Nós, Senhôr, só os accusamos de serem inimigos dos homens, e inimigos de

Roma. De terem muita vez ameaçado a cidade e o mundo, com o fogo do céu!

O resto dil-o-ha este homem, de cujos labios nunca sahiu a mentira,

porque nas veias de sua mãi corria o sangue do povo escolhido!

NÉRO

Quem és, tu?

CHILON

O teu cão fiel, divino Osiris! Um pobre estoico!

NÉRO

Detesto os estoicos: o seu desprezo pela arte e a sua linguagem

repugnam-me; como a sua miseria e falta d'aceio. Por isso mandei matar

Musonio...

CHILON

Senhôr, eu sou um estoico por necessidade. Cobre o meu estoicismo, ó

Resplandecente, com uma corôa de rozas e poê-lhe, deante, uma taça de

vinho e elle cantará Anacréonte!

NÉRO

Gosto de ti.

TIGELINO

Vale quanto peza.

NÉRO

Que sabes dos christãos?

CHILON

Permittir-me-has que chore, divino Cezar?

NÉRO

Não. Aborrecem-me as lagrimas.

CHILON

E terás, cem vezes, razão; porque os olhos que te viram uma vez, não

devem chorar nunca.

NÉRO

Falla dos christãos.

CHILON

Ouve, divino Isis! De creança me dediquei á filosofia e procurei a

verdade. Procurei-a na academia de Athenas e na de Alexandria. Tendo

ouvido fallar da doutrina dos christãos, julguei que fosse uma escola

onde achasse algumas parcellas da verdade. Relacionei-me com elles e,

por minha desgraça, o primeiro que conheci foi um tal Glaucos, medico de

Napoles. Sube por elle, que adoravam um certo Christo que promettera

exterminar os homens e aniquilar todas as cidades da Terra. Por isso

odeiam os homens, envenenam as fontes e em suas assembléas cobrem de

improperios os templos onde adoramos os nossos Deuses. Christo foi

crucificado, mas prometeu-lhes que no dia em que Roma fosse destruida,

voltaria á terra, a dar-lhes o reino promettido.

NÉRO

Então é a occasião.

POPPÊA

O povo comprehenderá porque Roma foi queimada.

CHILON

Muitos o sabem já, divina Augusta! N'isso se falla nos Jardins, no Campo

de Marte, a toda a hora. O povo levanta-se, sedento de vingança! Essa

vingança será a minha.

NERO

Porquê?

CHILON

Ouvide, divino Cezar! Glaucos, o medico, não me ensinava que a doutrina

christã ordenasse que se odiassem os homens; pelo contrario dizia que

esse Christo era uma bôa divindade e que a base da sua doutrina era o

amôr. Amei Glaucos e tanto d'elle confiei que com elle partilhava o meu

pão e o meu dinheiro. Um dia, entre Napoles e Roma, deu-me uma punhalada

e vendeu-me a mulher, a minha Berenice, tão formosa e tão bella! a um

mercadôr de escravos!

POPPÊA

Pobre homem.

CHILON

Chegado a Roma procurei os seus chefes para obter justiça contra

Glaucos. Nada obtive; mas fiquei conhecendo o apostolo Pedro, o apostolo

Paulo, o filho do Zebedeu, Crispo e muitos outros. Sei onde habitavam,

antes do incendio e onde se reunem. Posso indicar o subterraneo do

Vaticano e o Cemiterio d'Ostrianum. N'este, ouvi pregar o apostolo

Paulo. Vi Glaucos degolar creanças para que o apostolo derramasse o

sangue sobre a cabeça dos neophitos e ouvi Lygia, a filha adoptiva dos

Plaucios, gabar-se de ter enfiteiçado a tua filha, divina Osiris! e a

tua, ó Isis, a pequenina Augusta!

POPPÊA

Cezar, vinga a nossa filha! Ouves, Cezar?

