"O repouso deixei, a fim sómente
De vir ao meu amado, e de fazê-lo
Feliz commigo, e ser feliz com elle.
Por teu respeito entre inimigas turmas
Eis movo os passos, e transpuz a salvo
Muralhas, portas, sentinellas, tudo.
Uma joven donzella, em todo o brio
Da nativa pureza, ha quem affirme
Que dos proprios leões é respeitada:
E o superno Poder que ao innocente
Escuda contra o despota dos bosques,
Se encarregou tambem de defender-me
Do insulto d'infieis confederados;
E vim:--se vim de balde, oh! vê que nunca,
Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!
Sei que, abjurando de teus pais a crença,
Es réo de crime hediondo; todavia
Lança por terra esse turbante, e imprime
Sobre a fronte o da Cruz signal divino,
E eu de ti folgue na perpetua posse.
Eia, o negro labéo expelle d'alma;
E pois havemos ámanhã de unir-nos,
Não queiras para sempre separar-nos."
"E ao tóro nupcial onde acharemos
O apetecido espaço? póde havê-lo
Entre montões de mortos e expirantes?
Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles,
Ha de o ferro ámanhã unido á chamma
Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,
Senão es tu e os teus, ver nova aurora;
Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce
A mais donosos sitios transportar-te,
Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas,
Onde tu sejas a consorte minha,
Quando abatido de Veneza o orgulho
Eu já tiver; quando este braço, que ella
Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados
Com viperino látego os infames
Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."
Ella pousou a mão sobre a mão d'elle:
Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto
As medullas dos ossos, e entranhou-lhe
Pelo imo coração gêlo indizivel,
Que nem d'estremecer lhe deixou posses;
E este frio mortal, de que se arguia,
Removê-lo de si em vão tentava.
Oh! nunca, nunca de tão caro objecto
Partíra movimento que viesse
Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,
Qual n'esta noite o subitaneo toque
D'aquelles alvos dedos alongados.
Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,
Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel,
Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado
Já de si proprio: bello, mas languente--
Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,
Que em cada feição d'elle se espelhavão,
Como um dia de sol se espelha n'agua.
Anhélito nenhum se unia ás vozes
Que lhe escapavão dos immotos labios;
Do quieto coração nenhum palpite
Lhe sublevava o seio; nada havia
Que a rigida attenção interrompesse
D'aquelles olhos estacados, fixos.
Taes são os do somnambulo, que, em meio
D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;
Taes, na extensão de apainelados razes,
Baças figuras de minaz aspecto,
Se ao trémulo clarão as contemplamos
D'expirante lucerna, desenvolvem
Não sei qual mixto de animado e morto,
Com que parecem, aterrando a vista,
Ora avançar do tenebroso fundo,
Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,
Que a seu sabor lhes communica o vento.
"Se por amor de mim tu crês que é muito,
Por amor só do Ceo embora o faze:
Longe arremessa (inda outra vez to digo)
Da fronte criminosa esse turbante,
E me promette de não ser infesto
Aos filhos da insultada patria tua,
Ou es perdido, e despedir-te deves,
Não já da Terra--esvaeceo-se a Terra--
Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.
Eia, cede a meus rogos: vê que abertas
Inda te esperão da clemencia as portas;
E bem que contra ti grave sentença
Fosse já proferida, o rigor d'ella
Em grande parte expiará teu crime.
Pondera a fundo; e provocar não queiras
A maldição d'Aquelle que abjuraste.
Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,
Vê que a ti mesmo para sempre o fechas.
Essa nuvem que esconde agora a lua,
Lá vai passando, e passará de pressa:
Se, quando rebrilhar o disco inteiro
Desafrontado do vapor sombrio,
Não revolveo a contrição teu peito,
Ficão de ti vingados Deos e os homens:
Tremendo fim terás, e mais tremenda
Te espera a eternidade dos perversos."
Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece
O indicado signal; porém o orgulho
Entumeceo-lhe o coração, e o rege
Com despotico imperio inabalavel;
E esta paixão fallaz que o predomina,
É torrente caudal que tudo alaga.
Elle implorar perdão! elle render-se
A impertinencias de mesquinha virgem!
Elle, offendido de Veneza ingrata,
Poupar-lhe os filhos, que votou á morte!
Não:--embora essa nuvem traga um raio,
Embora um raio o esmague:--e inda não trôa?
Sem que a minima voz dos labios solte,
Elle fitava ancioso aquella nuvem:
Attento a vê passar; fugio de todo:
Em seu pleno fulgor se mostra a lua.
"Qualquer que seja o meu destino (exclama),
Não tenho de mudar: agora é tarde.
No meio da tormenta póde a canna
Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão.
Qual Veneza me fez, serei já'gora;
Seu implacavel inimigo em tudo,
Excepto na affeição que eu te consagro.
Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."
Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:
Só o antigo pilar lhe avulta ao lado.
Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares?
Nada elle vio--nada escutou só sabe
Que alli nenhum vestigio existe d'ella.