O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição,
reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
deshonrar.
Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á
margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal
atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço,
caiu tambem.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
e trazido para terra o seu mortal inimigo.
Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.
Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
mesmo e combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.
*O rico e o pobre*
Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da
estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
vinho.
Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico,
em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da
carruagem, chamou Martinho com a mão.
--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado comtigo,
replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»
--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor
anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»--Pois bem,
volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
preceptor continuou: «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho,
ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
idéa da entrada triumphante na sua aldeia.
O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
que era muito pallido e que tinha cara de doente.
Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Então sempre
desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e
andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus
pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.
«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não
podem comprar-se com dinheiro.
*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*
Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.
«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»
«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
minha parte.»
No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.
«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.»
«E o teu appellido?»
«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
Ao outro dia chega segundo pobre.
«Como te chamas?
«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»
«E o teu appellido?»
«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»
E partiu com o seu alqueire de trigo.
Veiu terceiro pobre.
«Como te chamas?»
«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»
«E o teu appellido?»
«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»
E levou o seu alqueire.
Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
forma até chegar ao _Amen_.
Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
«Então já sabes o Padre Nosso?»
«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
o meu trigo.»
«Quaes são? tornou o padre.»
E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
apresentado.
«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre
Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
*O talisman*
Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
sua casa.
«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão
porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas
mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar
d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
terás tu por acaso algum precioso talisman.»
«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o
dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»
«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a
restituo.»
«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»
Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um
fio de seda.
O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a
parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio,
comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por
terceira pessoa na direcção dos seus negocios.
Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.
*A alma*
«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia
vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as
suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é
verdade?»
«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»
«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»
«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
pequerruchas.»
«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
braços?»
«Não, mamã.»
«Eram as orelhas?»
«Oh! não mamã, era _cá dentro_.»
«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
praticas o bem.
*Alberto*
Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha
de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma
cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito
contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»
«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?»
«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»
«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
não pertencia.
Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.
*A canção da cerejeira*
Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira
cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
verdejantes.
A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é
que me arranjou este banquete?»
Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira
cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
brancas.
E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
deitaram!»
Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
assucar!»
No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira
cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.
«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite,
e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.
As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.
Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança.
*Os gigantes da montanha e os anões da planicie*
Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que
faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava
dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos
brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
onde seu pae estava a jantar.
--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.
--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
mais bonitos que tenho visto.»
E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os
trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha
poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o
immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar
a terra e de semear o trigo.
*A creança, a anjo e flôr*
Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e
desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros
maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins
deliciosos, cobertos de flores.
«Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.
Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão.
«Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa
reflorir no paraiso.»
O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores
brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu
a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por
cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a
atirado para a rua como inutil e morta.
«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella
rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e
doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo
verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da
cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
voltou.
«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e
atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o
thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
canteiros d'um jardim realengo.»
«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo.
--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se
até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
harmoniosamente--desde a creança abençoada até á humilde florinha do
campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
tortuosa.
*Presente por presente*
Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a
tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao
despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou
que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:
«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!
E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
achado as suas batatas melhores do que faisões.
«É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha
talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.
E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas
escolhidas.
Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar;
mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
contrario vinha trazer alguma cousa.
Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.
«Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos
acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
geiras de terra.
Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha
de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra,
simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
recompensar ainda mais generosamente.»
Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.
«Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não
tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
offereça.»
O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
Depois dirigindo-se a elle:
«Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom
preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
*O pinheiro ambicioso*
Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite
passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.
«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a
floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
o oiro attrae as ambições.
Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
avarento não me teria despido.»
No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
folhas de cristal.
«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
menos brilhante, mas viveria descansado.»
Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades
primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
todas sem deixar uma unica.
O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua
fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
sua sorte.
*Perfeição das obras de Deus*
_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
_A mãe_.--Vou-te dar outra.
_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã?
_A mãe_.--Vê se adivinhas.
_A filha_.--Nã sei, mamã.
_A mãe_.--Conheces os metaes?
_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
uma caixa.
_A mãe_.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
marmore?
_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal?
_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
primeiro.
_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque
não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito
brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que
cheira mal... Então é de ferro, mamã?
_A mãe_.--Adivinhaste.
_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
se não chama ferro, é aço.
_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
as fazem.
_A mãe_.--É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
muito.
_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
nos servimos.
_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignoral-o.
_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
_A mãe_.--Olha, ahi tens o meu estojo.
_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para
fazer uma coisinha tão delicada!
_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito!
_A mãe_.--Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez
um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
doze...
