Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»

--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito

grandes, e no jardim ha muitas nozes.»

--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava

de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e

que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que

quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»

--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,

visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma

que fizesse bem a minha avó.»

--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e

aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas

venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.

--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com

grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»

E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha

se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.

Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a

avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»

--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da

pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»

--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»

Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,

e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.

Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a

porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter

fechada.

O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do

focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.

--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»

--É para te ouvir melhor, minha filha.»

--E porque estás com uns olhos tão grandes?»

--É para te vêr melhor.»

--E para que estás com os braços tão grandes?»

--É para te poder abraçar melhor.»

--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão

agudos?»

--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre

pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a

resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e

que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um

pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e

vê o lobo estendido na cama.

--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»

Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a

dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o

animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe

cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e

saltou para o chão, gritando:

--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!

A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.

O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então

duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a

neta para verem o que se ia passar.

Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se

para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e

não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e

affogou-se.

O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha

e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado

prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o

prohibisse.

*Os cinco sonhos*

Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu

um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da

ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só

então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz;

sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria

no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.

Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da

entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe

quizeram logo contar.

O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:

--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar

aqui, e punha-o na minha cabeça.»

--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»

--E eu que estava pondo o seu manto.»

--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do

meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua

trompa de caça.»

--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e

mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e

qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que

me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»

Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido

d'um moribundo deve ser respeitado.

Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou

d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os

seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.

--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem

eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser

enforcados diante d'este casebre.»

E o sonho realisou-se immediatamente.

*A egreja do rei*

Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da

Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para

a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se

concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do

marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais

ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite

seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o

d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar

pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre

mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou

então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:

--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem

fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não

cumpriste as minhas ordens.»

--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas

ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu

pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa

magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,

que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas

à construcção da egreja.»

--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na

inscripção do monumento, disse-lha o rei.»

Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja

o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

*O valente soldado de chumbo*

Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos

terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial,

d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!

A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da

caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»

que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado

de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a

mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam

maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de

menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia

chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais

firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que

precisamente nos interessa.

Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros

brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de

papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões.

Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia

poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam

pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como

uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um

lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina

tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha

levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e

imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.

--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande

fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e

quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto

preciso conhecel-a.»

Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a

elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o

equilibrio.

Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas

da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram

a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de

chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas

como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas

e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza,

emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.

Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a

dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a

espreital-a.

Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar

de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.

--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro

sitio.»

Mas o soldado fez que não ouvia.

--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»

No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de

chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por

causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a

perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta

enterrada entre duas lages.

A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a

esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!»

tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva

começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois

do aguaceiro passaram dois garotos.

--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o

navegar.»

Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de

chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois

garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!

Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava

d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se

impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.

De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a

escuridão como na caixa dos soldados.

--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me

metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina

estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas

vezes maior.»

D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do

cano.

--Venha o teu passaporte.»

Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na

espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,

rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o

parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»

Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e

sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.

Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle,

como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem

poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a

queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se

atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se

d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do

soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a

agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo,

pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»

O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi

devorado por um grande peixe.

Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que

talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado

estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.

O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim

parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,

e alguem exclamou:

--Olha um soldado de chumbo!»

O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a

cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no

soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a

gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na

barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.

Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem

cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja

janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam

em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna

no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria

derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella,

ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.

De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no

fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.

O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão

sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham

desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas

viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a

dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre

intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma

porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que

desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais

que uma pequena massa informe.

No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um

objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que

restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha

ennegrecido.

*João Pateta*

João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A

gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe

mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice

á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.

--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em

um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»

--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais

esperto.»

Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que

as não perdesse.

--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»

--Então, João, onde estão as agulhas?»

--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a

passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não

podem estar em sitio melhor.»

--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as

tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»

--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»

Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar

uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a

manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em

que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia

resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.

--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam

outro.»

--Está entendido, respondeu João.»

Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.

--Queres seis tostões por essas gallinhas?»

--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro

preço, mas que esperasse o segundo.»

--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»

--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,

mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»

Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que

mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma

experiencia, e disse-lhe:

--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o

entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»

--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»

--Quanto queres por esse carneiro?

--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.

--Quatro mil réis?»

--É o preço mais elevado?»

--Pouco mais ou menos.»

--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.

--Quanto?»

--Dez tostões:»

--É menos, respondeu timidamente o João.»

--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um

preço mais elevado.»

--Tem rasão. É seu o carneiro.»

Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou

comprar cousa alguma.

*Branca de Neve*

Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia

d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em

quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão,

distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.

--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos

como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros

como este ébano.»

Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha,

que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco,

que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito

tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher

d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão

formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas

vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho

magico dizia-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no

mundo?»

--És tu, respondia o espelho.»

No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais

formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar

maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu

espelho, disse-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no

mundo?»

--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»

A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda,

como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela

innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para

satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:

--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me

provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o

coração.»

O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e

dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e

lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito

mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas

lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se

as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim

fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e

tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou

contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma

mulher no mundo é tão bella como eu.

A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava

cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e

andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez

tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o

deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome

e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito

limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de

brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,

e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco

do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,

deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.

Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros

pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo

que tinham gente em casa. Um d'elles disse:

--Quem comeu o meu pão?»

