Na morte

_Vou despedir-me da vida,

Ao som da banza sonora;

P’r’a derradeira cantiga

Dá-me, ó musa, um quarto d’hora_

Parte alegre o cantador,

Ouvindo o estylo do Fado,

Para o logar onde é dado,

Aos bons o justo valor.

Mas antes que o teu rancor,

Ó parca vil, destemida,

No coração cave a f’rida

E d’agonia os tormentos:

Ao som de tristes lamentos

_Vou despedir-me da vida_.

A fragil voz não levanto,

P’ra cantar minhas proezas:

Não vou relatar emprezas,

Que a todos causem espanto.

O que ora incita o meu canto

Para essa turba que chora,

N’esta pequena demora

Que peço ao Deus das verdades,

É dictar minhas vontades

_Ao som da banza sonora_.

Não quero sinos plangentes,

Nem pompa mal empregada;

Só quero em cova apartada

Dormir o somno dos crentes.

Que um d’esses faias valentes

Que Portugal hoje abriga,

Empunhando a banza amiga

Me faça a necrologia.

Bem vêdes. Não ha folia

_P’r’a derradeira cantiga_.

Na minha campa, gravado.

Seja visto este lettreiro:

«_--Dorme aqui faia brégeiro_

«_Que soube cumprir o fado._»

Sinto-me, ó faias, cançado,

Vou partir sem mais demora.

Deixem-me só; vão-se embora

Sem pranto nem algazarra,

Mas p’ra que eu beije a guitarra

_Dá-me, ó musa, um quarto d’hora_.

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) · 第 20 / 60 题