Sempre assim meditando silencioso,
Alp ao longo da praia os passos move,
E com brando rocio a noite o ameiga.
Coarctados e sem ésto, aquelles mares
Em moto igual ondeão sempiternos,
E a vaga que possuem mais furiosa
Nem um quarto de geira ao sólo invade;
E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,
Não tem sobre elles influencia a lua:
Mansos, tumentes, no alto, na enseada,
Do dominio lunar se movem francos.
O escolho immovel, descobrindo a base,
Olha ao largo, e de balde espera as ondas:
Póde ver-se a que o cinge espumea linha,
Que em baixo lhe traçou a mão dos évos.
Um pequeno areal loureja plaino
Entre o salgado leito e o chão relvoso.
Pela marina margem vagabundo,
Eis Alp assoma dos sitiados muros
Desviado não mais que quanto alcança
Um tiro de clavina. Como é crivel
Que alli não fosse visto, ou que evitasse
O golpe hostil? Entre os Christãos acaso
Remanecem traidores encobertos?
Qual torpor lhes vincula as mãos agora?
Qual gêlo os corações lhes paralisa?
Tal brandura elle estranha; mas é certo
Que de nenhum dos lanços lá do muro
Escorva reluzio, sibilou bala,
Se bem que tão de baixo agora avulte
Dos bastiões minaces que flanqueão
Essa porta, resguardo da cidade
Pela banda do mar; se bem que possa
Quasi as palavras distinguir ferrenhas,
E os passos numerar da sentinella,
Que sôão, indo e vindo compassados,
Pela extensão da sotoposta lagem.
Nem os cães, de occupados, lhe latírão!
E, magros e famélicos rosnando,
Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo
De sangrentos cadaveres e ossadas:
Ei-los que estão da pelle despojando
Nest'hora um craneo Tartaro, bem como
Nós despojamos o recente figo;
E alvejantes lhes rangem os colmilhos
Sobre a caveira que inda mais alveja,
E que dos queixos lhes resvala, quando
Embotados os deixa o roer crebro;
Mas vão moendo de vagar os ossos,
Se um acaso permitte que não achem
Sobre aquelle torrão melhor sustento.
Seu antigo jejum quebrou-se á larga
Nos guerreiros que alli perdendo a vida,
Lhes são manjar em refeição nocturna.
Pelos turbantes sobre a aréa esparsos,
Alp a flor do seu bando reconhece;
Bem nota o verde, o carmesim das telas
Com que cingião por costume a fronte;
E cada pericraneo off'rece a esguia
Madeixa longa, e no demais é raso.
Os pericraneos jazem na guela
Feroz dos cães, ao passo que a madeixa
Se lhes enreda em volta das queixadas.
Lá se vê mais além, do golfo á orla,
Sofrego abutre contender c'um lobo,
Que, das montanhas a prear baixando,
Era alli solitario, e não ousava,
Dos cães espavorido, tomar parte
No amplo repasto das humanas carnes;
Mas engole a ração que lhe coubera
D'um corsel debicado já das aves,
Que da enseada no areal jazia.