A Severa e o conde de Vimioso

Toda a gente falla ainda da Severa, porque o typo d’essa mulher perdida

ficou como que personificando a época famosa do _delirio_ n’uma

sociedade de marialvas opulentos, que viviam para a guitarra, para as

touradas, para as extravagancias alegres e ruidosas, em que a vida

parecia arder como a resina no fogo.

De todas as mulheres da mesma estofa, que a tradição tornou celebres,

a Joaquina dos Cordões, a Escarnichia, a Amalia Bexigosa, a Conceição

Capellista, foi a Severa aquella cuja individualidade parece ter

consubstanciado todas as lendas da bohemia fadista, da vida picaresca

de Lisboa, das aventuras do _redondel_ e do alcouce, que tiveram um

periodo de fascinação capitosa.

Mas, se toda a gente falla ainda da Severa, é fóra de duvida que a

geração de hoje em dia não tem sobre o assumpto senão uma vaga idea

fugitiva, que apenas as cantigas do _Fado_ alimentam ainda, e que tende

a apagar-se como uma lenda que morre estrangulada pela corrente de

novos costumes e novas proezas.

No lapso de cincoenta annos a figura da Severa, a muza plebea do

_Fado_, a cuja vida destragada associára a homenagem de fidalgos e

populares, a cuja guitarra dolente o conde de Vimioso reconhecia o

prestigio de um alaude divino, tem-se diluido como todas as tradições

que enchiam de saudade o coração dos velhos que ainda chegamos a

conhecer, hoje, na sua maioria, adormecidos para sempre na paz do

tumulo.

Através do confuso nevoeiro da versão oral, o sr. Julio Dantas desenhou

os perfis, empallidecidos pela acção do tempo, da Severa e do conde de

Vimioso n’um drama, representado e publicado, e n’um romance tambem

publicado; mas o sr. Miguel Queriol, contemporaneo d’essas duas famosas

individualidades, acudiu logo, n’um interessantissimo artigo que _O

Popular_[51] estampou, a reavivar a physionomia exacta do conde e da

Severa, e a esclarecer alguns pontos escuros da biographia de ambos.

Para nos guiarmos na reconstituição d’essas duas figuras tradicionaes,

devemos dar preferencia ás indicações das trez testemunhas coetaneas

que teem escripto sobre o assumpto: Luiz Augusto Palmeirim, já

fallecido; Miguel Queriol e Raymundo Antonio de Bulhão Pato, ainda

vivos, felizmente.

Muitas pessoas suppunham, e eu com ellas, que a Severa pertencia,

pela sua origem, a essas hordas de ciganos errantes que, na passagem

por Lisboa, faziam outr’ora _quartel general_ no Paço da Rainha, e

que atravessavam em grupos a rua da Inveja, de S. Lazaro e o Campo de

Sant’Anna.

Todavia, como se verá, o sr. Miguel Queriol, com toda a sua auctoridade

de contemporaneo, affirma categoricamente que a Severa «nunca foi

cigana, mas uma esbelta e infeliz filha de uma megéra, que a explorava,

e era bem conhecida na policia pela alcunha de _Barbuda_.»

Alguem, certamente por informação que reputou fidedigna, disse já que o

conde de Vimioso tambem manteve intimas relações com a mãe da Severa, a

qual, mais tarde, viveu com o cavalleiro tauromachico D. H. B.[52].

Nunca ouvi isto a ninguem, mas é possivel, desde que o sr. Queriol

affirma que a _Barbuda_ explorava a filha: seria ella propria que a

lançára na prostituição, facto abominavel, mas infelizmente vulgar na

sua classe.

Por aqui se póde ver quão valioso e importante é o testemunho dos

coevos, no meio de tantas e tão imprevistas versões, para se chegar a

reatar um tenue fio de verdade historica.

A lenda até já produziu uma duplicação de Severas.

De Evora disseram ao sr. Adolpho Coelho existir ali uma cigana,

que foi amante do ultimo conde de Vimioso, _e que é a cantada nos

acompanhamentos de viola com o nome de Severa_.[53]

Mas a cigana de Evora não se chamava Severa, e o sr. Adolpho Coelho

inclina-se a crer que ella teria sido amante de um conde de Vimioso

mais antigo que o ultimo.

Ora D. Francisco de Paula Portugal e Castro, ultimo conde de Vimioso,

florescia no vigor dos 20 annos em 1837. Admittindo que a cigana de

Evora andasse pela mesma idade, teria em 1892, quando o sr. Adolpho

Coelho publicou o seu livro, 55 annos.

Se ella houvesse sido amante do penultimo conde, que falleceu em 1840,

deveria ser septuagenaria em 1892.

O informador eborense não diz que a cigana fosse de provecta idade,

circumstancia que decerto lhe não teria escapado, pois que informa com

minuciosidade dizendo que ella vivia na companhia de um filho que era

alfaiate, mas usava nome fidalgo; que tinha ainda outro filho, que

residia em Lisboa e constava ser rico; que ella, como as demais que

aberram dos principios da seita, foi despresada de todos os ciganos e

vivia isolada com aquelle filho.

