XXI.

"O repouso deixei, a fim sómente

De vir ao meu amado, e de fazê-lo

Feliz commigo, e ser feliz com elle.

Por teu respeito entre inimigas turmas

Eis movo os passos, e transpuz a salvo

Muralhas, portas, sentinellas, tudo.

Uma joven donzella, em todo o brio

Da nativa pureza, ha quem affirme

Que dos proprios leões é respeitada:

E o superno Poder que ao innocente

Escuda contra o despota dos bosques,

Se encarregou tambem de defender-me

Do insulto d'infieis confederados;

E vim:--se vim de balde, oh! vê que nunca,

Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!

Sei que, abjurando de teus pais a crença,

Es réo de crime hediondo; todavia

Lança por terra esse turbante, e imprime

Sobre a fronte o da Cruz signal divino,

E eu de ti folgue na perpetua posse.

Eia, o negro labéo expelle d'alma;

E pois havemos ámanhã de unir-nos,

Não queiras para sempre separar-nos."

"E ao tóro nupcial onde acharemos

O apetecido espaço? póde havê-lo

Entre montões de mortos e expirantes?

Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles,

Ha de o ferro ámanhã unido á chamma

Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,

Senão es tu e os teus, ver nova aurora;

Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce

A mais donosos sitios transportar-te,

Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas,

Onde tu sejas a consorte minha,

Quando abatido de Veneza o orgulho

Eu já tiver; quando este braço, que ella

Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados

Com viperino látego os infames

Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."

Ella pousou a mão sobre a mão d'elle:

Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto

As medullas dos ossos, e entranhou-lhe

Pelo imo coração gêlo indizivel,

Que nem d'estremecer lhe deixou posses;

E este frio mortal, de que se arguia,

Removê-lo de si em vão tentava.

Oh! nunca, nunca de tão caro objecto

Partíra movimento que viesse

Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,

Qual n'esta noite o subitaneo toque

D'aquelles alvos dedos alongados.

Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,

Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel,

Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado

Já de si proprio: bello, mas languente--

Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,

Que em cada feição d'elle se espelhavão,

Como um dia de sol se espelha n'agua.

Anhélito nenhum se unia ás vozes

Que lhe escapavão dos immotos labios;

Do quieto coração nenhum palpite

Lhe sublevava o seio; nada havia

Que a rigida attenção interrompesse

D'aquelles olhos estacados, fixos.

Taes são os do somnambulo, que, em meio

D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;

Taes, na extensão de apainelados razes,

Baças figuras de minaz aspecto,

Se ao trémulo clarão as contemplamos

D'expirante lucerna, desenvolvem

Não sei qual mixto de animado e morto,

Com que parecem, aterrando a vista,

Ora avançar do tenebroso fundo,

Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,

Que a seu sabor lhes communica o vento.

"Se por amor de mim tu crês que é muito,

Por amor só do Ceo embora o faze:

Longe arremessa (inda outra vez to digo)

Da fronte criminosa esse turbante,

E me promette de não ser infesto

Aos filhos da insultada patria tua,

Ou es perdido, e despedir-te deves,

Não já da Terra--esvaeceo-se a Terra--

Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.

Eia, cede a meus rogos: vê que abertas

Inda te esperão da clemencia as portas;

E bem que contra ti grave sentença

Fosse já proferida, o rigor d'ella

Em grande parte expiará teu crime.

Pondera a fundo; e provocar não queiras

A maldição d'Aquelle que abjuraste.

Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,

Vê que a ti mesmo para sempre o fechas.

Essa nuvem que esconde agora a lua,

Lá vai passando, e passará de pressa:

Se, quando rebrilhar o disco inteiro

Desafrontado do vapor sombrio,

Não revolveo a contrição teu peito,

Ficão de ti vingados Deos e os homens:

Tremendo fim terás, e mais tremenda

Te espera a eternidade dos perversos."

Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece

O indicado signal; porém o orgulho

Entumeceo-lhe o coração, e o rege

Com despotico imperio inabalavel;

E esta paixão fallaz que o predomina,

É torrente caudal que tudo alaga.

Elle implorar perdão! elle render-se

A impertinencias de mesquinha virgem!

Elle, offendido de Veneza ingrata,

Poupar-lhe os filhos, que votou á morte!

Não:--embora essa nuvem traga um raio,

Embora um raio o esmague:--e inda não trôa?

Sem que a minima voz dos labios solte,

Elle fitava ancioso aquella nuvem:

Attento a vê passar; fugio de todo:

Em seu pleno fulgor se mostra a lua.

"Qualquer que seja o meu destino (exclama),

Não tenho de mudar: agora é tarde.

No meio da tormenta póde a canna

Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão.

Qual Veneza me fez, serei já'gora;

Seu implacavel inimigo em tudo,

Excepto na affeição que eu te consagro.

Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."

Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:

Só o antigo pilar lhe avulta ao lado.

Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares?

Nada elle vio--nada escutou só sabe

Que alli nenhum vestigio existe d'ella.

O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez · 第 32 / 48 题