XXXIII.

Apinhão-se alli todos; e o que estava

Da prêsa mais visinho, faz-se avante,

E quasi quasi que a empolgava, quando

O longevo Minotti applica a tocha

Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma!

Campanarios, abobadas, altares,

Espolio, vivos, mortos, moribundos,

Christãos vencidos, Turcos vencedores,

E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,

Se ergue aos ares com hórrido rebombo,

E finda envôlto na explosão terrivel!

A cidade abalada--o chão coberto

D'edificios, de muros demolidos--

As ondas que recuão, de assustadas--

Os montes, senão rôtos, vacillantes,

Como se os sacudisse um terremoto--

De milhares d'objectos mixto informe

Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.

Ao rebentar da horrítona lufada--

Não cessão de apregoar que n'estas praias,

Ha longo tempo, afflictas, terminou-se

Dos combates o mais desesperado.

Como accesa em girandolas festivas,

Lá roça os astros a confusa mole.

Varões não poucos d'estatura ingente,

D'apparencia gentil, ora abrasados,

Curtos como pigmeos, descem dos ares,

Em torrado carvão juncando a terra.

Grossa chuva de cinzas se despenha:

Muitas recebe o golfo, e, ao recebê-las,

Fórma em tôrno escarcéos, que se desfazem

N'um progresso de circulos undosos;

Muitas recebe a praia, e vão, por longe

Disseminadas, recobrir todo o isthmo:

São cinzas de Christãos ou d'Othomanos?

Suas mãis se aproximem, venhão vê-las,

E digão se as conhecem!--Por ventura

Houve alguma de vós, ó desgraçadas,

Que quando aos peitos lhe pendia o filho,

Ou no embalado berço o adormentava,

E, sorrindo d'amor, se comprazia

N'aquelle brando repousar donoso,

Ai! houve alguma então que nem por sombras

Esperasse este dia, ou ver dispersos

Da cara prole os lacerados membros?

Nem sequer, nem sequer as extremosas

Matronas que no ventre os alojárão

Estremar sabem os nascidos d'ellas;

Um só momento lhes tirou de todo

Fórma e semblante d'homens; resta apenas

Algum disperso pericraneo ou osso.

Barrotes, vigas flammejantes descem,

E em redor se derramão; vem cahindo

Engastadas em barro infindas lagens,

Que o sólo opprimem fumegantes, negras.

Todo o vivente a quem troou no ouvido

O abalo estragador, pregão de morte,

Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas

O vôo affastão carniceiras aves;

Bravíos cães vão-se arredando em uivos,

Nem se lhes dá dos insepultos mortos;

O camelo as prisões deixou quebradas;

O touro, ao longe, se desfez do jugo;

O corsel, que o fragor ouvio de perto,

Rompendo a silha, espedaçando as redeas,

A galope alongou-se pelo plaino;

As incolas dos charcos lutulentos,

Alçando a boca sobremodo aberta,

Clamor soltárão importuno em dôbro;

Uivárão pelas furnas das montanhas

Os lobos, quando alli a trovoada

Em écos retroou; lá mui distantes,

As alcatéas dos jakaes bramírão

Com mixto som, que, lamentoso e agudo,

Ora imitava criancinha em chóros,

Ora lebréo ganindo fustigado:

Esbaforida accelerando os vôos,

A aguia desamparou a rocha alpestre,

Onde aquecia o ninho, e remontou-se

Mais proxima do sol, achando crassas

Em demasia as sotopostas nuvens,

Que vinhão, d'atro fumo conglobadas,

Roçar-lhe o bico amedrontado, hiante,

Mais e mais excitando-a a sublimar-se,

E o grito a reforçar.--Eis de qual modo

Conquistada e perdida foi Corintho.

O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez · 第 44 / 48 题