Deve ter sido amante do ultimo conde, se o foi, e talvez do facto de

ser cigana proviesse, por confusão, o motivo de se haver julgado que a

Severa pertencia á mesma raça.

N’um apontamento que Bulhão Pato deu a Urbano de Castro, o illustre

poeta da _Paquita_ diz sempre «Maria Severa», o que faz crêr que

«Severa» era sobrenome, adoptado e popularisado como «nome de guerra.»

Palmeirim conheceu a Severa, foi vel-a com o interesse de quem visita

uma celebridade. Morava ella então no Bairro Alto. E parece que a

encontrou n’um momento de tédio, em que ella o recebeu mal, e elle

ficou desagradavelmente impressionado.

Conta Palmeirim, textualmente:

«Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do typo vulgar

das que habitam as infelizes suas congéneres, estava ella fumando,

recostada n’um camapé de palhinha, com chinellas de polimento ponteadas

de retroz vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça, e as

mangas do vestido arregaçadas até ao cotovello.

«Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa, e notavel por uns

magnificos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava

pousada uma guitarra, a companheira inseparavel dos seus triumphos; e

pendente da parede (sacrilegio vulgar nas casas d’aquella ordem) uma

pessima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!

«Antes da minha apresentação, que foi rapida, e sem cerimonia, a

Severa que logo conheceu não ser eu um official do officio, isto é um

fadista emérito, como quasi todas as pessoas que lhe eram apresentadas,

mimoseou-me com uma saraivada de injurias, a que eu repliquei de

prompto, dando logar a uma sabbatina pouco edificante, de que me sai

como defendente a contento d’ella propria, que não esperava encontrar

n’um _liró_ um contendor capaz de lhe replicar ao pé da lettra».[54]

Tudo isto se poderá explicar, na Severa, por um irritante orgulho de

celebridade e uma longa pratica de impudores de classe.

Aquella mulher, que um fidalgo portuguez notára e distinguia, e que, de

guitarra na mão, era enthusiasticamente applaudida por muitos outros,

vendo crear-se á volta do seu nome uma atmosphera estonteante de

vaidade, devia por vezes achar-se contrariada fóra d’esse meio que a

celebrisára, e que representava para ella o enlevo, o sonho, a poesia

na desgraça; devia achar-se constrangida na presença de pessoas que

não eram fidalgos, nem toureiros, nem marialvas, nem guitarristas, nem

cantores celebres do _Fado_.

E nas horas de aborrecimento, o seu caracter resoluto, o seu orgulho

explosivo, a sua lingua solta e ponteira, encontravam como desabafo

o vocabulario torpe que ella aprendêra desde pequena, talvez com a

propria mãe.

Na hora em que Palmeirim a viu e ouviu, não estava ao pé d’ella o conde

de Vimioso a exercer a suggestão da grandeza e da fidalguia; faltava

ali o prestigio que vinha das noites de luar, das esperas de touros,

das serenatas de _Fado_, das aventuras esturdias, dos applausos da

multidão.

Tambem os grandes actores perdem toda a sua grandeza fóra do palco,

quando vistos na realidade da existencia.

Falta-lhes o fogo divino, a commoção, a arte; falta-lhes a luz

da ribalta que os illumina; a illusão que lhes é emprestada pela

caracterisação e pelo scenario; falta-lhes o enthusiasmo do publico,

que os admira e que os applaude.

A Severa era n’essa hora uma celebridade arregaçada até ao cotovello,

mergulhada em silencio como a guitarra que jazia sobre a mesa, abatida

na solidão e na ausencia do Vimioso.

Comprehende-se a sua revolta, o seu mau humor irritado, como tambem se

comprehende, embora pareça paradoxal, que sempre que o conde queria

dominal-a como se prende uma ave n’uma gaiola, ella lhe fugisse para

saborear a liberdade reles do alcouce, que lhe dava orgulho, porque

d’ali subira á celebridade, ali a iam procurar os bohemios fidalgos

e famosos, desejosos de ouvir a sua guitarra e a sua voz enternecida

soluçando o _Fado_.

O sr. Miguel Queriol conta no artigo do _Popular_ quando e como viu a

Severa em casa do conde de Vimioso.

Foi uma noite, á saida de S. Carlos, que elle Queriol e alguns

amigos (Augusto Talone, Frederico Ferreira, Antonio de Serpa, João

Blanco e outros) tendo alugado burros no Poço de Borratém, seguiram

alegremente, _au clair de la lune_, para o palacio do conde no Campo

Grande.

Ahi encontraram em partida de jogo, sendo Fidié o banqueiro, uma boa

roda de amigos: D. Antonio Galveas, Roberto Payant, D. José de Almeida

Mello e Castro «O Cazuza», etc.

