É meia-noite: a fria lua ostenta
O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde
A contrastar co'a sombra das montanhas;
Traja d'azul o mar, d'azul se veste
O firmamento, este suspenso oceano,
Todo cravado d'ilhas que refulgem
Lá tão remotas, com ardor tão vivo:
E quem, quem póde attento contemplá-las,
E repascer depois os olhos tristes
No valle dos mortaes, sem que apeteça
Voar e unir-se para sempre a ellas?
Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,
Placidas e ceruleas como os ares;
Só de leve as areas roça a espuma,
Com murmurinho igual ao d'um regato.
Os ventos se recostão sobre as ondas;
E das hastes ao longo quietas pendem,
Em pregas conchegando-se, as bandeiras,
Que remata arci-fúlgido Crescente.
Nada interrompe esta mudez profunda,
Senão além a voz da sentinella
Reproduzindo a senha, ou lá mais longe
Relincho de corseis agudo e crebro,
Ou écos que respondem dos outeiros,
Ou da hoste bravia o rumor vasto,
Que semelhante ao de agitadas folhas
Alongando-se vai de praia a praia,
Ou preces usuaes que á meia-noite
Levanta o Muezzin, rasgando os ares
Co'a lamentosa garganteada lôa,
Qual 'spirito que vaga na planicie:
Melódicos accentos, mas prantivos,
Quaes os produz o vento, que, passando,
Encontra as cordas de sonoras harpas,
E extrahe descompassadas harmonias,
Que não conhece o menestrel mundano.
Este som se affigura aos sitiados
Grito agoureiro da infallivel queda;
Elle fere no ouvido aos sitiadores
Como indicio aziago e pavoroso,
Repentina toada indefinivel,
Que os corações lhes paralisa agora,
E logo os faz pulsar mui apressados,
Co'a vergonha de haver surdido n'elles
Tão desusada sensação furtiva:
Dest'arte o sino apregoador da morte
Nos sobresalta de repente ouvido,
Inda que seja em funeral d'estranhos.