XVI.

Sempre assim meditando silencioso,

Alp ao longo da praia os passos move,

E com brando rocio a noite o ameiga.

Coarctados e sem ésto, aquelles mares

Em moto igual ondeão sempiternos,

E a vaga que possuem mais furiosa

Nem um quarto de geira ao sólo invade;

E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,

Não tem sobre elles influencia a lua:

Mansos, tumentes, no alto, na enseada,

Do dominio lunar se movem francos.

O escolho immovel, descobrindo a base,

Olha ao largo, e de balde espera as ondas:

Póde ver-se a que o cinge espumea linha,

Que em baixo lhe traçou a mão dos évos.

Um pequeno areal loureja plaino

Entre o salgado leito e o chão relvoso.

Pela marina margem vagabundo,

Eis Alp assoma dos sitiados muros

Desviado não mais que quanto alcança

Um tiro de clavina. Como é crivel

Que alli não fosse visto, ou que evitasse

O golpe hostil? Entre os Christãos acaso

Remanecem traidores encobertos?

Qual torpor lhes vincula as mãos agora?

Qual gêlo os corações lhes paralisa?

Tal brandura elle estranha; mas é certo

Que de nenhum dos lanços lá do muro

Escorva reluzio, sibilou bala,

Se bem que tão de baixo agora avulte

Dos bastiões minaces que flanqueão

Essa porta, resguardo da cidade

Pela banda do mar; se bem que possa

Quasi as palavras distinguir ferrenhas,

E os passos numerar da sentinella,

Que sôão, indo e vindo compassados,

Pela extensão da sotoposta lagem.

Nem os cães, de occupados, lhe latírão!

E, magros e famélicos rosnando,

Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo

De sangrentos cadaveres e ossadas:

Ei-los que estão da pelle despojando

Nest'hora um craneo Tartaro, bem como

Nós despojamos o recente figo;

E alvejantes lhes rangem os colmilhos

Sobre a caveira que inda mais alveja,

E que dos queixos lhes resvala, quando

Embotados os deixa o roer crebro;

Mas vão moendo de vagar os ossos,

Se um acaso permitte que não achem

Sobre aquelle torrão melhor sustento.

Seu antigo jejum quebrou-se á larga

Nos guerreiros que alli perdendo a vida,

Lhes são manjar em refeição nocturna.

Pelos turbantes sobre a aréa esparsos,

Alp a flor do seu bando reconhece;

Bem nota o verde, o carmesim das telas

Com que cingião por costume a fronte;

E cada pericraneo off'rece a esguia

Madeixa longa, e no demais é raso.

Os pericraneos jazem na guela

Feroz dos cães, ao passo que a madeixa

Se lhes enreda em volta das queixadas.

Lá se vê mais além, do golfo á orla,

Sofrego abutre contender c'um lobo,

Que, das montanhas a prear baixando,

Era alli solitario, e não ousava,

Dos cães espavorido, tomar parte

No amplo repasto das humanas carnes;

Mas engole a ração que lhe coubera

D'um corsel debicado já das aves,

Que da enseada no areal jazia.

O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez · 第 27 / 48 题