Em calão a atirar

_Dê-me a naifa, não se ponha

Comigo ás duas por trez.

Não passe os butes agora...

Que está na mão de má rez._

--Eu _estafo-o_, seu mariola.

--E eu cá chego-lhe _amas todas_.

--Não se me ponha com modas,

«Que o mando já _p’r’o esfolla_.

--Olhe que é de _ponta e móla_.

«Olhe que esta tem _peçonha_.

--Você perdeu a vergonha?

--Perdi a vergonha? Hom’essa!

--Vamos lá, que tenho pressa;

«_Dê-me o naifa, não se ponha..._

--Não me ponho a fazer vistas

«De _fadista ou galopim_;

«Lá está aberto o _eslarim_

«P’ra quem _rentar_ com fadistas.

--Você porque faz conquistas...

«Que eu não sei já quantas fez,

«Vem cá _fazer-se francez_?

«Porque pertence á _gentalha_,

«Vem pôr-se aqui, seu canalha,

«_Comigo ás duas por trez_!...

«--Está _nadando_, meu amigo;

«Passe p’ra cá essa _espinha_.

--Isso, não; que é muito minha:

«Você, chamava-lhe um figo!

--Eu se lhe _afinfo_ no _embigo_

«Um sôcco sem mais demora...

«Veremos, se você chora

«O seu empenho tão cego!...

«Eh! onde vai, seu gallego?

«_Não passe os butes agora!_

«--Arrede-se já d’aqui...

«Já o não vejo, percebe?

«--Pois já a _comadre bebe_?

«Seu pateta!... _seu cri-cri_!...

«--Eu cá logo quando o vi;

«Puxei da naifa outra vez:

«Vá, marche, seu _montanhez_,

«Ou dou-lhe _quatro naifadas_;

«Conte co’as guellas cortadas,

«_Que está na mão de má rez_.

Assim, pois, o fadista creou para si um mundo á parte, onde a

linguagem, os usos, os costumes constituem uma vida exótica, de

aberração, que se escôa por entre a sociedade portugueza como um

enxurro negro e torvo.

N’essa vida destragada todos os mais nobres sentimentos da humanidade

se abatem e enlameiam, attingindo ás vezes as proporções de um paradoxo.

Uma das coisas que mais custam a comprehender na vida do fadista é o

ciume que elle tem da mulher perdida, que todos os dias se vende ao

primeiro homem que passa.

Interesse? affeição? tudo isto talvez, porque o fadista vive á custa

da depravação da amante, mas quando o ciume o domina dir-se-ha haver

n’esse sentimento o que quer que seja superior ao interesse material.

Reconhecendo-se _atraiçoado_, o fadista procura matar a mulher que lhe

foi desleal, e desprésa todas as conveniencias pessoaes que d’essa

convivencia amorosa lhe resultavam.

É então que parece comprehender o amor e sentir o ciume como todos os

outros homens.

Fóra d’esses lances, encara a prostituição da mulher como um commercio

que exclue toda a idéa de sentimentalidade, e que o ajuda a viver.

Do que elle tem ciumes não é das caricias que a sua amante vende; é

d’aquellas que ella pode dar por um impulso espontaneo do coração.

O mobil das grandes desordens entre os fadistas tem quasi sempre origem

no ciume--este ciume de contrabando, paradoxal, que tanto custa a

comprehender.

Nos _Fados_, a mulher perdida é cantada pelo fadista como sendo tambem

uma victima da fatalidade do destino:

Não me prendeu sempre o vicio,

Tambem donzella nasci;

Mas meu candor deprimi,

N’um criminal desperdicio.

Na beira do precipicio,

Onde o meu fado me tem,

Não vê meus prantos ninguem,

Nem minha dor avalia,

Privada de quanto havia

No collo de minha mãe!

* * * * *

Tudo p’ra mim se acabou,

Beijos de mãe, meus folguedos;

Meus innocentes brinquedos,

Um sonho foi que passou.

O fado meu me votou

A toda a triste agonia,

Até que p’r’a valla fria

Meu corpo seja deitado,

Pois que dos bens do passado

Nada me resta hoje em dia.

Camillo, no _Eusebio Macario_, reproduz dois versos de um _Fado_

da Escarnichia (Escarniche, na pronuncia popular), os quaes dão

a impressão rapida da «má sorte» que, segundo a lenda fadista, a

arremessou para a desgraça:

Nascêra n’um berço de ouro

E não teve uma mortalha.

Todas as rameiras mais populares, desde a Severa, a Escarnichia, a

Joaquina dos Cordões,[44] etc., até á _Borboleta_[45], teem sido

choradas pela guitarra e encontrado uma necrologia nas glosas

sentimentaes do _Fado_.

Além da vida do fadista e da morte das mal-fadadas que viveram entre o

povo, o _Fado_ canta ainda outros assumptos, a saber:

_a_) O amor, como o fadista é capaz de o sentir; sem delicadeza e sem

recato: o amor sensual, que principia por onde nas outras classes acaba.

Porém, se é o teu desejo

Saber isto mais a fundo,

Deixa lá fallar o mundo

E passa p’ra cá um beijo:

Só então, segundo vejo,

Serei grande explicador.

