Em Athenas, o heroe nacional era _Theseu_ filho de _Egeu_. F

E-text prepared by Pedro Saborano

*Notas de transcrição:*

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1902.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos

alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura

do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.

No original havia uma errata. Nesta adição corrigimos os erros

apresentados nessa errata.

PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO

PARA

Portuguezes e Brazileiros

BIBLIOTHECA DO POVO

E DAS ESCOLAS

CADA VOLUME 50 REIS

Historia da Grecia

POR

J. FERNANDES COSTA

Capitão de Artilharia

Cada volume abrange 64 paginas, de composição cheia, edição

estereotypada,--e fórma um tratado elementar completo n'algum

ramo de sciencias, artes ou industrias, um florilegio litterario,

ou um aggregado de conhecimentos uteis e indispensaveis,

expostos por fórma succinta e concisa, mas clara, despretensiosa,

popular, ao alcance de todas as intelligencias.

LISBOA

SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Adm. Justino Guedes

Largo do Conde Barão, 50

Agencias: PORTO--Largo dos Loyos, 47,1.º

RIO DE JANEIRO--R. da Quitanda, 38

1900

NUMERO 131

INDICE

Noções geographicas.

Noções mythologicas.

CAPITULO I--Tempos legendarios ou primitivos. Tempos heroicos e

mythicos dos Hellenos.

CAPITULO II--Tempos historicos.

CAPITULO III--Esparta. Legislação de Lycurgo. Guerras de Messenia.

CAPITULO IV--Athenas. Legislação de Solon. Os Pisistratidas. A

democracia Atheniense.

CAPITULO V--As Guerras Medicas.

CAPITULO VI--Hegemonia de Athenas.

CAPITULO VII--O seculo de Pericles.

CAPITULO VIII--Guerra do Peloponeso.

CAPITULO IX--Tyrannia dos Trinta em Athenas. Restabelecimento da

democracia.

CAPITULO X--Hegemonia de Esparta.

CAPITULO XI--Decadencia de Esparta. Hegemonia de Thebas.

CAPITULO XII--Supremacia da Macedonia.

CAPITULO XIII--Desmembramento do Imperio de Alexandre.

CAPITULO XIV--Reducção da Grecia a provincia romana.

HISTORIA DA GRECIA

NOÇÕES GEOGRAPHICAS

_Grecia_ foi o nome dado pelos Romanos ao paiz chamado _Héllada_ pelos

seus naturaes. Tal nome coube primeiramente a uma pequena divisão do

Epiro; depois applicou-se á Thessalia, aos paizes ao sul das Thermopylas

e ao Peloponeso, vindo, com o andar do tempo, a comprehender todo o

Epiro, a Illyria na sua maior parte e a Macedonia. Mas o vocabulo não

era conhecido pelos habitantes do paiz, do mesmo modo que estes se não

designavam pelo nome de _Gregos_, com que ficaram memorados na Historia.

Na lingua grega a Grecia era chamada _Héllada_, como dissemos,

_Hellenia_ ou paiz dos _Hellenos_. São ignorados os motivos pelos quaes

prevaleceram os nomes--_Grecia_ e _Gregos_--empregados na lingua romana.

A palavra Héllada (em grego _Hellas_) designou primitivamente um pequeno

districto da Phthiotida, na Thessalia. D'ahi, os Hellenos espalharam-se

gradualmente por todo o resto da Grecia,--mas ainda no tempo de Homero o

seu nome não era commum a toda a nação grega. O grande poeta designa os

Gregos pelos nomes de Danaos, Acheus, ou Argivos; e imbora na _Iliada_,

cant. II, v. 530, appareça uma vez a designação de _Pan-Hellenos_, é

ella tida como espuria pelos commentadores antigos.

Entretanto, nos tempos mais remotos da Historia Grega, todos os membros

da raça hellenica, vangloriando-se de um antepassado commum, _Hellen_,

eram conhecidos pelo mesmo nome, e a todos os districtos em que se

estabeleciam davam o nome generico de Héllada, o qual significava,

assim, «terra dos Hellenos» e não uma região qualquer definida por

limites geographicos precisos. Ora, n'este sentido generico, as mais

distantes colonias hellenicas pertenciam á Héllada; e d'esse modo as

cidades de Cyrena na Africa, de Syracusa na Sicilia, e de Tarento na

Italia, formavam partes tão essenciaes da Héllada como as cidades de

Athenas, de Esparta, e de Corintho.

Este é o sentido mais amplo do termo, o qual se empregou tambem mais

restrictamente para designar todo o paiz ao sul do Golpho Ambracico e da

foz do rio Peneu, até ao isthmo de Corintho. N'esta significação era o

paiz designado pelo nome de _Héllada contínua_ e, segundo os modernos,

pelo de _Héllada propria_.

Poremos, comtudo, de parte este nome classico e erudito; e adoptaremos

para toda a Peninsula o de _Grecia_, consagrado pelos seculos e pelo

consenso unanime dos historiadores.

A Grecia é a mais oriental das tres peninsulas em que o continente

europeu é recortado ao sul. A sua extensão superficial está longe de

egualar-se á do nosso pequeno paiz, e não é por ella decerto que nos

cumpre avaliar a extraordinaria importancia que os filhos d'essa região

privilegiada tiveram na historia do mundo.

Presta-se o paiz, pelo muito accidentado das suas montanhas, ao

estabelecimento de pequenos Estados analogos aos cantões da Suissa,

assim como pelo arrendado do seu vasto littoral se presta a uma grande

expansão de commercio maritimo, facilitado ainda pela proximidade da

Asia, da Italia, e do Egypto.

Ao norte, a Peninsula é cortada, do Mar Negro ao Mar Adriatico, pela

cadeia de montes que, a leste, toma o nome de _Hemo_ ou _Balkan_, e em

cujas vertentes meridionaes assentam a _Illyria_, a _Macedonia_, e a

_Thracia_.

Ao sul da Illyria e da Macedonia ficava a _Grecia septentrional_,

comprehendendo o _Epiro_ e a _Thessalia_, separados de norte a sul pelo

monte _Pindo_. Ao sul do Epiro incontravam-se os _Molossos_, cuja

capital era _Ambracia_ (Arta), banhada pelas aguas do golpho do mesmo

nome, e ao norte, na fronteira da Macedonia, _Dodona_, celebre pelo seu

oraculo.--A Thessalia é atravessada pelo rio _Peneu_, o qual fórma o

valle de _Tempe_, entre os montes _Olympo_ e _Ossa_. Entre as cidades,

cumpre citar:--_Larissa_, banhada pelo Peneu, e antiga capital dos

Pelasgos; _Iolcos_ e _Lamia_; _Pharsalia_, e, perto d'esta,

_Cynocephalia_ («Cabeça de Cão»), celebre campo de batalha. A cadeia de

montanhas meridional chama-se monte OEta, e n'elle existe uma

estreita garganta, o celebre desfiladeiro das _Thermopylas_ («portas

quentes»), unica passagem natural da Thessalia para a Héllada.

