XXXII.

O inimigo enche tudo; e poucos tentão

Inda arrostá-lo, ou mui de balde o arrostão.

Elle, á falta de vivos, vai nos mortos

Saciar da vingança a voraz sêde,

Que exacerbou-se agora; elle os invade

Com sacrilegos golpes, e decepa

Cabeças já finadas, e dos nichos

As estatuas despenha baqueantes,

E as aras despe d'oblações opimas,

E co'as callosas mãos profanadoras

O argento empolga dos sagrados vasos.

Chegada apenas a caterva infrene

Ante o altar principal, detem-se e pasma:

Oh qual o adorna resplandor pomposo!

Sobre a pedra lhe surge bem patente

O consagrado Caliz, ouro estrême,

Prêsa que enleva os depredantes olhos,

A fulgurar maciça e ponderosa:

Hoje conteve o sacrosanto vinho,

Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,

E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,

Antes de pelejar, fortalecêrão

As almas ao dever e ao Ceo votadas:

Inda no fundo remanecem gotas;

E tambem, circumdando a sacra mesa,

Em symetria esplendida dispostas,

Ardem lampadas doze d'ouro fino:

Este o mais opulento e ultimo espolio.

O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez · 第 43 / 48 题