Hoje, senhôr, a virtude e a sabedoria teem tão pouco valôr, que um pobre
filosofo se vê forçado a lançar mão de todos os meios de existencia!
MARCOS
Quaes são os teus?
CHILON
Saber tudo o que se passa e offerecer os meus serviços a quem preciza
d'elles.
PETRONIO
E pagas-te?
CHILON
Conforme os meus meritos. Que remedio!
MARCOS
Não devem ser grandes porque te não deram ainda para um manto.
CHILON
Sou modesto, senhôr. O que é pequeno não é o meu merito é a gratidão dos
homens. Quando se esconde um escravo de preço quem o descobre? Quem
indica os culpados dos pasquins em _louvôr_ de Poppêa, a divina? Quem
descobre nas livrarias os versos contra Cezar? Quem leva as cartas que
se não podem confiar aos escravos? Quem faz fallar os barbeiros, os
alfaiates, os taberneiros e capta a confiança dos escravos a saber tudo
o que se passa n'uma casa, do atrio ao jardim? Quem conhece todas as
ruas, praças, bêcos, alfurjas, da cidade? Quem sabe o que se diz, nas
thermas, no circo...
PETRONIO
Basta, por todos os Deuses, illustre sabio, ja sabemos quem és.
CHILON
E quanto valho.
MARCOS
Bem. Tens necessidade de indicações?
CHILON
Eu? Tenho necessidade de armas.
MARCOS
Quaes?
CHILON, fazendo o gesto de dinheiro
Os tempos vão tão máus, para os filosofos...
MARCOS, atirando-lhe a bolsa
Ahi tens.
CHILON, apanhando-a
Começamos a entender-nos. Nobre senhor, ouvide: Lygia não foi roubada
por Aulo, nem está no Palatino. O rapto foi feito por Ursus, o gigante
seu escravo, e pelos christãos.
PETRONIO
Ouve, Marcos.
CHILON
Lygia adora a mesma divindade que Pomponia, a mais virtuosa das Romanas;
é Christã...
MARCOS
Como o sabes?
CHILON, com emphase
Sou christão!
PETRONIO
Tu?
CHILON
Desde hontem, senhôr, desde hontem.
MARCOS
Reflecte Chilon. Tu não és um imbecil. Quererás presuadir-nos de que
Pomponia e Lygia pertencem á seita dos inimigos do genero humano, dos
envenenadôres, das gentes perdidas nos ultimos vicios?
CHILON
É christã, senhôr, tende a certeza absoluta.
PETRONIO
O que quer dizer que Pomponia e Lygia envenenam as fontes, immolam as
creanças encontradas nas ruas e se entregam ao deboche? Tu que viveste
em caza de Aulo vês como isto é uma calumnia ou uma tolice! Ou então os
christãos não são o que se diz.
MARCOS
Seja como fôr. Foi então esse Ursus quem a roubou?
CHILON
Com os christãos.
MARCOS
E, encontral-a-has? Saberás onde está?
CHILON
Esta noite, ainda, trarei noticias.
MARCOS
Duplicarei a offerta se a achares. Gulon? (para dentro)
GULON
Meu senhôr.
MARCOS
Dá um manto capaz a esse... filosofo.
CHILON
Nobre consul, sois duplamente generoso: cobrís d'uma vez, com a mesma
capa: a Sciencia e a Virtude! Nobre Petronio, vale. (Sahe)
PETRONIO
Adeus... _collega_. Não me desagrada o tal filosofo. Descobre Lygia,
verás. Mas parece-me bom mandares desinfectar o atrio... A respeito de
perfumes a filosofia está muito atrazada... só conhece... os naturaes.
Fica-te com os Deuses... Sabes que amanhã é a festa do Lago?
MARCOS
Sei.
PETRONIO
Dizem que Vatino inventou maravilhas. Não podes faltar. Cezar poderia
notar a tua falta. E... bôas novas, até lá.
MARCOS
Gulon?
GULON
Meu Senhôr. O jantar?
MARCOS
O meu manto e o estilete. (paseia agitado)
GULON
Eil-os. (Veste-lhe o manto) Ides só?
MARCOS, mettendo o estilete no cinto
Só. (Sahe)
O PANNO DESCE
QUADRO QUARTO
Salão no palacio de Néro. Ao fundo um terraço d'onde se vê Roma. Mezas,
cadeiras. Anoitece, gradualmente, durante o acto.
