Escrevemos-te. Queriamos que fosses passar comnosco uns tempos na nossa

casa da Sicilia. A tua carta entristeceu-nos. Resolvemos vir-mos

buscar-te. És preciso á nossa ventura!

PETRONIO

Admiro o teu coração: como me admira que dois noivos se possam lembrar

d'um amigo ausente.

LYGIA

Tu és para nós muito caro. Devemos-te a maior parte da nossa felicidade!

PETRONIO

Foi o vosso Christo quem vos salvou! (Levemente ironico).

LYGIA

Não rias...

PETRONIO

Oh, não; mas é preciso confessar que Ursus e o povo romano tambem

fizeram alguma coisa para o caso.

MARCOS

Vem comnosco, Petronio.

PETRONIO

Não, feliz esposo da princeza Aurora: se eu tivesse desejo de ir para

onde me queres levar, eu não o poderia fazer. Se alguma coisa depois da

morte--ao contrario da opinião de Pyrrhon--subsiste e vive, a que

animava o corpo da minha bella, de cabellos d'oiro, a minha Eunice,

espera-me! (Indicando-a) Está morta! (Arranca a facha do pulso e aperta

Eunice contra o peito).

MARCOS

Petronio!

LYGIA

Meu amigo!

PETRONIO

Não vos afflijaes! Para vós nasce a aurora da vida, para mim, pôz-se já

o sol, cerca-me o crepusculo! Tinha de ser: conheces Néro, comprehendes

o resto. Vivi como quiz, morro como me apraz! Não vos afflijaes! A morte

é um episodio da vida! Já vês, Marcos, que te enganas, se pensas que só

o teu Deus dá a tranquillidade na morte! Vê como morro tranquillo.

Platão diz que a virtude é uma musica e a vida do sabio uma harmonia! Se

assim é, vivi e morro virtuoso. (Toma a taça) Permitte, virtuosa Lygia,

que me despeça de ti, com as palavras com que te saudei, na primeira vez

que nos vimos. «Vi durante a minha vida povos sem conto, mas uma mulher

que te egualasse, eu não vi nunca!» (Aos dois) Se eu tenho uma alma,

ella irá poisar junto á vossa casa, na forma d'uma borboleta, ou, como

querem os egypcios, na de um falcão. Só, assim, irei. (Levantando a taça

e todos) O ultimo brinde aos noivos. (A voz enfraquece levemente) Que a

terra de Sicilia se metamorfoseie para vós n'um jardim dos Hesperides,

que os Deuses dos campos, dos lagos, das fontes, façam nascer as flores

sob os vossos pés, e que em todos os acanthos dos vossos pyristilos

vivam e noivem, eternamente, as pombas brancas! (Bebe e todos.

Inclina-se a beijar a cabeça d'Eunice).

O INTRODUCTOR

Um servo de Numa.

PETRONIO

Outro?

O SERVO

Nobre Petronio. Chego de Roma a toda a brida, mandado por Numa, meu

senhor, dizer-te...

PETRONIO

O quê?

O SERVO

Revoltou-se Vindex, com as legiões da Galia. A guarda pretoriana,

amigos, escravos, todos abandonaram Cezar. Todos fugiram do palacio e o

deixaram só! Só, de mêdo, suicidou-se!

PETRONIO

É tarde! (Desmaia e morre sobre a cabeça de Eunice).

MARCOS

Que dôr!

VOZES

Mortos! O bom Petronio! A bella Eunice!

MARCOS

Sabeis, vós, amigos, o que morreu? O mundo romano: a Graça e a Belleza!

LYGIA, joelhando

Ó Christo! tende piedade das suas almas!

(O PANNO DESCE, LENTO)

FIM DO TERCEIRO E ULTIMO ACTO

Petronio Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz · 第 4 / 4 段