Ao sul da Thessalia e do Epiro (isto é, da Grecia septentrional) ficava

a _Héllada propria_ ou _Grecia central_. Compunha-se ella dos seguintes

estados: _Attica_, _Beocia_, _Phocida_, _Dórida_, _Lócrida_, _Etulia_,

_Acarnania_, _Megarida_.

Na _Attica_ ha a mencionar o monte _Penthelico_, celebre pelo seu

marmore, e o monte _Hymetto_, afamado pelo seu mel, e ambos elles

contrafortes do OEta. As cidades principaes eram: a capital _Athenas_;

o porto do _Pireu_ na peninsula de _Munychia_; _Eleusis_, famoso centro

do culto de _Demeter_ (_Ceres_) e dos mysterios. Eram tambem na Attica

as celebres planicies de _Marathona_. Em frente de Athenas, no Golpho

Saronico, incontrava-se a ilha de _Egina_, famosa pela sua grande

navegação, pela riqueza e cultura dos seus habitantes, e ao norte d'ella

a ilha de _Salamina_, celebre pelo combate naval que d'ahi tirou o nome.

Na _Beocia_ havia quatorze cidades, reunidas em liga, a cuja frente se

encontrava _Thebas_,--a das septe portas,--com a fortaleza _Cadméa_.

D'entre as outras ficaram memoraveis pelas guerras de que foram theatro:

_Platéa_, _Délio_, _Coronéa_, Leuctra, _Cheronéa_.

Na _Phocida_ estava o centro da Grecia e até mesmo, segundo então se

julgava, o centro de toda a Terra, o templo de _Delphos_. Esta cidade

era celebre pelo seu oraculo de Apollo, pela sumptuosidade dos seus

edificios, e pela sua fonte de _Castalia_, cansagrada ás Musas.

A _Dórida_ era uma pequena região montanhosa, tendo apenas quatro

cidades, tão insignificantes que não vale a pena citar-lhes os nomes.

Na _Lócrida_ é digno de menção o porto de _Naupacta_ (hoje _Lepanto_), e

na _Etulia_ a inexpugnavel cidade de _Thermon_.

Finalmente, na _Acarnania_, ao sul do Golpho de Ambracia, notava-se:--o

promontorio de _Accio_, celebre pela victoria de Augusto (31 A. C.), e

em cuja proximidade depois se fundou _Nicopolis_; a cidade de _Leucate_,

e a de _Stratos_; etc. Na _Megarida_, distinguia-se a cidade de

_Megara_, proximo da costa, a porta do isthmo, com dois portos, um no

Golpho Saronico, outro no de Corintho.

Resta-nos falar da terceira grande divisão geographica de toda a

Peninsula Grega, o _Peloponeso_ (hoje _Moréa_). Constitue ella por si só

uma peninsula secundaria da principal, á qual se liga por uma estreita

lingua de terra, o isthmo de Corintho. Subdividia-se nos seguintes

Estados: a _Arcadia_, a _Laconia_, a _Messenia_, a _Achaia_, a

_Argolida_, a _Elida_.

Na _Arcadia_ havia, alêm das cidades antigas de _Mantinéa_ e de _Tegéa_,

_Megalopolis_ e outras localidades de somenos importancia.

Na _Laconia_, parte mais meridional de toda a Grecia, notava-se, alêm da

capital _Esparta_ (_Lacedemonia_), _Amycléa_ antiga cidade dos

Tyndaridas, celebre pelo culto ahi prestado a Apollo, _Sellasia_,

_Hélos_, e o porto _Githio_.

Na _Messenia_, separada da Laconia pelo monte _Taygeto_, havia a antiga

fortaleza de _Ithoma_, a cidade maritima de _Pylos_ (_Navarino_), a

capital _Messena_, e a cidade dorica de _Steniclaros_.

A _Achaia_, no Golpho de Corintho, continha as cidades de _Patras_, de

_Egio_, de _Hélice_, e mais nove, formando todas uma liga, e tinham para

centro o templo de Zeus (Jupiter) em _Egio_. A liga _achaica_ ou _achéa_

comprehendia, alêm d'estas doze cidades, a de _Sicyonia_, altamente

commercial, e a de Corintho, opulenta tanto pelo seu commercio como pela

sua actividade industrial e artistica, e notavel pela sua forte

cidadella (_Acrocorintho_).--Ao sueste, achava-se a _Phliasia_, pequena

republica com a cidade de _Phlionte_.

Na _Argolida_ sobresahiam a capital _Argos_, com a sua cidadella

_Larissa_--do tempo primitivo dos Pelasgos, _Mycena_ e _Tiryntho_, onde

se vêem ruinas das muralhas cyclopicas; e, alêm d'estas tres cidades de

maior ou menor importancia, muitas localidades, algumas celebres na

Historia da Mythologia, taes como: _Neméa_ (jogos nemeus), _Lerna_

(hydra de Lerna), _Epidauro_, _Trezena_, _Hermione_, _Nauplia_, a ilha

de _Calauria_, etc.

Na _Elida_, região sagrada, havia, alêm da capital _Elis_, a floresta de

_Altis_ na planicie de _Olympia_, banhada pelo _Alpheu_, onde de quatro

em quatro annos se celebravam os famosos _jogos olympicos_, e o

magnifico Templo de Zeus, com a estatua do Rei dos Deuses feita de

marfim e oiro, pela arte sublime e prodigiosa de Phidias.--A região ao

sul de Olympia chamava-se _Triphylia_; e n'ella ficava a _Pylos_, de

Nestor.

* * * * *

Eram estes os Estados do continente ou terra-firme. Ha, porêm, ainda a

considerar um grande numero de ilhas. Citaremos, as mais importantes:

No mar de oeste ou Mar Jonio: _Corcyra_ (hoje _Corfú_), talvez a celebre

ilha dos _Pheacios_, residencia do rei _Alcinoo_, e que Homero cantou;

_Leucate_, com um sanctuario de Apollo; _Ithaca_ (hoje _Thiaki_), morada

de Ulysses; _Cephallenia_ e _Zacyntho_, d'onde veio a colonia hespanhola

de Sagunto.

No mar do sul: _Cythera_, antiga colonia phenicia, d'onde talvez lhe

proveio o culto da Venus Aphrodite (a _Astarte_ phenicia); _Creta_

(_Candia_), com o seu monte _Ida_, afamada pela legislação de Minos, e

com as cidades de _Cydonia_, de _Gortyna_, de _Cnossa_ (labyrintho),

entre outras, que Homero faz chegar ao numero de cem; _Chypre_,

abundante em azeite e vinho; _Rhodes_ (a Ilha das Rosas) com a celebre

estatua de Hélios (_colosso de Rhodes_) no porto da sua capital.