PETRONIO, a Marcos que vai a passar ao fundo
Dou graças aos Deuses, nobre consul, por te saber ainda vivo.
MARCOS
Ah! Petronio.
PETRONIO
Nem me vias. D'onde te desenterraste? Em tua caza, em parte alguma se
sabia onde estavas. Alguma Deusa te raptou para a sua morada?
MARCOS
Talvez.
PETRONIO
Mas tu estás mal, meu sobrinho, muito mal. É evidente que Vénus te
perturbou o espirito e te faz perder a razão! Por Pollux, se a chama que
te consome te não reduz a cinzas, tu metamorfoseias-te n'aquella
esphinge do Egypto, que dizem que perdida d'amôr pela Lua, se tornou
indifferente ao dia, de modo a só esperar a noite, para poder com os
olhos de pedra, namorar a amante!
MARCOS
Oxalá me transformasse em esphinge!
PETRONIO
... Se não sou eu, na ultima vez que nos vimos, na festa do lago, ou
tinhas de transformar-te em esfinge... ou eras um homem perdido.
MARCOS
Como assim?
PETRONIO
Quem era a mulher que, no bosque de Diana, te queria levar para entre as
sombras?
MARCOS
A mulher mascarada?
PETRONIO
Sim.
MARCOS
Não sube, nem quiz.
PETRONIO
Era Poppêa.
MARCOS
Heim?
PETRONIO
Chamei-te a tempo. Ella fugiu. Se n'esse momento lhe negas o amôr, que
era feito de ti?
MARCOS
Tel-o-hia recuzado.
PETRONIO
Evitei essa asneira a tempo; mas a hesitação que mostraste, valeu-te o
seu odio. As mulheres não perdôam, nunca, essas coisas... e então
Poppêa...! Acautela-te.
MARCOS
Desprezo-a.
PETRONIO
A pequena Augusta morreu...
MARCOS
Que me importa?
PETRONIO
A morte atribue-se aos feitiços de Lygia.
MARCOS
Imbecís!
PETRONIO
E, a proposito... Lygia?
MARCOS
Tu não calculas, Petronio, o que me tem acontecido.
PETRONIO
Mas diz. Tens-me causado sustos. Sabes que te quero...
MARCOS
N'essa noite... a do Lago, quando cheguei a caza esperava-me Chilon.
PETRONIO
O filosofo?
MARCOS
O tal. Sabia de Lygia, vinha propôr-me o raptal-a. Concordei. Fomos, eu,
elle e Croton, o gladiadôr, embuçados, ao Ostrianum, o velho cemiterio,
á sahida da porta Capuana. Alli se reunem escondidamente os Christãos e
lá ouvi Paulo, o apostolo, pela primeira vez. Lygia estava junto d'elle,
envolta n'um manto escuro, embebida, a ouvil-o, n'uma allucinação de
todo o seu sêr, arrebatada, divina! Se tivesses visto a sua figura d'uma
belleza ideal...
PETRONIO
Adiante.
MARCOS
Todo o meu amôr renasceu com a furia d'um toiro das Hespanhas. Jurei
tel-a. Alli, era perigoso: os christãos eram alguns centos. Seguimo-la
até a caza, á sahida. Uma velha caza, no bairro do Transtiberino. Entrou
n'um pateo com o velho apostolo e esse Ursus, o escravo gigante, que a
não larga, nunca. Escondemo-nos n'um corredôr á espera de occasião
propicia, eu e Croton, porque o filosofo não sendo capaz de entrar...
ficou de vigia, na rua. Ursus veio buscar agua á cisterna do pateo. Era
occasião: virei-me para Croton e disse-lhe: matta. O gladiadôr atirou-se
ao escravo como um tigre; eu corri pelo corredôr, empurrei a porta
entreaberta, agarrei Lygia ao collo e corri para fóra. Desmaiára.
PETRONIO
Bello grupo dariam para um rapto.
MARCOS
Ao chegar ao pateo eis o que eu vi. Ursus dominava Croton vergado sobre
um joelho, apertando-lhe, com uma das mãos, o pescoço. O gladiadôr tinha
um estertôr na garganta, os olhos sahiam-lhe das orbitas! Ao vêr-me,
Ursus, applicou sobre o peito de Croton um murro tal que este rolou pelo
chão, de bôcca aberta, jorrando sangue. Estava morto!
