_Deixo a guitarra á Joanna,
Quatro beijos á Francisca,
Deixo á Thomazia uma praga
E o baralho para a bisca._
’Stou no ultimo momento,
Dentro em pouco... era uma vez.
E, portanto, oiçam vocês
Qual é o meu testamento
--O Constancio, toma assento
Á banca que já abana;
Não faças lettra parrana
Como o teu irmão Calixto,
E começa por pôr isto:
_Deixo a guitarra á Joanna_.
Á Marianna d’Aliça
Deixo as de panno mui fino
Calças de bocca de sino
E o collete de ir á missa.
Deixo á Josepha Carriça
Um vintem para uma isca;
Á Bonifacia Lambisca
Deixo-lhe um chapeu de côco;
Á Felicia deixo um sôcco,
_Quatro beijos á Francisca_.
Deixo o gato que anda côxo
Á brejeirota Maria,
Que sempre quando eu pedia,
Não faltava a dar-me um chôcho;
Um canapé e um mocho
Deixo á Joaquina gaga;
Deixo á Brites Bestiaga
O meu luzente _cachucho_;
Deixo á Anna um ai machucho.
_Deixo á Thomazia uma praga._
Á Adelaide do olho torto,
Fadista de boa pinta,
Deixo a minha linda cinta
Que mandei comprar ao Porto;
Deixo, para seu conforto,
Um litro á Lucia Petisca;
Á Cunegundes Arisca,
Que canta ás mil maravilhas,
Dois tachos, quatro rodilhas
_E o baralho para a bisca_.
A guitarra é o porta-voz do fadista. O calão é a sua linguagem. O
_Fado_ é a sua eloquencia, a sua poesia.
Por isso elle se mostra reconhecido ao inventor da guitarra, cuja
estatua desejaria erigir na praça publica, como se se tratasse d’um
heroe.
Mas, não o podendo conseguir, quer ao menos levantar-lhe um monumento
com as melhores canções de todos os cantadores do _Fado_, o que faz
lembrar a lenda da cortezã Rhodopis, que levantou uma das pyramides do
Egypto convidando cada um dos seus amantes a acarretar uma pedra.
_Da suavissima guitarra
Quem seria o inventor?
Qu’ria erguer-lhe um monumento,
Uma estatua de primor._
Inventaram-se os pianos,
As cornetas e os flautins,
As flautas, os cornetins
E os orgãos ha muitos annos.
Mas o saber dos humanos,
Do qual tanto ahi se narra,
Deu a prova mais bizarra
Do seu poder e magia,
Inventando a melodia
_Da suavissima guitarra_.
Quem se lembrou de fazer
As marimbas e as cornetas,
Quem inventou as trombetas
Não me importa a mim saber:
Mas o que me faz arder
É não achar um _doutor_,
Antiquario sabedor,
Em alfarrabios um barra,
Que me diga da guitarra
_Quem seria o inventor_.
Qu’ria metter nas cantigas
O nome d’aquelle heroe,
Que no peito me destroe
As tristezas inimigas.
Qu’ria empregar mil fadigas
Cantando-o com todo o alento,
E nos mil versos que invento
E conservo na memoria,
Para sua eterna gloria
_Qu’ria erguer-lhe um monumento_:
Um monumento fundado
Em cantigas escolhidas,
Que seriam muito qu’ridas
Pelos amantes do _Fado_.
Pediria em alto brado
A todo o bom cantador
Que me fizesse o favor
De poupar parte do cobre,
Para erguer a homem tão nobre
_Uma estatua de primor_.
Depois da invenção da guitarra, nada parece ao fadista tão admiravel
e sublime como o _Fado_ em que elle póde traduzir tudo quanto pensa e
sente, toda a expressão da sua alma, toda a synthese da sua existencia.
_Quando ouço qualquer pequena
Largar uma piadinha,
Sinto logo sensações...
De fazer uma escovinha._
Eu gosto da castanhola,
E deleita-me a _habanéra_,
Idolátro a _penetéra_
Cantada por uma hespanhola;
Acho pilheria á _manóla_,
Se tem graça e é morena,
Que na sua _cantilena_
Nos mostra verbosidade:
De a imitar tenho vontade,
_Quando ouço qualquer pequena_.
Mas gosto mais do Fadinho
Tocado mui mavioso,
Por um typo conscencioso,
Que trine no _corridinho_;
Não posso estar quietinho,
Se ouço uma guitarrinha;
Dá-me logo vontadinha
De entoar uma canção,
Se ouço qualquer ratão
_Largar uma piadinha_.
Se uma serva de Cupido,
Com meiga voz o cantar,
Fico-me logo a babar...
Mui _peixóla_ e derretido;
Sinto-me então decidido,
Cá para certas funcções...
E n’estas occasiões,
Em que o meu ser todo gosa,
Cá para coisas ó Rosa...
_Sinto logo sensações..._
Decerto, não fica mal
Gostar do mavioso Fado,
Pois só elle é acclamado,
Como o hymno nacional.
