Isto se entende, quando se não póde desviar todo o ribeiro para outra
parte: para o que raras vezes dão lugar os serros. Divertida e esgotada
a agua com as batêas, ou cuias, se tira o cascalho, ou seixos grandes
e pequenos, que na agua não he mui alto, e se dá com a piçarra: vê-se
se o ouro demanda para a terra depois de lavada a cata, e se busca a
terra, entrando por ella, e se vai seguindo, e abrindo catas, huma
sobre outras. E ordinariamente se deve provar sempre em primeiro lugar
o ribeiro dentro da madre antes de lavrar na terra, para ver se tem
ouro: porque se o tem, quasi sempre o ha de haver em terra com mais,
ou menos abundancia. E muitas vezes acontece (como se vio nas mais
das lavras de Carabuçú), que pintando mui pouco, na agua ou madre, em
muitas lavras fóra da agua se deu com muito ouro.
Por tanto, para se examinar se hum ribeiro tem ouro, vendo-lhe as
disposições que temos dito, entre a agua e a terra, se dará hum socavão
de sete, ou oito palmos em quadra, até chegar ao cascalho e piçarra, e
se faiscar, he sinal que em terra, e na agua ha ouro: e pelas pintas
destes socavões se conhecerá, se são de rendimento. Nem nestas minas
se repartem ribeiros, sem serem primeiro examinados com estes socavões
junto d’agua. Nos ribeiros, onde ha arêa pelo meio, e a não ha nas
barranceiras, tambem se acha ouro, havendo cascalho: assim tambem nos
ribeiros, onde ha arêa por entre pedras, se acha. O esmeril acha-se com
arêa preta entre o ouro; e em qualquer parte que se acha esmeril, tendo
o ribeiro cascalho, ha ouro.
Quando o ouro corre em vieiro, de ordinario corre direito do ribeiro
para a terra dentro: e no mesmo ribeiro se succeder acharem-se muitos
vieiros, serão distantes huns dos outros: e supposto que perto do
vieiro se ache formação: comtudo só nos vieiros se acha mais ouro.
Tambem se achão muitos seixos com granitos de ouro.
Estas são algumas das cousas, que se podem dizer destas minas, para que
se possa por aqui fazer exame em alguns ribeiros, aonde se suspeita,
que haverá ouro. Não deixarei comtudo de referir aqui tambem o que
vi no famoso rio das Velhas; porque parece fóra de toda a regra do
mineral. Em huma Peninsula, que da terra entra no rio, quasi até o
meio em que com as cheias fica toda cuberta de agua, vi lavrar dous
corregos pequenos, junto d’agua: os quaes abrindo-se com alavancas,
erão todos de hum piçarrão duro, e claro: e por entre elles sem se ir
lavar no rio, foi tal a grandeza do ouro, de que estavão cheios, que se
estavão vendo em pedaços e granitos nas mesmas batêas. E bateada houve,
em que se tiravão de cada vez quarenta, cincoenta, e mais oitavas;
sendo as ordinarias em quanto se lavrão de oito e mais oitavas.
Ainda que lavrando-se depois pela terra dentro na mesma Peninsula,
foi diminuindo cada vez mais a pinta; e forão logo apparecendo as
disposições todas, que temos dito de terra, desmonte, cascalho, e
piçarra; que não ha regra como já disse, sem excepção: e muitas
vezes não dá com ouro quem mais cava, senão quem tem mais fortuna.
Tambem se acha muitas vezes huma disposição de desmonte, que se chama
Tapanhuacanga, que vale o mesmo que cabeça de negro, pelo teçume das
pedras, tão duro, que só a poder de ferro se desmancha: e não he máo
sinal; porque muitas vezes o cascalho que fica em baixo dá ouro.
De algumas particularidades mais destas minas, por serem menos
essenciaes, não fallo, e porque são mais para se verem, do que para se
escreverem; e estas são as que bastão para o intento dos que, ou por
curiozidade, ou para acertar na lavra as procurão.