_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
grão de pimenta!
_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
doiradas, e sustentava-se no pé.
_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.
_A filha_.--Quaes, mamã?
_A mãe_.--Já t'o digo. (_Levanta-se_.)
_A filha_.--Que quer, mamã?
_A mãe_.--Quero que vejas o microscopio de teu papá.
_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.
_A mãe_.--Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira!
_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade?
_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas.
_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
visse ao microscopio.
_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
_A filha_.--O quê, mamã?
_A mãe_.--O aguilhãosinho de uma abelha.
_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é
brilhante!... Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
mesmo que com a agulha.
_A mãe_.--Prompto: olha.
_A filha_ (olhando).--É exquisito, mamã!
_A mãe_.--Então?
_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta,
e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque
será isto, mamã?
_A mãe_.--É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil
do que o que fez a agulha.
_A filha_.--Quem é esse operario tão habil?
_A mãe_.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
creaturas.
_A filha_.--É Deus.
_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
animaes?
_A filha_.--De certo.
_A mãe_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e
ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas
continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de
musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?
_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.
_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.
_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
microscopio.
_A mãe_.--Então?
_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes
buracos deseguaes.
_A mãe_.--As obras do homem são todas assim.
_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
_A mãe_.--Sabes o que é isto?
_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
_A mãe_.--Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.
_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos
eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
sobre este papel?
_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
também com tinta.
_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
redondos?
_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.
_A mãe_.--Vê-os agora ao microscopio.
_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos deseguaes.
_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta;
vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
microscopio; o que é que vês?
_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença
que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus!
_A mãe_.--Merece bem a pena estudal-as.
_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
dos homens.
_A mãe_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
obras do Creador.
*João e os seus camaradas*
Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou
o gallo, e disse-lhe:
«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda
com a minha maldição?»
«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
mundo eu quereria a tua maldição.»
«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
abençôe.»
E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.
«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
afogar-me.»
«Espera, respondeu João.»
E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
quadrúpede do atoleiro.
«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util,
aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»
--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»
«Queres tu que eu te acompanhe?
«Anda d'ahi.»
E puzeram-se a caminho.
Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for
prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»
«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»
«Queres que te acompanhe?»
«Anda d'ahi.»
Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
lastimosamente.
Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.
--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde
vaes tu?
--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»
--De boa vontade.
Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
gallo na bocca.
«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.
E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
disse a João:
--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»
--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?
--«De boa vontade.»
--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»
Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro.
Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem
uma cabana.
--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva
é macia.»
Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão
e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
empoleirou-se n'uma arvore.
Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou
a cantar.
--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que
estás a gritar?»
--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da
madrugada, que vem rompendo?»
--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna.
Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
da noite.»
Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
blasphemias horriveis.
--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
é que está lá dentro.»
Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
alegremente, sentados a uma mesa principesca.
--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do
conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
porteiro. Á sua saude!»
--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.
E d'um trago despejaram os copos.
João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»
O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril
d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o
gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do
jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
gallo.
--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar
armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»
No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
precipitadamente por uma porta falsa.
João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na
cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
o gallo n'um poleiro.
Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.
--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um
d'elles.»
--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»
--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»
--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
gavetas.»
--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.
--Bravo! exclamaram os ladrões.
E poz-se a caminho.
Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se
para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.
--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»
Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.
Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago
n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
acreditam, vão lá, e experimentem.»
--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»
Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e
partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á
porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello
empoado.
Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.
--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»
--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha
um bom acolhimento.
--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de
fila.»
--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do
jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
passada a porta do castello?»
O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:
--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.
--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que
abri a porta aos seis ladrões.
--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
porque vimos cançados do caminho.
--Ficae certos que sereis bem tratados.
O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á
cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
disse-lhe:
--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»
João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.
*O rabequista*
Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.
As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem
dinheiro no bolso para o comprar.
Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal
suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o
tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando,
correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do
juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.
Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não
chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento.
O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
derradeira melodia.
Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar.
Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á
vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
*Os pecegos*
Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á
noite o pae perguntou-lhes:
--Então comeram os pecegos?
--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei
de plantal-o para nascer uma arvore.»
--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»
--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»
--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira;
espero que quando fores maior te has de corrigir.»
--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á
cidade.»
O pae meneou a cabeça:
--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.
--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?
--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas
deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.
--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego
que eu lhe dei?
E os três pequenos disseram á uma:
--Foi o mano Eduardo.
Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
arrazados de lagrimas.
*A urna das lagrimas*
Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas
um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A
desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos
uma urna, que vinha cheia até ás bordas.