[Illustração: O Conde de Vimioso]

Queriol descreve: «... depois de muita chalaça e folia em que tomaram

parte algumas festejadas companheiras de outros amigos que em seges

de aluguel se nos haviam antecipado, quebrando a monotonia de uma

sociedade composta só de homens, o conde de Vimioso mandando entrar a

Severa e pedindo a Roberto Camello que a acompanhasse na guitarra, nos

deu uma audição de _Fado_ até então desconhecido da maior parte senão

de todos os ouvintes.»

Esta declaração é importante, porque vem confirmar tudo quanto havemos

dito sobre a data provavel em que principiou a usar-se a palavra _Fado_

como synonymo de canção.

Não se contradiz o sr. Queriol quando n’outro relance do seu artigo

escreve que o _Fado_ já anteriormente se cantara «na prôa dos navios

de guerra á mistura com a vida do marinheiro e outras canções em que a

triste sina ou miserias da vida arrastavam ao infortunio».

Sim, cantavam-se as canções tristes e fatalistas dos portuguezes, n’um

rythmo dolente; mas ainda se não havia dado a esse typo de canções

populares a categoria musical e o nome generico de _Fado_.

É isso o que temos sustentado n’este livro, é isso o que o sr. Queriol,

que hoje conta mais de 70 annos, affirma no seu artigo, quando diz que

o _Fado_ era até então desconhecido da maior parte senão de todos os

ouvintes.

Quanto ao physico da Severa, o sr. Queriol está em accôrdo com

Palmeirim: nenhum reconhece que fosse bella, mas ambos dão a impressão

de que era elegante; um gaba-lhe os olhos, o outro o cabello; do

que resulta que seria, como tantas outras portuguezas, uma mulher

attraente, sem formosura, pela sua linha airosa e pelo encanto dos

olhos e do cabello.

No attinente ao moral, é que parece haver desharmonia entre o sr.

Queriol e o fallecido Palmeirim; mas talvez possamos chegar a uma

conclusão conciliatoria.

Vejamos o que escreveu o primeiro, pois que já vimos o que o segundo

escreveu.

Diz o sr. Queriol, referindo-se á noite, de que vem fallando, em casa

do conde:

«Ora a Severa apresentava-se como uma serviçal e não com pretensões a

dona de casa.

«Se bem me recordo era uma rapariga esbelta, bem apessoada, cabello

escuro e farto com um ar de desenvoltura sem ultrapassar as

conveniencias da sua posição para com quem a favorecia, trajando limpa

mas modestamente sem fazer lembrar a desgraça da classe em que menos

o vicio que a miseria a havia precipitado, e que pela sua timidez se

mostrava contrafeita no meio social em que ali se achava.

«É possivel que a Severa no seu meio ordinario fosse a desregrada

fadista da lenda, mas o que _de visu_ posso assegurar, e para

confirmação do que appello para os que, ainda vivos, frequentaram

as boas e _más_ companhias da nossa mocidade, é que a impressão que

conservo da desgraçada heroina, hoje tão celebrada, apenas se limita a

uma satisfação passageira e caprichosa do conde, que como o gastronomo

saciado do continuo gozo da boa cosinha se deleita com satisfação

no apetitoso prato de sardinha ou no enlevo odorifero do acepipe de

taberna.»

Não lhe nega o sr. Queriol um certo «ar de desenvoltura», o ar

_canaille_ da sua profissão provocante. Mas conheceu que a Severa, em

casa do conde, perante tão luzida companhia de mulheres que valiam mais

do que ella, e de homens que eram os primeiros estroinas elegantes da

epoca, se mostrava submissa, quasi timida.

Nenhuma d’aquellas pessoas--ou todas ellas--a teria acobardado cara

a cara na sua casinha de rameira, onde Palmeirim a viu, quando ella,

entregue a si mesma, não era mais do que a Severa da matricula, uma

desgraçada como outra qualquer.

Mas, no palacio do Campo Grande, acabava a realidade e começava o sonho.

Ella era como um actor que vae entrar em scena e que, sempre nervoso e

agitado, por maior que seja o seu merito, já sente o calor da ribalta,

a respiração do publico, o frémito da sala.

Toda a gente sabe que nem os grandes actores escapam á timidez

supersticiosa, quando entre bastidores esperam a «deixa.» Todos elles

se persignam antes de se defrontar com o auditorio. Mas uma vez

em scena, entram n’uma região ideal que os absorve, e ás vezes os

divinisa. Já não são timidos, nem supersticiosos; vão affoitamente até

onde o seu talento os leva.

A Severa, tal como o sr. Queriol a viu, achava-se na situação

hesitante, no momento indeciso, do actor que sae da realidade para

entrar no mundo do sonho.

Depois, tangida a guitarra, ella era como um artista em scena:

commovia-se, soluçava, chorava, cantava chorando, arrebatava-se e

arrebatava os outros.

A guitarra é, pela sua voz maviosa, um dos instrumentos que

mais impressionam, talvez o primeiro em produzir effeitos de

sentimentalidade; o _Fado_ tem o que quer que seja de simplicidade

grandiosa e dilacerante, como toda a expressão de uma dor sincera.