NÉRO

Por Hercules!

CHILON

Ouvindo isto quiz apunhala-la. Impediu-m'o o nobre consul Marcos Vinicio

que estava ao seu lado e que a ama!

NÉRO

Quem?

CHILON

O consul Marcos Vinicio.

NÉRO

É christão? Oh! a tragedia degenera em farça!

CHILON

Senhôr, pela luz que vêm de ti, te juro que o é. Como o é Pomponia, o

pequeno Aulo, Lygia, Ursus, Lino e milhares d'outros, cujos templos

secretos posso indicar! As vossas prisões não chegarão para os conter!

POPPÊA

Cezar, vinga a nossa filha. Ordemna.

CHILON

E, appressai vos, aliás, o consul Marcos Vinicio terá tempo de a

esconder. Sahiu correndo... dir-vos-hei a caza...

TIGELINO

Dou-te dez homens. Vai lá immediatamente.

CHILON

Dez homens... com Ursus lá dentro... nem de longe!

NÉRO

Tigelino, entrego-t'os.

POPPÊA

E, nossa filha, Cezar?

NÉRO

Por todos os Deuses que será vingada! Oh, os christãos! não deixarei um

sobre a face de Terra! Os leões de Numidia e os tigres de Hircania terão

o mais lauto banquete de que ha memoria, na historia do mundo!

UM ESCRAVO, entra appressado

Cezar, um velho que se diz ex-centurião da Judêa pede para te fallar.

NÉRO

Que quer?

ESCRAVO

Não o disse. Quer fallar a Cezar...

NÉRO

Entre quem seja.

PAULO, entra, com ar rude

És tu o Cezar?

NÉRO

Creio que sou. E, tú, quem és?

PAULO

Paulo de Tarso!

NÉRO

Não conheço; mas falla... Estou hoje de bom humôr... Vens da Judêa?

PAULO

Lá estive, pela segunda vez, depois de percorrer a Lygia, a Cilicia e a

Galacia. Depois de ter fundado a egreja de Thessaloníca e de ter prégado

em Athenas e em Corintho.

NÉRO

Prégado, o quê?

PAULO

A religião de Christo, nosso Senhôr, meu e teu!

NÉRO

És christão? É o primeiro que vejo...

PAULO

Pela graça de Deus.

NÉRO

Qual Deus?

PAULO

O unico que ha. Que está no céu! e que um dia desceu á Terra e morreu

pelos nossos pecados e pela nossa remissão!

NÉRO

Tambem por mim?

PAULO

Por todos.

NÉRO

Ignorava que devia esse favor a teu Deus! Séneca nunca me fallou d'essa

divindade! Encarrego-te de lhe agradeceres por mim!

PAULO

O meu Deus é superior ás tuas zombarias...

NÉRO

Mas o que queres, tu, afinal, com o teu Deus? É para me fallares d'elle

que aqui vieste?

PAULO

Em seu nome.

NÉRO

És christão. Vens pedir o perdão para ti e para os teus?

PAULO

De quê?

NÉRO

Do seu crime.

PAULO

Qual crime?

NÉRO

O de terem incendiado Roma.

PAULO

Gritam isso nas praças, vós o espalhastes! A plebe miseravel, sedenta de

sangue, pede para elles o circo e a fogueira!

NÉRO

E tel-a hão.

PAULO

Porquê?

NÉRO

Porque fôram elles...

PAULO

Que...

NÉRO

... Incendiaram a cidade.

PAULO

Néro, Imperadôr dos Romanos, Rei do mundo, Cezar augusto... mentes! (Vai

a lançar-se a elle)

NÉRO

Deixai. Velho, tu és um doido por fôrça.

PAULO

Chamo-me Paulo e sou apostolo de Christo!

NÉRO

É poderoso o teu Deus. Só assim...