No mar de léste ou Mar Egeu, tambem chamado _Archipelago_, as ilhas eram

tão numerosas, que este ultimo nome do mar ficou designando todos em que

as ilhas são muitas, ou, mais restrictamente ainda, todos os

agrupamentos de ilhas. As principaes eram: _Eubéa_ (_Negroponto_), com

as cidades de _Eretria_, de _Chalcis_ (ligada á Beocia por uma ponte),

de _Carysta_, afamada pelos seus marmores, e de _Oréa_; _Scyros_,

pertencente aos Athenienses; _Lemnos_, celebre pelo culto de Héphaistos

(Vulcano); _Thasos_; _Imbros_ e _Samothracia_, ambas conhecidas pelo

antigo culto mysterioso dos _Cabiras_; as _Cyclades_, grupo assim

chamado por formar um circulo de ilhas em torno da ilha de _Délos_,

consagrada ao Sol. Em Délos havia o grande sanctuario de Apollo. E entre

as outras Cyclades, cumpre mencionar: _Paros_ (marmores), _Andros_,

_Céos_, _Melos_, e _Naxos_. A léste das Cyclades, ficavam as _Sporades_,

mais ligadas já ao continente asiatico, sendo entre ellas notaveis:

_Tenédos_; _Lesbos_, com a cidade de _Mitylene_; _Chios_; _Samos_,

patria de _Pythagoras_; _Cos_, pátria de _Apelles_ e de _Hippocrates_;

_Patmos_, depois celebre por ahi ter residido o evangelista S. João.

NOÇÕES MYTHOLOGICAS

*1.º Theogonia grega.*--A Terra (_Gé_) gerou por si mesma o Céu

(_Urano_) e o Mar (_Ponto_). Da alliança entre o Céu e a Terra nasceram

os _Cyclopes_ e os _Titans_.

Os cyclopes forjavam os raios. Dos Titans, uns vagueavam pela Terra como

o _Oceano_, deus marinho, cujos filhos e filhas eram os rios e as

fontes, outros esplendiam nas regiões ethéreas ou cruzavam o espaço,

como _Hypérion_ (luz primitiva), _Théia_ (claridade diurna), _Hélios_

(sol), _Seléné_ (lua), _Eos_ (aurora), o céu nocturno com as suas

estrellas (_Léto_ e _Astéria_), os quatro ventos (_Zéphyro_, _Bóreas_,

_Noto_, _Euro_); outros representavam os destinos e as tendencias do

espirito humano, como _Japeto_ e seus filhos, _Atlas_, _Menecio_,

_Prometheu_ e _Epimetheu_ (_Prometheu_ que roubou aos deuses o lume e

por isso Zeus o amarrou n'um rochedo onde um abutre lhe devorava as

intranhas; _Epimetheu_, marido de _Pandora_, de cuja boceta sahiram

todas as miserias da Terra ficando-lhe só a esperança no fundo); outros

eram as forças amigas ou inimigas da humanidade, _Themis_ (guarda da

ordem legal e moral), _Mnemosyne_ (memoria), mãe das 9 Musas, _Hécate_,

deusa da noite. O mais novo dos Titans foi _Chronos_, que destronou seu

pae, Urano.

Das gottas de sangue cahidas no chão nasceram as _Erinnyas_ ou

_Euménides_ (_Furias_ na Mythologia Romana), e os _Gigantes_. Da espuma

do mar nasceu _Aphrodite_ ou _Anadyómena_ (Venus na Myth. Rom.), a deusa

do amor. Da ligação de _Gé_ com o mar proveio _Nereu_ e d'este as

nymphas maritimas ou _Nereides_ (aspectos risonhos do mar) e _Thaumas_,

_Phorcys_, _Céto_ (fenomenos terriveis das ondas). De Thaumas nasceu

_Iris_ (o arco iris) e as _Harpyas_ (trombas, redomoinhos). De Phorcys e

de Céto vieram as _Graias_ (as tres velhas com um olho e um dente só),

as _Gorgones_ (_Stheno_, _Euryale_, e _Medusa_, tendo serpentes na

cabeça em vez de cabellos), as _Hesperides_ (que guardavam os pomos de

oiro no Jardim do Occidente). Do filho de Medusa nesceram os espectros

_Cerbero_, _Hydra_, _Chimera_.

A Noite deu o ser a estes de influencia mysteriosa ou nociva: o somno,

os sonhos, a morte, o destino (Ker), as tres _Moera_ (_Parcas_ na Myth.

rom.): _Clotho_, _Lachésis_, e _Atropos_.

Depois de Urano reinou _Chronos_ (_Saturno_ na Myth. Rom.), e o seu

reinado foi a edade de oiro, o periodo da felicidade sem nuvens; _Zeus_

(_Jupiter_ em Roma), seu filho mais novo, foi creado secretamente em

Creta, escapando por um artificio materno, no qual tomaram parte os

_Curetes_ e as _Corybantes_, á sorte de todos os outros seus irmãos,

pois Chronos devorava á nascença todos os filhos que lhe dava sua mulher

_Rhéa_ (_Cybele_). Zeus desthronou seu pae e fundou o reinado dos

_deuses olympicos_, depois de um combate contra os Titans e Gigantes

(forças revoltas da Natureza), do qual sahiu triumphante, despenhando os

seus adversarios no Tartaro, com excepção apenas de Thémis, do Oceano, e

de Hypérion.

*2.º Deuses olympicos.*--O senhor e soberano dos deuses, o deus

principal dos Hellenos, era Zeus. O seu culto nasceu em Dodona, no

Epiro, extendendo-se depois á Thessalia e d'ahi á Grecia toda. Acima de

Zeus só havia o _Destino_ e as leis invariaveis da Natureza. A mulher e

irman de Zeus, _Hera_ (_Juno_ na Myth. Rom.) era a divindade feminina do

céu, a atmosphera. Presidia aos casamentos. Suas filhas _Hébe_ e

_Elithya_ eram: aquella a deusa virginal que servia o nectar aos deuses

antes do rapto de _Ganymedes_ pela aguia de Zeus, esta a deusa que as

mulheres invocavam no momento dos partos.

Da cabeça de Zeus sahiu armada _Pallas Athené_ (_Minerva_ entre os

Rom.), a deusa protectora de Athenas. Ao principio, deusa do céu azul

que esplende magnificamente sobre toda a Grecia, foi depois a creadora

de todas as artes. Descobriu a charrua e ensinou a plantar a oliveira.

Era a guarda das cidades e das instituições publicas.

A sua estatua (_Palladio_) tinha culto em quasi todas as cidades gregas,

sendo Athenas o seu mais celebre sanctuario. Celebravam-se aqui em sua

honra, de quatro em quatro annos, as grandes, e, todos os annos, as

pequenas _Panathenéas_. Chamava-se _égide_ o escudo de Minerva e n'elle

estava a cabeça de Medusa.

De Zeus e de Hera nasceu _Héphaistos_ (_Vulcano_ em Roma), que seu pae

precipitou do céu. Foi o inventor das forjas, isto é, o grande promotor

da civilização. Ajudavam-n'o os _Ciclopes_, que no Etna e nos outros

vulcões forjavam os raios para Zeus.