O sr. Julio de Castilho n’um dos seus livros confessou de si mesmo

esta intima fragilidade: «A bordo de um paquete estrangeiro, uma vez,

em viagem do Cabo da Boa Esperança, peguei n’uma guitarra, e sosinho

comecei a repetir uns pobres fadinhos da Mouraria. Pois não pude ir

ávante; restitui a guitarra ao dono, e tive de me afastar.»[55]

Palmeirim diz nos _Excentricos do meu tempo_: «se de longe me chegam

aos ouvidos os sons de uma guitarra tocada com sentimento, deixo-me ir

atraz d’esses sons aos mundos dos proprios sonhos, agradecido á aragem

que m’os trouxe tirando-me por momentos da aridez da vida positiva.»[56]

De mim lhes posso dizer que em 1873, quando cheguei a Lisboa, me

causaram profunda impressão os primeiros _Fados_ que ouvi na guitarra,

de noite. N’um livrinho escripto muito á pressa logo nos primeiros

dias, do que resultou ficar imperfeito e ser incompleto, encontro

estas palavras que são o testemunho espontaneo da suggestão recebida:

«O fado tem a poesia natural das grandes angustias, a tristeza dos

que soffrem desamparados. É o hymno da desgraça, o romance das maguas

obscuras, a epopêa do povo. Não ha sentimento doloroso que a linguagem

melancolica do fado não reproduza desde a saudade do tombadilho até á

afflicção do lupanar. É o pensamento dos que não sabem exprimil-o. Para

interpretar o fado nenhum instrumento mais de geito que a guitarra.

Está costumada a cantar tristezas desde a mais remota antiguidade, e

alem d’isso falla tão baixinho que não chega a incommodar os grandes,

os felizes, os opulentos. É quasi uma creança que chora ou uma mulher

que suspira. Impressiona e não atordoa. Faz-se ouvir, mas não se

impõe.»[57]

Eu, que trazia os ouvidos cheios das alegres canções populares do

norte, da _Canninha verde_, do _Malhão_, do _Vira_, deixei-me subjugar

pela triste canção do sul e lembro-me ainda--já lá vão quasi trinta

annos!--de que tambem compuz a lettra de um _Fado_, que principiava

assim:

Hontem a noite era bella.

Na guitarra um namorado

Tangia sob a janella

Um fado triste e chorado.

Não me lembra o resto, e importa pouco.

Mas, voltando ao ponto, parece que os nossos dois informadores,

Palmeirim e Queriol, acabarão por ficar de accôrdo: é que na Severa,

como em quasi todas as pessoas de uma sensibilidade doentia, havia duas

entidades diversas--a da realidade e a do ideal.

E quando a ella lhe faltava a atmosphera do sonho, que principiava a

engrandecel-a, e a embriagal-a; quando queria preparar-se para cantar,

sem se encontrar n’um meio suggestivo que a levantasse, recorria ao

vinho, diz a tradição; embriagava-se a valer.

As esperas de touros exaltavam-n’a, faziam-n’a delirar. A paixão

tauromachica completava a feição bohemia d’aquelle tempo. O Vimioso

era um cavalleiro eximio, o primeiro entre todos. A Severa seguia-o

fascinada. Então, no calor da noitada, ao luar e ao relento nas

Marnotas, a Severa, excitada, cantava _Fados_ gaiatos, cantigas _a

atirar_, ironicas, picantes, contendendo com as outras mulheres menos

celebres do que ella.

Uma vez desfechou contra a Joaquina dos Cordões este mote trocista:

Eu já vi n’uma tourada

A Joaquina dos Cordões,

Mal viu dar dois trambolhões,

Ficar logo desmaiada.

O conde de Vimioso affeiçoara-se-lhe, porque reconhecêra na Severa a

mais intelligente e espirituosa fadista de Lisboa, a que melhor sabia

cantar e bater o _Fado_.

Mas, ponhamos de parte a lenda, não se deixou arrastar nunca por uma

paixão delirante e degradante. Nunca deixou de ser um fidalgo, um

gentilhomem; nunca enlouqueceu por amor da Severa. Foi, na primeira

sociedade, um bohemio, mas não perdeu nunca a sua linha aristocratica.

Dil-o o sr. Queriol: que o conde, gastronomo saciado de boa cosinha, se

deleitava, por extravagancia, saboreando uma sardinha de taberna.

Isso foi um tanto moda entre os fidalgos antigos, e ainda o era no

tempo do conde.

N’elle talvez um pouco mais persistentemente do que em outros; mas só

isso.

O _Diccionario Popular_, n’um artigo escripto por Pinheiro Chagas, vem

em reforço do sr. Queriol: «O conde de Vimioso era um toureador de

primeira ordem, e procurava de preferencia uma sociedade menos propria

da sua alta ascendencia, _apesar de se apresentar na outra como um

verdadeiro fidalgo_.»[58].

Ainda havemos de transcrever passagens do artigo do sr. Queriol, que

completarão este juizo.