PAULO

Tu o vês. Tu és Cezar, cercado dos teus, defendido pela tua guarda

pretoriana, tendo ao teu dispôr, dezenas de legiões: eu sou Paulo, um

velho cujas pernas tremem no andar, cujos braços oscilam quando ora, e

eu faço, pelo meu Deus,--o que tu não serias capaz de fazer pelos teus

falsos Deuses--rio-me de ti, de teu poder, porque elle não alcança mais

do que até á morte!

TIGELINO

É o maior alcance.

PAULO

Não é nenhum. A vida da terra é transitoria e mesquinha: só é grande a

que vem depois da morte: infinita, eterna!

NÉRO

Quem t'a garantiu?

PAULO

O meu Deus; que eu vi morrer na Cruz, no Calvario, ao pé de Jerusalem,

para nol-a dar em troca! O que prégou a egualdade na Terra, o que

amaldiçoou o despota e levantou o escravo; o que prégou o desprezo da

carne e santificou a alma! O que condemnou, ó Romanos, a vossa luxuria

tôrpe, a vossa prostituição feita de todas as abominações e infamias! O

Deus dos Christãos! Aquelle que fez com que eu, o mais humilde dos seus

pastores, vos fale como se fôra o vosso imperador e elle... o

verdadeiro, pense...

NÉRO

No supplicio a inventar de que sejas digno, divino apostolo!

PAULO

Todos me agradam, Nero. Desde o harpão dos teus gladiadores, até aos

dentes das tuas feras! Está assente para mim... agradeço-te! Mas ha uma

legião de pobres que nunca te fizeram mal; que vivem felizes na

humildade das suas crenças com o seu Deus e que, como elle ensinou, dão

a Cezar o que é de Cezar e a Christo o que é de Christo! Nunca

perturbaram os teus prazeres, nunca disputaram o teu poder, nunca

insultaram publicamente os teus affectos, nem tentaram contra a tua vida

ou a dos teus. Innocentes d'um crime de que os accusam, só podem

defender-se, morrendo! São fracos, humildes, ignorados! Não carregues a

tua memoria com crimes inuteis; porque, em verdade te digo, que se o

fizeres terás de responder por elles...

NÉRO

Ante quem?

PAULO

Ante o nosso pae, que está no céu!

NÉRO

Cala-te.

PAULO

Cezar, disse!

NÉRO

De mais. Tigelino mette-me na cadeia esse apostolo, esse pastor, a vêr

se o tal poderoso Deus o tira de lá. (A Paulo) E, quanto ás tuas

ovelhas, prepara-te para vêres, no Circo, como os leões lhes tosquiam a lã.

PAULO

Não ha piedade na tua alma, Cezar?

NÉRO, ironico

Não sou um Deus...

PAULO

Não. Ha um, só! E, em nome d'elle, eu te amaldiçôo! Assassino de tua mãe

e de tua irmã! Anti-Christo! O abysmo abre-se a teus pés! a morte vae

empolgar-te! o tumulo abre a guella para te engulir! Amaldiçôo-te,

cadaver vivo! porque morrerás no espanto e no terrôr! e serás condemnado

por todos os seculos dos seculos sem fim! (Agarram-no) Maldito sejas,

assassino! incendiario! matricida!

TIGELINO, vae a matal-o com o estylete

Cala-te, velho!

NÉRO

Tem audacia, por Jupiter! Guarda-m'o para o circo, quero vêr como é

feito, por dentro, um apostolo christão!

(Os escravos levam-no, arrastado)

Emfim, consegui distrahir-me, hoje. Vamos jantar.

Dá o braço a Poppêa. Vão sahindo.

O PANNO DESCE

QUADRO SEXTO

Jardim de Petronio.

PETRONIO, inspeccionando as mezas e flôres

Poucas flôres. O calôr do incendio chegaria a Cumes?

O INTRODUCTOR

Procura-te um servo de Numa, com uma carta.

PETRONIO

Vem de Roma?