PETRONIO
Por Hercules, que esse homem merece uma estatua.
MARCOS
De chofre, voltou-se para mim, agarrou-me este braço e partiu-m'o.
PETRONIO
Depois?
MARCOS
Não me lembra senão d'uma voz, feita de todos os sons das citharas,
dizer: Ursus, não mates! Quando acordei estava n'uma cama e vigiava-me
uma pobre viuva, um filho e... ella!
PETRONIO
E foi ella quem te tractou?
MARCOS
Tratou-me um medico; mas salvou-me, ella! Que cuidados, que dedicação,
dias e noites! Contando mesmo as horas dolorosas da doença, passei,
alli, os melhores dias da minha vida. O apostolo, contava toda a vida e
morte de Cristo, seus milagres e douctrina. Vi os mais bellos exemplos
de caridade, de amôr e de perdão! Se tu o ouvisses!
PETRONIO
Não me faltava mais nada! O que faz o amôr! Começavas a achar essa
religião adoravel, porque era a de Lygia.
MARCOS
Talvez.
PETRONIO
É assim. O amôr transforma as pessôas completamente, opiniões e gostos.
Como a mim me está acontecendo. D'antes só gostava do perfume da
verbena; lembras-te? Hoje, como a bella Eunice prefere o das violetas, é
d'este que eu gosto mais.
MARCOS
Eunice?
PETRONIO
Sim, Eunice. Ah! tu não sabias ainda... Tenho que te agradecer aquella
recuza... É uma maravilha de esthetica, a loira Eunice! Uma obra de
Praxiteles...!
MARCOS
E a tua Chrisotémis?
PETRONIO
Mandei-lhe umas sandalias bordadas a perolas... É como quem diz: vai
passeiar. É o meu processo; ellas já sabem. Chrisotémis, francamente,
era contemporanea da guerra de Troia. E, afinal, melhoraste, sahiste...
e o que é feito da tua Lygia?
MARCOS
Fugiu-me.
PETRONIO
Outra vez?
MARCOS
No dia em que me levantei, ella sahiu.
PETRONIO
Tinha mêdo de ti?
MARCOS
Tinha mêdo de si, propria.
PETRONIO
É extraordinario!
MARCOS
Dizes bem. Ella não é como as outras mulheres!
PETRONIO
Ah! não? Então não perdes nada com a abstinencia.
MARCOS
Não podemos entender-nos.
PETRONIO
Decerto, não. Que o Hades confunda esses christãos que te fazem perder o
senso commum.
MARCOS
Tu não conheces a sua doutrina.
PETRONIO
Enganas-te, conheço. Já li as taes cartas de Paulo de Tarso. Babozeiras.
É uma doutrina anti-humana: porque a felicidade só vem da belleza, do
amôr, e da força! A isto, chama elle, vaidades! E que theorias!
Retribuir o mal com o bem... Que justiça! O que devemos ao bem? Se a
sanção é a mesma para o bem e para o mal, porque seriam os homens bons?
MARCOS
Segundo elles a sanção começa na vida futura, eterna.
PETRONIO
Isso são coisas a verificar... depois da morte.
MARCOS
A vida para elles começa com a morte.
PETRONIO
É natural. É como se se dissesse: o dia começa com a noite! Vais raptar
Lygia outra vez?
MARCOS
Não. Prometti-o.
PETRONIO
Tens tenção de adoptar a doutrina christã?
MARCOS
Querel-o-hia; mas toda a minha natureza se oppõe.
PETRONIO
Emfim, és capaz de esquecer Lygia?
MARCOS
Nunca!
PETRONIO
Então vai... viajar. (entram escravos com amphoras e taças que collocam
nas mezas do 1.º salão e nas da varanda) Vem Cezar. O que vieste fazer?
MARCOS
Cezar mandou-me convidar para a leitura da Tróiada.
PETRONIO
Tambem? E... se elle te perguntar por Lygia?
MARCOS
Não sei...
PETRONIO
Dize-lhe... que a tens guardada... que esta ausencia... foi a lua de mel.
Entra Cezar, Poppêa, Tigelino, Vitelio, Senecion, Vatino etc. escravos.
Poppêa sobe para o terraço, com outras damas, onde bebem. Os éphebos
galanteiam, etc.
NÉRO, aborrecidissimo
Salve, Petronio. Inda bem que chegaste. Creio que vou morrer de tédio,
de aborrecimento! A minha viagem á Grecia, adiada!
