_Em pleno sec’lo das luzes...
Chega a par’cer impossivel!
N’uma cidade brilhante
Commetteu-se um crime horrivel!_
Na rua do Bemformoso
(Por mostrar sua alforria)
Pôz loja de mercearia
Mais um caixeiro brioso;
Porém o Fado maldoso,
Peior do que os abestruzes,
Só por nos lembrar as cruzes
Do tempo do feudalismo,
Lhe cavou medonho abysmo
_Em pleno sec’lo das luzes_.
Quando todo mundo préga
Contra a pena derradeira,
É quando a mão traiçoeira
Mais sobre os homens carrega!
A vil ambição é cega,
Dos vicios, o mais terrivel!
Porque faz descer ao nivel
Do ladrão e matador;
Mas fazel-o ao bemfeitor,
_Chega a par’cer impossivel_!
Domingues foi tão malvado,
Que, além de fazer-lhe o roubo,
Por ter entranhas de lobo,
Quiz deixal-o estrangulado.
Dormindo mui socegado
Estava o pobre commerciante,
Quando um ferro perfurante
Lhe trespassou as guellas!
E dão-se scenas d’aquellas
_N’uma cidade brilhante_!
O desditoso Duarte
(Por dar aos homens abrigo)
Creou feroz inimigo,
Sem culpa da sua parte!
Não foi morto a bacamarte,
Nem por arma compativel;
Que, por tornar despresivel
Tanto a dita como o porte,
Não só se fez uma morte...
_Commetteu-se um crime horrivel!_
Sobre um desastre que impressionou Lisboa--a morte do conde de Camaride:
_O conde de Camaride
(Por dispensar o cocheiro)
Morreu desastrosamente...
Sem ser pintor, nem pedreiro!_
Na rua Nova do Almada
(Mesmo junto á Boa Hora)
Deu-se a scena aterradora,
Que jaz na mente gravada.
Não só á pobreza honrada
Destroe a mundana lide;
Como a sorte é quem decide
De tudo quanto é mortal,
Quiz destruir a final,
_O conde de Camaride_.
Que importa que fosse nobre,
Que tivesse ouro a valer?
Não pôde deixar de ter
A mesma sorte que o pobre.
Se, de finados o dobre,
Lhe coube por ter dinheiro,
Não teve a gloria do obreiro,
Que morre ao som do martello:
Nem por isso foi mais bello,
_Por dispensar o cocheiro_.
Se guiava o tal cavallo
Que lhe concorreu p’r’a morte,
Não partilhava da sorte
Dos que tinham de tratal-o;
Sómente por seu regalo
Governava o tal vivente,
Sem sentir o que se sente
Quando o trabalho é forçado:
Todavia o desgraçado
_Morreu desastrosamente_.
O seu famoso corsel
(Apesar de fina raça)
Foi o motor da desgraça
Que lhe deu cabo da pel’.
Se gosava o doce mel
De, no carrinho ligeiro,
Ter o logar sobranceiro
Que tanto dava nas vistas,
Teve a sorte dos artistas,
_Sem ser pintor, nem pedreiro_.
Na morte de personagens celebres apparecem sempre _Fados_, que
encontram um grande exito na rua entre as classes populares.
O que se segue, escripto por occasião da morte de Antonio Feliciano de
Castilho, cantou-se na Mouraria, posto accuse uma origem culta:
_Chorae, Musas Lusitanas,
O nosso dilecto filho;
Desceu á estancia da morte
O grão poeta Castilho._
Á luz do mesmo astro santo
Que lhe sorriu na innocencia,
Desfez-se da humana essencia
O rei do moderno canto.
Destillae amargo pranto,
Ó Graças ovidianas,
Que as Parcas sempre tyrannas
Ceifaram mais um talento.
Com profundo sentimento
_Chorae, Musas Lusitanas_.
Como Milton na Inglaterra
Cantou sem ver a natura.
Como elle, na sepultura
Para sempre Deus o encerra.
Extinguiu-se em nossa terra
Um esforçado caudilho,
Dos trez astros de mais brilho
Que nos deram mais auxilio.
