Aos vinte annos, isto é, em 1 de abril de 1837 casou por amor com
D. Maria Domingas de Castello Branco, filha dos segundos marquezes
de Bellas, e viuva do segundo conde de Belmonte, D. José Maria de
Figueiredo Cabral da Camara, porteiro-mór da casa real, e capitão de
cavallaria.
Esta illustre dama tinha mais 12 annos que D. Francisco de Paula, e
enviuvára em 1834, ao cabo de 14 annos de casamento com o primeiro
marido.
Não era rica, e não se preoccupara, desinteressadamente, com a questão
de dinheiro ao passar a segundas nupcias.
Diz o sr. Queriol:
«O conde, novo e esbelto, casara por mutua paixão com uma virtuosa
senhora viuva do conde de Belmonte, que tambem por sua parte pouco lhe
ficára restando de fortuna propria.
«Mais velha do que o conde, a santa senhora limitou-se a ser educadora
de seus filhos, libertando o marido do jugo matrimonial, do que
elle bem se aproveitou, sendo um dos mais felizes conquistadores em
assumptos amorosos. Foi talvez esta sociedade que lhe despertou o
appetite da _pouco duradoura_ aventura amorosa com a Severa.»
D. Francisco de Paula, impellido pela corrente tradicional da fidalguia
portugueza, e desculpado pela bondade tolerante da esposa, entregou-se
bem depressa á vida alegre e estouvada dos rapazes nobres do seu tempo
e da sua idade.
Tornou-se perito exemplar em equitação e tauromachia e, por estes dois
caminhos abertos á sua phantasia juvenil, entrou na bohemia elegante,
a que tomou gosto, chegando a penetrar nas camadas populares onde a
guitarra e o _Fado_, quando bem tangidos, não pediam passaporte, nem
folha corrida a ninguem.
Era feição do tempo, e da nobreza de então.
Foi justamente na ultima classe social que encontrou a Severa, á qual
não exigiu pergaminhos, nem credenciaes. Era uma excellente camarada
para se fazer ouvir dedilhando a guitarra e cantando o _Fado_.
Como tal a acceitou na evidencia em que ella já se tinha collocado
por essas prendas, não obstante ter nascido condemnada á desgraça do
lupanar.
Por sua parte, as classes populares adoravam o conde de Vimioso, que
as tratava sem preoccupações hierarchicas, e que se distinguia pela
exteriorisação de qualidades que muito deslumbram o criterio pouco
intellectual do povo: a valentia, a coragem, o primor da guitarra e do
toureio.
O unico exemplar notavel d’este genero de fidalgos foi, no meu tempo, o
marquez de Castello Melhor.
O sr. Queriol reduziu tambem a lenda do conde de Vimioso aos devidos
termos, mas ainda assim resulta do seu artigo uma figura sympathica,
que foi o conde, distincta por aquellas qualidades, não intellectivas,
que o publico aprecia e que ainda hoje constituem a galhardia do
moderno _sport_.
Desde muito novo que D. Francisco de Paula se notabilisou pelo valor
physico e destemida coragem.
Creança de 16 para 17 annos, serviu o exercito liberal como aspirante
de lanceiros.
Com referencia a essa epoca conta o sr. Queriol:
«O seu animo corajoso e sua força herculea tornaram-n’o notavel em
varias proezas, contando-se entre ellas a de ter nas linhas de Lisboa,
em presença do imperador, mettido hombros e arrombado um forte portão
de ferro que impedia a passagem de tropas liberaes que tinham de
occupar uma posição estrategica e só por ali podiam fazer caminho.