O SERVO, entrando

De Numa. (da-lhe um rolo de pergaminho)

PETRONIO

Como vai o teu senhôr?

O SERVO

Bem, nobre Petronio.

PETRONIO, lêndo

.......... «Aviso-te de que receberás, em breve, ordem de não abandonar

Cumas e dias depois a de te abrires as veias... Eis o que está decidido

no palacio de Cezar... Vale. Séneca.» Virá atrazada a ordem. Licio,

dirás a teu amo que lhe agradeço a carta e que já estava prevenido.

Leva-lhe esta taça (dá-lhe uma d'oiro) como recordação minha e penhôr de

nossa longa amizade. (o servo sahe) (ao escravo) Chama Eunice. (rindo)

Julgava, talvez, surprehender-me esse bandalho de Cezar! Como se eu lhe

não conhecesse as manchas de toda a vida! Como não respondi, logo, á sua

carta, decidiu-se. Pois ha-de agradar-lhe a resposta. (Entra Eunice, de

branco. Petronio, senta-se) Vem Eunice; abraça-me e beija-me! Amas-me?

EUNICE

Se fôsses um Deus, não te amaria mais. (ajoelha-se-lhe aos pés)

PETRONIO

E tu sabes a quem deves o meu amôr?

EUNICE

A ti, á tua bondade!

PETRONIO

E a Chilon.

EUNICE

A Chilon?

PETRONIO

Não te vendeu elle dois fios da cinta da Vénus de Chypre?

EUNICE

Oh, o charlatão! Ninguem pode modificar a vontade dos Deuses?

PETRONIO

Nem mesmo o nobre Chilon?

EUNICE

Nobre?

PETRONIO

É hoje um dos companheiros de Néro. Uma arma de Poppêa. Delatou os

christãos.

EUNICE

Oh, o infame!

PETRONIO

Tal imperadôr, tal côrte! (acaricia-lhe a cabeça) Mas tu és,

verdadeiramente, bella, Eunice.

EUNICE

Meu Senhôr!

PETRONIO

Feliz aquelle que, como eu, encontrou o amôr habitando em tal corpo!

Parece-me ás vezes que sômos duas divindades! Nem Lyzias, nem

Praxiteles, criaram, nunca, linhas tão bellas! Não ha marmore mais

quente, mais rozado do que o do teu collo! (Toma um punhado de violetas

e deita-lh'o pela cabeça e hombros) Eis o que os christãos querem

abolir: o culto da belleza! Um selvagem não criaria uma tão ridicula

filosofia. Trata sempre o teu corpo bello, como um dom divino! Sê sempre

Deusa, bella, adoravel, Eunice! (Beija a)

EUNICE

Tu és tão bom, meu senhor, tão bom, que eu quizera ser realmente uma

Deusa... e tua escrava, como sou!

PETRONIO

Enganas-te. Tu não és minha escrava: pertencem-te esta casa, estes

jardins, os meus escravos, os campos e os rebanhos.

EUNICE

A mim?

PETRONIO

A ti. Libertei-te ha muito. Nada te disse. O consul dispensou a tua

presença. Fiz-te, sem saberes, os meus presentes de nupcias.

EUNICE, beijando-lhe as mãos

Meu senhor e para quê?

PETRONIO

Porque vamos talvez separar-nos.

EUNICE, levantando-se

Como, senhor?

PETRONIO

Socega... terei de fazer uma longa viagem...

EUNICE

Leva-me comtigo.

PETRONIO

Não posso.

EUNICE

Não podes?

PETRONIO

É uma desconhecida viagem... que se tem de fazer, só!

EUNICE, receiando comprehender

Só?

PETRONIO

Só!

EUNICE, comprehendendo

Petronio! meu senhor. (Joelha de novo).

PETRONIO, respondendo á pergunta, muda, do olhar de Eunice

Sim!

EUNICE

Que desgraçada sou! Os deuses não permittirão...

