Rua dos Calafates, 110

1877

*A mãe*

Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com

medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.

Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia

gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino

moribundo.

N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado

n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de

neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.

O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes,

e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho

começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se

ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada

vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para

o velho:

--Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?--

E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em

ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas

corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de

cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou

ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a

tremer de frio.

--Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O

berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança.

* * * * *

A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma

mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em

casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais

depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.»

--Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!»

--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.

Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas

ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e

muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.

--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me

demores, porque quero encontrar o meu filho.--

A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a

cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as

palavras.

No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de

pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»

A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não

sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,

cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve

cristallisada.

* * * * *

--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.

--Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a

condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»

E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos

dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se

de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite

d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe

angustiosa.

E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,

andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem

barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por

elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo,

querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio

do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do

lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria

talvez um milagre.

--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos

amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus

olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu

tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e

levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a

habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella

quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura

humana.»

--Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E

apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do

que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo

do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no

mundo uma rainha.

O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na

outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua

de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou

uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;

tinha dado os seus olhos.

--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou

ella desesperada.

--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um

lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como

vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»

--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te

de mim, e dize-me onde está o meu filho.»

--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas

e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para

as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este

sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem

com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,

sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as

pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o

que tens ainda de fazer?»

--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim

do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não preciso de nada,

respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que

são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos

brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens,

dou-t'os de boa vontade.»

E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu

orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e

inteiramente brancos da velha.

Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma

vegetação maravilhosa.

Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado

de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas

cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam

cobras asquerosas.

Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos

frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,

tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de

utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.

Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que

pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em

vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com

esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a

essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia.

A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe

impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas

pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do

coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as

pulsações do coração do seu filho.

--É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre

a terra, parecia completamente estiolado.

--Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte

vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de

arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem

de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu

consentimento.»

N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,

que se approximava.

--Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda

primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella.

E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.

Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de

não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas

mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do

que os ventos enregelados do inverno.

--Não pódes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que

tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que

elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e

arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,

um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas;

ninguém sabe o que se lá passa.»

--Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,

agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte

conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores

lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,

despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!

--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és

desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!»

disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui

tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei

do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o

fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.

Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada

a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se

porventura vivesse.»

Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,

quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de

miseria, d'angustias e de desolação.

--N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a

sorte que Deus destinava ao meu filho.»

--Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto

que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»

A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:

era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla!

Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer

desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha

vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.

Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz

e tudo o que disse.»

--Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu

filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso

fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços,

deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,

Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é

sempre justa! Não me attendas meu Deus!»

E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia

dilacerante.

E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no

jardim do paraiso.

*O ouro*

Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,

empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o

resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande

fome no paiz.

Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em

segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;

e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com

que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio

qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada

de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem

que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus

vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que

trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e

que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,

estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro

apparecesse em abundancia.

A rainha tinha juizo.

*Doçura e bondade*

Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se,

e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima

disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se

commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.

Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.

Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante

d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada.

--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um

cego!»

Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns

camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o

fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a

sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não

terieis sido tão covardes.»

Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma

palavra.

Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a

quem as recebeu.

*O malmequer*

Ouvi com attenção esta pequenina historia!

No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que

deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,

rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no

meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a

olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por

elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella

manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,

parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava

que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha

insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do

sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.

N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,

sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças

sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste

verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo

o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com

admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a

olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha

feliz que cantava e voava.

«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento

acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.»

Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos

aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para

parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.

As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se

pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno

malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são

ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus,

poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a

cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a

relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que

havia de pensar.

O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é

macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de

prata!»

Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com

o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do

firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer

reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou

para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que

acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as

tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e

ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda

inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis

ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.

Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma

grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as

uma a uma.

«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se

todas.»

E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por

ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando

reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,

adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.

No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao

ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,

muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir:

haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella

aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas

antigas viagens atravez do espaço illimitado.

O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era

difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe

esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e

a alvura resplandecente das suas proprias folhas.

N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão

uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as

tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o

que desejavam.

«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos

rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.

--«Arranca a flor, disse o outro.»

A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era

morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em

que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.

«Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.»

Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.

O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia

com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus

desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.

Passou-se assim toda a manhã.

«Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me

deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre

terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do

sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da

creação!»

Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu

então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe,

afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo

inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,

e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim

uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!

como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!

--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o

minimo movimento.

Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;

a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a

arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na

flor.

Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á

desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as

convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua

cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e

d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer

não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se

para o chão, doente de tristeza.

Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,

rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro

d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e

cobriram o tumulo com folhas de rosas.

Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e

deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram

e lhe fizeram honrarias pomposissimas.

A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle

que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.

*Não quero*

Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito

alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e

perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer

á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar,

mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe

eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro

pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora

todo envergonhado.

D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o

professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois

pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,

vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os

dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico

estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a

confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro

pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto,

disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e

contei-lhe o que tinha ouvido.

*Piloto*

Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o

infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.

Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe

lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e

trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã

Joaninha.

Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do

Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o

assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações:

partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos

pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.

Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda

da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da

quinta.

Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se

empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,

tentou de noite roubar um sacco.

Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade

emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou

tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o

largar.

Contos para a infância Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro · 第 5 / 8 题