CAPITULO XIV.

Modo de tirar o ouro das minas do Brazil, e ribeiros dellas, observado

de quem nellas assistio com o Governador Artur de Sá.

Pôrei aqui a relação, que o mesmo autor me mandou, e he a seguinte.

Conforme as disposições, que vi pessoalmente nas minas do ouro de

S. Paulo, assim nas lavras de agoa dos ribeiros, como nas da terra

contigna a elles: direi brevemente o que póde bastar, para que os

curiosos indagadores da natureza mais facilmente conheção em suas

experiencias, que terra, e que ribeiros possão ter, ou não ter ouro.

Primeiramente, em todas as minas, que vi, e em que assisti, notei que

as terras são montuosas, com serros e montes, que se vão ás nuvens;

por cujos centros correndo ribeiros de bastante agoa, ou corregos mais

pequenos, cercados todos de arvoredo grande, e pequeno, em todos estes

ribeiros pinta ouro com mais ou menos abundancia. Os sinaes, por onde

se conhecerá se o tem, são, não terem areas brancas á borda da agoa,

se não huns seixos miudos, e pedraria da mesma casta na margem de

algumas pontas dos ribeiros: e esta mesma formação de pedras leva por

debaixo da terra. E começando pela lavra desta, se o ribeiro depois

de examinado com socavão faiscou ouro, he sinal infallivel, que o tem

tambem a terra: na qual dando ou abrindo catas, cavando-a primeiro em

altura de dez, vinte, ou trinta palmos, em se acabando de tirar esta

terra, que de ordinario he vermelha, acha-se logo hum pedregulho, a

que chamão desmonte, e vem a ser seixos miudos com arèa, unidos de

tal sorte com a terra, que mais parece obra artificial, do que obra

da natureza: ainda que tambem se acha algum desmonte deste solto, e

não unido, e com mais ou menos altura. Este desmonte rompe-se com

alabancas: e se acaso tem ouro, logo nelle começa a pintar, ou (como

dizem) a faiscar algumas faiscas de ouro na batêa, lavando o dito

desmonte. Mas ordinariamente, se pintar bem o desmonte, he sinal, que a

piçarra terá pouco, ou nenhum ouro; e digo ordinariamente, porque não

ha regra sem excepção.

Tirado fóra o desmonte, que ás vezes tem altura mais de braça, segue-se

o cascalho: e vem a ser huns seixos maiores, e alguns de bom tamanho,

que mal se podem virar; e tão queimados, que parecem de chaminé. E

tirado este cascalho, apparece a piçarra, ou piçarrão, que he duro,

e dá pouco, e este hum barro amarello, ou quasi branco, muito macio;

e o branco he o melhor: e algum deste se acha, que parece talco, ou

maracacheta; a qual serve de cama aonde está o ouro. E tomando com

almocafres nas batêas esta piçarra, e tambem a terra, que está entre

o cascalho, se vai lavar ao rio: e botando fóra a terra com a mesma

batêa, andando com ella á roda dentro d’agua pouco a pouco; o ouro (se

o tem) vai ficando no fundo da batêa: até que, lavada toda a batêa da

terra, pelo ouro, que fica, se vê de que pinta he a terra.

Alguma terra ha, que toda pinta; outra só em partes: e a cada passo se

está vendo que as catas em huma parte pintão bem, e em outras pouco,

ou nada. Já se a terra tem vieiros, que he hum caminho estreito, e

seguido, por onde vai correndo o ouro; certamente não pinta pelas mais

partes da cata, e se vai então seguindo o vieiro atraz do ouro, e estas

de ordinario são as melhores lavras, quando o ouro pega em vieiros,

onde se encontrão com grandeza; e he sinal, que toda a data da terra,

para onde arremete o vieiro, tem ouro. As catas ordinarias, que se

dão em terra, são de quinze, vinte, e mais palmos em quadra; e podem

ser maiores, ou menores, conforme dá largura a terra. E se junto dos

ribeiros a terra faz algum taboleiro pequeno (porque ordinariamente os

grandes não provão bem), esta he a melhor paragem para se lavrar. Posto

que o commum do ouro he estar ao nivel da agua, vi muitas lavras (e

não das peiores), que não guardão esta regra, senão que do ribeiro ião

subindo pelos outeiros acima com todas as disposições que temos dito,

de cascalho, etc., mas não he isto ordinario.

Até aqui o que toca ás lavras da terra junto da agua; porém as dos

ribeiros, se elles são capazes de se lhes poder desviar a agua,

divertindo esta por huma banda do mesmo ribeiro, com cerco feito

de páos mui direitos, deitados huns sobre outros com estacas bem

amarradas, feito em forma de cano por huma e outra parte, para que se

possa entupir de terra por dentro, do modo que aqui se vê.

[Illustration:

Margens.

+--+--+--------------+--++--+-------------+--+-------------+

| \ \ / / \ \ / / |

| \ \ CATA. / / \ \ CATA. / / |

| \ \ / / \ \ /CERCO. |

| \ +------+ / \ +-----+ / |

| \ CERCO. / \ / |

| +--------+ +-------+ |

| +-------+ |

| RIBEIRO. / CERCO. \ |

| / +-----+ \ |

| / / \ \ |

| / / CATA. \ \ |

| / / \ \|

+--------------------------------------+--+-------------+--+

Cultura e opulencia do Brasil por suas drogas e minas · 第 119 / 131 题