Os romanos incluiam _Fatum_ na sua mythologia como sendo a vontade
expressa não só por Jupiter, mas tambem pelos outros deuzes, em relação
ao destino dos homens, das cidades e das nações.
Os nossos diccionaristas mencionam esta etymologia, mas interpretam-n’a
sob o ponto de vista do monotheismo.
Assim, o Padre Raphael Bluteau, no _Vocabulario_, diz que, segundo
a doutrina de Santo Agostinho e S. Thomaz, Fado é a disposição e
providencia divina, que antevê os acontecimentos humanos.
Moraes, encostando-se tambem aos theologos, define Fado dizendo: «é a
ordenança que se vê em as coisas por divina providencia.»
De modo que a differença consiste em admittir a vontade de muitos
deuzes ou de um só Deus, mas o facto subsiste o mesmo tanto nas
religiões polytheistas como nas monotheistas: acredita-se que o destino
humano é regulado por uma auctoridade sobre-natural e tem de ser
cumprido com indeclinavel sujeição.
Os nossos poetas d’outr’ora (e ainda os modernos) deixaram-se dominar
pela crença na fatalidade do destino, cuja infelicidade lamentam como
«escravos da sorte.»
Bastará citar o exemplo de Bocage:
Que eu fosse em fim desgraçado
Escreveu do Fado a mão;
Lei do Fado não se muda;
Triste do meu coração!
O nosso povo, á semelhança dos poetas, tem sido sempre fatalista:
explica suas faltas e desgraças, e tambem sua boa fortuna, por uma
imposição da lei do Fado; no primeiro caso diz: «Estava escripto no
livro dos destinos ou «Era Fado; tinha de ser assim»; no segundo caso:
«Tive sorte; estou em sorte, etc.»
Mas o nosso povo, com ser fatalista, no que alguns querem ver
principalmente um vestigio da influencia arabe, como se o homem não
tivesse acreditado sempre, mais ou menos, em todos os tempos e em
todos os paizes, n’uma predestinação que lhe é imposta por um Arbitro
supremo; o nosso povo, crente na fatalidade da sorte a que tem de
obedecer, apenas n’um passado relativamente proximo começou a dar o
nome de _Fados_ ás canções que celebram as agruras do destino e a
crença na lei irrevogavel do Fado.
A accepção da palavra _Fado_ no sentido de «canção» é relativamente
moderna, ou só modernamente passou do calão para o vocabulario geral da
lingua e para a technologia musical.
Não apparece era os nossos mais antigos diccionarios: não vem em
Bluteau (1712-1721); nem em Santa Rosa de Viterbo (1798).
Nem apparece tambem nas primeiras edições do _Diccionario_ de Moraes
(seculo XIX) tanto nas duas que foram revistas pelo auctor como em
algumas das que se fizeram depois da sua morte.
O _Diccionario_ de Faria, cuja 1.ª edição é de 1849, não traz, no
vocabulo _Fado_, aquella accepção.
É só depois de passada a primeira metade do seculo XIX que a palavra
_Fado_ apparece nos diccionarios da lingua com o significado de canção
popular, já sanccionado pelo uso commum.
Lacerda, na 4.ª edição, que é de 1874, diz: «Fado, cantiga e dança
popular, muito caracteristica e pouco decente: o de Lisboa, o de
Coimbra».
Na 5.ª edição, 1879, não altera a definição, mas substitue a palavra
Coimbra pela palavra Cascaes.
Na 5.ª edição de Moraes ainda não apparece o vocabulo _Fado_ com a
significação de canção ou cantiga. Não pudemos consultar a 6.ª edição.
Mas examinamos a 7.ª (1878) e foi n’esta que se nos deparou a accepção
que procuravamos: «_Fado_, poema do vulgo, de caracter narrativo, em
que se narra uma historia real ou imaginaria de desenlace triste, ou
se descrevem os males, a vida de uma certa classe, como no _fado do
marujo_, _da freira_, etc. Musica popular, com um rythmo e movimento
particular, que se toca ordinariamente na guitarra e que tem por lettra
os poemas chamados _fados_.»
Isto pelo que respeita aos diccionarios portuguezes.
Quanto aos estrangeiros, tambem não se encontra no _Glossarium_ de
Ducange aquella accepção.
Apenas Freund, no seu diccionario latino, cita os vocabulos _Fatum_
e _Fatus_ como derivações de uma raiz commum, attribuindo a _Fatus_
tanto a significação de _destino_ como de _discurso_, o que justifica a
propriedade com que se chama _Fado_ á cantiga, ao _discurso_ em verso
que trata do _destino_, conservando-se ainda no Alemtejo a redundancia
de dizer _cantigas do Fado_, para designar todas aquellas a que o
_destino_ serve de thema.
Nas collecções da Bibliotheca Nacional de Lisboa ha bastantes canções
populares, desde 1820 até hoje, mas em nenhuma das mais antigas se
encontra a designação de _Fado_.