuzeram-lhes condições que

os escravizavam.

Volvidos quarenta annos de jugo, rebentou a _segunda guerra de

Messenia_. Aristomenes, o heroe da independencia nacional, não sómente

bateu os Espartanos, mas chegou a penetrar de noite na cidade e a ir

collocar um trophéu n'um dos templos d'esta. Os Espartanos, aterrados,

vêem-se reduzidos a pedir um general aos seus rivaes, os Athenienses.

Estes inviam-lhes, por escarneo, um poeta obscuro, _Tyrteu_, o qual

perde successivamente tres batalhas, mas consegue reaccender a coragem

abatida dos Lacedemonios com os seus hymnos heroicos, acabando por

conduzil-os á victoria.

Aristomenes, trahido pelo seu alliado Aristocrates, rei dos Arcadios, é

vencido na renhida batalha das Trincheiras (680) e retira-se para o

monte Ira, onde prolonga por onze annos uma resistencia merecedora de

melhor exito. Porfim succumbiu na lucta pertinaz, e retirou-se,

preferindo o exilio á escravidão. Esparta submetteu de todo a Messenia,

reduziu os habitantes á condição dos hilotas, mas não conseguiu nunca

diminuir o odio implacavel dos opprimidos, os quaes lhe votaram uma

inimizade perpetua.

*Esparta desde a segunda guerra de Messenia até ás Guerras

Medicas.*--Seguiu-se para Esparta um longo periodo pacifico, de mais de

quarenta annos. Ao cabo d'elle, rompeu a lucta com os Arcadios, lucta

que durou quasi sessenta annos, terminando, cêrca de 600, pela

affirmação da supremacia espartana. Argos teve de renunciar á hegemonia

sobre o Peloponeso que lhe pertencêra de um modo fugitivo durante algum

tempo (768-740), depois de ter perdido, pela bravura do espartano

Othryades, a provincia de Cynuria e a cidade de Thyréa (550), e de ter

sido desbaratada perto de Tiryntho pelo rei Cleomenes (524). Os

episodios de todas estas luctas pertencem mais á poesia heroica do que á

Historia.

Os Argivos, depois dos seus desastres, e sentindo a sua humilhação,

tomaram por systema o conservarem-se afastados, d'ahi em deante, de

todas as impresas dirigidas pelos Espartanos, bem como estes se

satisfizeram com a honra de terem abatido o poderio dos seus rivaes. Nas

guerras geraes, em que intervinham todos os Estados do Peloponeso, os

Espartanos determinavam as forças que cada Estado tinha de fornecer ao

exercito confederado, presidiam ao conselho da Liga, e exerciam o

commando superior das tropas. Um pouco antes das Guerras Medicas, cerca

de 690 A. C., eram o povo mais poderoso da Grecia continental.

CAPITULO IV

ATHENAS. LEGISLAÇÃO DE SOLON. OS PISISTRATIDAS. A DEMOCRACIA ATHENIENSE

É capital a differença entre os Espartanos e os Athenienses, se os

considerarmos na escolha da sua fórma de governo: ao passo que os

primeiros conservam durante seculos a constituição de Lycurgo, os

segundos passam vezes sem conto de uma para outra constituição,

experimentando todas e não os satisfazendo nenhuma.

Com a morte corajosa de Cedro (1068 A. C.) acabou a realeza dos tempos

heroicos, e acabou tambem, ou foi modificada a realeza propriamente

dita. Os Athenienses escolheram então na familia dos Medontidas

(Codridas) um magistrado vitalicio, chamado _archonte_, que exercia

funcções régias, mas privado das principaes prerogativas da realeza.

Esta revolução, que a poesia tradicional cercou de lendas, não pode ser

explicada por ellas, em boa critica; e parece mais provavel que fosse

antes uma victoria das familias aristocraticas sobre o poder supremo.

Essa aristocracia (_Eupatridas_) formada dos chefes das antigas tribus

pelasgicas e dos das diversas emigrações eolias e jonias ficou d'ahi em

seguida senhora absoluta do Estado. Instituindo uma sombra de realeza em

logar da realeza antiga, attribuiram, por deferencia, a nova

magistratura a Médon, filho de Codro, e conservaram-a em doze dos seus

descendentes, sem comtudo deixarem de fazer ao archontado a mesma guerra

que haviam feito á realeza. Por fim, cêrca do anno 752, deram profundo

golpe no archontado perpetuo, reduzindo-lhe a duração a um decennio.