PETRONIO
Porquê?
NÉRO
Vesta, a propria Deusa, me avisou, no templo. Venho agora de lá. Tão ao
ouvido me disse: addia a viagem, que me assustou.
TIGELINO
Ficámos todos aterrados. A vestal Rubria desmaiou.
NERO
Que linda garganta que tem Rubria! Que branca! (bebe) Eu precizo
distrahir-me. Vinheis ouvir o poema! Não posso lêr! Nem cantar! Nem
tenho paciencia. Não posso ficar em Roma, irei para Ancio. Abafo,
n'estes bairros apertados, no meio de cazas que se desmuronam, de
ruellas immundas. Um ar empestado chega até aos jardins, chega até aqui!
Porque não houve, nunca, um tremôr de terra que destruisse Roma? Se um
Deus, na sua colera, a nivelasse com a terra, eu ensinaria como se
edificava uma cidade para capital do mundo!
TIGELINO
Não dizes, tu, Cezar: se um Deus destruisse a cidade?
NÉRO
Sim e então?
TIGELINO
Não és, tu, um Deus?
SENECION
Podes fazel-o.
VATINO
Fal-o.
NÉRO
...Não lerei o meu poema! O meu incendio de Troia flameja timidamente!
Julgava que egualaria Homero e tinha ficado contente.
PETRONIO
Não o egualaste?
NÉRO
Não...! Um esculptor quando por esculpir a estatua de um Deus, escolhe
um modêlo. Nunca vi arder uma cidade, não o posso pintar.
PETRONIO
Mas tens genio para tanto se o quizeres fazer, Cezar. Aposto que os teus
versos...
NÉRO
Não, não. Responde-me a uma questão, Petronio. Tens pena que tenha
ardido Troia?
PETRONIO
Pena de quê? Por Marte, pelo contrario. Tróia não teria ardido sem o
fôgo dado por Prometheu aos homens e sem os gregos terem declarado a
guerra a Priamo. D'ahi veio que Eschylo escreveu o seu Prometheo e
Homero a Illiada. Quero mais a estes dois poemas do que á tal Troia,
provavelmente uma villoria de cazas de madeira, velhas e sujas!
NÉRO
Eis o que é fallar com tino. Á poesia e á arte tem-se obrigação de
sacrificar, tudo. Felizes os Gregos que deram a Homero o assumpto do seu
poêma! Feliz Priamo que viu as ruinas da sua patria!... Eu nunca vi uma
cidade em chamas!
Silencio geral de receio.
VITELIO, avinhado
Nem eu!; mas se fosse Cezar e a quizesse vêr, via-a!
TIGELINO
Era facil.
PITAGORAS
Poppêa e as damas, Cezar, pedem-te para vires cantar.
PETRONIO
Aproxima-se a noite, o sol agoniza, a tarde é bella, o ar cheio de
perfumes dos jardins. Á natureza só falta um cantico...
MARCOS
O teu, Cezar!
NÉRO
É cêdo ainda. (olha para Tigelino, misteriosamente) É cêdo, ainda.
VITELIO
Eu adoro a musica.
PETRONIO
Das taças.
NÉRO
Dize-me, Petronio, que pensas tu da musica?
PETRONIO
A tua, sobretudo, quando a oiço, faz-me sentir um mundo de prazeres
novos. A musica é um mar, onde á onda succede a onda, á agua, agua sem
fim, até... ao infinito...! e é sempre impossivel vêr a outra margem.
NÉRO
É assim que eu penso da musica. Quando canto e tóco, eu, Cezar, senhôr
do Mundo, descubro reinos desconhecidos, mares virgens, mundos nunca
sonhados! Vejo os Deuses! subo ao Olimpo! Um sôpro estranho passa, a
esphera vibra em roda de mim e dir-te-hei (leva Petronio, pelo braço,
para o lado) que eu, Cezar e Deus (muito baixo) me sinto tão pequeno
como um grão d'areia!
PETRONIO
Só os grandes artistas se sentem pequenos deante da belleza!
NÉRO
Morro de aborrecimento, aqui! Ouve: imaginas que sou cégo ou idiota?
Pensas que não sei que por essa Roma pregam, todos os dias, inscripções
injuriosas, pelas esquinas? que me chamam matricida, assassino de meu
irmão, e de minha mulher? Que me chamam algoz, porque tenho morto a meus
inimigos?... Um homem bom póde ser cruel?
