_Bulhão Pato._
A maior evidencia do conde de Vimioso foi como cavalleiro tauromachico,
prenda que reune duas aptidões distinctas, a da equitação e a do
toureio.
«Montava com rara elegancia e perfeição--escreve Pinheiro
Chagas[66]--e póde dizer-se que foi o Marialva do nosso seculo XIX.
Tambem esse grupo de rapazes que se denominam _marialvas_, se não
quizessem ir buscar tão longe o seu cognome, podiam denominar-se
_vimiosos_ com muita razão, porque assim consubstanciavam n’um nome
aristocratico as suas qualidades e os seus defeitos.»
Por sua parte diz o sr. Queriol:
«Notabilissimo na arte de montar--de uma figura elegante e
sympathica--com o seu titulo de nobreza de sangue, o conde foi o
escolhido pelos amadores da arte tauromachica, que ia decahindo em
abatimento, para rehabilitar a memoria dos antigos lidadores em
combate com o feroz animal, sendo unanimemente acclamado o cavalleiro
que devia reivindicar a fama do seu antepassado marquez de Marialva.
Desempenhou-se o conde do seu encargo com enthusiastico applauso
de milhares de espectadores, nas primeiras touradas chamadas de
_Fidalgos_ que tiveram logar na praça do Campo de Sant’Anna sob a
direcção de João Pereira da Silva da Fonseca «o morgado d’Alcobaça» e
em que fizeram de netos D. José, da casa Loulé, e Roberto Camello, um
elegante do seu tempo e muito estimado na sociedade lisbonense».
Os primeiros ensaios tauromachicos do conde realizou-os elle no pateo
do seu palacio, ao Campo Grande. Depois appareceu nas corridas de
amadores na praça do Campo de Sant’Anna, ao lado de D. José Maria de
Mendóça (Loulé), tambem official de cavallaria, e a opinião publica não
duvidou acclamal-o como o primeiro «cavalleiro» do seu tempo.
A D. José Mendóça se referia um dos _Fados_ tauromachicos cantados pela
Severa, quando dizia:
Eu vi em uma tourada
Um valente cavalleiro:
Era o Dom José Lanceiro,
Pae da rapaziada.
O conde de Vimioso não se limitou apenas a executar as melhores sortes
de toureio estabelecidas pela tradição: inventou uma, a que deu o nome
de _cara a cara_.
É o que hoje chamamos _á estribeira_.
O cavalleiro dirige-se para o touro ladeando o cavallo sobre a direita,
e na altura da rez arrancar, passa o cavallo de mão: o touro deve
receber o castigo quando mette a cabeça junto ao estribo do cavalleiro.
Esta sorte é brilhante e arriscada, requer uma grande certeza. O conde
de Vimioso, seu inventor, nem sempre pôde leval-a a effeito, mas
enthusiasmava delirantemente o publico quando a realizava.
D. Francisco de Paula, como cavalleiro, adoptou um principio, que
impunha a si proprio, e recommendava a todos os outros _aficionados_:
«O trabalho do toureio a cavallo consiste essencialmente em que o
cavalleiro, pela sua destreza e arte, zomba do poder do animal, sem
que elle ou o seu cavallo recebam o mais ligeiro contacto, o que
constitue sempre desaire».
Uma ou outra vez lhe falhou na pratica este preceito, mas o conde
desaffrontava-se logo com grande galhardia e brio.
Aconteceu isso em Evora, n’uma corrida a que assistiram muitos
portuguezes e hespanhoes.
O touro saiu com tal rapidez, que nenhum recurso pôde ser efficaz ao
cavalleiro.
Vimioso foi colhido e derrubado conjuntamente com o cavallo, que ficou
muito contuso.
Mas, habilmente, o conde tirou-se da sella, montou outro cavallo em
sellim razo, e castigou o touro, que o havia desfeiteado, com oito
ferros, que levantaram a praça n’uma ovação colossal.
Comprehende-se que n’esta e outras occasiões, em que o conde de Vimioso
enflorava o seu brazão com tantas provas de coragem, denodo e mestria,
visse acenarem-lhe na praça muitos lenços brancos, agitados por mãos
femininas, umas em que a brancura patricia era _soignée_ com primor,
outras morenas e menos cuidadas, como as da Severa, que, subjugada
pela fascinação do cavalleiro prodigioso, o applaudia n’um frémito de
enthusiasmo estonteante.
«O conde de Vimioso, diz o sr. Queriol, foi sempre o alvo dos mais
calorosos applausos e o idolo das mais formosas damas, que lhe
disputavam a preferencia em amores».
