Na vida

_O fadista na taverna

Passa a vida socegada;

A um gesto da prostituta

Vae dar n’outro uma facada._

Chame-se embora immoral

Á vidinha do fadista,

Das _boas vidas_ na lista

Não se conhece outra igual.

Trabalho não lhe faz mal,

O andar não lhe cança a perna,

Tem ao lado a amante terna

Cheia de doce carinho,

E tem sempre muito vinho

_O fadista na taverna_.

Quando diz o fadistinha

Que não tem dinheiro, um dia,

O tasqueiro logo lhe fia

Porque... o medo guarda a vinha.

Porque elle usa a navalhinha

Sempre de ponta afiada,

E a barriguinha adorada

Não póde estar no seguro...

O fadista, pois, o puro,

_Passa a vida socegada_.

Do lupanar para a tasca

Anda sempre a passeiar,

Com a _esbelta_ amante a par,

A quem forte e feio _casca_.

Ás vezes arma borrasca

Por ciumes com que lucta,

E arruma pancada bruta,

Ou leva p’ra seu tabaco,

Só dando parte de fraco

_A um gesto da prostituta_.

Se a amante não tem dinheiro

E deve á contrabandista,

Então o heroe, o fadista,

Trabalha... de ratoneiro.

E se vae p’r’o Limoeiro,

Lá vae soccorrel-o a amada;

E ao voltar á vida airada,

Os bolsos trazendo fracos,

Até por quatro patacos

_Vae dar n’outro uma facada_.

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) · 第 19 / 60 题