PETRONIO

Eunice, eu quero morrer... como me compete!

EUNICE

Comprehendo, meu senhor. (Domina-se completamente.)

PETRONIO

Tu és bella, livre, rica! A mocidade e a belleza tem os seus direitos.

Lembra-te de mim... com amor!

EUNICE

Não, meu senhor, eu não sou rica nem livre. Não o quero ser. Sou a tua

escrava!

PETRONIO

Então eu serei o escravo da minha escrava. (Acaricia-a) Eunice, faz

servir o jantar. (Dão um longo beijo.) Que a belleza seja sempre adorada!

EUNICE

E a bondade!

Eunice sahe e volta com Nerva, Lucio, Octavia e Julia. Ao entrar uns

adolescentes coroam-nos de rozas. Trazem-se perfumes. Ha uma orchestra

invisivel.

TODOS

Salve, Petronio.

PETRONIO

Salve, salve.

Reclinam-se. Os escravos servem.

JULIA

Que noticias de Roma?

PETRONIO

Cesar mandou-me chamar.

JULIA

É teu amigo, Cezar.

PETRONIO

Muito.

OCTAVIA

Acaso serás tu, agora, o querido dos homens, como tens sido sempre o das

mulheres?

PETRONIO

Que os Deuses se amerciem de mim, formosa Octavia. Na minha edade! (Riem).

NERVA

E, não vais?

PETRONIO

Não vou.

LUCIO

Ficarás então em Cumas?

PETRONIO

Para sempre.

OCTAVIA

E o imperador?

PETRONIO

Que cante e dance.

JULIA

É a sua maneira de descançar.

PETRONIO

É; porque para se fatigar vae matando os christãos.

NERVA

A perseguição continúa?

PETRONIO

Cada vez mais terrivel.

OCTAVIA

Haverá, ainda, muitas tardes de circo?

PETRONIO

É natural. Os christãos são já aos milhares, em Roma, como em outras

cidades da Italia, na Grecia e na Asia. Ha-os entre os legionarios,

entre os pretorianos, nas melhores familias de Roma.

NERVA

Dizem que nunca houve tres tardes de circo, como as dos christãos!

PETRONIO

Nunca!

JULIA

Estiveste em todas, Petronio?

PETRONIO

Em todas.

OCTAVIA

Amas o espectaculo?

PETRONIO

Não: necessitava de lá estar.

LUCIO

Conta-nos.

PETRONIO

Nenhum de vós esteve em Roma?

NERVA

Nenhum; creio.

PETRONIO

Pois foram celebres as tardes. Nero lançou a ordem de prisão.

Agarraram-se homens e mulheres, velhos e novos, creanças e virgens! Na

primeira tarde, vestiram-nos com pelles de animaes e largaram-lhes os

cães fulvos de Peleponéso e os molossos zebrados dos Pyrenéus,

esfaimados, de dias. As prezas, porém, eram extranhas, e os cães

hesitaram no attaque. Mas logo que o primeiro enterrou os dentes na

espadua d'uma rapariga, os outros, ao verem sangue, cahiram sobre o

monte dos christãos, ajoelhados! Então, por entre as convulsões, os

estertores de agonia, os uivos dos mastins, ouviam-se vozes, que diziam:

pelo Christo! pelo Christo! As feras mutilavam e, sobre a arena, corria

em rêgos o sangue entre membros decepados e os corpos sedentos dos cães

insaciaveis! O cheiro do sangue e dos intestinos abertos cobriu os

perfumes da Arabia e encheu o circo! Os cães não venciam a tarefa. O

povo rugindo, em delirio, pediu os leões. Viram-se então cabeças

desapparecer em guellas vermelhas, peitos abertos com um roçar de garra,

corações e ventres extravazados, e o ruido dos ossos triturados por

maxillas de ferro! O povo esmagava-se, descendo as bancadas, para vêr

melhor: os leões enchiam de trovões as arcarias do Circo!