Talvez que o conde de Vimioso pudesse ter-se apaixonado pela Severa,

se conseguisse domal-a, arrancal-a á vida que ella arrastava. Se o

fizesse, acabaria por aborrecer-se. Ella, intelligente como era,

comprehendia esse perigo, e evitava-o. Faltar-lhe-ia então o prestigio

da libertinagem, a nota canalha, mas acirrante, da sua existencia de

fadista. Antes «sardinha» toda a vida do que «_foie gras_» uma hora.

Não ha duvida de que o conde de Vimioso, sem querer descer inteiramente

até á Severa, procurou guindal-a até elle, adoptando-a como sua amante.

E houve uma occasião em que ella pareceu disposta a deixar-se

escravisar. Chegou a estar guardada por criados do conde durante uma

noite. Mas o travesseiro aconselhou-a bem, e ella retomou logo o seu

bom-senso, ao accordar.

De manhã veiu para a janella, e respirou a plenos pulmões o ar livre e

fresco da rua.

Passavam carroças de lavadeiras, coguladas de trouxas de roupa lavada.

A janella era baixa, a Severa pendurou-se do peitoril, deixou-se cair

dentro de uma das carroças. Fugiu.

De outra vez, havia-se escapado á vigilancia do conde de Vimioso.

Ninguem sabia d’ella, em vão a procuravam por toda a parte. Só ao

cabo de muitas pesquizas foram encontral-a n’uma taverna do largo dos

Inglezinhos sentada a tocar guitarra no meio de um auditorio compacto.

Então, um dos amigos do conde, que por ali passara, esgalgando o

pescoço por entre o grupo dos ouvintes, cantou ao som da guitarra da

Severa:

Todos aquelles que são

Da nossa sucia effectiva

Lamentam a fugitiva

Da rua do Capellão.

A Severa levantou, contrariada, a cabeça, tendo conhecido aquella voz.

Estava apanhada, fôra descoberta; mas esse aventuroso incidente ainda

mais augmentára a sua celebridade.[59]

Creio que deixo reduzida a biografia da Severa aos seus verdadeiros

termos.

A lenda é boa; mas a historia é melhor.

Não ha duvida que a morte d’esta fadista celebre, que, prematuramente

esgotada, falleceu aos vinte e seis annos de idade, em resultado de

uma congestão que uma ceia de borrachos assados provocou, foi um

acontecimento de sensação nas classes populares e até na bohemia

elegante de Lisboa.

Appareceu então o seu _Fado_, a que foram ligadas algumas quadras em

que a lenda começou a formar-se desde logo.

Chorae, fadistas, chorae,

Que uma fadista morreu.

Hoje mesmo faz um anno

Que a Severa falleceu.

Chorai, fadistas, chorai

Que a Severa já morreu:

E fadista como ella

Nunca no mundo appar’ceu.

O conde de Vimioso

Um duro golpe soffreu,

Quando lhe foram dizer

Que a Severa falleceu.

Variante:

O conde de Vimioso

Terrivel golpe soffreu,

Quando lhe foram dizer:

«A Severa já morreu».

Outra variante:

Quando lhe foram dizer:

A tua Severa morreu.

Corre á sua sepultura,

O seu corpo ainda vê:

«Adeus, ó minha Severa,

Boa sorte Deus te dê.»

Variante:

Corre á sua sepultura,

Seu cadaver inda vê.

Disse-lhe: «Adeus, ó Severa,

«Melhor sorte o ceu te dê.

«Assim como as flores vivem,

Minha Severa viveu.

Assim como as flores morrem,

Minha Severa morreu.»

Lá n’esse reino celeste,

Com tua banza na mão,

Farás dos anjos fadistas,

Porás tudo em confusão.

Até o proprio S. Pedro,

Á porta do ceu sentado,

Ao vêr entrar a Severa

Bateu e cantou o _Fado_.

Levantae-lhe um mausoleo

Co’um negro cypreste ao lado.

E o epitaphio que diga:

Aqui jaz quem soube o _Fado_.

Ponde no braço da banza

Um laço de negro fumo,

E este signal diga a todos

Que o _Fado_ perdeu o rumo.

Variante:

Que diga por toda a parte: O _Fado_ perdeu seu rumo.

[Illustração: FADO DA SEVERA]

Morreu, já faz hoje um anno,

Das fadistas a rainha.

Com ella o _Fado_ perdeu

O gosto que o _Fado_ tinha.

Chorae, fadistas, chorae,

Que a Severa se finou.

O gosto que tinha o _Fado_,

Tudo com ella acabou.

Comprehende-se que os fadistas tratassem logo de fazer a lenda, que

engrandecia uma heroina da sua classe, associando-lhe o nome ao brazão

do conde de Vimioso.

Mas, o que parece liquidado e certo é que a Severa foi a «_divette_

do Fado»; que ninguem até hoje o soube cantar e bater melhor; e que o

conde de Vimioso, apreciando essa qualidade, frequentou a Severa mais

por extravagancia bohemia do que por loucura amorosa.