«D’esta sua força muscular foi testemunha (e appello para a memoria
do então aspirante de artilharia e hoje general Victo Moreira,
ajudante de campo de el-rei) quando n’uma tarde, sahindo D. Pedro
de Sousa Coutinho, filho mais novo do conde de Linhares, de casa do
fallecido conde das Galveias D. Antonio, no seu elegante pháeton
puxado por dois poneys hanoverianos de forçosa pujança apesar da
diminuta estampa de seus corpos, o conde de Vimioso, segurando com
a mão direita o eixo trazeiro do carro e com a esquerda o varão
do portão do palacio, embora o elegante D. Pedro se esforçasse em
fustigar a parelha e esta se empenhasse em arrancar o trem do logar em
que se achava, não puderam os poneys adiantar um passo limitando-se a
escarvar a calçada, inutilisadas as suas forças pelas que lhes oppunha
o valente titular.»
Outro exemplo de pujante denodo conta o auctor do artigo.
Foi por occasião da feira do Campo Grande.
Dois valentões da provincia tinham se postado junto ao portão de ferro,
que então limitava o Campo Grande pelo lado do Lumiar, e não deixavam
entrar nem sair ninguem.
A que distancia já ficam hoje estas bravas tunantadas portuguezas, e
que mal se podem comprehender agora!
Raça de Hercules, no acerto ou na loucura, quebramos: agora estamos a
pedir funda.
O povo levantou celeuma contra os dois pimpões, mas não ouzava
affrontal-os, porque algum saloio que investia, recuava ganindo,
deslombado.
Com o conde de Vimioso estavam almoçando n’essa occasião o sr. Miguel
Queriol e João Nunes Vizeu.
Ouviram o borborinho que vinha da alameda, informaram-se da
occorrencia, e não tiveram um momento de hesitação.
Narra o sr. Queriol, sem faltar de si mesmo, mas certamente que não
deixou de molhar a sua sopa, porque era muito desembaraçado:
«O conde de Vimioso e José Vizeu apenas tiveram tempo de cada um
se munir de bons cajados de marmaleiro, e fazendo frente aos dois
varredores de feiras os levaram a tombos até junto da feira, onde os
soldados municipaes os receberam contusos e confusos da má sorte que
em Lisboa veio offuscar a sua valentia provinciana.»
Todos estes predicados davam prestigio, faziam lenda ao conde no
conceito popular. Pode imaginar-se a ovação de que elle seria alvo
n’aquella manhã do Campo Grande, quando varreu os dois alcides que
varriam a feira.
Como atirador, D. Francisco de Paula foi prodigioso.
Depõe o sr. Queriol, cujo artigo diz mais e melhor no seu proprio texto
do que o poderiamos fazer em extracto:
«O conde de Vimioso era um notabilissimo caçador e em occasiões
de falta de dinheiro, de proventos de sua casa, sahia de Lisboa
e, provido apenas da sua espingarda, petrechos de caça e dos de
_toilette_ de que nunca prescindia, o que obtinha de suas excursões
venatorias enviava como qualquer caçador de contracto á Praça da
Figueira, para com o producto da venda viver modestamente nos sitios
affastados da capital, mas sem recorrer a outros meios que sem verdade
lhe attribuem.
«Da sua notavel aptidão como atirador ainda invoco o testemunho do
actual general Victo Moreira (discipulo do conde em equitação, de que
depois foi laureado cursador nos picadeiros em França); alem do que,
outras testemunhas podem certificar de que sendo o conde desafiado a
matar morcegos, ao anoutecer e em pleno Campo Pequeno, abateu todos
os que esvoaçavam a distancia de tiro de espingarda, não obstante a
escuridão que em nada lhe prejudicava a certeira pontaria.»
A phrase final do primeiro periodo que deixamos transcripto--_mas sem
recorrer a outros meios que sem verdade lhe attribuem_--contramina
a lenda de que o conde de Vimioso ciganava em cavallos mais que os
proprios ciganos.
A este respeito temos dois testemunhos dignos de toda a fé: o do sr.
Queriol e o de Bulhão Pato.
Refere o sr. Queriol que precisando comprar um cavallo, lhe offereceram
uma égua, mas por tão baixo preço, que o fez desconfiar.
