O inimigo enche tudo; e poucos tentão
Inda arrostá-lo, ou mui de balde o arrostão.
Elle, á falta de vivos, vai nos mortos
Saciar da vingança a voraz sêde,
Que exacerbou-se agora; elle os invade
Com sacrilegos golpes, e decepa
Cabeças já finadas, e dos nichos
As estatuas despenha baqueantes,
E as aras despe d'oblações opimas,
E co'as callosas mãos profanadoras
O argento empolga dos sagrados vasos.
Chegada apenas a caterva infrene
Ante o altar principal, detem-se e pasma:
Oh qual o adorna resplandor pomposo!
Sobre a pedra lhe surge bem patente
O consagrado Caliz, ouro estrême,
Prêsa que enleva os depredantes olhos,
A fulgurar maciça e ponderosa:
Hoje conteve o sacrosanto vinho,
Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,
E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,
Antes de pelejar, fortalecêrão
As almas ao dever e ao Ceo votadas:
Inda no fundo remanecem gotas;
E tambem, circumdando a sacra mesa,
Em symetria esplendida dispostas,
Ardem lampadas doze d'ouro fino:
Este o mais opulento e ultimo espolio.