Só então, anjo d’amor,

Saberás p’la vez primeira,

Que te fallo de cadeira,

_Que sou n’arte professor_.

E muitas vezes o amor é declarado em calão, para ser melhor entendido:

Quando eu apenas _tosquei_

Essa _facha_ tão formosa,

Senti _coisinhas ó Rosa_,

E apaixonado fiquei.

Sou feliz que nem eu sei...

Minh’alma se desatina

Só pôr ver que é papa fina

Sua elegante pessoa;

Palavra, que é _toda boa_,

Minha adorada menina!

_b_) Os trabalhos e soffrimentos das classes sociaes que estão em

contacto com o fadista ou proximas a elle.

_c_) Os aspectos da vida popular e a chronica das ruas, como as

_hortas_, os _pregões_, a _noite de Santo Antonio_.

_d_) Os grandes crimes e os grandes desastres terrestres ou maritimos,

que impressionam a opinião publica.

_e_) A morte de personagens celebres.

_f_) Os conflictos politicos ou religiosos que provocam discussões na

imprensa e no parlamento.

_g_) A nomenclatura popular de utensilios de trabalho nas artes e

officios ou de animaes, arvores, plantas, flores, etc.

_h_) As cidades, seus bairros e ruas, as villas e aldeias do paiz, n’um

jogo de metaphora ou de antithese; n’um sentido de orgulho local e

patriotico ou de funda nostalgia.

_i_) Passagens da Biblia, assumptos religiosos, especialmente relativos

á vida eterna, e episodios da historia de Portugal.

_j_) Descripção das esperas de touros, peripecias das touradas,

triumphos e desastres dos toureiros mais evidentes.

_k_) Expressão de malicias e gaiatices, que ou é formulada brutalmente

n’uma linguagem obscena ou recorre ao equivoco e ao trocadilho.

_l_) Floreios de palavras exdruxulas e arrevezadas que muitas vezes não

fazem sentido.

Entre as classes sociaes que são cantadas no _Fado_, avulta a dos

marinheiros, talvez pela razão, de que o marujo é meio fadista.

Já dissemos que, segundo a opinião do velho guitarrista Maia, o _Fado

do marinheiro_ é um dos mais antigos.

Tornou-se muito popular uma cantiga, que não seguia a metrica

tradicional do Fado, mas que entrou logo no genero, a que realmente

tinha direito não só pelo assumpto, como tambem pelo seu rythmo

plangente:

Triste vida a do marujo,

Qual d’ellas a mais cansada.

Por’môr da triste soldada,

Passa tormentos,

Passa tormentos,

Don, don.

Anda á chuva e aos ventos,

Quer de verão, quer de inverno;

Parecem o proprio inferno

As tempestades,

As tempestades,

Don, don.

* * * * *

Foi um velho marinheiro

Que inventou esta cantiga;

Embarcado toda a vida,

Sem ter dinheiro,

Sem ter dinheiro,

Don, don.[46]

D’este _Fado_ correm pelo menos duas versões, como se pode reconhecer

confrontando a de Coimbra--que vem no _Cancioneiro popular_ de

Theophilo Braga--com a (de Lisboa) que vem appensa á _Confissão geral

do_ _marujo Vicente_, edição de Verol Junior.

No _Almanach da terra e mar_, tambem edição d’este livreiro, vem um

novo _Fado do marujo_, decalcado sobre o antigo; além de outros _Fados_

maritimos.

É muito original, pelo emprego da technologia nautica n’uma intenção

amorosa, o seguinte _Fado_:

_Do mar nas aguas salgadas,

Mais de trez annos andei

A navegar de bolina.

’Té que a final encalhei._

Como chaveco pirata

Andei correndo na alheta

D’uma velleira corveta,

Que me fugia, a ingrata!

Toda a manobra m’empata,

Virando sempre em bordadas;

Ora co’as vellas caçadas,

Ora com gávea, e latina;

Nunca vi barca mais fina,

_Do mar nas aguas salgadas_!

Quando largava os estaes,

E carregava o traquete,

Corria como um foguete,

Ou talvez mesmo inda mais!

Até os mastros reaes

Que tinha d’aço julguei;

Nunca por vante a pilhei,

Com brisa fresca ou escassa.

A dar-lhe sempre assim caça

_Mais de trez annos andei_!

Nos seus cachorros de proa

O meu sentido só tinha;

Porém p’ra fóra da linha

Da minha esteira ella vôa,

Como um safio s’escôa,

Que tem a quilha mui fina;

Já p’lo redondo a mofina

Zomba de toda a coragem,

Nem se lhe dá abordagem,

_A navegar de bolina_!

Senti-me desarvorado,

Nas ondas andando aos tombos,

O casco tendo com rombos,

E todo, emfim, adornado.

No tope, o signal içado

Pôr de soccorro mandei.

Ella então cedendo á lei,

Seja quem for que a invoque,

Trouxe-me tanto a reboque,

_’Té que a final encalhei_.

De outros _Fados_ de classe daremos ainda alguns exemplos.

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) · 第 23 / 60 题