Vai na aprazivel fresquidão da noite
Achando refrigerio ás ancias d'alma.
Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,
As affogueadas faces lhe aspergia
Com brando orvalho. Apóz lhe fica o campo;
De fronte lhe serpea, derramado
Em crebros surgidouros e enseadas,
O golfo de Lepanto; está-lhe á vista
A de Delphos montanha sempiterna,
Onde os gêlos accrescem, brilhão, durão,
De mil estios affrontando a ardencia,
Campeando no golfo, e serro, e clima,
Sem que os dissolva, como a nós, o Tempo.
Desapparecem o tyranno e o servo,
Improprios a aguantar fulgente raio;
Mas este véo deslumbrador e fragil,
De que vês envolvido o monte excelso,
Quando torres baqueão, jazem troncos,
Lá brilha sempre no empinado alcáçar;
Pileo na fórma, nuvem no elevado,
Na côr e na amplidão lançol funereo,
Erguido a designar que a Liberdade
Se ausentou da mimosa estancia sua,
E hoje languida jaz no mesmo sólo,
Onde foi largos tempos escutado
Seu profetico ardor em aureos versos.
Oh! que de quando em quando inda lá sôão
Os passos seus sobre arescentes campos,
Sobre tantos altares demolidos;
E ella, um a um mostrando aquelles restos
Abonadores da passada gloria,
Alentar busca os animos prostrados:
Porém de balde bradará, em quanto
Não despontar n'um coração preclaro
Destimidez possante, toda accesa
Ao clarão d'esses dias que luzírão
Sobre a fuga do Persa, e que risonhos
O intérito arrostárão do Espartano.