--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo
das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.
A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
affligir.
*Reconhecimento e ingratidão*
Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes.
E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e
imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a
benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos,
terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
ser meditados.
Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
principe, que para as suas despezas d'administração e representação
necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:
«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é
para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
economias.»
Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
d'este modo.
«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem
trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos
primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos
tiverem pesado sobre mim.»
O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos
paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.
Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto,
atraz da porta.
Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.
«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde
d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.
*O fato novo do sultão*
Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.
Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho;
dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões,
disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além
d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
aquelles que não exercessem bem o seu emprego.
--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles,
saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
dos ministros. Preciso d'esse estofo!»
E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
para que podessem começar os trabalhos immediatamente.
Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.
--«Preciso saber se a obra vae adiantada».
Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente
em todo o caso mandar alguem adiante.
Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o
estofo.
O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
com os teares vasios.
--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo
absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.
--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que
ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá
confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:
--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei
completamente satisfeito.»
--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
repetir tudo ao sultão.
Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
sempre.
Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem
honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
via nada.
--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o
magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
de não existir.
--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei
eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o
deixo eu.»
Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
desenho e o bem combinado das cores.
--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a
cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.
Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
especie alguma.
--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
e as cores são dignos de vossa alteza.»
E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
podessem ver alguma cousa.
--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me
acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a
minha satisfação.»
E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se
apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é
encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
geral.
Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
tecelões.
Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.
O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:
«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
ó a principal virtude d'este tecido.»
--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»
O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
espelho.
--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos.
Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»
Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.
--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão,
disse elle.»
--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»
E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.
E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que
cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber,
que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.
--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do
pae.
--É a voz da innocencia, disse o pae.
--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.
«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.
O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os
camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
imaginaria.
*Boa sentença*
Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis
d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»
O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente
setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que
tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus
oitocentos mil réis.
*Os animaes agradecidos*
Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
respondeu:
--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
chamo-me _Ingratidão_.»
--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
serviço.»
O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que
o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não
conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
desventurados.
Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.
Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão
horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de
salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
ninguem o vinha soccorrer.
Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da
cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a
ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
ali.
--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma
enorme serpente.»
--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para
sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
cumpres a tua promessa?
O intendente continuou:
--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
cumprirei a minha palavra.»
Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a
ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
o intendente.
Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.
Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a
serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»
O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se
ponha a andar, porque o não conheço.»
O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a
odiosa perfidia de que tinha sido victima.
A mulher disse-lhe:
--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
foi talvez por isso que te não pôde receber.»
Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.
Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio.
Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse
ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios
violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:
--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
n'isso.»
No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro
consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre
homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle
tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão,
vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.
No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que
o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
seria boa.
O velho respondeu:
--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro
do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»
Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como
se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em
diante, nem honras nem riquezas.
Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.
Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga
pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»
--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»
E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
disse-lhe:
--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que
lh'a furtaste.»
O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua
magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
preciosa.
--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
fechado com sete chaves, disse o rei.»
Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou
extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
semelhante thesouro.
Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
intendente, e disse-lhe:
--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_,
porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as
tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
enforcado.»
Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
gloriosos.
*O ermitão*
Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter
assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha
merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
santos mais notaveis.
Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:
--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
penitencias te tornaste agradavel a Deus.
--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a
divertir os outros.»
O austero ermitão continuou a insistir:
--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
acto de virtude.»
--Em verdade não poderia citar nem um só.»
--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
o teu patrimonio e o producto do teu officio?»
--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa
mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»
A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:
--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não
passas d'um pobre musico.»
*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco,
rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais
d'um motivo de queixa contra elle.
--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á
sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me
responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do
nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
para o rabo.»
O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar
resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão
semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite.
Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
encontrou com o seu pastor.
--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»
--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»
--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»
--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres
perguntas.»
--É então latim?»
--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»
--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»
Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
barrete ao ar, e disse-lhe:
--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu
habito.»
Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S.
Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
imperial.
--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
valho eu em dinheiro?»
--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um
dinheiro menos.»
--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso
deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de
ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
dar a volta ao mundo?»
--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
quatro horas.»
--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez,
confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com
supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»
--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
enganado, porque eu sou o seu pastor.»
--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
sendo.»
--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
peco-lhe outra cousa.»
--Não tens mais que fallar.»
--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»
Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.
*A boneca*
Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
boneca!
Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois
monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha
muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
feira, divertindo-me a meu modo.
Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
quando novos personagens me chamaram a attenção.
Eram os meus visinhos _ricos_.