De Zeus e de _Léto_ (_Latona_) nasceram _Artemis_ e _Apollo_, gemeos, na

ilha sagrada de Délos. Apollo, deus radiante da luz (_Phébo_) é por isso

confundido ás vezes com _Hélios_, deus do sol. Este deus era um dos mais

importantes; o seu mestér era combater a obscuridade e a impureza, e

estabelecer a ordem no mundo physico e no mundo moral. Com respeito á

vida humana era o preservador dos males. Sob o nome de _Paion_ foi pae

de _Asclepios_ (_Esculapio_) que preside á medicina. Como deus das artes

e especialmente da musica e da poesia, Apollo dirige o côro das _Musas_

(e recebe então o nome de Musageta).

As Musas eram nove: _Calliope_ (poesia épica), _Clio_ (historia),

_Euterpe_ (poesia lyrica), _Melpomene_ (tragedia), _Therpsicore_ (dança

choral e canto), _Erato_ (poesia erotica e imitação mimica), _Polymnia_

(hymno sublime), _Urania_ (astronomia), _Thalia_ (comedia e poesia

idyllica). Habitavam os montes _Hélion _e _Parnaso_ nas proximidades de

Delphos.

_Artemis_ (_Diana_ entre os Romanos), irman de Apollo, era a deusa da

lua, a divindade das musas e dos oraculos, e presidia á caça. Tinha um

celebre templo em Epheso onde era representada como mãe creadora, com um

grande numero de seios. Na Taurida, prestou-se-lhe um culto barbaro, com

sacrificios humanos, nos quaes tomou parte a familia dos _Atridas_

(_Iphigenia_ e _Orestes_).

_Poseidon_ (_Neptuno_ entre os Romanos), antigo deus pelasgico, que teve

o seu culto primitivo na Beocia e no isthmo de Corintho, culto que

passou d'ahi para a Attica e para o Peloponeso, era o deus do mar e

governava-o com o seu _tridente_. Tinha por companheira _Amphitrite_,

nympha marinha. Foi tambem o domador dos cavallos, e pae de _Pégaso_,

cavallo alado, que nasceu do sangue de Medusa. Adoravam-n'o em Athenas a

par de Athené.

_Ares_ (o _Marte_ dos Romanos) era o deus da guerra e dos combates.

Tinha em Athenas uma collina que lhe era consagrada (_Areopago_).

_Aphrodite_ (a _Venus_ dos Romanos), era a deusa do amor sensual e da

formosura. O seu culto celebrava-se principalmente em Chypre, em

Cythera, e em Gnido.

De Ares e de Aphrodite nasceu a _Harmonia_, divindade de Thebas e esposa

do phenicio _Cadmo_, fundador da cidade.

Ao mytho de Aphrodite está ligado o de _Adonis_, seu favorito, morto na

caça por um javali. Adonis por concessão especial de Zeus ficou vivendo

seis mezes do anno com Aphrodite e os outros seis com _Perséphone_,

rainha das sombras. Este mytho, de origem phenicia, parece representar o

principio vivificante da Natureza: a morte de Adonis durante seis mezes

e a sua resurreição n'outros seis é o lethargo da Natureza no inverno e

a sua revivescencia na primavera.

O filho e companheiro de Aphrodite, segundo lendas mais modernas, era o

pequeno deus do amor, _Eros_ (_Amor_, _Cupido_) cuja amada foi _Psyche_

(a _alma_). No séquito d'este pequeno deus e de sua graciosa mãe andam

as _Charites_ (_Graças_), e as _Horas_, deusas das Estações.

Havia, ainda, entre os _deuses supremos_, cujo numero subia a doze,

_Deméter_ (_Ceres_), _Hermes_ (_Mercurio_), e _Hestia_ (_Vesta_).

*3.º Divindades terrestres.*--_Deméter_ (_Ceres_), a _Terra-Mãe_, filha

de Chronos, era a Natureza fecunda e creadora. Inventou a Agricultura. A

Sicilia e Eleusis eram os principaes pontos do seu culto. Sua filha

_Perséphone_ (_Proserpina_ entre os Romanos), raptada por _Hades_

(_Plutão_), e vivendo metade do anno sobre a Terra e outra metade no

mundo subterraneo, era a imagem da semente interrada durante os mezes do

inverno. Em honra de Deméter celebravam-se as _Thesmophorias_, as

grandes e as pequenas _Eleusinas_, e as _Anthesterias_.

_Hades_ (_Plutão_) governava o mundo dos mortos, separado do mundo dos

vivos por alguns rios, taes como o _Styge_, o _Acheronte_, o _Cocyto_, o

_Lethes_ (rio do esquecimento), etc. Sob o nome especial de _Plutão_ era

particularmente a divindade dispensadora das riquezas. O mundo

subterraneo comprehendia o _Elyseu_ (morada dos justos) e o _Tartaro_

(morada dos condemnados). Era guardado por _Cerbero_, cão de tres

cabeças. Os manes dos que na morte tiveram sepultura atravessavam o rio

infernal n'uma barca dirigida por _Charonte_.

_Hermes_ (_Mercurio_ entre os Romanos), divindade pelasgica, ligada á

agricultura e á vida pastoril, era tambem arauto e mensageiro dos

deuses. Tinha azas nos calcanhares, e usava o _caduceu_, symbolo da

inviolabilidade. Era o deus da eloquencia, da circumspecção, da

prudencia, e até da finura e da astucia, chegando mesmo á fraude e ao

perjurio (isto é, tinha na sua qualidade de arauto olympico todas as

prendas da diplomacia e da politica). Attribue-se-lhe a invenção do

alphabeto, dos numeros, da astronomia, da musica, da gymnastica, dos

pezos, das medidas, a cultura da oliveira, etc. Estava tambem o

commercio sob a sua protecção.

_Dionysos_ (_Baccho_ entre os Romanos e tambem entre os Gregos), antiga

divindade pelasgica, filho de Zeus e da thebana _Seméle_, era

representante da Natureza no que ella tem de mais opulento, mais

luxuriante e activo, e, em especial, deus do vinho. Havia muitas festas

em sua honra, particularmente as _Bacchanaes_, as _Dionysias_, as

_Anthesterias_, etc.

Os _Cabiras_, deuses pelasgicos ou phenicios, eram tambem divindades

terrestres e symbolizavam as forças productoras da Natureza.

*4.º O mundo heroico.*--O _Alcides Heracles_ (_Hercules_) é a

personificação da força e do trabalho humano em lucta com os obstaculos

levantados pela Natureza e pelo Destino.

No Peloponeso originou-se o mytho de _Tantalo_ com a sua familia

amaldiçoada. Entre os _Tantalidas_ ha a mencionar _Pelops_, _Atreu_,

_Thyestes_, _Agamemnon_, _Menelau_, e _Orestes_.