Gosto do Fado em geral,
Tocado por brégeirinha,
Que com a nivea mãosinha,
O dedilha com primor.
Dá-me _ganas_ e furor
_De fazer uma escovinha_.
Para o fadista, cidadão dos bairros infamados, _habitué_ das espeluncas
e dos bordeis, todo o paiz se resume n’esse mundo, que é o seu, a «sua
patria», o seu _habitat_.
Por isso considera o _Fado_ um «hymno nacional».
[Illustração: FADO CORRIDO]
[Illustração]
Quando a _prima_ e a _toeira_[40]
Dão do Fado os sons divinos,
Esqueço todos os hymnos
Da _Carta_, mais da _Terceira_.
Eu despréso a petisqueira
De mais fino e bom sabor;
Despréso o vinho e o amor;
Das magoas fico esquecido:
Que ao som do Fado corrido
_Não ha tristeza nem dôr_.
E lisonjeia-se de que as classes superiores da sociedade executem o
_Fado_ no piano, em sumptuosas salas; como um estrangeiro se póde
lisonjear de ouvir o hymno da sua nação, apreciado n’uma terra que não
é a d’elle.
E não me venham dizer
Santarrões de idéas tortas
Que o Fado é bom para as hortas
Entre as furias do beber:
Já tive o gosto de o vêr
Nos salões muito acatado;
Vi-o por vezes cantado,
Em beneficio dos pobres,
Por senhoras muito nobres,
_No piano acompanhado_.
Se o Fado ajuda os folgares
Da pobre gente do povo,
Não deve ser caso novo
Louvar-lhe os dons singulares:
Triumphem, pois, os cantares
Em que a voz d’alma nos falla;
Sôe a guitarra que abala
O albergue dos desgraçados,
E sob tectos doirados
_Por’hí se ouve em muita sala_.
O _Fado_ é, para o fadista, a melhor de todas as musicas, a mais dôce,
a mais terna, a mais estonteadora: o que vale ao Padre Santo, para
não ultrajar a dignidade da tiara, é «não saber o gosto que o _Fado_
tem»; o Diabo, nas profundezas do inferno, arde menos no fogo das suas
paixões quando se põe a cantar o _Fado_ como um faia da Mouraria:
O diabo lá no inferno,
Onde nos leva ao chamusco,
Tambem o Fadinho canta
Como o mais bello patusco.
Um _Fado infernal_ descreve a macabra alegria do Averno quando lá sôam
os accordes de algum _Fado_ mephistophélico:
Satanaz com voz possante,
Com sua voz d’estentor,
Canta o diabolico amor
Da sua infernal amante.
Recitam versos do Dante
Todas as furias do Averno,
E por entre o fogo eterno
Que mil almas tem queimado,
Os demos tocam o Fado
Nos grandes tan-tans do inferno.
* * * * *
Á gargalhada estridente
Succede o tristonho pranto,
E os diabos folgam tanto,
Que não ha um descontente.
Entra o Fado finalmente
Na região bacchanal,
Faz-se um enorme arraial
Que em brilho vae progredindo
E o Demo canta, sorrindo,
O seu Fadinho infernal.
O calão é a linguagem habitual do fadista. Parece um dialecto, sem o
ser rigorosamente. Muito pittoresco, não se limita apenas a alterar
phoneticamente as palavras como a giria infantil; além de lhes alterar
o som, altera-lhes tambem a forma, e muitas vezes lhes desloca a
significação, levando-a para outros objectos, n’um sentido tropologico,
fundado na relação de semelhança.
Assim, a garrafa preta da taberna é _viuva_; os copos são _filhos da
viuva_: uma _viuva_ e dois _filhos_ quer dizer--uma garrafa e dois
copos.
Mas se o copo é maior que o da decilitração habitual, chama-se _sino
grande_.
O cigarro é _soldado de calça branca_; a navalha, _sardinha_; a faca,
_sarda_; o apito, _rouxinol_; a quantia que o rufião recebe da amante,
_queijada_; o dinheiro, _painço_; o café com leite, _mulato_; a agua
com café, _meio-caiado_; Deus, _juiz do Bairro Alto_; as pernas,
_juntas_; a barriga, _folle das migas_; as notas de banco, _filhozes_;
enfiar uma guitarra pela cabeça d’outra pessoa é _fazer uma gravata_; a
bofetada é _estampa_; a meia-porta dos bordeis do Bairro Alto, _avental
de madeira_, etc.[41]
Nas outras linguas encontra-se um vocabulario correspondente ao calão
dos nossos fadistas: os hespanhoes chamam-lhe _germania_ e chamavam-lhe
antigamente _gerigonza_; os francezes _jargon_ e _argot_; os italianos
_gergo_ e _lingua furbesca_; os inglezes _cant_, etc.[42]
Calão vem de _caló_, nome que os ciganos dão a si mesmos.