Foi consultar o conde, que lealmente o avisou de que não comprasse
a égua, que era doida; e quanto á respeitabilidade do vendedor
preveniu-o de que «em negocios de cavallos não havia que confiar em
cavalheirismos, por ser essa a norma geral n’estes negocios».
Não contente com isto, o conde indicou ao sr. Queriol outro lavrador,
que effectivamente o serviu bem, porque lhe vendeu a preço razoavel um
cavallo sem resaibo, e muito resistente.
Conclue, com razão o sr. Queriol:
«Em abono á lealdade com que fui tratado, devo protestar contra a
lenda que a muitos tenho ouvido de ser o conde de Vimioso o cigano
mais temivel em negocio de cavallos, quando, como deixo acima dito,
foi elle proprio a prevenir-me ser norma geral n’estes negocios não se
confiar senão na propria experiencia.»
Quanto ao testemunho de Bulhão Pato, por igual abonatorio, logo o
traremos a lume.
O artigo do sr. Queriol teve por fim principal refutar o episodio do
drama do sr. Julio Dantas em que o conde (com outro supposto titulo)
puxa de uma navalha.
Sobre esta phantasia o sr. Queriol protesta categoricamente, dizendo:
«O conde de Vimioso do nosso tempo era um excentrico, mas d’ahi a usar
de navalha de ponta e molla e a suciar com bolieiros e fadistas da
Mouraria, vae a distancia de um extravagante que o era de polpa para um
ser inferior que elle nunca foi.
«A navalha era por tal fórma alheia aos habitos sociaes em rapazes
da época do conde de Vimioso, que uma só vez o que escreve estas
recordações a viu brilhar na mão de um pouco conceituado frequentador
do Marrare (cujo nome não cito por consideração a pessoas
respeitabilissimas da sua familia, que ainda existem e não podem ter
responsabilidade em factos degradantes de seus maiores já defuntos)--e
que em questão de jogo de bilhar, offendido por um insulto do Lima da
Cardiga, puxou de uma luzente catalan que Lima da Cardiga, em furia de
leão, lhe arrancou da mão e fez pedaços no sobrado, subjugando sob os
joelhos o aggressor, que os circumstantes salvaram de ser suffocado,
mas não espesinhado pelo athletico Lima, que foi calorosamente
applaudido pelos circumstantes, sendo apupada e envilecida a acção tão
extraordinaria na sociedade d’então.
«Creio que d’esta scena foi testemunha D. João de Menezes, ainda vivo,
mas pelo menos deve d’ella ter tido conhecimento.»
Agora é opportunidade de reproduzirmos o testemunho de Bulhão Pato;
consta de uma carta dirigida ao sr. Queriol, e publicada no _Popular_
de 8 de abril de 1901:
Monte de Caparica, Torre, março, 11, 1901.
_Meu..._
Conheci o conde de Vimioso quando tinha eu 15 annos, por que fui
da creação do irmão mais novo--D. Pedro de Portugal e Castro. A
mãe--marqueza de Valença--era muito minha amiga. Vimioso, como sabes,
na praça dos toiros, no palacio e na feira dos ciganos era sempre um
fidalgo de raça. Nunca usou faca senão as _facas_ que montava; nunca
levou aos beiços um quartilho em tabernas. A graça viva saltava-lhe da
physionomia com os ditos originaes, portuguezes e galantes.
Fazia os seus alborques de cavallos, não havia cigano que o embaçasse,
porém, repito, foi sempre um gentil-homem.
N’uma toirada no Campo Grande, no pateo da casa d’elle--em setembro de
88!--quando eu ia a metter um par de ferros n’um garraio--disse elle,
alludindo aos meus primeiros versos--_Se coras não conto_--_Se marras
não brinco!_ Vivi muito, muito com elle, principalmente em caçadas na
Torre Bella, nas lezirias, pelo Alemtejo. Que dias!
Abraço-te, a tua santa mulher e a teus filhos.