Succederam-se septe archontes decennaes, até que, em 684, o archontado

se tornou annual e composto de nove archontes tornando-o assim

accessivel a todas as familias nobres e aos muitos elegiveis que

ambicionavam tão alto logar. Nas mãos d'elles estavam todos os poderes:

o politico, o judiciario, o civil, o religioso, o militar. Athenas era

uma oligarchia pura, governada pelas familias nobres.

As classes baixas foram então muito opprimidas, tornando-se, em breve,

ameaçador o seu descontentamento. Muitos nobres, despeitados com os seus

rivaes e querendo hostilizál-os, procuraram apoio na opposição popular e

deram-se ao incargo de regularizál-a para a fazerem servir aos seus

fins. Entre essa nobreza contavam-se as grandes familias athenienses dos

Alcmeonidas e dos Pisistratidas. O povo, incitado e aconselhado por

elles, reclamou um codigo de _leis escriptas_, porque até ahi apenas

havia costumes e leis oraes que os Eupatridas, unicos juizes,

interpretavam ao sabor das suas paixões ou dos seus interesses.

A nobreza, assim atacada nos seus baluartes, condescendeu com as

aspirações do povo e serviu-se d'essas mesmas pretenções para comprimir

a emancipação do espirito popular. Incarregou um dos seus, o archonte

Dracon (620), de redigir a legislação nova. As leis de Dracon eram

severissimas na applicação das penalidades, sendo castigadas com a morte

até mesmo pequenas faltas. A sua dureza inflexivel tornou-se proverbial,

e ainda hoje se diz _lei draconiana_ de alguma lei excessivamente

severa. D'ellas disse um orador grego, que tinham sido escriptas com

sangue.

O effeito de taes rigores foi contraproducente. O povo atacou os

Eupatridas, e estes mesmos se guerrearam uns aos outros infraquecendo

assim o seu poder em luctas fratricidas. Levantou-se então em impetos

desesperados a lucta dos devedores contra os seus poderosos credores,

lucta analoga á que insanguentou os primeiros tempos de Roma, antes da

sua constituição definitiva.

A aristocracia, quando se viu á beira do abysmo e sem esperança de

salvar-se, procurou um homem de alta consideração publica, que pudesse

servir de arbitro e de medianeiro. Incontrou-o em _Solon_, que foi

elevado á dignidade de archonte e depois dictador supremo e legislador

(593 A. C.).

*Legislação de Solon.*--A constituição de Solon é um complexo de

elementos aristocraticos e de elementos democraticos, como vamos vêr.

Solon começou por facilitar o pagamento das dividas e restituiu a

liberdade a todos os devedores. Para attingir o primeiro resultado,

lançou mão de um recurso que a moderna economia publica decerto não

approva, mas que foi vulgar nas sociedades politicas dos antigos

tempos:--estabeleceu uma especie de bancarrota legal; deduziu do capital

das dividas os juros já pagos, e para o re-imbolso do resto elevou o

valor nominal da moeda.

Recusou, porêm, aos pobres a partilha das terras que elles reclamavam, e

que, para muitos, não era mais do que uma restituição dos proprios bens;

e procedia assim, porque o seu intento, sendo o de abolir uma

aristocracia oppressora, não era comtudo o de estabelecer uma democracia

pura.

Atacando a aristocracia de raça, instituiu no logar d'ella a

aristocracia da riqueza, dando assim á constituição do Estado uma base

nova. Com este fim, dividiu a população em quatro classes:--á 1.ª

pertenciam os cidadãos que tinham um rendimento annual de 500

_medimnos_, isto é, que recolhiam nas suas proprias terras 500 medidas

de productos solidos ou liquidos (a estes cabiam os grandes cargos, taes

como o archontado, o commando em chefe do exercito ou da esquadra); á

2.ª, os que possuiam uma colheita de 300 medimnos, sufficiente para

fornecer dois cavallos de batalha, um para o amo e outro para o

escudeiro; á 3.ª pertenciam aquelles cujo rendimento annual era de 200

medimnos, e que apresentavam uma parelha de muares ou de cavallos, ou

uma junta de bois, e podiam servir nas tropas pezadas (_hoplitas_); á

4.ª competiam os que desfructavam um rendimento inferior a 200 medimnos,

e serviam como tropa ligeira ou marinheiros, sendo dispensados de todos

os impostos (tinham direito de voto nas assembléas do povo e nos

tribunaes, mas eram excluidos de todas as magistraturas e dos

commandos).