PETRONIO
Póde.
NÉRO
Eis o meu caso. Quando a musica acalenta a minh'a alma, eu sinto-me tão
bom como uma creança no bêrço.
PETRONIO
Os Romanos nunca vos souberam apreciar.
NÉRO
Os Romanos! Como eu odeio os Romanos! (Vai á meza beber. Anoitece mais)
Tigelino?
VITELIO
Sahiu. Disse que ia mandar accender as lampadas.
NERO
Ah! sim... Escurece.
PITAGORAS
Cezar, o cantico? (ao fundo)
CEZAR
Ainda é cêdo... (Desce a Petronio) Sou em tudo um artista. A musica
abre-me as portas d'uma prespectiva indizivel; devo aos Deuses o
explorar esse infinito! Para ascender ás regiões olimpicas não será
precizo, primeiro, praticar algum prodigioso acto propiciatorio?
PETRONIO
Não te entendo, Cezar.
NÉRO, baixo
Para abrir as portas do mundo desconhecido, eu quiz fazer o maior
sacrificio que pode fazer um homem: minha mulher... minha mãi... foi
para isso que ellas morreram! Mas é precizo um sacrificio ainda maior
para abrir as portas do Olimpo! Cumpra-se a vontade dos Oraculos!
PETRONIO
...Qual é o teu projecto?
NÉRO
Vais vêr... de aqui a pouco. (sobe)
PETRONIO, aparte
Extranho-o.
NÉRO, bebe e desce
Mas, antes, vê bem que ha dois Néros: um o que os homens conhecem; o
outro o que só tu conheces: o que mata como a Morte e o que delira como
Bacho! E, mata, porque odeia a baixeza, tudo o que é vil e lhe repugna
tudo o que não merece a vida! E mata e elimina!... Como a vida será
pequena quando eu desapparecer!
PETRONIO
Comprehendo o teu coração e as tuas máguas!
NÉRO
Como o meu coração é, por vezes, negro! Como este mundo e esta terra são
pequenos, mesquinhos, para mim! Mas, quanto eu puder, aniquilarei esta
vida, e esmagarei este mundo!
(Subito Roma apparece incendiada por diversos lados. Ouve-se ruido ao
longe. Pitagoras, desce)
PITAGORAS
Cezar, Roma está a arder!
PETRONIO
Quê?
TODOS, levantando-se e olhando
A ardêr?
NÉRO
Ó Deuses immortaes!... eu vos dos dou graças!.. Posso em fim vêr uma
grande cidade em chammas! Posso acabar o meu canto!
VOZES, do fundo
Cezar? Cezar?
NÉRO
Ah! É agora o momento. A minha cithara? (Sobe)
UM CENTURIÃO, entrando rapido
Divino imperador?
NÉRO
Quê?
CENTURIÃO
A cidade é um oceano de chamas! Os homens cahem asfixiados! O terrôr
enloquece!
NÉRO
É a vontade dos Deuses! A minha cithara? (Trazem-lh'a. Terpnos, Diodoro
e os musicos correm) Ó Deuses, que espectaculo sublime! Graças, por
poder vêr, como Priamo, o incendio de minha patria! Agora, vou cantar!
(sobe)
MARCOS
Centurião, sabes tu se o bairro do Transtevero, foi invadido, já?
CENTURIÃO
Todo, Senhôr. Foi o primeiro.
MARCOS
Maldicção! Se ella morreu... (sahe, doido)
(O incendio generalisa-se. De todos os lados do palacio corre gente para
o terraço. Néro sobe os degráus e de cithara em punho, acompanhado, canta)
NÉRO
Berço de meus pais,
Roma divina!
Quanto eras cara
Á minh'alma!...
O ruido, ao longe, cresce. Ouvem-se os rugidos das féras. O panno desce.
FIM DO SEGUNDO ACTO
ACTO TERCEIRO
QUADRO QUINTO
Sala no palacio de Néro. Néro e Poppêa, Vinicio, Tigelino, Petronio,
Vitelio, Senecion e Vatino.
NÉRO, descendo
Ha tres dias que componho o meu poema. Não posso perder tempo. Sejamos
breves. Roma está exaltada?
TIGELINO
Gravemente.
NÉRO
A animadversão cresce?