Aqui é preciso uma rapida explicação.
Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.
Qual d'estas tres familias será mais feliz?...
Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.
São todas felizes; cada qual a seu modo.
Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.
Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em
seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
com a menina para a barraca onde eu estava.
Não havia ali segredo a surprehender.
Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer
desejo.
No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
felicidade de dez crianças menos abastadas.
Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca...
_rica_.
Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.
Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de
dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.
Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica
recheada, braços e pernas de páu.
Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem
o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
sapateiro.
Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.
São os meus visinhos _pobres_.
A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
immediata.
É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.
A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
pressão.
São os meus visinhos _remediados_.
A terceira é a dos meus visinhos _ricos_.
Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
estado--nada falta áquella ditosa gente!
Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.
Que formosa criança!... Terá oito annos.
Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não
sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.
Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
carro.
A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.
Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas
considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina
recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.
Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da
mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel
artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos
de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!
Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.
Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
provocavam os ralhos da mãe.
Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.
Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no
palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.
Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim
para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!...
Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»
Retirei-me da janella.
Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.
A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
vestia tres e quatro vezes!
Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
tratava!
Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.
Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
_ricos_--ouvi um grito de susto.
Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.
Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.
O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais
perto de mim bradou voz timida e suplicante:
«Não atire!... Dê-m'a.»
Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até
então.
Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.
Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
encolhendo os hombros, respondeu:
--«Já não presta!... Está esmurrada!...»
--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
cubiça.
--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.
E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
despedaçar-se nas lages da rua.
Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que
fosse sua!
Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.
A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe
sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
estranhas para ella!
E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!
Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas
amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.
Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de
cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.
Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o
vêr-se tão mal arranjada.
Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:
--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»
Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.
O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me
pedir desculpa.
Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.
Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com
quem sympathisei logo á primeira vista.
Chama-se Maria.
Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se
em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.
E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia
verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
minha Maria!»
E tinha razão!
Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.
--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o
serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e
olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella
pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi
preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»
E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
cabeça coberta por um lenço branco.
Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á
pequena.
Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
deitada nos joelhos.
--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.
E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:
--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer.
Era escusado dizer-m'o.
Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia
duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
na fronte.
De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com
ella.
--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.
Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que
tratos que sofria a desgraçada!
Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
singularissimo o aspecto da triste!
Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
fraternisar com o povo.
A misera mudára mais uma vez de nome!...
De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.
Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.
Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
a boneca.
Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
mais familiares eram á pequena.
Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
acabavam por a despedir.
Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.
Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!
Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.
Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.
Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil
immundicies.
Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto,
arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
leito do enxurro...
Olhei... Era a boneca!...
A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma
pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
impressionou o fim da pobre boneca.
Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do
sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?
--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...
--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
feia!...
Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.
Pobre boneca!
*Inconveniente da riqueza*
Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já
todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á
porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.
--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
Não se havia de arrepender.»
E accrescentou:
--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
trabalhar?»
--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido
por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo,
portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica
nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
quizer!»
Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:
--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»
Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
approximou-a do trigo.
--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
tudo!»
Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal
milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.
--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás
recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
enriquece.»
Dito isto desappareceu.
E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
como a egreja.
O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
absoluta.
*Querer é poder*
--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.
Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.
--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.
O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu
fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão
extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são
os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te
distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.
O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e
deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
horas, punha-se a resar.
Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que
chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»
--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»
--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque
vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»
Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
do rei.
*Qual será rei?*
Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer,
não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um
muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
alvo, seria o escolhido para successor.
Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe
soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que
por conseguinte seria elle quem viria a reinar.
O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
alegre do que o outro principe.
O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho
quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.
Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as
flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
longe de si, e desatou a chorar:
--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais
consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
proprios filhos!»
Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
digno.
*Os tres véos de Maria*
O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
cima.
Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.
O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e
abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
lagrimas.
O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
Jesus no convento da Ave-Maria.
O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.
Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
no paraizo.
*Os pequenos no bosque*
Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que
não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»
Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
disse-lhes:
--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
outra já não está solida.»
--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»
--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
ninho.»
--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
minha _toilette_.»
E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»
--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um
momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas,
aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»
Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
pintasilgo, em cima d'um ramo.
--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»
--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar
parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga,
que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os
habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é
ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.
*O chapellinho encarnado*
Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o
tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo
de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo
novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
chapellinho encarnado.
A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:
--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae
levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»
--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»
Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.
--Bons dias, chapellinho encarnado.»
--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
--Onde vaes tão cedo?»
--A casa da minha avó que está doente.»
--E levas-lhe alguma cousa?»
--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
dar forças.»