(FALLECIDO EM JUNHO DE 1861)]
Já vimos como ainda antes de estabelecida a denominação de _Fados_, os
viajantes estrangeiros se impressionaram com as canções dolentes, na
lettra e na musica, do povo portuguez.
É que sempre temos sido um povo melancolico por effeito das condições
da nossa propria existencia e de uma educação tradicional.
Vivemos n’um paiz confrangido entre as montanhas e o mar: as montanhas
criam as povoações alpestres e os pastores solitarios; o mar educa os
marinheiros pensativos e concentrados, que serenamente jogam a vida
contra a furia das tempestades na vastidão immensa das aguas.
Nascemos de um grupo de lusitanos, que tiveram de soffrer o choque de
povos poderosos, de immigrações torrenciaes e, por ultimo, de fazer a
guerra contra os mouros, uma guerra de fanatismo, estimulada pelo odio
de raça e pelo sentimento religioso, que é a mais cruel e intransigente
de todas as guerras.
Depois fomos navegadores em mares desconhecidos e conquistadores em
plagas remotas, onde a nostalgia cortava o coração saudoso.
Ouvimos o canto monotono e languido do preto em Africa. De lá parece
havermos trazido o _lundum_, que se coadunou com o nosso genio
melancolico, e que tem sido certamente a canção popular mais aproximada
do _Fado_ actual. A expressão de Tolentino «o doce londum chorado» dá
bem a impressão do _Fado choradinho_ de nossos dias.
O excesso de religião pesou sobre nós com todos os seus terrores
inquisitoriaes: o carcere, a tortura, o auto de fé.
Vivemos mais de meio seculo opprimidos pelo jugo castelhano, a que só
alguns fidalgos se mostravam affeiçoados por vil cortezanismo.
Soffremos, no principio do seculo XIX, invasões armadas que exigiram um
esforço duro para reconquistarmos a liberdade ameaçada.
Tivemos violentas luctas partidarias, que accendiam odios figadaes
entre os individuos de uma mesma familia.
Depois da Regeneração, a vida publica tornou-se mais calma, mas os maus
processos de administração trouxeram os desiquilibrios orçamentaes,
as difficuldades financeiras, a falta de credito, os embaraços
economicos, que dão um mal-estar geral.
Como ultima desgraça, empobrecemos.
E n’isso estamos.
A nossa lingua é triste, exprime melhor a dolencia, o soffrimento
moral, do que os pensamentos alegres e vivos.
Falta-lhe o colorido e o gorgeio de outros idiomas neo-latinos: do
francez, que é uma lingua de passaros; do italiano, que é uma lingua
de musicos. Falta-lhe o vigor varonil do hespanhol, lingua aliás
menos harmoniosa do que as outras duas, mas que tem a bravura como
compensação.
Orgulhamo-nos de possuir a palavra «saudade», que exprime melhor do que
qualquer outro vocabulo das linguas estranhas o doer da ausencia, isto
é, um pensamento triste, consolação unica das almas inconsolaveis por
effeito de uma separação dolorosa.
Escreveram alguns estrangeiros que somos um povo de namorados.
Este conceito sôa como diagnostico de uma psychose nacional; exprime
a nossa sensibilidade doentia excessivamente vibratil. Mas o amor dos
portuguezes é sempre uma tortura, nos poetas e nos outros.
D’ahi vem que toda a nossa poesia lyrica é soluçante e dolorida, desde
Bernardim Ribeiro e Camões até Soares de Passos e Antonio Nobre; facto
que tambem se reconhece nos poetas bohemios como Bocage, que perde o
seu tom alegre e esturdio logo que roça pelo lyrismo subjectivo.
O povo pertence á mesma raça dos poetas, vive e respira no mesmo meio
geographico e social e, á parte a educação litteraria, soffre como
elles.
Portanto tambem canta como elles, ferindo a nota da tristeza,
queixando-se do seu destino.
É ainda mais desgraçado, e por isso é mais triste.
Não é preciso, para explicar o estado permanente da alma nacional,
exagerar a influencia arabe, nem filiar n’ella, exclusivamente, a
melodia plangente do _Fado_.
É certo que no Alemtejo o rythmo das canções populares é lento e
arrastado, no que pode admittir-se até certo ponto o effeito de uma
occupação arabe mais longa do que nas provincias do norte.
Mas esse rythmo não chega a ser choroso e cortante como o dos
_Fadinhos_, nem tem a mesma expressão de melancolia acabrunhada,
esmagadora, que distingue o _Fado_.
Em todo o paiz ha vestigios «dos mouros», como diz o nosso povo. São
communs a todas as provincias as lendas das mouras encantadas. No
norte, ainda apparecem as janellas de rótulas; no Alemtejo e Algarve os
biôcos das mulheres.
Sem embargo, o _Fado_ não está em todas as provincias de Portugal na
alma do povo, nem por intuição, nem por tradição. Vai aonde o levam;
e algumas povoações menos progressivas, acreditando aliás nas lendas
mouriscas, repellem o _Fado_, preferem-lhe as suas canções locaes,[12]
com que foram embaladas desde a infancia, e que traduzem melhor a
tranquilla resignação, a paz saudavel da sua lide agricola.
O baluarte do _Fado_ continua a ser, além de Lisboa, as tabernas dos
seus arredores e as do Ribatejo, frequentadas por maltezes, toureiros,
cocheiros e almocreves que estão em constante communicação com a
capital.
Mas nem ahi mesmo tem entrado na vida dos campos.
A guitarra, o instrumento de melhor apropriação ao _Fado_, é que
nos veio dos arabes; essa sim. É filha do alaude musulmano, e foi
naturalmente conservada pelos jograes mouriscos. Alguns estrangeiros
chamam-lhe ainda «guitarra mourisca» para a distinguir do instrumento a
que dão o nome de--guitarra--e que não é outra cousa senão o violão ou
a viola franceza.[13]
Mas não se diga que a guitarra, por via da sua origem, trouxe comsigo a
musica arabe, e que a melodia do _Fado_ proveio d’esta dupla origem.
Parece ter sido no seculo XVIII que reviveu entre nós a tradição
arabe da guitarra: pelo menos foi em 1796 que Antonio da Silva Leite
publicou um methodo, considerado hoje como o primeiro que se imprimiu
em Portugal, certamente na espectativa de encontrar mercado favoravel.
Não padece duvida que n’esse seculo a guitarra serviu entre nós para
executar «sonatas» e acompanhar «modinhas», muitas das quaes não
glosavam assumptos tristes, nem cantavam a fatalidade amarga do Destino.
Instrumento suave e relativamente perfeito, a guitarra adapta-se com
facilidade aos requebros e á ternura das canções galantes e sentidas.
Fez a sua epoca de «sonatas» e «modinhas» e identificou-se depois com
o _Fado_ por um conjunto de disposições favoraveis para os soluços do
amor, para os gemidos de desventura.
Mas os proprios fadistas, na sua ancia de encontrar um instrumento que
exprimisse ainda melhor toda a doçura gemente do _Fado_, abandonaram
algum tempo a guitarra quando appareceu o bandolim.
Tanto elles não tinham a intuição de que o _Fado_ e a guitarra fossem
irmãos gemeos.
A guitarra luctou então pela existencia e procurou combater o seu rival
bandolim. Alindou-se; tratou de melhorar-se. Mudou a sua afinação,
que era de cravelhas e chave, para a elegante chapa-leque; os seus
pontos que eram, em algumas, 12 e, em outras, 14, passaram a 17. As
cordas tambem de 10 passaram a 12. E foi assim, que vendo em litigio
o monopolio do _Fado_, a guitarra se habilitou a executar trechos de
operas, como acontecia nas mãos de João Maria dos Anjos.
A toada do _Fado_ obedece a um padrão, a um typo musical, descripto
segundo a technica pelo erudito professor Ernesto Vieira:
«Existe uma grande quantidade de melodias sobre o fado, e a cada
momento os cantores populares inventam outras; mas todas vasadas no
molde primitivo que é o seguinte: um periodo de oito compassos em ²⁄₄,
dividido em dois membros iguaes e symetricos, de dois desenhos cada um;
preferencia do modo menor, embora muitas vezes passe para o maior com a
mesma melodia ou com outra; acompanhamento de arpejo em semicolcheias
feito unicamente com os accordes da tonica e da dominante, alternados
de dois em dois compassos.»
O fadista chama ao simples acompanhamento do canto: _Fado corrido_.
Mas fora d’este caso, quando não ha cantor, o guitarrista «phantasia
muitas variações sobre a mesma melodia», abandona-se á inspiração de
momento, borda floreios e ornatos.
Referindo-se em geral ás nossas canções, diz Theophilo Braga: «A
pobreza ou simplicidade da Melodia portugueza provém-lhe da falta de
melismos, ornatos, floreios estranhos, como acontece com as melodias
hespanholas, muito pittorescas, mas cheias de ornatos dos arabes.»[14]
Ora, esta theoria applicada ao _Fado_, na sua mais pura e inicial
expressão, que é o canto (porque as variações são artificios que
resultam de motivos primarios) exclue por sua vez a cooperação
ornamental dos arabes na melodia do _Fado_, que é simples, ingenua,
_corrida_.
E tanto assim é que o sr. Theophilo Braga, descrevendo em outros
logares o typo do _Fado_, mostra-o como sendo «uma longa narrativa,
entremeiada de conceitos grosseiros e preceitos de moralidade, com uma
forma dolorosa, observação profunda, graça despretenciosa, _monotonia
de metro e de canto_, que infundem pesar quando os sons saem confusos
do fundo das espeluncas. O rythmo d’este canto é notado com o bater do
pé e com desenvoltos requebros.»[15]
[Illustration: FADO DO MARINHEIRO
(Este Fado é o mais antigo de que diz ter tido conhecimento o velho
guitarrista Ambrosio Fernandes Maia)]
A monotonia de metro e de canto no _Fado_, como o douto professor
observou, contém-se justamente nos limites de simplicidade de todas as
melodias populares portuguezas; vê-se, portanto, que os arabes, que
deixaram vestigios de ornato na musica hespanhola, apenas deixariam
no rythmo de algumas das nossas canções um tenue vestigio da sua
dominação, e que o _Fado_ nasceu independentemente d’essa remota
influencia.
Quer-nos parecer que os _Fados_ da actualidade estão mais proximos,
na indole como no tempo, dos _lunduns_ africanos do que dos _hudas_
arabes.
Impressionado pela singela estructura musical do _Fado_ corrido, notou
o professor Rœder, director do Conservatorio de Boston, que nos _Fados_
portuguezes a poesia era mais bella do que a melodia.
Este auctorisado depoimento testemunha ainda em favor da exclusão do
elemento arabe no _Fado_.
Theophilo Braga quiz achar uma explicação do facto apontado pelo
professor Rœder, e sustentou que acontecia em Portugal o que se dá
entre todos aquelles povos, cuja civilisação assenta no municipalismo:
uma efflorescencia de lyrismo pessoal, emotivo, que trasborda da alma
para o verso.
Pela nossa parte não remontaremos tão longe, nem tão alto.
O municipalismo trouxe, é certo, uma vida tranquilla, um bem-estar
social ás povoações que o acceitaram como regimen administrativo. A
organisação municipal no nosso paiz teve o caracter de uma intima
aggremiação familial, em que os dirigentes defendiam zelosamente os
interesses da communidade, não vacillando, quando era preciso, em bater
o pé deante da auctoridade real, ameaçando-a.
Os governados, confiando na vigilancia dos governantes, não tinham que
pensar na autonomia e defeza do municipio: podiam entregar-se a si
mesmos, dar largas aos seus pensamentos de goso pessoal, expansão ás
suas emoções e ideaes mais intimos.
Era, não ha duvida, uma condição favoravel ao desenvolvimento do
lyrismo emotivo.
Mas o municipalismo está hoje decadente em Portugal pela absorpção
tutelar dos governos e pela indifferença do povo. As franquias
municipaes teem sido profundamente cerceadas. E comtudo não corresponde
a esse facto uma sensivel depressão do instincto poetico do nosso povo,
cuja faculdade de improviso se transmitte de geração em geração.
Esta faculdade póde ter explicação na exagerada sensibilidade dos
portuguezes, no seu immenso sentimentalismo, que encontra um meio
propicio á inspiração nas circumstancias precarias e por vezes
dolorosas do paiz.
Quem canta seus males espanta,
Quem chora seus males augmenta,
diz o nosso povo como um axioma de therapeutica prática para curar as
doenças da alma.
O _Fado_ abre uma valvula de segurança ao desafogo da escória social,
tão abundante em todas as capitaes, especialmente em Lisboa, que é uma
cidade indolente e pobre.
Todo o portuguez é poeta. São numerosos os improvisadores em Portugal,
até nas classes menos cultas, e especialmente entre ellas.
A lingua parece auxiliar esta predisposição hereditaria, tradicional,
não só por ser triste e convidar á cadencia dolente, mas tambem por se
adaptar facilmente á metrificação, especialmente á redondilha, que se
encontra feita e perfeita em todos os prosadores.
Castilho deu-se, com uma paciencia de cégo, ao trabalho de «medir»
a prosa de alguns classicos, e achou dentro d’ella a contextura
espontanea de varios metros.
Os musicos em Portugal não são tão abundantes como os poetas, o que
mostra que se repete uma banalidade, com resaibos mythologicos, quando
se diz que a musica é irmã da poesia.
Aprendemos sem esforço as melodias simples e singellas, como as do
_Fado corrido_, porque são como que uma resonancia natural do proprio
genio da lingua, uma especie de metrificação musical, parallela á
versificação instinctiva do povo.
Mas os bons compositores de musica, tanto nas classes illustradas como
nas populares, não avultam pelo numero.
O _Fado_ das ruas, cujo rythmo é facil, muito adaptavel á memoria e
ouvido do povo, póde ter escasso merito litterario e artistico, mas tem
sempre um alto valor ethnographico: é a historia cantada das classes e
dos individuos inferiores.
Não padece duvida que muitos dos nossos _Fados_ populares provéem de
pessoas mais instruidas do que o povo; mas são escriptos para elle, que
não os assimilará se os não entender.
Por isso grande numero dos nossos _Fados_ mira á observação de
phenomenos sociaes quotidianos, de interesses e particularidades
de classe, ao retrato e biographia de typos da rua, quanto mais
despresiveis mais apreciados pelo povo, que os conhece de perto.
Outros _Fados_, especialmente os politicos, e os que celebram algum
acontecimento grave, são uma exploração de momento, um recurso de
occasião, que pretende aproveitar a sensação causada no povo tanto
pelas tranquibernias dos governos e dos collegios eleitoraes, como
pelos factos de importancia occorridos nas classes superiores.
De modo que, póde bem dizer-se, o _Fado_ é em nossos dias um poderoso
instrumento de divulgação, que se transmitte facilmente, por meio da
imprensa, com uma rapidez electrica.
Sob o ponto de vista da satyra e do epigramma, os _Fados_ substituem os
mordentes _Pater noster_ de outr’ora, que não encontravam tão faceis
meios de circulação como aquelles que a publicidade moderna proporciona.
Camillo, referindo-se a um _Pater noster_ castelhano, que satyrisava
Clemente VII, diz com razão: «É o que hoje chamaríamos o _Fado do
Papa_.»
[Illustração: Caricatura do typo fadista no cortejo com que os
estudantes da Escola Polytechnica de Lisboa celebraram a publicação do
«Decreto do cuspo».]