TIGELINO
Cada vez mais.
NÉRO
O Senado?
TIGELINO
Indignadissimo contra ti.
NÉRO
Ó o Senado! Reedificarei a cidade! Dar-lhe-hei uma outra digna do povo
romano; que mais quer?
TIGELINO
Mas as miserias, as mortes causadas...
NÉRO
Não abri os meus jardins ao povo? Não tem elle que comer, á farta?
TIGELINO
Os pequenos estão satisfeitos. Os grandes...
NÉRO
É preciza uma decisão rapida. Que havemos de fazer, o que será
conveniente...? A tua opinião, Petronio.
PETRONIO
Vamos para a Grecia e depois para o Egypto.
SENECION
É facil partir: voltar é que não será tão facil.
PETRONIO
Por Hercules, voltaremos, se fôr precizo, á frente das legiões da Asia!
NÉRO
Assim, farei.
TIGELINO
Escuta-me, Cezar. O conselho é desastroso. Antes de chegares a Ostia,
rebentará a guerra civil. E sabes, tu, se algum vago descendente do
divino Augusto, se não se fará proclamar imperador?
NÉRO
Farei que nenhum exista. Tu sabes como.
TIGELINO
Mas será um outro. Hontem, os meus soldados ouviram dizer á multidão que
se devia proclamar alguem, como Thrazéias!
NÉRO
Povo insaciavel e ingrato! Que mais quer?
TIGELINO
A vingança.
NÉRO
A vingança?... quer victimas? (Pausa e silencio) Se nós lançassemos a
nova de que foi... (olhando-os) Vatino, quem incendiou a cidade?
VATINO, empalidecendo
Eu?... Quem sou eu, ó divindade...?
NÉRO
Tens razão. É preciso alguem mais importante. (circunvagando o olhar):
Vitelio!
VITELIO, riso amarello
As minhas banhas farão rebentar um novo incendio.
NÉRO
Tigelino?... Tigelino, fôste tu que incendiaste Roma!
TIGELINO, audaz
Por tua ordem, Cezar!
NÉRO
És meu amigo?
TIGELINO
Tu o sabes, Senhôr.
NÉRO
Bem. Sacrifica-te por mim.
TIGELINO, hypocritamente
Eu bem o quizera, Senhôr; mas não posso fazêl-o. (ironico) O povo
murmura e revolta-se. Queres tu que a guarda pretoriana faça o mesmo,
pelo seu chefe?
UM ESCRAVO
A divina Augusta deseja fallar-te, Tigelino.
TIGELINO, a Cezar
Permittis? (Cezar, faz signal aprovativo. Tigelino sahe)
NÉRO
Aqueci uma serpente no seio! (a Petronio) Vamos, falla tu. Confio em ti.
Tens mais senso do que todos elles juntos e és meu amigo.
PETRONIO
Vamos para a Grecia.
NÉRO
Esperava mais do teu juizo. Se parto quem me garante que o senado não
proclame outro imperadôr? O povo era-me fiel... não é. O senado!... Ah!
se este povo e este senado tivesse uma cabeça, só!
PETRONIO
Se queres conservar Roma, Cezar, é precizo deixares alguns Romanos.
NÉRO
Roma, os Romanos, que me importam? Escutar-me-hiam na Helada! Ao redor
de mim, aqui, não ha, senão traição! (subito) Petronio, a plebe murmura
pelas praças... se eu fôsse ao Campo de Marte e cantasse o meu hymno; o
que cantei durante o incendio... não poderia, eu, como Orpheu, encantal-os?
VATINO
A difficuldade, Cezar, era elles deixarem-te principiar.
NÉRO
Pois vamos para a Grecia.
POPPÊA, entrando com Tigelino
Ouve-me, Cezar. O povo quer uma vingança e uma victima! Que digo eu?
uma? centenas, milhares! Existem as que o devem sêr, devem-se-lhe.
Ignoras que na cidade se acoita um exercito de christãos? Não os
conheces? Não te fallei, eu, tanta vez dos seus crimes e das suas
infames cerimonias? das suas profecias segundo as quaes o mundo acabará
pelo fôgo? O povo, instintivamente, odeia-os e suspeita d'elles. Ninguem
os vê nos templos, no circo, nas corridas! Murmura contra ti e não
fôste, tu, Cezar, nem eu, quem incendiou a cidade! Foram elles! É
preziso dizêl-o. Viram-nos levando nas mãos as tochas incendiarias! O
povo tem sêde de vingança? dá-lha. O povo quer circo, quer sangue?
dá-lh'o! Conheces os culpados! manda!