E os outros successivamente:

--Quem pegou no meu garfo?»

--Quem comeu o meu caldo?»

--Quem bebeu o meu vinho?»

E emfim um d'elles:

--Quem está ahi deitado na minha cama?»

Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz

das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente,

e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia

seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si

aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,

que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.

Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:

--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»

--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»

Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.

Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as

minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não

tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,

e disse-lhe:

--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda

que ha no mundo?»

E o espelho respondeu:

--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete

montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,

e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que

modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto

cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á

porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»

Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras

estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser

prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no

cesto, esqueceu-se das suas promessas.

--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao

pescoço.»

Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os

anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente

inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas

gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco

a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era

outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes

entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»

Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do

espelho, e disse-lhe:

--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo?

Responde.

E o espelho respondeu:

--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está

nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a

infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete

montanhas, e bateu á porta da cabana.

--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:

--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»

--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já

viu outro tão bonito?»

Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a

porta.

--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»

Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e

Branca caiu morta.

Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria.

Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e

tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.

No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.

Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que

o espelho respondeu como antecedentemente.

--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me

sacrificar.

Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que

estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»

--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»

--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar

ninguem, nem compro coisa alguma.»

--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão

bonita, quero dar-lhe uma.»

--Obrigada, não posso acceitar.»

--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa

que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora

mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se

tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.

--Ahi tens, para castigo da tua formosura.»

Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e

perguntou-lhe:

--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»

E o espelho respondeu:

--És tu, és tu.»

--Até que emfim!»

Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o

licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava

fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos

da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam

acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo,

as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram

enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima.

«Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas,

e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se

assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais

pequena alteração.

Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á

caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço

que fosse.

--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que

é o nosso thesouro.»

--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de

mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me

façam isto.»

Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para

o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um

balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha

engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O

joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O

casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e

rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de

Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos

os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:

--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»

E o espelho respondeu:

--Branca é mais formosa que tu.

A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes

fossem descobertos, que morreu de repente.

Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de

princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.

*A rapariguinha e os phosphoros*

Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de

dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão

passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os

pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas

tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já

tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua

a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;

quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer

d'elle um terço para o seu primeiro filho.

A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha

no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na

mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido

compradores, e por isso não apurára cinco réis.

Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos

longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas

pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?

As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos

manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.

Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada

vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,

porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa

fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento

atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas

mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso

lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o

aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como

ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que

luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro

de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.

A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando

a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma

pontita de phosphoro consumido.

Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu

a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse

muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha

alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha

assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume

delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do

prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca

espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de

si a parede fria e tenebrosa.

Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo

de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a

que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem

sumptuoso.

Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas

coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.

Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os

balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se

tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo

um longo rasto de fogo.

--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que

lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando

cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»

Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe

appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.

--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes

embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de

ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.

Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e

os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua

avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas

alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que

já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.

Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os

dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios...

morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu

alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que

faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se,

disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que

ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua

velha avó no dia do Anno Novo.

*O primeiro peccado de Margarida*

Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus

tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde

acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»

Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como

ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha

ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha

joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção

d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia

sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.

N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho,

á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.

Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das

suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.

Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o

collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse

bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda

contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que

inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.

O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de

Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das

mãos.

Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si

um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo

preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a

respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,

perguntou-lhe:

--Qual é o caminho da cidade?»

Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se

tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma

estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que

o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com

um sorriso estranho e diabolico.

N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de

Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.

O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre

Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda

disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que

tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.

*Um nome inscripto no céo*

Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a

pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem

ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu

então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:

--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»

E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma

porta.

--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada

que te dar.»

--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.

E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em

cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que

lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.

--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se

embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»

Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no

Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.

*O linho*

O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e

transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre

elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o

d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.

--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,

e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha

ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello

futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou

feliz, feliz a mais não poder ser!»

--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o

mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»

E rangendo lastimosamente, cantaram:

--Cric, crac! cric, crac! crac!

--Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella

manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e

florir. Sou muitissimo feliz.»

Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela

cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de

polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e

depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!

--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario

soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»

Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,

cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,

puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.

--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas

torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»

E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a

transformal-o n'uma peça de panno.

--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que

grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:

Cric, crac! cric, crac! crac!

Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso

tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,

tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,

ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva.

Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as

manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura

fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a

melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»

Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e

picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em

compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.

--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é

abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em

paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um

só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!

O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.

--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não

se fazem impossiveis.»

E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era

finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem

adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel

branco magnifico.

--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino

do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima

de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»

E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de

numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.

--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,

quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que

ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei

explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe

perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha

sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria.

Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»

tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou

viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e

instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora

as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,

immensamente feliz!»

Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá

estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,

que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de

papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda

do mundo. A meio caminho já estaria gasto.

--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou

ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as

palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os

livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu

estou contente, e julgo-me feliz.

O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.

--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este

isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que

eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira

perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»

Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o

que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as

creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também,

depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,

e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel

foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande

chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as

suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho

semilhante.

Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as

palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.

--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que

pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no

meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do

homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.

Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,

quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam

sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas

encarnadas.

As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:

Cric, crac! cric, crac! crac!

Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que

é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»

As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas

tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.

Contos para a infância Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro · 第 7 / 8 题