Em Lacedemonia foram venerados como heroes os _Tyndaridas_, irmãos de

Helena, os gemeos Castor e Pollux, e em connexão com elles os

_Dióscoros_, estrellas brilhantes propicias aos navegadores.

O phenicio _Cadmo_ foi o heroe fundador de Thebas. Era irmão de

_Europa_. D'este tronco descendeu _Laio_, pae de _OEdipo_, o heroe

tragico que assassinou seu pae; matou a _Esphinge_, e casou com sua

propria mãe, _Jocasta_. Seus filhos, _Eteocles_ e _Polynice_, mataram-se

um ao outro, em combate singular, deante de Thebas.

A Thebas pertence tambem o cantor _Amphion_, tão celebre tocador de lyra

que, ao som d'este instrumento, moviam-se por si mesmas as pedras e

formavam a muralha da cidade por elle reconstruida. Era irmão de _Zetho_

e marido de _Niobe_.

Na Beocia e na Attica havia o mytho de _Tereu_ com os de _Progne_ e

_Philoméla_, metamorphoseadas, a primeira em andorinha, a segunda em

rouxinol.

Na Thessalia, brotou a lenda dos _Centauros_, semi-homens e

semi-cavallos, os quaes tiveram grandes combates contra os _Lapithas_.

Um dos centauros, _Chiron_, teve por discipulos _Asclepios_ e

_Achilles_.

Em Athenas, o heroe nacional era _Theseu_ filho de _Egeu_. Foi elle quem

libertou os Athenienses do oneroso tributo de septe mancebos e septe

donzellas que de nove em nove annos tinham de ser inviados para o

_Minotauro_ de Creta. Matou o monstro e sahiu do _labyrintho_, graças a

um fio que tinha recebido de _Ariadna_, filha do rei. O mytho do

Minotauro parece ser, segundo os mais recentes estudos, uma expressão do

culto sanguinario de Moloch.

CAPITULO I

TEMPOS LEGENDARIOS OU PRIMITIVOS TEMPOS HEROICOS E MYTHICOS DOS HELLENOS

*1.º Tempos pelasgicos.*--Consideram-se os Pelasgos como os mais remotos

habitantes da Grecia, ou, por outras palavras, como a primeira raça que

ahi deixou alguns germens de civilização. Eram povos talvez originarios

da Asia, e, segundo as melhores conjecturas, devem ter-se estabelecido

na Grecia em epocha não posterior ao seculo XVIII antes da era christam.

As suas primeiras residencias parece que foram na _Thesalia_ e na

_Arcadia_, sendo, comtudo, bem visiveis ainda hoje vestigios da sua

existencia, nas ilhas do Mar Egeu, na Italia e na Asia Menor.

Esses vestigios são restos architectonicos de um caracter perfeitamente

definido; ruinas de aqueductos, de diques, de canaes, de muralhas;

monumentos chamados, _cyclopicos_, porque as gerações posteriores,

absortas deante de obras tão colossaes, attribuiram-n'as a uma raça de

gigantes, os _Cyclopes_, não querendo a imaginação popular convencer-se

de que taes moles de pedra tenham sido collocadas umas sobre outras

pelas simples forças de que a raça humana pode dispor.

Monumentos de tal modo pezados, e que assombram pela sua enormidade, os

homens d'agora, ficaram attestando aos seculos a desgraçada escravidão

em que devem ter vivido os povos á custa de cujo suor, sangue, e

lagrimas, se ergueram. Taes foram, a par dos muros pelasgicos, a grande

muralha chineza, as pyramides do Egypto, os _téocallis_ sagrados, do

Mexico.

Outros indicios, mais vagos e incertos, parecem affirmar-nos que entre

os Pelasgos havia castas, analogas ás orientaes, havia uma poderosa e

influente classe sacerdotal, e uma aristocracia hereditaria para defesa

do paiz...

Dos Pelasgos suppõe-se que foram consanguineos os _Thracios Pierios_ (da

_Pieria_, estreita faixa de terra na costa SE da Macedonia, que se

extendia desde a foz do _Peneu_, até ao _Haliacmon_). Teem celebridade

estes povos na historia primitiva da musica e da poesia grega; no seu

paiz nasceu o culto das Musas, e alli foi sepultado _Orpheu_, o heroe

mythico cuja voz e cuja lyra tinham o dom de arrebatar os homens, de

amansar a ferocidade animal, e de predispôr á benevolencia, os deuses

sombrios do mundo subterraneo. Permittiram-lhe estes que trouxesse dos

Infernos sua mulher _Eurydice_ e voltasse a viver com ella na Terra.

Ao lado d'Orpheu colloca-se _Lino_, inventor da elegia, e o sacerdote

cantor _Eumolpo_, fundador dos _mysterios de Eleusis_, que legou a

direcção d'elles aos _Eumolpidas_, seus successores.

Persistia entre os Gregos, n'estes e n'outros mysterios, como culto

secreto, a religião dos Pelasgos. Celebravam-se as _pequenas Eleusinas_

na primavera; as _grandes_, que duravam nove dias, no outono. N'ellas se

dava culto aos mythos de _Deméter_ e de _Perséphone_, como forças de

concepção, ao de _Dionysos_, como força de producção. A iniciação era

feita pelo _hierophante_; alêm d'este, havia gran-sacerdotes, simples

sacerdotes e sacrificadores, os quaes todos, nos dias de festividade, se

vestiam de purpura e coroavam de myrto.

Pertencem, tambem, ao cyclo legendario do primitivo povo pelasgico os

mythos de _Inacho_ em Argos, de _Egialeu_ em Sicyonia, de _Pelasgo_ na

Arcadia, de _Oxiges_ na Attica, etc.

Perante a critica historica são insustentaveis as lendas do egypcio

_Cécrops_, fundador da cidadella (_Cecropia_) de Athenas; do phenicio

_Cadmo_, fundador de Thebas, introductor da arte da escripta e da arte

de fundir o bronze; do phrygio _Pelops_ que deu o seu nome ao

Peloponeso; do estabelecimento de _Danao_ e das _Danaides_ na Argolida,

etc. Perante as investigações da moderna sciencia historica tem certo

fundamento a opinião que admitte a originalidade e o caracter aborigene

da organização grega, bem como a que ingeita o parecer de ter sido

introduzida a civilização na Grecia pelos seus colonizadores do Egypto,

da Phenicia e da Asia Menor. Mas, apezar d'estas asserções, é

incontestavel que cedo existiu uma corrente civilizadora entre a Grecia

e o Oriente, exercendo este sobre aquella uma influencia indelevel tanto

nas instituições da vida civil como nas do systema religioso.

Isto não obstou a que os Gregos, ou, para melhor dizermos, os Hellenos,

dessem livre expansão ao seu genio politico, ás suas tendencias

artisticas, ás suas concepções religiosas, confirmando, sobre os

Pelasgos conquistados, a superioridade da sua raça e as suas mais vastas

aptidões intellectuaes.