OCTAVIA

E acabou?

PETRONIO

Não. Havia ainda muitos vivos. Abriram-se as jaulas e sahiram os tigres

do Euphrates, as pantheras de Java, ursos, lobos, hyenas, chacaes! A

scena perdeu toda a apparencia de realidade! Entre os gritos, os urros,

os rugidos, ouviam-se gritos, aqui e ali, pelas bancadas, gritos, entre

dentes, de mulheres em espasmo, cujas forças se iam exgotando!

Empallideciam os rostos e vozes gritavam: basta! basta! Um exercito de

Numidas, armados de flechas, fez recolher as féras. Limpou-se a arena;

as fontes jorraram aguas perfumadas e uma nuvem de adolescentes,

vestidos de amôres, encheu o circo de petalas de rosas! Caso extranho e

unico no circo: Nero desceu á arena, tomou a cithara e cantou um hymno!

LUCIO

E foi applaudido?

PETRONIO

Como sempre.

OCTAVIA

A mim era-me impossivel assistir a uma tarde de circo.

JULIA

E tu, Petronio, cujo gosto e prazeres teem um tão grande cunho de

elegancia e de delicadeza...

PETRONIO

Comecei por dizer, bella Julia, que precisava de lá estar.

NERVA

E, a segunda?

LUCIO

Conta-nos a segunda.

PETRONIO

Foi menos interessante. Limitaram-se a queimar muitos e a sacrificar os

restantes. Todo o prazer do espectaculo, para quem o achava, estava em

gozar a morte lenta, a agonia das victimas! (Reparando) Por Pollux, eu

deixo de contar, se apenas empregaes os vossos sentidos em me ouvir.

NERVA

Escutamos-te e comemos, ao mesmo tempo.

PETRONIO

Mas não bebeis. (faz signal; os escravos enchem as taças)

LUCIO

Conta a terceira.

OCTAVIA

É mais curiosa, a terceira tarde?

PETRONIO

Terrivelmente curiosa, para mim. Foi de noite. Na noite a seguir áquella

em que Néro passeiou, entre crucificados christãos, breados, a arder,

pelos jardins!

JULIA

Que crueldade!

PETRONIO

E quê cheiro! A peripecia extranha foi esta. Quando soaram as cornetas,

correu-se a grade d'um subterraneo e um homem colossal, um Lygio, de

côxas herculeas e braços, os musculos do peito que pareciam dois escudos

unidos, tal era o relêvo, appareceu, na arêna! Quando se esperava que

inimigo lhe dariam, abriu-se a grade fronteira e um toiro da Hespanha,

negro como a noite, rompeu pelo circo, trazendo, atado ás hastes, no

cachaço, o corpo semi-nú d'uma virgem christã. Lygia! rugiu o escravo ao

conhecer a rapariga! Lygia, tem coragem!... E, de espinha curva, rapido,

cortando a terra, o olhar em braza, as mãos em garra... aproximou-se do

toiro, e d'um salto, cahiu-lhe na frente, agarrando lhe os cornos!

Fez-se um silencio profundo! Ouvir-se-hia o vôo d'uma môsca! Homem e

toiro quedaram se na imobilidade do marmore, semelhantes a um trabalho

d'Hercules, esculpido! Para se libertar do jugo, o toiro, fincando-se

nas patas, dobrou-se, em arco: turgiam-se os musculos do homem a estalar

a pelle que se fazia purpura! No peito de Néro, como no das vestaes,

como nos do povo inteiro, os corações saltavam! Corria o suor pelas

testas! A palavra expirava nos labios! Homem e toiro, n'um suprêmo

esforço, dir-se-hiam pregados no solo! Estes momentos duraram séculos.

Subitamente, ouviu se como um vagido surdo, e, como n'uma allucinação, os

olhos viram a cabeça da fera, voltar, voltar, quasi imperceptivelmente...

