Modo de tirar o ouro das minas do Brazil, e ribeiros dellas, observado
de quem nellas assistio com o Governador Artur de Sá.
Pôrei aqui a relação, que o mesmo autor me mandou, e he a seguinte.
Conforme as disposições, que vi pessoalmente nas minas do ouro de
S. Paulo, assim nas lavras de agoa dos ribeiros, como nas da terra
contigna a elles: direi brevemente o que póde bastar, para que os
curiosos indagadores da natureza mais facilmente conheção em suas
experiencias, que terra, e que ribeiros possão ter, ou não ter ouro.
Primeiramente, em todas as minas, que vi, e em que assisti, notei que
as terras são montuosas, com serros e montes, que se vão ás nuvens;
por cujos centros correndo ribeiros de bastante agoa, ou corregos mais
pequenos, cercados todos de arvoredo grande, e pequeno, em todos estes
ribeiros pinta ouro com mais ou menos abundancia. Os sinaes, por onde
se conhecerá se o tem, são, não terem areas brancas á borda da agoa,
se não huns seixos miudos, e pedraria da mesma casta na margem de
algumas pontas dos ribeiros: e esta mesma formação de pedras leva por
debaixo da terra. E começando pela lavra desta, se o ribeiro depois
de examinado com socavão faiscou ouro, he sinal infallivel, que o tem
tambem a terra: na qual dando ou abrindo catas, cavando-a primeiro em
altura de dez, vinte, ou trinta palmos, em se acabando de tirar esta
terra, que de ordinario he vermelha, acha-se logo hum pedregulho, a
que chamão desmonte, e vem a ser seixos miudos com arèa, unidos de
tal sorte com a terra, que mais parece obra artificial, do que obra
da natureza: ainda que tambem se acha algum desmonte deste solto, e
não unido, e com mais ou menos altura. Este desmonte rompe-se com
alabancas: e se acaso tem ouro, logo nelle começa a pintar, ou (como
dizem) a faiscar algumas faiscas de ouro na batêa, lavando o dito
desmonte. Mas ordinariamente, se pintar bem o desmonte, he sinal, que a
piçarra terá pouco, ou nenhum ouro; e digo ordinariamente, porque não
ha regra sem excepção.
Tirado fóra o desmonte, que ás vezes tem altura mais de braça, segue-se
o cascalho: e vem a ser huns seixos maiores, e alguns de bom tamanho,
que mal se podem virar; e tão queimados, que parecem de chaminé. E
tirado este cascalho, apparece a piçarra, ou piçarrão, que he duro,
e dá pouco, e este hum barro amarello, ou quasi branco, muito macio;
e o branco he o melhor: e algum deste se acha, que parece talco, ou
maracacheta; a qual serve de cama aonde está o ouro. E tomando com
almocafres nas batêas esta piçarra, e tambem a terra, que está entre
o cascalho, se vai lavar ao rio: e botando fóra a terra com a mesma
batêa, andando com ella á roda dentro d’agua pouco a pouco; o ouro (se
o tem) vai ficando no fundo da batêa: até que, lavada toda a batêa da
terra, pelo ouro, que fica, se vê de que pinta he a terra.
Alguma terra ha, que toda pinta; outra só em partes: e a cada passo se
está vendo que as catas em huma parte pintão bem, e em outras pouco,
ou nada. Já se a terra tem vieiros, que he hum caminho estreito, e
seguido, por onde vai correndo o ouro; certamente não pinta pelas mais
partes da cata, e se vai então seguindo o vieiro atraz do ouro, e estas
de ordinario são as melhores lavras, quando o ouro pega em vieiros,
onde se encontrão com grandeza; e he sinal, que toda a data da terra,
para onde arremete o vieiro, tem ouro. As catas ordinarias, que se
dão em terra, são de quinze, vinte, e mais palmos em quadra; e podem
ser maiores, ou menores, conforme dá largura a terra. E se junto dos
ribeiros a terra faz algum taboleiro pequeno (porque ordinariamente os
grandes não provão bem), esta he a melhor paragem para se lavrar. Posto
que o commum do ouro he estar ao nivel da agua, vi muitas lavras (e
não das peiores), que não guardão esta regra, senão que do ribeiro ião
subindo pelos outeiros acima com todas as disposições que temos dito,
de cascalho, etc., mas não he isto ordinario.
Até aqui o que toca ás lavras da terra junto da agua; porém as dos
ribeiros, se elles são capazes de se lhes poder desviar a agua,
divertindo esta por huma banda do mesmo ribeiro, com cerco feito
de páos mui direitos, deitados huns sobre outros com estacas bem
amarradas, feito em forma de cano por huma e outra parte, para que se
possa entupir de terra por dentro, do modo que aqui se vê.
[Illustration:
Margens.
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| \ \ CATA. / / \ \ CATA. / / |
| \ \ / / \ \ /CERCO. |
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| \ CERCO. / \ / |
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| RIBEIRO. / CERCO. \ |
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| / / CATA. \ \ |
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