*2.º Tribus hellenicas.*--Nada se sabe emquanto á origem e ao

apparecimento historico dos Hellenos. Sabe-se que constituiram tribus

militares, e que venceram, afugentaram, ou escravizaram, as tribus

industriosas dos Pelasgos. Estes procuraram asylo nos desfiladeiros do

Olympo, em alguns pontos da Thessalia, do Epiro, da Macedonia, da

Attica, da Arcadia, e defenderam por largo tempo a sua independencia. No

tempo de Homero, havia pouco ainda que tinham sido de todo subjugados.

Presume-se, no emtanto, que os Hellenos não constituiam uma raça

particular, mas sim que formavam tão sómente a cavallaria ou parte

guerreira dos Pelasgos, a qual submetteu por violencia ao seu jugo tanto

a classe theocratica como o povo pacifico.

Como quer que fôsse, essas tribus guerreiras subdividiram-se em quatro

grupos, ou tribus principaes, que mantiveram em todo o decurso do seu

viver historico profundas differenças de usos, de lingua, e de regimen

politico.

Essas quatro tribus foram as seguintes: os _Dorios_ e os _Acheus_ no

Peloponeso, os _Jonios_ na Attica e nas ilhas, e os _Eolios_ na Beocia e

outros pontos.

O nome de _Acheus_ foi, durante os tempos heroicos, o de todas as tribus

do povo grego, e por elle são os Gregos designados em Homero. Foi no

seculo IX A. C. que esta denominação se restringiu aos habitantes das

margens dos rios do norte do Peloponeso, recebendo os outros Hellenos as

especificações que dissémos. Crê-se que foram os sacerdotes de Delphos

quem, posteriormente, imaginou para as quatro tribus uma genealogia

commum.

Essa lenda genealogica foi a seguinte: em tempos remotissimos houve um

diluvio em que morreram todos os homens com excepção de _Deucalião_ e de

sua mulher _Pyrrha_. Andaram estes vogando nove dias n'uma arca; e, ao

fim d'elles, deram fundo no cume do Pindo, ou, como depois se disse, no

do Parnaso. Supplicaram então aos deuses que repovoassem a Terra, e,

attendidos na sua prece, receberam ordem para irem arremessando para

traz de si _os ossos da mãe_, isto é, pedras da Terra. Das pedras que

Deucalião atirou nasceram homens, e das de Pyrrha nasceram mulheres.

A esta lenda primitiva acrescentou-se em tempos mais recentes a de

_Hellen_, filho de Deucalião. O primogenito de Hellen foi _Eolo_, tronco

dos _Eolios_; o segundo foi _Doros_, personificação dos _Dorios_; o

terceiro foi _Xutho_ (o _expulso_), de quem descendiam _Ion_ e _Acheu_.

A outro filho de Deucalião, _Amphictyão_, attribuiu-se a instituição da

_amphictyonia_ (isto é, uma liga em que se abrangiam as diversas

tribus), e a um filho de Pandora, filha de Deucalião, o nome de _Gregos_

que os povos do Occidente deram aos Hellenos.

Os sacerdotes de Delphos, versados nos mythos do Oriente, cuja

influencia transluz em toda esta série de lendas, tiveram um fim

altamente patriotico quando pretenderam dar ás quatro tribus uma

ascendencia commum. Quizeram dispertar o sentimento da communidade

nacional, dando-lhe uma expressão comprehensivel.

*3.º Guerra de Thebas.*--Colloca-se este acontecimento no seculo XIII A.

C.; mas todas as datas attribuidas aos factos dos tempos mythicos são

absolutamente incertas. Um dos episodios mais remotos das tradições

nacionaes gregas é a guerra de Thebas, ou, como ordinariamente se diz, a

guerra dos septe chefes deante de Thebas.

_Eteocles_ e _Polynice_, filhos de _OEdipo_, da tragica familia de

_Laio_, disputavam o throno paterno. Polynice, expulso por seu irmão,

refugiou-se na côrte de _Adrasto_, rei de Argos, o qual lhe deu uma

filha em casamento e o acompanhou até deante de Thebas com um exercito

commandado por elles ambos e por mais cinco chefes illustres. Todos os

chefes morreram, com excepção de Adrasto. Eteocles o Polynice mataram-se

um ao outro em combate singular; e _Créon_, seu tio, sentou-se no throno

que os dois irmãos haviam disputado. Créon mandou matar sua sobrinha

_Antigona_ por haver infringido as ordens dadas por elle para que não

fôsse concedida sepultura aos dois irmãos; mas _Theseu_, guarda e

vingador das leis moraes, declarou-lhe guerra e matou-o.

Tempos depois os filhos dos septe vingaram sobre os Thebanos a morte de

seus paes na guerra dos _Epygonos_ (Posthumos). _Laodamas_, filho de

Eteocles, ou foi morto ou fugiu para a Thessalia; e _Thersandro_, filho

de Polynice, reinou em Thebas devastada.

*4:º Expedição dos Argonautas.*--Este grande facto parece ter sido ainda

anterior á guerra de Thebas. N'elle teem querido alguns criticos vêr um

resumo poetico das primeiras impresas maritimas dos Gregos para o Mar

Negro. A _expedição dos Argonautas_ foi dirigida por _Jasão_, de

Iolchos, na Thessalia, de parceria com 54 heroes entre os mais illustres

d'aquelle tempo: _Heracles_, _Theseu_, _Castor_ e _Pollux_

(lacedemosios), _Peleu_, pae de Achilles (thessaliano), o cantor thracio

_Orpheu_, _Pirithoo_, _Meléagro_, _Esculapio_, e muitos outros. Partiram

para o remoto Oriente, no navio _Argos_, com o fim de conquistarem o

_vélo de oiro_, especie de palladio da Colchida, que um principe

thessaliano, _Phryxo_, tinha collocado n'uma floresta consagrada a Ares

(Marte), e que, segundo a fabula, era guardado por um dragão. O mastro

da nau _Argos_ era feito do tronco de um carvalho cortado na floresta

de Dodona, no Epiro, e pronunciava oraculos.

Hercules abandona a expedição, depois de ter libertado, nas costas da

Mysia, Hesione, a quem um monstro marinho ia devorar.

Jasão inspira uma paixão exaltada a _Medéa_, filha do rei da Colchida e

conhecedora de todos os segredos da magia; subjuga dois toiros com pés e

armas de bronze, e que vomitavam chammas, junge-os a uma charrua de

diamante e lavra com elles qualro geiras de terra consagradas a Marte;

semeia os dentes de um dragão e d'estes nascem homens armados; vence e

mata o monstro que guardava o velocino, e brilhantemente logra

conquistar por esta fórma o suspirado thesouro; depois, volta com Medéa

no seu navio, e a feiticeira Circe protege-o.