PETRONIO a Marcos, aparte
A caça a Lygia.
PETRONIO
Coragem!
NÉRO, levantando as mãos ao ceu
Oh! Zeus, Appolo, Hera, Actréa, vós, todos, ó Deuses immortaes, porque
nos não socorresteis? Que tinha feito essa bella Roma, a esses energumenos?
TIGELINO
Vinga-a!
VATINO
Faz justiça!
NÉRO
Que castigo terrivel, que torturas serão bastantes para punir tal crime?
Com a ajuda das potencias do Tartaro, darei ao meu povo um tal
espectaculo, que d'elle se falará, em Roma, pelos seculos dos seculos!
PETRONIO, aparte
Que Cezar bandido! (olhando Marcos, que passeia louco) É precizo salvar
Lygia. Ou me perco, ou a salvo. (approximando-se galante, natural,
brincando com a tunica gracioso) Assim... encontrastes as victimas? bem;
mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos pretorianos,
tendes a fôrça! Então sêdes leaes. Entregai os christãos ao povo,
supliciais-os; mas confessai primeiro que não foram elles que
incendiaram Roma! Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas
as elegancias dir-vos-hei, que não supporto tão miseraveis comedias!
(Pasmo) Com relação a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da
posteridade, reflecte o que ella dirá de ti! Pela divina Clio!
Néro-Senhôr do mundo, Nero-Deus queimou Roma porque era tão formidavel
na Terra, como Zeus no Olympo! Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que
lhe sacrificou a Patria! Desde o principio do mundo, ninguem ousou
pensar em tão extraordinaria coisa! Tu o fizeste, esta gloria é tua, não
a renegues. Ao pé de ti o que será Priamo, Agamenon, Achilles? os
proprios Deuses? Coragem. Livra-te de abdicações indignas; porque então
a posteridade poderá dizer-te: Nero queimou Roma; mas tão pussilamine
Cezar, como pussilanime poeta, negou o facto, e atirou, cobardemente, a
falta por sobre os innocentes! Tal acção não honrará a tua memoria!
TIGELINO
Senhôr, dá-me licença para que sáia. Aconselham-te a lançares-te no
maior perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante...
Os meus ouvidos recuzam se a ouvir mais.
PETRONIO, aparte
Cezar hesita? Estou perdido! (a Tigelino) Tigelino, a ti é que eu chamei
comediante, porque o és, ainda n'este momento.
TIGELINO
Porque não posso escutar as tuas injurias?
PETRONIO
Porque figuras um grande amôr por Cezar e ainda ha pouco, ouvimo-lo
todos e elle, o ameaçaste com a guarda de pretorianos.
POPPÊA
Cezar, como permittes que taes pensamentos venham a alguem e que esse
alguem os diga deante de ti?
NÉRO
É assim que tu sabes reconhecer a amizade que sempre te tive?
MARCOS, aparte
Petronio perdeu-se por mim!
PETRONIO
Se me enganei, Cezar, mostra-me o meu erro; mas sabe que te disse o que
me ditou a lealdade que, emfim, te devo!
POPPÊA
Renova os insultos.
TIGELINO
Punide-o, Senhôr.
VATINO
Castigai o insultadôr.
VOZES
Castigai-o! (affastam-se de Petronio)
NÉRO
Quereis que o puna? Foi sempre o meu companheiro e meu amigo! Feriu-me o
coração; mas quero que elle saiba que este coração só tem para os
amigos, o perdão.
PETRONIO, aparte
Conheço o teu perdão! (alto) Cezar! (inclinando-se, faz signal a Marcos,
e sahem.)
POPPÊA
Quereis ouvir as testemunhas?
NERO
Que venham.
Um escravo sahe e traz dois rabinos de longas togas e mitras, um escriba
e Chilon.
1.º RABINO
Salve, monarcha dos monarchas, rei dos reis!
2.º RABINO
Salve, Senhôr do mundo!
CHILON
Salve, Cezar, Leão entre os homens! tu cujo reino é semelhante á
claridade do sol, ao cedro do Libano, ao balsamo de Jerichó!
NÉRO
Accusais os christãos de terem incendiado Roma?
1.º RABINO