O governo compunha-se de quatro corpos politicos:--os _archontes_, o

_senado_, a _assembléa do povo_, e o _areopágo_.

Os archontes, em numero de nove, eram eleitos annualmente e assim

classificados: o 1.º archonte, que dava seu nome ao anno; o

archonte-rei, successor do antigo rei-pontifice hereditario; o

archonte-general; e os seis guardas da lei (_Thesmothétas_). Eram todos

responsaveis perante a assembléa do povo.

O senado compunha-se de quatrocentos cidadãos das tres primeiras

classes, eleitos annualmente pelas tribus e posteriormente tirados á

sorte, mas submettidos antes d'isto a provas rigorosas.

A assembléa do povo era formada pelos vinte mil Athenienses que

compunham a cidade politica, e estava longe de constituir uma verdadeira

democracia. Não passava de um grande corpo privilegiado.

O areopágo, essencialmente aristocratico, compunha-se de archontes que

tinham findado o periodo de exercicio do seu cargo. Era uma especie de

senado judiciario e politico.

Solon, ao mesmo tempo que regulou a ordem politica, legislou tambem para

a vida civil. Attendeu ás condições da familia, ao casamento, dotes,

tutella de menores, direito de testar, ordem de successões, etc.

Só não legislou para o caso de parricidio, pois não admittia que tal

crime pudesse ser commettido.

Lycurgo tinha proscripto o trabalho; Solon animou-o e constituiu-o n'uma

obrigação, punindo a ociosidade. Nas suas leis civis o legislador

atheniense não sacrificou o homem ao cidadão, nem a moral á politica,

como fez o legislador espartano.

*Os Pisistratidas.*--Apezar da promulgação das leis de Solon, as

dissidencias entre as diversas facções recrudesceram; os nobres

pretendiam a preeminencia absoluta; o povo, não satisfeito com o governo

mixto de Solon, queria transformál-o n'uma pura democracia.

Á frente do partido popular estava um homem habil, pertencente á

aristocracia da riqueza, _Pisistrato_. A influencia que elle exerceu na

cidade chegou a contrabalançar a dos magistrados (565).

Pisistrato não era violento, nem exercia rudemente a sua tyrannia;

protegia até as artes e as lettras. Em 560, simulando que o haviam

querido assassinar no meio da praça publica, conseguiu que lhe fosse

dada uma guarda para sua garantia pessoal. Com essa guarda, porêm,

desarmou os cidadãos, poz em fuga os seus inimigos, e apoderou-se da

cidadella e do governo (560).

No anno seguinte, foi expulso pelos chefes das outras facções, _Lycurgo_

e _Megacles_; mas conciliando-se com este ultimo, ajudado por elle,

poude voltar a Athenas (556). Casou então com a filha do seu alliado

Megacles, chefe dos Eupatridas, mas foi outra vez exilado por este, em

547. Voltou dez annos depois, á frente de um corpo de mercenarios, que

ficaram sendo a sua guarda habitual, e conservou-se no poder até ao fim

da vida. Soube, no emtanto, honrar, se não legitimar, a sua usurpação

com uma gerencia habil e prospera.

Succederam-lhe (528) seus dois filhos, _Hipparco_ e _Hippias_, os quaes

governaram juntos e perfeitamente tranquillos até 514. N'este anno, dois

moços athenienses, _Harmodio_ e _Aristegiton_, movidos por uma violenta

animosidade contra os dois irmãos, combinaram matál-os. No dia da festa

das grandes Panathenéas, dirigiram-se ao Ceramico, levando os seus

punhaes escondidos sob ramos de murta. Hipparco foi morto; mas Hippias

salvou-se e impoz ainda durante quatro annos aos Athenienses, um

despotismo cruel. A poderosa familia dos Alcmeonidas, que estava

exilada, logo que achou momento opportuno, resolveu-se a derrubar o

ultimo dos Pisistratidas. Procurando o apoio dos Espartanos e auxiliados

por um exercito dorico, intraram em Athenas e constrangeram o tyranno a

uma capitulação que o exilava. Este retirou-se para a corte da

Persia,--e, vinte annos depois, incontramol-o combatendo a sua patria

nas planicies de Marathona.