As _Nereides_ levantam nos braços a nau, para ella passar sem perigo

entre Scylla e Charybdes. As _Sereias_ intentam perder os nautas com os

seus cantos melodiosos, mas Orpheu desfaz-lhes o incanto com os accordes

da sua lyra. Visitam, em Africa, o jardim das Hespérides onde Hercules

tinha, pouco antes, colhido os pomos de oiro, e chegam finalmente á

Grecia.

Durante a viagem, e aqui, Medéa practica os maiores horrores. Corta em

bocados o cadaver de seu irmão e semeia-lhe os ossos ao longo do caminho

para demorar com esse espectaculo horroroso seu pae que a vinha

perseguindo. Rejuvenesce, em Iolchos, o velho Eson; e induz as filhas de

Pélias a trucidarem seu pae, cozendo-lhe os membros n'uma caldeira com

hervas magicas. Abandonada por Jasão, degola seus proprios filhos; dá á

sua rival, Creusa, filha do rei de Corintho, uma tunica envenenada; e,

erguendo-se aos ares n'um carro puxado por dragões com azas, refugia-se

na Attica, onde desposou Egeu.

Como se vê, a poesia grega inriqueceu com todas as galas da ficção mais

ingenhosa, a lenda heroica d'esta aventura maritima.

*5.º Guerra de Troia.*--De todos os grandes acontecimentos pertencentes

ao periodo heroico da Grecia, este foi o mais notavel e é o mais

conhecido. Incumbiram-se de perpetuál-o, desde os mais remotos tempos, a

lenda, a arte, a poesia.

A guerra de Troia é um facto evidentemente historico, imbora as

particularidades de que o revestem sejam meras ficções poeticas. A quéda

da grande cidade asiatica serviu muito tempo de era á chronologia grega.

Muitos historiadores consideram este episodio bellico como o termo da

lucta entre a nacionalidade hellenica e a nacionalidade pelasgica;

Herodoto via n'elle simplesmente um grande imprehendimento da Grecia

contra a Asia; a poesia explicou-o por um odio hereditario entre as

familias reaes de Troia e do Peloponeso, aggravado por uma affronta

mortal feita por um principe troiano á honra do lar domestico de um

monarcha grego.

_Priamo_ reinava em _Ilion_ ou _Troia_, na costa noroeste da Asia-Menor.

Seu filho _Páris_ (ou Alexandre) raptou _Helena_, mulher do rei

lacedemonio _Menelau_, que lhe havia dado magnifica hospitalidade na sua

casa. O marido insultado pediu aos outros reis da Grecia que o

auxiliassem a vingar-se, e em breve se organizou uma expedição

commandada por _Agamemnon_, rei de _Mycenas_ e irmão de Menelau.

A espontaneidade com que tantos principes e tantos povos diversos se

unem para a mesma impresa commum é significativa. Não ha, como nunca

houve, entre aquellas pequenas agglomerações de homens ciosos e

independentes, entre tantos e tão varios Estados, a necessaria unidade

politica; não ha uma federação geral; mas vê-se que existem em germen

todos os elementos de uma nacionalidade. Cincoenta e septe Estados e

outros tantos chefes tomaram parte na impresa. Alêm do _Atrida

Agamemnon_, rei de _Mycenas_, de _Corintho_ e de _Sicyonia_, fizeram

parte da expedição: _Menelau_, rei de _Esparta_; _Achilles_ e o seu

amigo _Patroclo_ da Thessalia; _Ulysses_, rei de _Ithaca_; _Diomedes_,

rei de _Argos_; _Ajax_, rei da _Lócrida_ e _Ajax_, rei de _Salamina_;

_Nestor_, rei de _Pylos_; _Idomeneu_, rei de _Creta_; _Philocteto_, que

possuia as flechas de Hercules; e muitos outros. Partiram do porto de

_Aulida_ 1:186 navios, transportando para a Asia mais de 100:000

guerreiros. Uma tradição posterior affirma que, em Aulida, Agamemnon

sacrificou a Artemis sua filha _Iphigenia_.

Prolongou-se por dez annos a resistencia da cidade, a qual finalmente

foi tomada por artificio, incendiada, e destruida. _Heitor_, filho de

Priamo, morrêra traspassado pela lança de Achilles; _Priamo_ foi

degolado; _Hécuba_ e suas filhas, levadas para o captiveiro; uma

d'ellas, _Polyxena_, immolada sobre o tumulo de Achilles; _Andromaca_,

viuva de Heitor, dada a Pyrrho, filho de Achilles, e _Cassandra_, outra

filha de Priamo, a Agamemnon. Dos Gregos morreram Patroclo, Achilles,

Ajax de Salamina, e outros. Os vencedores expiaram terrivelmente a sua

victoria. Ulysses vagueou dez annos sobre as ondas antes de tornar a vêr

a sua Ithaca; Menelau, tambem, durante oito annos andou perdido e

acossado pelas tempestades; Agamemnon, depois de um regresso

attribulado, foi morto por _Egistho_, a instigações da sua infiel esposa

_Clytemnestra_. Ajax, da Lócrida, naufragou de incontro a um rochedo

onde pereceu. Teucer, repellido pela maldição paterna, por não ter

vingado seu irmão Ajax, foi edificar em Chypre uma nova Salamina.

Diomedes fugiu para a Italia afim de se subtrahir, no seu reino, a uma

sorte analoga á de Agamemnon. Philocteto, Idomeneu, e Epéos, tambem

foram ter ás costas de Italia, onde egualmente incontraram asylo os

troianos _Antenor_ e _Enéas_, filho de _Anchises_, considerado, depois,

pelos Romanos, como tronco da sua raça.

As façanhas e as desgraças d'estes heroes foram cantadas pelos poetas

nacionaes; mas d'esses cantos, que formavam dois cyclos épicos, só nos

restam a _Iliada_ e a _Odysséa_, attribuidas a Homero, poeta que viveu

provavelmente no seculo X antes da nossa era.

CAPITULO II

TEMPOS HISTORICOS

*1.º As migrações dos Dorios. Jonios e Dorios, raças rivaes. Athenas e

Esparta.*--Os tempos immediatos á guerra de Troia foram de violentas

commoções politicas e de longa anarchia. Desappareceram quasi todas as

antigas familias reaes, victimas ou de tragedias domesticas ou de luctas

cruentas com outras familias. Houve alêm d'isto um grande embate de

tribus, ao fim do qual as mais fracas succumbiram, estabelecendo-se as

mais poderosas em regiões novas.

A mais importante d'estas migrações foi a dos _Dorios_ para o

Peloponeso. Viviam os Dorios a sua vida pastoril e agricola junto ao

monte OEta, onde tinham, ao cabo de muitas peregrinações, fundado uma

republica livre, cujo centro moral era o culto de Apollo, no sanctuario

de Delphos, quando os Thessalianos e os Beocios os expulsaram d'ahi para

o sul. Conduzidos pelos _Heraclidas_ (suppostos descendentes de

Heracles) sustentaram longos combates para fazerem valer as pretenções

hereditarias de seus chefes á soberania da Argolida e da Laconia, onde

reinavam os descendentes de Pelops, e conquistaram porfim a peninsula do

Peloponeso. A pouco e pouco assenhorearam-se da _Argolida_, da

_Laconia_, da _Messenia_, de _Sicyonia_, de _Corintho_ e da _Megarida_;

intraram na Attica; e ameaçavam já Athenas, quando esta foi salva pelo

heroico sacrificio de _Codro_, seu rei.

