XI.

É meia-noite: a fria lua ostenta

O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde

A contrastar co'a sombra das montanhas;

Traja d'azul o mar, d'azul se veste

O firmamento, este suspenso oceano,

Todo cravado d'ilhas que refulgem

Lá tão remotas, com ardor tão vivo:

E quem, quem póde attento contemplá-las,

E repascer depois os olhos tristes

No valle dos mortaes, sem que apeteça

Voar e unir-se para sempre a ellas?

Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,

Placidas e ceruleas como os ares;

Só de leve as areas roça a espuma,

Com murmurinho igual ao d'um regato.

Os ventos se recostão sobre as ondas;

E das hastes ao longo quietas pendem,

Em pregas conchegando-se, as bandeiras,

Que remata arci-fúlgido Crescente.

Nada interrompe esta mudez profunda,

Senão além a voz da sentinella

Reproduzindo a senha, ou lá mais longe

Relincho de corseis agudo e crebro,

Ou écos que respondem dos outeiros,

Ou da hoste bravia o rumor vasto,

Que semelhante ao de agitadas folhas

Alongando-se vai de praia a praia,

Ou preces usuaes que á meia-noite

Levanta o Muezzin, rasgando os ares

Co'a lamentosa garganteada lôa,

Qual 'spirito que vaga na planicie:

Melódicos accentos, mas prantivos,

Quaes os produz o vento, que, passando,

Encontra as cordas de sonoras harpas,

E extrahe descompassadas harmonias,

Que não conhece o menestrel mundano.

Este som se affigura aos sitiados

Grito agoureiro da infallivel queda;

Elle fere no ouvido aos sitiadores

Como indicio aziago e pavoroso,

Repentina toada indefinivel,

Que os corações lhes paralisa agora,

E logo os faz pulsar mui apressados,

Co'a vergonha de haver surdido n'elles

Tão desusada sensação furtiva:

Dest'arte o sino apregoador da morte

Nos sobresalta de repente ouvido,

Inda que seja em funeral d'estranhos.

O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez · 第 22 / 48 题