Ouvia-se o respirar offegante do homem; mas a cabeça do toiro continuava

a voltar-se, lentamente, lentamente... quando, de subito, da bôcca

sahe-lhe, pendida a lingua cheia de baba! Um momento mais... um ranger

de vertebras... e n'um tremôr subito, o olhar baço, o pescoço estendido,

como uma massa inerte, o toiro cahe!... morto!

NERVA

Por Jupiter, eis ahi um homem!

JULIA

Por Venus!

LUCIO

Por Hercules!

OCTAVIA

E, foram perdoados?

PETRONIO

O povo ergueu-se pedindo-o. Néro recuzava, quando, de subito, um bello

rapaz, um guerreiro, salta á arena, rasga a tunica no peito, para

mostrar as cicatrizes das batalhas e levanta os braços para o povo,

cobrindo com o manto o corpo nú da christã. O povo rugiu improperios e

Néro, com mêdo, cedeu.

JULIA

Quem era esse mancebo? Um amante?

PETRONIO

Um apaixonado, que a pretendera arrancar á prizão que tentava salval-a,

ainda, nos subterraneos do circo, e que, sem esperança, estava a meu

lado, branco como um cadaver!

JULIA

Chamava-se?

OCTAVIA

Quem era?

PETRONIO

Marcos Vinicio, o filho de minha irmã. Eis porque vos disse do começo,

bella Octavia, que precizava de lá estar.

JULIA

Que tormentos d'amante!

PETRONIO

A felicidade é como a vida: nasce entre dôres!

NERVA

Que é feito d'elles?

PETRONIO

Cazaram e foram para o campo, para a beira mar, afogar em beijos os

terrôres e lagrimas passadas!

OCTAVIA

Que os Deuses os protejam.

PETRONIO

Pois brindemos aos Deuses pela sua felicidade. (bebem)

JULIA

Amava-lo muito, Petronio?

PETRONIO

Tanto, que arrisquei, por elle, o favôr de Cezar!

NERVA

Como?

PETRONIO

Defendendo os christãos.

LUCIO

Os christãos?

PETRONIO

Os christãos que me importavam? Defendia Lygia e Marcos.

NERVA

Espantava-me que defendesses os Deuses estranhos.

PETRONIO

Nem os estranhos, nem os nossos.

LUCIO

Não amas os nossos Deuses?

PETRONIO

Muito... para figuras de rethorica!

OCTAVIA

O que amais então no mundo, elegante sceptico?

PETRONIO

As arvores e as flôres; as joias e os perfumes; as estatuas de

Praxiteles e os bronzes de Corintho; os vinhos velhos da Grecia e as

mulheres novas... de toda a parte.

JULIA

Tendes amado muito.

PETRONIO

E, ainda os livros, a poesia, os versos--excepto os de Néro--.

OCTAVIA

Dizem que os scepticos são, sempre, alegres.

PETRONIO

Será por isso que me esforcei por viver, sempre, alegremente, e o farei

até ao fim... o que será facil... agora! (tomando a taça) Á Rainha de

Chypre! por Eunice!

NERVA

Aos Deuses, pela felicidade de Petronio!

EUNICE, aparte a Petronio

Ao meu senhôr! (bebem os dois, sós)

PETRONIO, levantando-se um pouco sobre o leito

Amigos, perdoai-me o fazer-vos um pedido: eu quizera que cada um de vós

se dignasse de acceitar a taça com que brindou aos Deuses e á minha

felicidade. (toma a taça) Eis a taça do meu brinde á rainha de Chypre,

por Eunice. Nenhuns outros labios beberão por ella; nenhuma outra mão

ousará levantal-a, em honra de outra divindade! (atira-a ao chão e

parte-se: espanto) Amigos, alegrai-vos. A velhice é a triste companheira

dos nossos ultimos annos. Dou-vos um exemplo e um conselho.