*A democracia atheniense.*--A queda de Hippias animou os Eupatridas,

dirigidos por _Isagoras_, a intentarem o restabelecimento da oligarchia

das familias nobres. Mas á frente dos Alcmeonidas estava _Clisthenes_,

archonte eponymo ou primeiro archonte, que reformou as leis de Solon

tirando-lhes os elementos aristocraticos, e foi o verdadeiro fundador do

regimen popular em Athenas.

Dividiu a população em dez tribus, tendo cada uma dez _démos_ ou

districtos, e n'esta nova organização geographica e politica estabeleceu

direitos eguaes para todos os cidadãos. Cada dois démos formavam uma

_naucraria_, á qual incumbia armar e equipar uma triréme e fornecer um

_epheta_ (juiz) ao tribunal criminal do archonte-rei. Elevou a

quinhentos o numero dos senadores, eleitos annualmente pelas dez tribus,

sendo cincoenta por cada tribu. O archontado, continuando a ser apanagio

dos maiores contribuintes, tornou-se cada vez mais um cargo puramente

honorifico. A auctoridade do areopágo foi limitada na mesma proporção.

As assembléas do povo reuniram-se com mais frequencia, adquirindo este

uma acção directa e preponderante nos negocios publicos. Todo o cidadão,

quando chegava aos trinta annos, tinha voto consultivo e deliberativio

na assembléa geral e era apto para juiz ou jurado.

Clisthenes forneceu, egualmente, ao povo uma arma nova e poderosissima,

o _ostracismo_. Consistia este no direito de exilar por dez annos

(honrosamente) todo o cidadão que, pelo seu poder, pela sua grande

consideração, ou pela sua excessiva influencia, fizesse perigar a

egualdade civil, a constituição democratica, e as liberdades publicas.

Quando a conveniencia de exilar um cidadão n'estas condições era

apresentada ao povo, este escrevia n'uma concha (em grego _ostrakon_; e

d'aqui a palavra _ostracismo_) o nome d'aquelle que tinha de ser banido.

Eram necessarios, pelo menos, seis mil suffragios, para a sentença poder

ter execução.

O ostracismo não era uma pena applicada a um culpado; era uma

demonstração de honra e de consideração, e ao mesmo tempo uma medida de

prudencia contra a possibilidade de uma tyrannia.

Isagoras, chefe da facção aristocratica, pediu soccorro aos Espartanos,

a exemplo do que haviam feito os Alcmeonidas, a cuja frente estava agora

Clisthenes, e elles mandaram-lhe o rei Cleomenes á frente de um

exercito. Clisthenes foi proscripto com mais septecentas familias

athenienses, e Isagoras submetteu a cidade a um conselho oligarchico de

trezentos Eupatridas. O povo sublevou-se, tomou a cidadella, expulsou os

Espartanos e Isagoras, abriu as portas da patria aos banidos, e

confirmou as leis de Solon com as reformas de Clisthenes.

D'esta fórma a democracia triumphou, porque o povo attingira um elevado

grau de cultura politica e tinha a consciencia e o sentimento da sua

força, e da sua liberdade. Com a victoria do novo systema de governo

começou o periodo da grandeza e supremacia de Athenas. Decorrendo apenas

vinte annos desde a queda de Hippias até ás Guerras Medicas, e sendo

elles quasi completamente occupados com dissensões intestinas e com

guerras externas contra os Beocios, os Eginetas, os Chalcidios e os

Espartanos, Athenas conseguiu pelo acerto da sua politica e pelas

vantagens das suas armas dilatar por toda a Héllada a sua influencia

politica e o seu prestigio. Apossando-se da Eubéa, do Chersoneso da

Thracia, e da ilha de Lemnos, que Milciades conquistou, tornou-se uma

formidavel potencia maritima, potencia que _Themistocles_ ainda

ingrandeceu mandando construir 200 navios com o producto das minas de

prata do Laurion, como em seu competente logar diremos.