Chorae, manes de Virgilio,
_O vosso dilecto filho_.
Com o mau destino humano
Nenhum poder se intromette.
Perdemos o bom Garrett
Ha quasi vinte e um anno.
Já só nos resta Herculano
D’essa trindade tão forte.
Dos grandes genios a sorte
Choremos com dor sincera,
Que o cantor da Primavera
_Desceu á estancia da morte_.
Privado na curta edade
De ver o grande Universo,
Cantava em sonoro verso
D’este mundo a magestade.
Ensinou á mocidade
Da instrucção o bom trilho,
Cantou a flôr e o tomilho
Como cantar ninguem ousa;
E emfim descansa na lousa
_O grão poeta Castilho_.
Apontemos outro facto mais recente: o suicidio de Mousinho de
Albuquerque.
Vendeu-se logo um folheto de 8 paginas contendo a noticia da sua vida e
morte, glosada em decimas.
A catastrophe final é assim descripta:
_O destemido guerreiro,
Que sempre a morte affrontou,
Quando a vida lhe sorria
A negra morte chamou._
Contra si erguendo o braço,
Que a tantos a morte deu,
Encarando a luz do céu,
Teve da vida o fracasso.
Seu corpo de puro aço
Teve o golpe derradeiro,
Mas tão fatal, tão certeiro,
Que a vida, n’elle, apagou-se;
Pois sem fraqueza matou-se
_O destemido guerreiro_.
A tão notoria coragem
Que de louros o cobriu,
Não fraquejou nem fugiu
N’esta ultima passagem.
Decerto alguma visagem
Falso p’rigo lhe mostrou,
E o bravo não hesitou
Em morrer bem dignamente,
F’rindo de morte o valente
_Que sempre a morte affrontou_.
Quem conheceu o soldado
Que lembra os passados feitos,
Tributa honrosos respeitos
Ao luctador denodado:
Nenhum mais galardoado
Pela sua valentia,
Pois nenhum mais merecia
O logar que se lhe deu,
Mas a vida aborreceu,
_Quando a vida lhe sorria_.
Quando gosava o descanso,
Da morte e do p’rigo ausente,
Pensou de modo diff’rente,
Buscou o eterno remanso.
De bemdizel-o não canso
Porque a sua patria honrou;
Briosamente luctou
Contra os revézes da sorte;
E sem ter temido a morte,
_A negra morte chamou_.
Os acontecimentos politicos e os conflictos religiosos, quando agitam
fortemente a opinião publica, tambem encontram écco na poesia popular.
A questão do caminho de ferro de Salamanca (vulgarmente, _Salamancada_)
inspirou em 1883 este _Fado_:
_Casou Dona Salamanca
Com Dom José Portugal;
Foi padrinho o Dom Antonio
De tal... e coisas... e tal._
Zé povinho parvonez!
Salta... dança... canta... brinca...
Pois, como tu, ninguem chinca
Tantos coices d’uma vez:
Se o grande cantor de Ignez
Te visse, ó _chanca-lha-chanca_,
Na sua lyra tão franca
Gabaria o teu socego...
Que p’ra te fazer gallego,
_Casou Dona Salamanca_.
Casou a _velha das covas_
D’onde sae a estudantina;
Zombando da tua sina,
Das tuas ideias novas!
Depois de tantas mil provas
D’essa verdade fatal...
P’ra complemento do mal
D’alguns corações sinceros,
Casou a tal dos _boleros_,
_Com Dom José Portugal_!
Casou-se!?... não digo bem;
Fizeram-lhe o casamento
Com quem já foi o tormento
Do Portugal que Deus tem;
Assiste lá p’ra Belem
Quem o fez andar erroneo:
Se tu fizeste o demonio
Por causa do syndicato...
De tão nojento contrato
_Foi padrinho o Dom Antonio_.
Se não passas d’uma aranha...
P’ra que gritas, Zé-povinho?!
Deixa viver o ranchinho,
Como melhor lhe convenha;
Se querem os ares d’Hespanha...
Deixa-os ir, porque, a final,
Salamanca e Portugal
Hão de ser do homem raro,
Que se chama--Antonio Caro...[47]
_De tal... e coisas... e tal_.
