XII.

Calou-se o som, a rogativa é finda;

As sentinellas em seus postos velão;

Foi a nocturna ronda percorrida,

E em tudo as ordens satisfeitas todas.

Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,

E em ancias vai curtir inda esta noite;

Mas bem póde a manhã suavisá-las,

Na fruição das vantagens tão copiosas

Com que o amor e a vingança hão de reunidos

Demora indemnisar tão prolongada.

Horas poucas lhe restão, e carece

De repousar, por que expedito esteja

Ás proezas da crástina matança:

Mas baralhados, quaes estuantes vagas,

Os pensamentos lhe reluctão n'alma.

Sem repouso e só elle em todo o campo;

Nem sente o coração entumecer-lhe

Fanatica vangloria blasonante

De ver pelo Crescente a Cruz calcada,

Ou de vender seus dias mui baratos,

Seguro de gozar no paraiso

O sempiterno amor das Houris bellas;

Nem se sente abrazar d'aquelle austero

Patriotico ardor que de bom grado

Supporta árduas fadigas, verte o sangue.

Quando peleja sobre o chão nativo,

Elle não era mais--que um renegado.

Ora verdugo da trahida patria;

Elle não era mais que um peito forte,

Um braço acreditado entre o seu bando.

Seguião-no, por que era valeroso,

E já lhes grangeára espolio grande;

Davão-lhe acatamento, por ver quanto

Elle sabia captivar do vulgo

As vontades, e arteiro dispôr d'ellas:

Mas nem por isso lhe entejavão menos

O Christão nascimento: inveja influe-lhes

A propria fama atreiçoadora que elle

Ganhára sob um nome Musulmano:

De qualquer modo, esse esforçado chefe

Vil Nazareno foi na juventude.

Não lhes era sabido té que ponto

É capaz de curvar-se o orgulho, quando

Murcho e aviltado o pundonor baquea;

Não lhes era sabido quão violenta

Chamma voraz em corações se accende

Que de meigos tornarão-se bravios;

Ignoravão qual zêlo de vinganças

Refalsado e fatal se gera e cresce

D'um convertido n'alma. Elle os regia:

Póde um homem reger outros peores,

E de ser o primeiro gloriar-se.

Taes os leões sobre o jakal dominão:

Destro o jakal espia e abate a prêsa;

Mas, no apertão da rugidora turba,

Da-se por pago, se devora os restos.

O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez · 第 23 / 48 题