Comtudo, oiçamos a lenda, evidentemente de origem fadista:

_O Conde de Vimioso

Terrivel golpe soffreu,

Quando lhe fôram dizer:

«A Severa já morreu»._

Na casinha onde habitava

A mundana tão famosa,

A turba silenciosa

Seu cadaver contemplava.

Ali tudo só pensava

Em que o seu rosto formoso

Não par’cia angustioso;

E a companhia que estava

Dizia que só faltava

_O Conde de Vimioso_.

Então um bello rapaz,

D’aspecto de cavalleiro,

Entra sombrio e altaneiro

Buscando quem ali jaz;

Febris diligencias faz,

Procurando o corpo seu,

E quando co’os olhos deu

No corpo da sua amante,

Sentiu um punhal vibrante,

_Terrivel golpe soffreu_.

Nos braços seus enlaçou

A sua qu’rida Severa,

Que era a doce primavera

Da paixão que alimentou.

Os cabellos lhe beijou

Deixando o pranto correr,

Nem tentou a voz erguer

Suffocado pelos ais,

Mas soffreu ainda mais,

_Quando lhe foram dizer_.

Ali tinha o ente amado

D’encontro ao seu coração,

Mas na outra occasião,

’Stava longe de seu lado.

Quasi louco, desvairado,

P’las ruas então correu

Buscando um amigo seu

Que o ajudasse a soffrer

E ao qual pudesse dizer:

«_A Severa já morreu_».

Do _Almanach da Severa_ para 1902.

_Corre á sua sepultura,

Seu cadaver ’inda vê.

Disse-lhe:--Adeus, ó Severa;

Melhor sorte o ceu te dê._

O Conde, qu’rendo prestar

Homenagem derradeira

Á formosa companheira

A quem tanto ouviu cantar;

Sem conseguir disfarçar

A sua grande amargura,

Sente n’alma atroz tortura

D’um desgosto bem profundo

E sem qu’rer saber do mundo,

_Corre á sua sepultura_.

Então copioso pranto

Em seu bello rosto corre,

Ao vêr que já não soccorre

Quem na vida elle amou tanto.

Levantando um negro manto

Um doce allivio prevê,

Porque n’um momento crê

Que ’inda lhe póde dar vida.

E buscando a sua qu’rida

_Seu cadaver ’inda vê_.

Mas ao vêr tudo acabado

Soltou bem fundada praga.

Todo o rosto se lh’ alaga

E o seu peito é mart’risado.

Então a ella abraçado

Com a dôr se desespera,

E quando se refrigera

Co’a doce resignação,

Apertando-a ao coração,

_Disse-lhe:--Adeus, ó Severa_.

«Foste no mundo infeliz

E pela sorte engeitada;

Mer’cias ser bem fadada,

Mas tua sorte não quiz.

É minh’ alma quem maldiz

A minha insensata fé

E pergunto ao céo por que

Tão cedo te arrebatou?

Mas foi Deus que assim mandou;

_Melhor sorte o céo te dê_.»

A lenda foi tomando vulto, propagada nas guitarras do povo e nas trovas

dos fadistas. Alguns escriptores modernos, com maior pompa de estylo

que investigação historica, favoreceram a lenda.

Se não pudesse ouvir-se ainda o testemunho de algum raro contemporaneo,

o conde de Vimioso passaria definitivamente á posteridade como tendo

sido um desvairado e cego amante da Severa, um louco fidalgo apaixonado

até ao desatino.

Ora o que ha de verdade na origem da lenda é que D. Francisco de

Portugal, tendo sido um eximio picador e um destro toureiro, prendas

aliás vulgares então na sua classe, tratava sem orgulho com pessoas

de inferior condição que prestavam serviços n’esses dois generos de

_sport_, e que ou por convivencia com essas pessoas ou por inclinação

natural veiu a ser um fanatico _dilettante_ do _Fado_, circumstancia

que o aproximára da Severa, a qual não foi nunca sua manceba teuda

e manteuda, mas apenas sua parceira nas serenatas de guitarra e nas

esperas de touros, com as facilidades que a situação d’ella podia

proporcionar a todos os outros homens.

Posto isto, resta-me dizer que o sr. D. Caetano de Bragança (Lafões)

possue uma guitarra, que se diz ter sido da Severa, e que é designada,

em virtude da sua fórma, pelo nome de _Melão_.

O ultimo marquez de Angeja, ha pouco fallecido, manifestou-me, porém,

duvidas sobre a authenticidade d’esta procedencia.

Fallemos agora, um pouco mais detidamente, d’aquelle dos Vimiosos cujo

nome foi pela lenda associado ás tradições orgiacas do _Fado_.

A casa Vimioso não é, na historia de Portugal, uma familia incolor, nem

incaracteristica como a de muitos outros fidalgos que se contentaram em

dar frades e freiras aos conventos, esmolas aos santos e almas ao ceu.