NERVA

Que queres fazer?

PETRONIO

Gozar, beber, contemplar as fórmas divinas que repoisam a meu lado e

adormecer, emfim, n'um sonho, cercado de rozas. Fiz já as minhas

despedidas a Cezar. Ouvide o que lhe mandei dizer, no meus adeus. (tira

um rolo e lê) «Sei, divino Cezar, que me esperas impacientemente e que

para premiares a minha ida para junto de ti, não duvidarias dar-me o

comando das tuas guardas e fazer de Tigelino um almocreve, officio para

que parece ter sido creado pelos Deuses! Pelo Hades e em particular

pelos manes de tua mãi, de teu irmão, de tua mulher, juro-te que me é

impossivel ir. A vida é um thesoiro de que eu sube extrahir as mais

preciosas joias; mas tem coisas, tambem, que confesso sou incapaz de

suportar até ao fim! Não vás pensar que me indignou o assassinato de tua

mãi, de teu irmão, de tua mulher; que me revoltei contra o incendio de

Roma; que me offendeu o teu processo de matar todos os homens honrados

de teu imperio! Não; mas por largos annos ainda, deixar-me esfolar os

ouvidos pelo teu canto, vêr as tuas pobres tibias escoicear nas danças

pirricas, ouvir-te tocar, declamar, recitar a teu modo--pobre poeta

d'agua dôce--semelhante perspectiva é superior a minhas fôrças. Resolvi

morrer! Roma tapa os ouvidos; o universo cobre-te de gargalhadas! E, eu?

eu não quero mais envergonhar-me de ti! O ladrar de Cerebero ser-me-ha

menos penoso: não sou amigo d'elle, não tenho de córar pela sua voz!

Goza e passa bem, mas deixa-te de musica! assassina, mas não faças

versos! envenêna, mas para-te de dançar! incendeia as cidades, mas deixa

em paz a cithara! Tal é o conselho do teu amigo, Petronio.» (dá o rolo

ao escravo) Queima esta carta e manda entrar o médico.

NERVA

... Mas é a morte!

LUCIO

E, nós...?

PETRONIO, rindo sereno

Nada receieis. Nenhum tem necessidade de dizer que ouviu ler esta carta.

(Faz signal ao medico que entra. Este passa-lhe no pulso uma anilha de

oiro e com um estylete abre-lhe a veia radial).

EUNICE

Senhor, se os Deuses me dessem a immortalidade, se Cezar me desse um

imperio, para te deixar, eu não faria nunca! Tenho pois o direito de ir

comtigo... concede-m'o!

PETRONIO

Tu amas me, verdadeiramente, divina! Vem commigo, pois, se assim o queres.

EUNICE, alegre, estendendo o braço ao medico

Abre. (O medico faz o mesmo. O sangue corre. Eunice inclina se sobre o

peito de Petronio).

PETRONIO

Phalerno! (Um escravo deita-lh'o) Servide antes, ás damas, o xaroposo

Careno, ou o opalino Chio, que convida a amar! (Inclina se para Eunice)

Não queres tu, Divina, que bebamos, na tua taça, pela ultima vez, aos

Deuses, por toda a felicidade que nos deram?

EUNICE

Sim, meu senhor. (Bebem os dois).

O INTRODUCTOR

Marcos Venicio e Lygia.

PETRONIO

Bem vindos! (Ao medico) Não posso morrer ainda; estanca-me o sangue. (O

medico liga-lhe o pulso, rapido).

MARCOS, entra

Salve senhores! salve Petronio.

TODOS

Salve Marcos!

TODOS

Salve Lygia!

NERVA

Salve, formosa Lygia!

PETRONIO aos dois que chegam junto d'elle

Salve! Salve! (Os escravos trazem duas cadeiras. Marcos e Lygia

sentam-se). Que vieste fazer a Cumes, Marcos?

MARCOS

Petronio Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz · 第 3 / 4 段