A democracia atheniense, com todas as suas consequencias, durou 200

annos, salvo algumas perturbações; e tão longa duração explica-se pela

comprehensão que todos os cidadãos tinham da vida politica e pelas

disposições naturaes do povo, de modo que a nova fórma de governo não

era um accidente, mas sim uma constituição profundamente radicada. O

povo comprehendia que a sua soberania propria estava na soberania da lei

e na inviolabilidade d'esta, e não tolerava o arbitrio individual.

_Aristides_, uma das mais puras individualidades entre os estadistas de

todos os povos, poz o remate ás instituições de Solon, abrindo a

carreira do archontado e das outras funcções publicas a todos os

cidadãos, sem privilegios de nascimento nem de riqueza.

*Os septe sabios da Grecia.*--Por esta designação vulgar, ficaram sendo

conhecidos uns homens eminentes da Grecia, a quem o povo attribuia

sentenças e maximas concisas de verdadeira sabedoria experimental e

practica. Eram os representantes da sciencia e da experiencia moral,

politica e social, do seculo VI. Ha, porêm, confusão e divergencia nos

nomes d'elles, e nas sentenças que lhes são attribuidas. Segundo a

maioria das versões, os septe sabios eram: os quatro philosophos da

Grecia asiatica, _Thales_, _Pittaco_, _Bias_ e _Cleobulo_, de Lindos, na

ilha de Rhodes; e os tres da mãe-patria, _Solon_, de Athenas; _Chilon_,

de Esparta; e _Periandro_, de Corintho, sendo ás vezes substituido este

ultimo por _Pherecydes_, de Scyros, ou _Myson_, de Laconia.

*Escravidão e servidão.*--A escravidão na Grecia data dos tempos

pelasgicos, como o provam os monumentos cyclopicos, demonstração

evidente de que os homens empregados em erguêl-os viviam nas condições

de uma escravidão durissima. Ha vestigios d'ella:--nas lendas dos tempos

primitivos, como nos mythos, de Apollo, escravo de Admetto, e de

Hercules, duas vezes escravizado; no tributo de mancebos e donzellas,

imposto por Minos aos piratas athenienses; na constituição das

republicas cretenses; e, finalmente, nos proprios poemas homericos.

No começo dos tempos historicos, os Thessalianos, submettendo os povos

das regiões onde foram estabelecer-se, reduziram-n'os, pelo confisco das

suas propriedades, a um regimen analogo á servidão da gleba. Estes

servos tiveram o nome de _penestes_. Durante a guerra do Peloponeso, um

cidadão de Pharsalia poz 1:200 penestes á disposição de Athenas.

Os Dorios instituiram no Peloponeso as mesmas fórmas de servidão, e,

quando terminaram a conquista da Laconia, dividiram os indigenas, em

duas grandes classes de servos: os _periecos_ e os _hilotas_.

Os _periecos_ tinham-se submettido voluntariamente, e foram-lhes

deixadas as suas cidades e uma parte dos campos. Tiveram 30:000 lotes na

partilha attribuida a Lycurgo. Pagavam tributo, não tinham direitos

politicos; eram, comtudo, de condição livre, e tomavam parte nos jogos

olympicos. Dedicavam-se ao trabalho, ao commercio, á industria: teciam

ricos mantos de purpura, faziam calçado luxuoso, fabricavam armas

magnificas, obras cinzeladas, etc. Houve entre elles alguns artistas

muito notaveis. Nos exercitos, formavam as guardas ligeiras; nas armadas

eram marinheiros peritos,--e alguns periecos houve que as commandaram,

nas guerras maritimas com os Athenienses. Finalmente, os periecos tinham

escravos seus para os trabalhos agricolas.

Os _hilotas_ eram verdadeiros escravos; não constituiam uma sociedade

áparte e vivendo a sua vida propria, como os periecos. Eram inteiramente

submettidos aos Espartanos. Cultivavam as terras, guardavam os rebanhos,

trabalhavam nos serviços domesticos, e, na marinha, eram remadores.

Desprezavam-n'os, tratavam-n'os barbaramente, chegando a ponto não só de

serem açoitados todos os annos para se lhes lembrar a sua abjecção, como

tambem de serem caçados e mortos (_eryptia_), em verdadeiras correrias

pelos campos, como bestas-feras. O numero dos hilotas dos dois sexos,

que havia na Laconia, elevava-se a 200:000, os quaes juntos com 120:000

periecos formavam uma população dez vezes maior que a dos Espartanos.

Historia da Grecia · 第 2 / 6 段