Bastaria, para que se não afogasse jamais a memoria d’esta casa, o

facto honroso de ter ella offerecido o lençol em que foi caridosamente

amortalhado Luiz de Camões.

Os Vimiosos tambem são distinctos por outros mais predicados, que

impõem respeitabilidade. Uns cultivaram as lettras, outros a musica,

alguns evidenciaram-se na politica e nas armas.

O primeiro titulo de conde de Vimioso concedeu-o el-rei D. Manuel a Dom

Francisco de Portugal, filho natural do bispo de Evora, Dom Affonso

de Portugal, e neto do primeiro marquez de Valença, primogenito do

primeiro duque de Bragança.

Por aqui se vê o grau de parentesco existente entre Vimiosos e

Braganças.

Dom Francisco de Portugal militou em Africa, servindo o rei em Arzilla

e Azamor; favoreceu muitos estabelecimentos pios; exerceu o cargo de

védor da fazenda; foi varão tão discreto, que lhe deram o cognome de

Catão portuguez, e como cultor das muzas collaborou no _Cancioneiro_ de

Garcia de Rezende.

Succedeu-lhe no titulo seu filho Dom Affonso de Portugal, que na

mocidade aventurosamente acompanhou o infante D. Luiz na expedição de

Tunes, e na velhice seguiu el-rei Dom Sebastião na desgraçada empresa

de Alcacerquibir, levando comsigo trez filhos. Lá morreu captivo,

depois de ter visto na batalha cair morto um dos filhos aos pés de

el-rei.

O seu primogenito, Dom Francisco de Portugal, foi o terceiro conde de

Vimioso. Esteve com o pai em Africa, onde se apaixonou por elle uma

irmã do xerife de Fez.[60] Resgatou-se, e seguiu devotadamente a causa

do Prior do Crato, ficando ferido na batalha de Alcantara. Depois

andou por Hespanha e França a manobrar politicamente em favor do seu

querido Dom Antonio; por elle se tornou a bater no mar dos Açores; e,

finalmente, morreu em consequencia de peçonha que lhe deram para não

cair nas garras de Filippe II.

Foi poeta, muito dado a damarias, e excellente cavalleiro e toureiro, o

que explica, por atavismo, que estas duas prendas resurgissem, seculos

depois, no 13.º conde.

Não deixou descendencia, motivo por que lhe succedeu no condado Dom

Luiz de Portugal, segundo filho de D. Affonso, o segundo conde.

Este Vimioso tambem esteve com o pai em Alcacerquibir, e foi resgatado,

mas Filippe II, por se vingar da affeição do 3.º conde ao Prior do

Crato, sequestrou-lhe a casa. Andou Dom Luiz por Castella mais de

trinta annos a requerer o que era seu, e só pôde rehavel-o tarde, e

minguado.

Com os trabalhos e os annos reavivaram-se-lhe as tendencias para

o mysticismo, manifestadas desde a mocidade. E elle e a condessa

sua mulher deram ao mundo o singular espectaculo de abandonarem

voluntariamente a côrte, a sua casa, os seus filhos, recolhendo-se

a condessa ao convento do Sacramento, que ambos fundaram em Lisboa,

retirando-se o conde para o mosteiro de Bemfica, do qual passou ao de

S. Paulo em Almada, onde professou, vindo a morrer em Evora, e ahi jaz.

Na quarta parte da _Historia de S. Domingos_, livro terceiro, conta

frei Luiz de Sousa largamente a historia d’este estranho divorcio, que

por amor de Deus e sem desamor dos conjuges se effectuou.

E Garrett, no seu bello drama, tambem lhe faz referencia, quando Manuel

de Sousa Coutinho diz á mulher, no segundo acto: «Olha a condeça

de Vimioso, esta Joanna de Castro que a nossa Maria tanto deseja

conhecer... olha se ella fazia esses prantos quando disse o ultimo

adeus ao marido...»

O quinto conde de Vimioso foi D. Affonso de Portugal, primogenito

do conde-frade e da condessa-freira. D. João IV, em 1643, creou-o

marquez de Aguiar,[61] como premio dos serviços que prestára á causa da

Restauração desde os tumultos d’Evora até ás longas campanbas de todo o

Alemtejo, onde teve por émulo Mathias de Albuquerque, que o invejava.

Foi grande amador de musica, tão desvairado por ella, que em Madrid

comprou por seiscentos mil réis duas violas, de bom fabricante, que o

proprio Filippe IV achou caras.

D’esta paixão musical de Dom Affonso incidiu um reflexo atavico sobre o

13.º representante do titulo.

Succedeu-lhe o primogenito, Dom Luiz de Portugal. 6.º conde, que foi

capitão de cavallaria (n’essa qualidade fez a campanha do Alemtejo,

como seu pai), gentilhomem da camara do principe D. Theodosio, poeta, e

helenista apreciavel.

Mas a todas as suas prendas fidalgas sobrelevou a da equitação, que

exerceu a primor.