A questão religiosa, ultimamente levantada a proposito do incidente
Calmon no Porto, provocou _Fados_ de occasião contra os jesuitas, os
conventos e recolhimentos, etc.
Trecho de um _Fado_ ironico contra os jesuitas:
É injusta a crua guerra,
Que contra os _santos_ fazemos,
Pois mil _feitos_ lhe devemos.
Do palacio até á serra
A sua doutrina encerra
O que o povo _necessita_:
_Instrucção_ que a crença agita,
_Conselho_ que o faz feliz;
Por isso é que o mundo diz:
_Que mal faz o jesuita?_
O _virtuoso_ varão,
Tão _respeitado_ e _bemquisto_,
Que só prega a lei de _Christo_,
Plantando a religião,
P’ra que chamar-lhe villão,
Se ao contrario é mui _cordato_?
_Educador_ e _pacato_,
E _devoto_ d’alto lote;
Se é um _bello_ sacerdote,
_Severo, grave e sensato_!
No Porto havia um musico ambulante, de nome Marcolino, que improvisava
_Fados_ com caracter satyrico, entrando frequentes vezes pelo dominio
da politica.
Aos _Fados_ de nomenclatura (como os nauticos) que do caracter popular
passaram ao caracter scientifico pela intervenção do famoso bohemio
Luiz de Almeida, reservamos menção especial.
Exemplo de _Fados_ toponymicos, a começar por Lisboa:
_N’este semestre passado,
Houve grande confusão:
Foi uma familia séria,
P’r á rua do Capellão._
Um _dandy_ todo liró
Poz escriptos no _Chiado_,
E mudou-o sôr _Calado_
P’r’ó _becco do Falla Só_.
Um excellente _sol e dô_,
Foi p’r’ó _Pateo socegado_
Mudou-se um _trapeiro_ honrado
Para o _Collegio dos Nobres_.
Viram-se em pancas os pobres,
_N’este semestre passado_.
P’r á _rua dos Sapateiros_
Mudou-se um _amolador_,
E até um _entalhador_,
Foi p’r’ó _Largo dos Torneiros_.
Foram dois _atheus_ brejeiros,
P’ra _rua da Conceição_;
Té se mudou o _Paixão_,
Para a _Praça d’Alegria_.
Foi immensa a berraria,
_Houve grande confusão_.
P’ra um bello primeiro andar,
Sito no _Largo do Rato_,
Foi o senhor _João Gato_
Com a familia morar.
Foi um de _livre pensar_,
Para a _de Santa Quiteria_
E a familia do _Miseria_
P’r’ á _Calçada do Pombeiro_;
P’r’ o Arco do Limoeiro
_Foi uma familia séria_.
Um _céguinho_ se mudou
P’r á _rua da Bella Vista_,
E uma senhora _modista_
P’r’ós _Ferreiros_ se passou.
_N’ Alegria_ casa achou
O senhor _Pena Tristão_;
Mudou-se um _avarentão_
P’r á _rua da Caridade_,
E foi o _Dr. Verdade_
_P’r á rua do Capellão_.
Um barbeiro de Bucellas quiz lembrar-se, para me dizer, de certo _Fado_
composto sobre o onomastico locativo do Termo de Lisboa, mas não se
recordou senão d’estes quatro versos:
Deu Bucellas uma facada
Na ribeira do Trancão.
Acudiu-lhe a Ponte Nova,
Camarate e Appellação.
O _Fado_ saloio tem já hoje vida propria e autónoma. Quero dizer que
os fadistas do Termo não se limitam a copiar os _Fados_ de Lisboa, mas
já por sua vez os compõem sobre assumptos locaes: portanto é natural
que lhes dêem um caracter toponymico.
N’esta especie de _Fados_ a quadra substitue a decima, que é de mais
difficil improvisação; mas já ouvi quadras locaes da Ericeira--por mim
recolhidas em outro livro--[48]cantadas no rythmo do _Fado_.
Sem embargo tambem ha _Fados_ saloios em décimas, que Lisboa exporta
nos almanachs, com o fim de conquistar leitores entre as povoações
suburbanas: