Intitulam-se «cantigas, romances, modas ou modinhas, etc.»

O _Diccionario erudito_ de Padre João Pacheco (1734-38) traz todas as

designações de musicas, canções e danças do seu tempo, mas não menciona

os _Fados_.

Nas _Infermidades da lingua, e arte que a ensina a emmudecer para

melhorar_, composta pelo dr. Manuel Joseph de Paiva e publicada em

1760, vem arrolado grande numero de palavras e phrases, que o auctor,

com excessivo e ás vezes injustificavel escrupulo, pretendia repellir

da lingua portugueza, por as julgar indignas e improprias de um

vocabulario grave.

Não apparece ahi a palavra _Fadista_; nem a palavra _Fado_ no sentido

de canção ou de vida dissoluta.

Mas vem mencionada a palavra _banza_ que nós recebemos das nossas

colonias africanas,[1] e que entrou na linguagem de calão d’onde passou

para a litteratura humoristica, como se vê nas _Poesias_ de Costa e

Silva (1844):

Encostado ás meias portas

Na Banza sarrafaçava.

No fim do seculo XVIII a _Gazeta de Lisboa_ annunciava, frequentes

vezes, _modinhas_ e _minuetes_, á venda nas lojas dos livreiros.

Tambem annunciava _sonatas de guitarra_. Havia em 1792 um _Jornal de

modinhas_, que se vendia na Real Fabrica e Impressão de Musica no Largo

de Jesus, em Lisboa. O maestro Mr. Marchal, que então teve certa voga

n’esta cidade, deu á estampa uma collecção de _minuetes_ e _rondós_.

Este mesmo maestro explorava a musica das ruas, glosava os pregões

das vendedeiras (por exemplo, _Azeitonas novas_, com variações, peça

composta sobre o pregão de uma vendedeira de Lisboa: _Gazeta_ de 26

de fevereiro de 1793). Mas a designação _Fado_ não apparece ainda em

nenhum dos annuncios que recommendavam as musicas populares.

Beckford, nas suas cartas sobre Portugal, apenas se refere ás

«modinhas», acompanhadas a guitarra.

É que no seculo XVIII a _modinha_ estava em voga no nosso paiz;

dominava por toda a parte, até no theatro, onde Antonio José da Silva,

o _Judeu_, a aproveitou como elemento essencial das suas composições

dramaticas.

Theophilo Braga diz que a modinha, comquanto «seja uma creação musical

do genio portuguez» se chamava _brazileira_, porque no Brazil se

conservou «levada para ali pelos negociantes e colonos, e do Brazil a

trouxe na sua inteireza primitiva Antonio José da Silva, que abandonára

a patria aos oito annos de idade e achava n’essas cançonetas uma

recordação da infancia.»[2].

Stafford, na _Historia da musica_, diz que as arias nacionaes dos

portuguezes eram os _lunduns_ e as _modinhas_; Fétis falla de Hespanha,

mas não de Portugal.

Em toda a graciosa collecção da _Macarronea_, que tão pittorescamente

retrata a vida academica de Coimbra no seculo XVIII, não ha noticia do

_Fado_, mas sim de outras canções que os estudantes cantavam: _mille

trovas_, com diz o _Sabonete Delphico_.

Na _Feição á moderna ou logração desmascarada_ vem especificadas

algumas d’essas canções, portuguezas e hespanholas: «E logo dareis

duas gaitadas, fazendo o compasso com o pé, e seguindo o sonoro com

a cabeça. Victor quem canta; lá vae _Bella arma misera_, ou outra da

moda; depois entregar a algum curioso o instrumento, sair para o meio

com o chapeu na mão a desafiar algum circumstante; dar quatro voltas

de pé cambeo, ou bem ou mal, que sempre no fim se-ha de applaudir com

catarro. Acabada esta primeira jornada, gritareis dizendo: «Venha doce,

que estou esfalfado»; e depois de consolar a barriga comendo doce

_usque ad satietatem_, saireis outra vez com o segundo papel lançando

uma nesga de relação antiga v. g. do _Mariscal de Viron_, ou _D. Carlos

Ozorio_, intimando no furor das acções a valentia, e nos requebros da

voz a ternura, cortando o hespanhol como queijo do Alemtejo com faca

flamenga, e no fim correspondendo aos vivas com perna trocada.»

Nicolau Tolentino, que morreu em 1811, falla no _doce londum chorado_,

nas modinhas brazileiras, cita algumas canções populares, taes como _De

saudades morrerei_ e a _Comporta_; diz referindo-se á primeira,

Cantada a vulgar modinha,

Que é a dominante agora;

e alludindo á segunda,

Que de noite á sua porta

Com famosos tangedores,

Que o Talaveiras conforta,

Lhe manda ternos amores

Sobre as azas da _Comporta_;

mas nem uma unica vez faz menção do _Fado_.

* * * * *

Nenhum dos poetas portuguezes que no seculo XVIII e na primeira metade

do seculo XIX se tornaram mais populares emprega a palavra _Fado_ na

accepção de canção ou cantiga.

É certo que alguns estrangeiros que n’aquelles seculos, e ainda no

anterior, visitaram Portugal, se mostraram impressionados, como lord

Beckford, com o tom plangente da musica do nosso povo.

O barão de Lahontan, que esteve em Lisboa no seculo XVII, diz que alta

noite vagueavam guitarristas pelas ruas tocando umas _arias funebres

como o «De Profundis.»_

Não lhes chama _Fado_, nem podia chamar, porque essa designação não era

usada ainda.[3]

O erudito escriptor portuense sr. Rocha Peixoto escreveu no periodico

_Nova Alvorada_ um artigo a que deu o titulo de _O cruel e triste fado_

e em que synthetisou a relação psychica existente entre o _Fado_,

canção, e a orientação historica do povo portuguez.

«... o fado--pondera esse escriptor--e o que n’elle se diz de sonho, de

sombra, de amor, de ciume, de ausencia, de saudade e principalmente

de conformação com o cru e negro imperio do destino, eis o que exprime

dramaticamente a feição da alma nacional. O fado é portuguez, é toda

uma mentalidade, é toda uma Historia».

Apenas o sr. Rocha Peixoto se deixou arrastar por um flagrante

anachronismo quando diz que o infante D. Miguel de Bragança _batia o

fado_.

Oliveira Martins, que muitas vezes se enredou em salientes

anachronismos, foi mais cauteloso quando poz a canção _Negro melro_ na

bocca da plebe miguelista.

Certamente que o povo, poeta das ruas, improvisador espontaneo e

inconsciente, costumaria cantar em publico as suas desgraças e as da

patria, como faziam, em mais alta graduação de merito litterario, os

poetas cultos; ou repetiria as trovas d’estes poetas quando ellas

exprimiam as dores da existencia individual ou o luto pelas desgraças e

dissabores nacionaes.

Sabemos que no seculo XVI se generalisaram na voz do povo as canções

que lastimavam a ingente derrota do rei e do exercito em Alcacerquibir.

Miguel Leitão de Andrade, na _Miscellanea_, traz uma d’essas canções,

lettra e musica, mas dá-lhe o nome de _romance_; e tudo faz crêr na sua

origem popular.[4].

A estas «toadas tristissimas» não se chamava _Fados_; nem chamou a

nenhuma outra do mesmo genero até depois de 1840.

Hoje ainda os viajantes estrangeiros se impressionam profundamente com

a melancolia e dolorida doçura das nossas canções populares, mas já

todos as designam pelo nome de _Fados_.

Madame Adam, no seu livro _La patrie portugaise_ (1896), escreve:

«Jovens guitarristas, agrupados em bandos, cantam e acompanham o

_Fado_, a canção que se traduz pela palavra «Destino» e que é puramente

lusitana. Todos os motivos do _Fado_ são portuguezes. Ha _Fados_ para

todos os acontecimentos da vida, para o amor, especialmente; e para a

politica tambem.»

Tal é o testemunho de uma intelligente e instruida mulher franceza, que

reconheceu em os nossos _Fados_ um caracter privativo, uma expressão

nacional, a alma de um povo, emfim.

Igual impressão recebeu um viajante hespanhol, que em novembro de 1896

escreveu, no jornal _A Voz do Commercio_, a seguinte apreciação:

«Nada mejor como la música refleja el caracter y la manera de ser

especial de los pueblos. Un filósofo aleman decia: daz-me los adagios

de un pais cualquiera y la dictaré leyes. Pues bien, yo dispensaria

los adagios y me sobraria con la música. España con sus jotas y sus

peteneras y Portugal con su rico _fado_ son y serán siempre dos

naciones antitéticas. La jota pide luz, castañuelas y vino en jarro.

La petenera pide algomas: abrazos de muger que ahoguen, besos que

quemen neurosis debilitantes y por encima de todo esto cañnitas de

manzanilla bajo el toldo de una parra. En cambio, «_o fado_» pide

silencio absoluto, penumbra misteriosa y una cierta dósis de tristeza

en el corazon. Con diferencias tan marcadas antojáseme tarea fácil

legislar para los dos paises sin mas que consultar cuadernos de música

popular.»

Só os escriptores da actualidade, tanto estrangeiros como nacionaes,

fazem menção do _Fado_ no sentido de canção popular.

Em um livro de memorias, aliás muito interessante,[5] e relativo á

primeira metade do seculo XIX, diz o seu auctor fallando do enthusiasmo

com que em Lisboa foi recebida a _Polka_:

«Não só desthronou o _Solo inglez_, e fez prescrever a _Gavota_,

como contribuiu tambem para a emigração do _Pirolito_--da _Maria

Cachucha_--do _Beijo á Saloia_--do _Rei Chegou_ e do _Passarinho

Trigueiro_. Creio mesmo que só então deixou de cantar-se a antiga e

popular romança--_A Nau Cathrineta_, uma especie de--papão vai-te

embora--com que os avós, desde o principio do seculo, vinham entretendo

os serões e... acalentando os netos.»

Nem uma unica palavra de referencia aos _Fados_.

Mencionando a litteratura de cordel n’essa epoca, diz o mesmo auctor:

«Ali (obras do Arco da rua Augusta) entretinham-me as toscas gravuras,

quasi em papel pardo, do _João de Calais_--da _Imperatriz Porcina_--da

_Cornelia Bororchia_--e da _Formosa Magalona_, que, á guiza de estendal

de roupa, se baloiçavam bifurcadas no cordel que, de lado a lado, se

prendia ao tapume com que estava vedada a passagem do Terreiro do Paço

para a rua Augusta.»

Tambem nenhuma referencia aos _Fados_, que hoje se vendem em folhetos,

muitos d’elles com gravuras toscas (especialmente os que se referem

a grandes crimes ou outros acontecimentos de sensação) e que são

apregoados nas ruas.

No romance do Padre João Candido de Carvalho (vulgarmente Padre

Rabecão) _Eduardo ou os mysterios do Limoeiro_, publicado em 1849, não

obstante ser uma chronica muito interessante dos costumes populares

de Lisboa n’aquelle tempo, e começar por uma scena de taberna na

Madragôa (hoje rua de Vicente Borga) não apparece a palavra _Fado_,

comquanto haja uma referencia a _fadista_. É a seguinte:

«Ao canto opposto existia uma outra banca, como para guardar symetria

áquella, de que fallei; e sentado a ella estava um mancebo de 19 a

20 annos, de jaqueta, chapeu á christina, cinta de seda enrolada á

_fadista_, calça de cotim enlameada, fumando no seu charuto de cinco

réis, que accendia repetidas vezes, emquanto acompanhava as fumaças com

outros tantos gollos de uma bebida quente que tinha mandado preparar

por mais de uma vez, e em cada vez, que a pedia por ter esgotado o

copo, repetia--_Oh patrão! dê-me outra Francisquinha._»

É o typo do _Fadista_, descripto em 1849, a beber vinho na taberna,

usando do calão e do traje da sua classe. Mas o Padre Rabecão, que viu

o _Fadista_, não ouviu o _Fado_, nem a elle se refere nunca em nenhum

dos quatro tomos do seu romance.

Este facto leva-nos a formular uma hypothese, que opportunamente

desenvolveremos.

Tem-se dito muitas vezes que a origem dos nossos _Fados_ é arabe.

Theophilo Braga inclina-se a esta opinião quando diz «que os cantos

conhecidos pelo nome de _Huda_, pelo Arcipreste de Hita, são ainda os

nossos _Fados_, que usados pelos tropeiros do Brazil coincidem com a

descripção feita pelo arabista Caussin de Perceval.»[6]

O Arcipreste de Hita, de que Theophilo Braga deu varias composições no

jornal litterario _Era Nova_ e de que Amador de los Rios faz menção

na _Historia critica da litteratura hespanhola_, compoz cantigas para

cegos andantes e para tunas escolares; parecendo que tambem escrevera

canções populares em arabe, o que aliás é contestado por alguns

escriptores.

Mas, como quer que seja, obedeceu manifestamente á influencia arabe,

ainda quando se dè por assente que não chegou a escrever n’esta lingua

alguns dos seus cantares.

Theophilo Braga, filiando nos _Hudas_ os nossos _Fados_, acceita-os,

pelo menos, como um vestigio d’aquella mesma influencia.

E é ainda mais explicito quando diz: «As danças portuguezas participam

dos caracteres provenientes da nossa situação: sensuaes, como os

_Fados_, os _Batuques_ recebidos dos arabes e das possessões africanas,

e as _Modinhas_ recebidas das colonias do Brazil.»[7]

É verdade que nas _Epopeas da raça mosarabe_[8] fallando da xácara,

usada pelos _xaques_ ou ciganos (d’onde veio a denominação _xácara_ ou

_xacarandina_) diz que o nosso _Fado_ é «uma degeneração da _xácara_,

que pelas transformações sociaes veio a substituir a canção de _gesta_

da idade media.»

Ora nós seguiremos outro caminho; não nos demoraremos a apalpar

hypotheses.

Apenas mencionaremos os factos, e o que parece certo é que o _Fado_,

tal como hoje o conhecemos, nasceu em Lisboa, depois da primeira metade

do seculo XIX, e que d’aqui irradiou para as provincias, apenas com o

caracter de «moda» de invenção moderna, o que exclue a hypothese de uma

antiga filiação arabe.

O erudito professor Ernesto Vieira, no seu _Diccionario musical_,

chegou ás seguintes conclusões, que nos parecem exactas:

1.ᵃ O _Fado_ só é popular em Lisboa: para Coimbra foi levado pelos

estudantes, e nem nos arredores d’estas duas cidades elle é usado pelos

camponezes, que teem as suas cantigas especiaes e muito differentes.

2.ᵃ Nas provincias do sul, onde os arabes se conservaram por mais tempo

e os seus costumes e tradições são ainda hoje mais vivos, o _Fado_ é

quasi desconhecido principalmente entre a gente do campo.

3.ᵃ Nenhum livro ou escripto anterior ao actual seculo (XIX) faz a

menor referencia a esta musica popular.

4.ᵃ A poesia com que, invariavelmente quasi, se canta o _Fado_ é uma

quadra glosada em decimas, forma poetica d’uma antiguidade pouco

remota, de uma origem nada popular e sem relação alguma com a poesia

arabe.

Effectivamente, o grande fóco de irradiação do _Fado_ é Lisboa; mas

a provincia, tanto ao sul como ao norte, apenas o acceitou como um

dictame da moda, que não logrou absorver e substituir os cancioneiros

provinciaes.

Dá-se com o _Fado_ e com outras canções, que em Lisboa cairam no gosto

publico, o mesmo facto que se dá com os figurinos, as _toilettes_,

cujo modelo a capital exporta para o interior do paiz: apparecem na

provincia alguns exemplares, mas a maneira de vestir propria de cada

região continúa subsistindo tradicionalmente.

Os _Fados_ chegaram a Coimbra levados pelos estudantes, como diz

Ernesto Vieira; e ao Minho, levados, como diz Camillo, pelos jovens

fidalgos que mais ou menos frequentavam a capital e queriam ir dar-se

ares extravagantes de marialvas e fadistas nas suas terras.

Tambem foi Lisboa que exportou o _Fado_ para as provincias ultramarinas.

Ha o _Fado de Loanda_, composto sobre motivos de cantos indigenas por

um _maestro_ angolense, já fallecido, que veio á Europa estudar musica

por conta da sua provincia.

Não deve passar sem reparo o facto de Lacerda, na 4.ᵃ edição

do seu _Diccionario_, feita em 1874, ter citado o _Fado_

de Lisboa e o de Coimbra; e de na 5.ᵃ edição, de 1879, ter

substituido--Coimbra--por--Cascaes.

Esta alteração corresponde certamente a um facto chronologico: é que a

praia de Cascaes, mais proxima de Lisboa que a cidade de Coimbra, deve

ter recebido o _Fado_ por contacto directo com os marialvas e fadistas

da capital.

Coimbra recebeu-o mais lentamente, levado por um ou outro estudante do

sul em gerações successivas.

A guitarra e o _Fado_ tiveram que luctar, nas serenatas da academia,

com a tradição do «machinho», de que tanto se falla na _Macarronea_,

e da viola; e com as canções amorosas ou populares, que estavam

arraigadas nos costumes coimbrãos.[9]

José Doria ficou celebre como tocador de viola.

João de Deus, que era algarvio, e tinha, por isso, que passar algumas

vezes em Lisboa, dava lindas serenatas de viola no Penedo da Saudade,

cantando improvisos seus ou canções do povo, mas não tinha sympathias

pelo _Fado_. Elle mesmo o confessa: «nunca pensei em _Fado_, nunca

o apreciei, nem o toquei: liguei-o desde o principio ás mulheres

de má vida, e de ahi a minha especie de aversão a tal musica; mas,

aqui, ouvindo-o a estudantes, não me repugnou fazer-lhe umas tantas

quadrinhas, e continuar-se-ha...»[10]

Depois, na vida de Lisboa, familiarisou-se com a guitarra e, portanto,

com o _Fado_, a tal ponto que estudou um systema de melhorar a

pontuação das guitarras.[11]

João de Deus diz, como vimos, ter composto «umas tantas quadrinhas»

para serem cantadas com o acompanhamento de algum _Fado_.

É certo que os _Fados_ á morte da Severa, e alguns mais, eram em

quadras, mas depois o povo adoptou outra forma estrophica. A quadra, no

_Fado_, veio modernamente de Coimbra e foi o estudante Hilario que lhe

deu grande voga cantando quadras compostas por elle ou outros poetas.

A lettra do _Fado_, na tradição popular, como nota Ernesto Vieira, é

talhada nos moldes arcadicos do mote em quadras e da glosa em decimas.

Esta tradição mantem-se ainda entre o povo de Lisboa nos _Fados_ que

se vendem nos kiosques (que substituiram o muro, o cordel e o cego

andante) e em alguma livraria, como, por exemplo, a de Verol Junior na

rua Augusta.

Apenas o _Fado_ litterario admitte a quadra em vez da decima.

Mas o _Fado_, apesar da dupla aristocratisação que tem recebido dos

poetas e das salas, denuncia a sua origem popular, a alma do povo que o

canta.

É nas ruas, nas tabernas e nos bordeis que o _Fado_ parece nascer,

espontaneamente, como nascem certas flôres nos charcos: a _Pontederia

crassula_, por exemplo, que é uma linda flor azul.

Em geral a lettra dos _Fados_ justifica a etymologia, porque celebra

as desgraças de um individuo ou de uma classe, mas ha casos em que a

lettra, por glosar um assumpto alegre ou malicioso, briga com a toada

dolente da guitarra.

A musica, o acompanhamento, é sempre triste, como um ecco da alma do

povo, ingenua e soffredora, que, pela sua rudeza, não sabe procurar

difficuldades nos effeitos musicaes, contentando-se com uma toada

simples e facil, e que, pela amargura do seu destino, está sempre

disposta a carpir-se, a lastimar-se.

A lettra do _Fado_ revela a facilidade espontanea da metrificação

popular, da redondilha, que é o porta-voz da raça latina da peninsula,

e na vivacidade por vezes maliciosa dos conceitos accentua-se a heroica

resignação com que nós, os meridionaes, graças á inconstancia do nosso

humor, á benignidade do clima e ao azul radioso do ceu, podemos afogar

as nossas lagrimas no desabafo redemptor de um sorriso amargo...

Assim é que nas cantigas do _Fado_ os assumptos mais tristes são

temperados por um sabor picante de ironia, que lhes adelgaça o azedume,

como, por exemplo, quando o _marinheiro_ conta a sua vida, ao som da

guitarra, sorrindo e zombando do seu proprio destino:

Para o almoço feijão,

Ao jantar bolacha dura;

Nem uma só vez sequer

Pode beber agua pura.

Comprehende-se que o povo, no meio dos seus prazeres, não esqueça

inteiramente a pesada fatalidade com que a sorte o subjuga; mas

comprehende-se tambem que ache gosto em saborear o desabafo que a

guitarra lhe proporciona, fazendo-o cantar, e dando-lhe pretexto para

molhar a palavra com o vinho.

D’envolta pois com o sentido esmagador da palavra _Fado_, que

representa uma condemnação invencivel, vem associada a ideia da folga

na taberna, da merenda nas hortas, do passeio ao luar, emquanto a

guitarra vai dizendo da sua justiça.

N’esses momentos, o povo, sem esquecer a dureza do destino, porque a

sente como o condemnado ás galés sente o peso da corrente de ferro,

experimenta os unicos prazeres que lhe são permittidos, e que todos

parecem volitar, como um enxame de abelhas, em torno da guitarra: o

canto, a dança, o vinho, e o amor.

Tudo quanto o _Fado_ inspira

É o que só me entretem:

Pois quem do _Fado_ se tira

Não sabe o que é viver bem.

O povo julga-se relativamente feliz na fruição d’esses prazeres

que o _Fado_ arrasta comsigo. Assim elle pudesse prolongal-os! E,

saboreando-os, encarece-lhes a voluptuosidade tentadora, que seria

capaz, julga elle, porque é o melhor que pode gosar, de abalar a

santidade do Papa:

Se o Padre Santo soubesse

O gosto que o _Fado_ tem,

Viria de Roma aqui

Bater o _Fado_ tambem.

O povo de Lisboa, limitado ás ruas e ás tabernas da cidade, e, uma

vez por outra, quando muito, ás hortas dos arrabaldes, encontra na

guitarra, nas cantigas do _Fado_, a sua melhor distracção.

O vinho da taberna pode leval-o até á embriaguez, até ao crime, como

não raro acontece; mas quando não vai tão longe, suggere-lhe a vaga

melancolia de uma vida contrariada de privações, produz no povo aquillo

a que Camillo Castello Branco chamou com feliz propriedade a _sensação

nervosa, o soluçado requebro das saudades do Vimioso_.

Nas aldeias, especialmente no norte do paiz, a vida dos campos, muito

laboriosa e sadia, inspira as canções vivazes, movimentadas, que a

viola chuleira acompanha n’um andante batido, repenicado. Só o espirito

de imitação, conduzido pelos fidalgos, pelos estudantes e pelos

bohemios, principalmente os cegos andantes, tem introduzido o _Fado_

alfacinha nas provincias do norte, que o cantam sem o comprehender,

porque as condições de vida são ahi muito differentes.

É tambem por espirito de imitação que o _Fado_ se aristocratisou na

guitarra dos marialvas e no piano das salas, como um producto exotico

violentamente aclimado, uma planta d’estufa, que parece chorar pelo seu

clima nativo--o clima dos bairros infamados e das ruas suspeitas.

É preciso que o marialva viva fóra da sociedade em que nasceu,

identificando-se com o povo, como o conde de Vimioso, para comprehender

e sentir o _Fado_; a não ser isto, só o comprehende e sente um bohemio

de talento, um poeta torturado como D. José de Almada, de quem Julio

Cesar Machado escreveu: «Coisa curiosa: ninguem, a exceptuarmos o conde

de Vimioso, cantava o _Fado_ como elle. O _Fado_ é a melancolia. Por

baixo dos seus sorrisos, gracejos e gargalhadas d’elle, havia lagrimas

sempre...»

Só um ou outro homem bem nascido, o Vimioso, o Almada, tem conseguido

celebrisar-se de guitarra na mão, por condições especiaes da sua

existencia; mas todo o homem do povo é capaz de pôr lagrimas na voz

para cantar o _Fado_, porque cada classe, como cada raça, possue uma

gamma especial para interpretar as suas paixões, os golpes crueis do

seu destino.

[Illustration: D. JOSÉ D’ALMADA E LENCASTRE

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) · 第 10 / 60 题