_Nossa arte chega ao apuro,
Posso-o dizer com verdade:
Vêde os mosaicos de cores
Nos passeios da cidade._
Para que os trens de estadão
Rodem por modo ligeiro,
Passamos o dia inteiro
Em difficil posição.
Sempre ao rigor da estação,
O nosso trabalho é duro;
Mas podemos, asseguro,
Dizer mesmo aos de Pariz:
No lusitano paiz
_Nossa arte chega ao apuro_.
Com um passadio escasso,
Entre o frio e o calor,
Trabalham com todo o ardor
Os nossos homens de masso:
Dando no progresso um passo,
Formámos sociedade;
Reina entre nós amizade,
Detestamos os vis pulhas;
Não somos homens de bulhas,
_Posso-o dizer com verdade_.
Ordens, que do mestre vem,
Cumprimos, como é dever,
Mas não sabemos soffrer
Um insulto de ninguem.
Se qu’reis saber onde tem
Chegado os nossos primores,
Tornae-vos passeiadores
Das ruas que são mais vistas,
E com olhos, mas de artistas,
_Vêde o mosaico de côres_.
O estrangeiro em Portugal,
De certo fica encantado,
Quando vê lá no Chiado
Obra boa nacional:
Se elle quizer ser leal
E não faltar á verdade,
Dirá, com ou sem vontade,
Que por lá não se apresenta
O que em Portugal se ostenta
_Nos passeios da cidade_.