Os _Acheus_, até então o mais poderoso dos quatro ramos da raça

hellenica, fugindo deante d'esta invasão, expulsaram por sua vez os

_Jonios_ do littoral septentrional e occuparam o paiz, que recebeu

d'elles o nome de _Achaia_. Os Jonios atravessaram o isthmo de Corintho

e estabeleceram-se na Attica, onde já tinham sido precedidos pelos

_Eolios_ de Messenia e outros fugitivos do Peloponeso. Irradiando ainda

d'ahi para as costas occidentaes da Asia-Menor e para as ilhas de

Lesbos, de Chios, de Samos, etc., fundaram as _colonias jonicas_ tão

celebres pelo alto grau de cultura, de civilização, e de actividade

commercial e industrial a que chegaram.

Os Dorios e os Jonios são as duas grandes familias que d'aqui em deante

(seculo X A. C.) occupam o plano da Historia; são os dois povos rivaes

que vão desinrolar parallelamente com o seu antagonismo duas

civilizações, nas quaes, sob os mais diversos aspectos, se manifestam

todas as fórmas do genio grego.

«A _raça dorica_, diz um historiador moderno, menos mesclada, tinha um

caracter de gravidade, de energia, de rudeza, de orgulho, que se

reproduzia no seu dialecto, nos seus costumes, no seu culto e nas suas

instituições politicas. Exclusivamente militar, constituiu quasi por

toda a parte poderosas aristocracias que reinavam sobre bandos de

escravos ou de servos (_hilotas_).

«A _raça jonica_ era movel, aventureira, impressionavel, enthusiasta; e

amava apaixonadamente os prazeres, a liberdade, a gloria e as artes.

Inclinada para o commercio e para a navegação, era, como todas as

populações maritimas, intensamente dominada pelo espirito democratico.

«São estas as feições geraes que nos cumpre indicar aqui, e que veremos

de cada vez mais energicamente accentuadas na physionomia dos Espartanos

(Dorios) e dos Athenienses (Jonios), pelos quaes estas raças hão-de

chegar ao seu mais completo desinvolvimento, e que, pelo importante

papel que desimpenharam, pelo esplendor das suas victorias, e finalmente

pela sua rivalidade sangrenta, mereceram representar, durante muito

tempo, os destinos da Grecia toda.»

*2.º Organização social e politica.*--A Grecia nunca poude attingir a

majestosa unidade a que chegou Roma; nunca formou um Estado unico.

Compoz-se de uma infinidade de Estados, communidades urbanas, especies

de cantões, entre os quaes, de tempos a tempos, havia um que, pelas

eventualidades da boa sorte na guerra, passava a exercer predominio nos

outros (_hegemonia_). Assim succedeu com _Esparta_, _Athenas_, e

_Thebas_.

Havia, porêm, um certo numero de laços que uniam todos os diversos

Estados entre si, formando por esse modo, até certo ponto, uma nação

unica, composta de _Hellenos_, e para os quaes todos os mais povos

tinham o nome commum de _Barbaros_. Esses laços eram a lingua, os

costumes, e as instituições religiosas.

Na Grecia não havia _castas_ propriamente ditas, não havia barreiras

insuperaveis entre as classes; as prerogativas da nobreza eram pouco

extensas. Abaixo dos nobres havia os homens livres, que formavam as

assembléas publicas e que exerciam uma grande influencia moral nas

deliberações dos chefes.

Dependiam, porêm, principalmente da religião as instituições communs a

todas as tribus hellenicas. Occupava o primeiro logar a _liga dos

Amphictyões_, cujo centro era o oraculo de Delphos, e á qual inviavam

deputados doze Estados gregos. Antes de qualquer impresa importante era

sempre consultado o Apollo delphico, sendo as respostas, obscuras e

muitas vezes equivocas ou enigmaticas, formuladas em sentenças por uma

sacerdotiza inspirada (_pithoniza_).

Todas as tribus e todos os Estados gregos estavam egualmente unidos pelo

laço das _festas nacionaes_ com sacrificios, jogos gymnasticos, e

concursos de musica. As mais antigas e mais celebres eram as _festas

olympicas_ que, de quatro em quatro annos, se celebravam n'uma planicie

da Elida, nas margens do Alpheu; emquanto duravam, havia treguas geraes

em toda a Grecia.

CAPITULO III

ESPARTA. LEGISLAÇÃO DE LYCURGO. GUERRAS DE MESSENIA

Os Dorios, que se fixaram na Laconia, consentiram que os indigenas

d'este paiz (isto é, os _Laconios_) vivessem nas terras que lhes tinham

pertencido, mas reduzidos á qualidade de vassallos. Umas tribus

submetteram-se; outras, porêm, intentaram sacudir o jugo, e, sendo

vencidas, foram collocadas na dura condição de escravas (_hilotas_).

Ficou, portanto, havendo na Laconia tres especies de homens: os Dorios,

ou os dominadores; os Laconios, ou os vassallos; os Hilotas, ou os

escravos.

Quando os Dorios conquistaram o Peloponeso, coube a Laconia em parte aos

dois filhos de _Aristodemos_, _Eurysthenes_ e _Procles_, os quaes

fundaram ahi duas dynastias simultaneas que reinaram em Esparta durante

mais de nove seculos.

Os tempos decorridos desde a invasão dorica até Lycurgo (1100?--884? A.

C.) são quasi completamente desconhecidos não só pelo que respeita a

Esparta como a todo o resto da Grecia. Nem as tradições nem a poesia,

tão fecundas nos tempos heroicos, se quizeram occupar com esta primeira

phase dos tempos historicos. O que se sabe é que os Dorios,

relativamente em pequeno numero, e estabelecidos no seio de um paiz

hostil, se concentraram em Lacedemonia ou Esparta, e d'ahi tomaram o

nome especial de _Espartanos_. Viviam n'um estado de armamento

constante, submettidos a uma rigorosa disciplina militar, habituados,

por necessidade da propria conservação, ao jugo de leis durissimas.

Quando _Lycurgo_, patriota espartano da estirpe regia dos Proclidas,

pretendeu restituir á sua cidade natal a tranquilidade interna

perturbada desde longa data pelas dissensões de algumas familias

poderosas e pelas usurpações de uma aristocracia absorvente da

propriedade e dos direitos dos cidadãos, assegurando-lhe assim a antiga

preeminencia sobre os outros Estados, não teve de inventar as leis que

lhe são attribuidas; o que fez apenas foi restaurar o antigo regimen

dorico.

Historia da Grecia · 第 1 / 6 段