Como era de prevêr, a vida do conde gastou-se rapidamente. O seu
organismo ardia em frequentes incendios, que lhe apressaram a morte aos
47 annos de idade.
Coincidencia notavel: falleceu no palacio do largo do Metello no mesmo
mez em que tinha nascido.
A _Revolução de Setembro_ do dia 10 de julho de 1864 noticiava que o
conde de Vimioso havia expirado na noite antecedente, depois de um
prolongado padecimento, ao qual succedeu um typho.
N’esse mesmo dia 10, um domingo, se realizou o funeral.
E, coincidencia não menos notavel! á hora em que o funebre cortejo
saía do largo do Metello, ali perto, na praça do Campo de Sant’Anna,
effectuava o cavalleiro Diogo Henriques Bettencourt o seu beneficio com
um curro de 13 toiros fornecido pelo lavrador do Ribatejo Francisco da
Silva Falcão.
O cortejo funerario d’esse que fôra o primeiro cavalleiro portuguez do
seu tempo, e que tantas e tão ruidosas ovações conquistára na arena,
contrastava singularmente com o cortejo tauromachico que á mesma hora
entrava na praça ao som do hymno real para dar começo á lide.
As palmas e os bravos, com que o publico saudava os lidadores,
contrapunham-se ás palavras doloridas com que os velhos _aficionados_
lastimavam, caminho do cemiterio, a morte do conde de Vimioso.
E quando o ultimo raio de sol poente, n’essa calmosa tarde de julho,
se apagava sobre o tumulo que recebera o cadaver do conde, o publico,
na praça do Campo de Sant’Anna, levantava-se em massa, fremente de
enthusiasmo, a applaudir o grande Sancho, que acabava de _marear_ o
ultimo touro da corrida com uma brilhante _navarra_.
[Illustração: FADO DO CONDE DE VIMIOSO]
O _Fado do Vimioso_ foi publicado no fasciculo 61 do _Cancioneiro de
musicas populares portuguezas_.
Acompanham-n’o algumas quadras, de origem manifestamente popular,
porque são incorrectas e banaes.
O conde é ahi tratado pelo anagramma de Moisivo.
A lettra é muito posterior á morte de D. Francisco de Paula, como se vê
da seguinte quadra, penultima do _Fado_:
Aqui ponho agora ponto,
Na lenda que finda está:
_Foram casos d’outra era_,
São voltas que o mundo dá.
O auctor da lettra explora a _lenda_ (elle mesmo emprega esta palavra)
da «paixão» do conde pela Severa, cujos encantos avulta com poetica
phantasia:
Quem lhe vê a face morena,
Quem vê seus olhos tyrannos,
Nada vê que mais captive
Inda que viva mil annos.
............................
Quem uma vez lhe ouviu
Sua voz enternecida,
Ainda depois da morte
Aos seus ais recobra a vida.
Quem a vê dançar o fado
Com rigor desconhecido,
Ao vel-a batendo forte
Fica um doido perdido.
E, continuando a lenda, falla do conde como de um cego amante que
tivesse morrido de amor:
Assim Moisivo carpia
No auge da desventura.
E ao outro dia, já cadaver,
Foi levado á sepultura.
Chorae, fadistas, chorae,
Ah! chorai a mais não ser,
Que d’outro tão fino amante
Não torna o fado a dizer.
O que é certo é que a lenda da Severa e do conde de Vimioso, tal como
a musa popular a foi cantando ao sabor das multidões, estimulou a
corrente que vulgarisou o _Fado_, especialmente no sul do paiz, e que
lhe reforçou um caracter de vaga saudade, de tristeza plangente, em que
parece pairar a longinqua memoria de uma supposta allucinação amorosa
que um fidalgo bohemio experimentou por uma pobre moça fadista, de
chinella de polimento ponteada a retroz vermelho.
Todas as mulheres dos bairros infamados, todas as criadas de servir,
todas as camareras de botequim cantam de preferencia o _Fado da Severa_
e o _Fado do conde de Vimioso_, dando-lhe uma intenção de aristocracia
rehabilitadora pela esperança de que um novo conde, seguindo o exemplo
de D. Francisco de Paula, venha enamorado, dedilhar a banza, em honra
de uma segunda Severa plebea.
«Ainda hoje, diz Pinheiro Chagas,[67] se ouve cantar a deshoras, com
acompanhamento de guitarras, por vozes nem sempre da primeira frescura,
uma melodia melancolica e plangente, que se denomina o _fado do conde
de Vimioso_.»