No famoso «desafio do jogo da péla», em que tomou parte como padrinho

de seu cunhado o conde de S. João, foi assassinado por um parcial do

outro adversario, quando empregava esforços para impedir a pendencia.

Por não deixar successão legitima, passou a representação da casa para

seu irmão Dom Miguel de Portugal, setimo conde, a quem Dom Affonso VI

nomeou mestre de campo general, conselheiro de guerra, e governador das

armas em Evora.

Foi estribeiro-mór da rainha Dona Maria de Saboya e védor da fazenda da

princeza Dona Izabel.

Toda a sua paixão eram cavallos, musica, esgrima e livros.

É curioso observar como as tendencias hereditarias se vão reproduzindo

n’esta família com pequenos intervallos de tempo.

Permittiu el-rei Dom Pedro II que o continuasse no titulo um filho

illegitimo, Dom Francisco de Portugal, que foi o 8.º conde, e casou com

uma filha dos primeiros marquezes de Alegrete.

Houveram um successor que foi Dom Joseph Miguel João de Portugal, 9.º

conde, o qual escreveu, para lição e uso de seu filho, a relação da

vida e feitos de seus ascendentes.

Intitula-se o livro _Instrucçam que o conde de Vimioso Dom Joseph

Miguel Joam de Portugal dá a seu filho D. Francisco Joseph Miguel de

Portugal, fundada nas acçoens moraes, politicas, e militares dos condes

de Vimioso seus ascendentes. Lisboa occidental, 1741._

N’este livro ha uma lacuna importante. O 9.º conde não quiz fallar de

seu pai, como por um sentimento de modestia, receioso de que pudessem

tomar á conta de affecto filial quanto de elogioso houvesse de dizer.

Mas falla por elle o auctor da _Historia Genealogica_, o qual

relata que Dom Francisco de Portugal recebeu o titulo de marquez de

Valença,[62] que fôra de seu quinto avô, o conde de Ourem D. Affonso,

filho do 1.º duque de Bragança.

Nós já tinhamos dito que o 1.º conde de Vimioso era neto do 1.º marquez

de Valença, por onde vinha aos Vimiosos o parentesco com a casa de

Bragança.

D. Francisco de Portugal, que foi provedor da Santa Casa da

Misericordia, distinguiu-se tanto na piedade como nas bellas-lettras.

Foi socio da Academia Real de Historia, em cujas collecções deixou

escriptos seus, no genero das composições eruditas que caracterisam

aquella academia e aquella epoca.

Innocencio, no _Diccionario bibliographico_,[63] traz a resenha de

todas as obras compostas por Dom Francisco de Portugal, entre ellas

uma que possuo, _Instrucçam que o marquez de Valença D. Francisco de

Portugal, do conselho de Sua Magestade, dá a seu filho primogenito D.

Joseph Miguel Joam de Portugal_. Lisboa, 1746.[64]

Esta _Instrucçam_, que é um compendio de conselhos moraes, com

exemplos colhidos na historia universal, foi publicada trez annos antes

do marquez de Valença morrer de apoplexia no paço real, e cinco annos

depois do primogenito ter publicado aquella outra _Instrucçam_, que já

mencionamos.

O 9.º conde de Vimioso e 3.º marquez de Valença, Dom Joseph Miguel,

alem d’esta _Instrucçam_, e outras obras,[65] compoz a _Vida do Infante

D. Luiz_, livro que anda nas mãos de todos os bibliophilos.

Casou com D. Luiza de Lorena, filha de seu primo co-irmão Manuel Telles

da Silva, 3.º marquez de Alegrete.

Succedeu-lhe o 2.º filho varão, Dom Francisco Joseph, porque o

primogenito morreu de pouco tempo.

Não sabemos o motivo por que este 10.º conde de Vimioso não usou o

titulo de marquez de Valença.

O 11.º conde foi D. Affonso Miguel de Portugal e Castro, 4.º marquez de

Valença, que falleceu a 27 de novembro de 1824.

O 12.º conde de Vimioso e 5.º marquez de Valença, D. José Bernardino de

Portugal e Castro, par do reino e conselheiro de estado, casou com Dona

Maria José de Noronha, 2.ª filha dos 1.ᵒˢ condes de Peniche, e morreu a

26 de fevereiro de 1840.

Fallemos agora do seu successor, que mais directamente interessa ao

nosso assumpto.

O 13.ᵒ conde, D. Francisco de Paula Portugal e Castro, senhor da

casa de Valença, com honras de parente, par do reino por direito

hereditario, não foi, como continuador da sua familia, uma figura nulla

e incolor.

A nobreza estava já decadente, em virtude das loucuras ruinosas da

maior parte dos fidalgos, e do golpe politico que lhe vibrára a

democracia constitucional.

Para o marquezado de Valença soara já a ultima hora, mas o condado de

Vimioso, muito prejudicado em seus rendimentos pelo regimen liberal,

que os ferira na origem, havia de sobreviver ainda alguns annos mais,

na pessoa do seu decimo terceiro representante.

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) · 第 34 / 60 题